André Giusti - foto: Luana Lleras
voltar para o início do blog

LEONARDO ARRUDA/ www.metropoles.com

LEONARDO ARRUDA/ www.metropoles.com

O que mais dói nem é a imagem do corpo do pai assassinado em um assalto na porta do colégio dos filhos, enquanto esperava para pegá-los na cidade do Guará, a uns 20 minutos de Brasília (sim, pra espanto da TV Globo, há coisas que não acontecem apenas no Rio de Janeiro).

Pelo que os jornais deram, o homem havia pego o carro novo na concessionária pela manhã, e depois foi buscar os filhos, uma menina do ensino fundamental e um rapaz do ensino médio.

Com essa informação, não é difícil imaginar o pai anunciando aos filhos, no café da manhã: “Vou pegar vocês de carro novo!”, e a ansiedade feliz dos dois, principalmente do rapaz, que está em uma idade em que automóvel representa muita coisa, inclusive masculinidade. É claro, no dolorido flash que nos passa pela cabeça, a mãe também sorri, satisfeita com sua família em paz.

A dor maior deixa de ser a imagem em si, fruto da estupidez, o corpo estendido sob o lençol branco. O que machuca muito – principalmente quem é pai, e se põe no lugar de modo automático – é justamente a quebra dessa ansiedade feliz e sua troca abrupta pelo choque da notícia da tragédia e seu imediato sucessor, o desespero.

O que dói mais é saber o quão foi tortuoso para esse menino e essa menina, em segundos, precisarem entender que não iriam mais voltar para a casa no carro novo do pai. Que não irão mais a lugar algum com o pai, nem no carro novo, nem de avião, trem, foguete, espaçonave, tapete mágico. Apenas, certamente, em pensamento e nos sonhos mais sentidos.

Como sempre, uma imagem possui muito mais significados além daquele que uma fotografia se limita a mostrar.

Comentários (0)

Giustipress

Giustipress

Caro dono do pássaro amarelo chamado calopsita, que eu nem sabia que era uma espécie de pássaro.

É com imensa alegria que digo que ele foi para o lugar aonde ele está sendo o que deveria ser desde que nasceu: livre.

Torço muito, mas muito mesmo, que nem você nem qualquer outro criador ponha as mãos nele novamente.

É claro que vão dizer que pássaro de gaiola morre quando foge ou é solto.

Eu nunca vi prova dessa teoria, propalada geralmente por quem coleciona gaiolas ocupadas.

Além do mais, em cativeiro ele também morreria mais dia menos dia, mas preso e triste, com a casa toda achando que o canto dele é de alegria e não de desespero.

Comentários (0)

Giustipress

Giustipress

Assumo minha paixão por automóveis.

Especialmente os esportivos.

Se italianos ou alemães, ainda mais.

Em caso hipotético e distante de riqueza, admito que não me furtaria a ter um BMW Z4. Me contento com muita felicidade em meus rolezinhos no meu Puma GTS 1978.

Adoro vinhos, especialmente os europeus, e devido à paixão pela minha ascendência, nutro devoção especial pelos italianos. Acho que os vinhos alimentam principalmente a alma.

Adoro comida, restaurantes bem servidos, camisetas descoladas e meus estilosos tênis all star.

Mas tenho uma quase certeza de que nada me acrescenta mais do que música e literatura.

Quando termino de ouvir bons discos ou ler grandes livros, sempre brota em mim a convicção de que depois deles sou uma pessoa melhor e que tenho algo de melhor a dividir com o mundo.

Penso que os dois – discos e livros – justificam algum apego ao materialismo.

Crente na vida após a morte, se no último minuto de minha existência me fosse dada a possibilidade de levar para o plano invisível algo de palpável que possuí neste planeta confuso, eu diria sem titubear, roubando o pequeno trecho da letra da canção de Zé Rodrix e Tavito: meus discos e livros.

E nada mais.

Comentários (0)

Foto Ana Maria de Souza

Foto Ana Maria de Souza

O resto do país talvez não imagine, mas uma lei do silêncio mal formulada está encurralando os bares que tocam música ao vivo em Brasília.

Imposta por uma Câmara Legislativa anacrônica e sem idoneidade e aplaudida por uma classe média que só deveria existir de segunda a sexta, de 8h a 17h, dentro do pobre mundinho de sua repartição pública, a tal lei do silêncio opera a favor de quem alega defender o sossego, mas atenta contra quem deseja morar em uma cidade viva e alegre.

É uma incalculável ajuda à fama que Brasília possui em todo o Brasil de ser uma terra chata e sem nada para fazer, onde o tédio reina ao lado de sua esposa, a monotonia.

Mas há quem seja carne de pescoço e reaja a isso. É o caso da Conceição Freitas, lenda do jornalismo na cidade em forma de avião. Ou borboleta, como pregava o criador de seus traços.

Vítima de um desses irracionais cortes de pessoal que a imprensa vem promovendo nos últimos anos, Conceição está tomando conta da banca de jornal da emblemática 308 sul, a quadra modelo de Brasília, onde Lúcio Costa desenhou tudo o que queria que existisse na cidade.

De jornalista a “jornaleira”, minha colega de profissão está vendendo livros na banca, além de revistas e outros presentinhos que lembrem a cidade. Eu mesmo consegui um espaço honroso em uma das prateleiras – ao lado de Lúcio Costa e Maria Clara Arreguy – e “estacionei” um de meus livros de contos (A Liberdade é Amarela e Conversível) e uma coletânea sobre Brasília (50 anos em seis), em que tenho o prazer de dividir as páginas com Nicolas Behr, José Rezende Jr., Liziane Guazina, Nanda Barreto e Pedro Biondi.

No último sábado, 16, Conceição juntou um bando de jornalistas e escritores, ou só jornalistas ou só escritores (muito cuidado quando esse tipo de gente se junta), para um bate papo pra lá de agradável na calçada da banca, ao som de sax e violoncelo. É claro que rolou um selfie coletivo de classe, tirado pelo Tino Freitas.

Se cada jornalista que for demitido em Brasília tiver uma ideia parecida com a da Conceição, a cidade estará, para sempre, livre da caretice que a assola.

Foto Giustipress

Foto Giustipress

Comentários (1)

www.deliciasdereceitas.com.br

www.deliciasdereceitas.com.br

- Eu não sei escrever versos, então…

Ela disse, se desculpando mesmo sem motivo, enquanto colocava sobre a mesa a travessa oval de espaguete ao sugo, a fumaça subindo ao teto, o aroma parecendo que ganharia a janela para alcançar os quatro cantos do mundo.

- Tudo bem, querida. Existem várias formas de se fazer poesia. A sua é cozinhar.

Comentários (0)

http://www.adorocinema.com/

http://www.adorocinema.com/

Ao público em geral, um aviso: “Spotlight, segredos revelados” não é um filme sobre abuso sexual cometido por padres contra crianças.

Definitivamente, o mote do filme é apenas isso, um mote, e fica em segundo plano, embora em um e outro momento nos cause indignação e revolta.

Aos jornalistas, um outro aviso: é um filme sobre nossa profissão, que nele é retratada com suas mazelas e emoções, mas acima de tudo mostrada com sua verdadeira função e da forma como realmente deve e precisa ser exercida, ou seja, como instrumento de defesa dos interesses da sociedade. E apenas e simplesmente isso: defesa dos interesses da sociedade, de ninguém mais além da sociedade.

É filme obrigatório para os alunos de jornalismo, porque mostra como nosso ofício é maravilhoso, inigualável quando feito com gana, como amor, com paixão, mas acima de tudo com responsabilidade, comprometimento com a verdade dos fatos e com ética, inclusive da empresa jornalística.

Assistam e comparem com as aulas da faculdade e com o estágio que vocês fazem durante seis horas de segunda a sexta. Vejam em que ponto as coisas estão erradas em sua formação profissional e tentem mudá-las, mesmo que aos poucos, e começando pela própria conduta de vocês.

Mas é filme obrigatório também para os profissionais, inclusive os que já têm anos de formados.

Se para estudantes e focas apresenta uma forma acertada de se exercer o jornalismo, para nós, cascudos e rodados em redações e plantões de fim de semana e feriados, sejam de rádios, TV’s, impressos ou eletrônicos, Spotlight nos refresca a memória.

Ele nos lembra que nossa tarefa diária vai muito, mas muito mais além do encargo burocrático de se limitar a ouvir apenas dois lados de uma história, ou ainda dar-nos por satisfeito porque conseguimos passar a informação em tempo real antes do colega que está sentado ao nosso lado na coletiva.

Comentários (0)

fa peigi

Já disse que as redes sociais representaram de alguma maneira a libertação de escritores.

Vinte, trinta anos atrás se o autor quisesse que seus escritos fossem lidos e não se perdessem no anonimato das gavetas, tinha dois caminhos: a paciência e boa vontade dos amigos (como importunei os meus!) ou a árdua batalha da publicação, dividida em duas frentes.

A primeira, a dos suplementos literários, nos quais a concorrência era grande – como ainda é – e em tantos casos requeriam conhecimento estreito e proximidade pessoal com quem os editava; e fanzines, que por aquele tempo começavam a surgir, principalmente nos meios universitários, como alternativa aos canais de publicação considerados mais formais.

A segunda frente para a publicação era a mais ortodoxa: o livro. Reuniam-se os textos, eivava-se de coragem e danava-se a bater à porta das editoras, donde vinha sempre a indiferença, ou no máximo um polido não: “apesar da qualidade, não é possível aproveitar seu trabalho no momento”.

Recorria-se, então, ao patrocínio do pai ou da mãe e ao empréstimo de amigos para que o livro viesse ao mundo em forma de edição independente a ser vendida, depois de publicada, em bares ou qualquer evento que tivesse cara de alternativo ou marginal. Poucos recuperavam o investimento e quitavam suas dívidas, e este certamente nunca foi o meu caso.

O que ganhei com essas edições? Muito divertimento, chope de graça em algumas situações e muitos tapinhas nas costas e palavras de incentivo.

Hoje, a exemplo das notícias, a literatura tem meio que uma pegada real time. Escreve-se agora, publica-se em cinco minutos na rede social, no blog.

Entre todas as desvantagens que isso possa vir a ter – e as que vejo são pequenas – há uma vantagem enorme em relação a quando comecei a escrever. Hoje em dia são bem maiores as possibilidades de sermos lidos. A literatura, principalmente no gênero da poesia, é material corriqueiro em nossas telas e smarts.

Embora eu seja péssimo com eles, acho que posso usar os números para tentar provar o que estou dizendo.

Nas últimas duas semanas, paguei R$ 50 ao feici búqui e publiquei dois poemas que, juntos, alcançaram 1.235 curtidas e 80 compartilhamentos, que na verdade são republicações gratuitas. Pelos números que recebi, mais de 30 mil pessoas viram as duas postagens.

Descontada a desconfiança que se deve ter em relação a esse montante de visualizações, é certo que ele não foi de meia dúzia de pessoas.

Com esse scout poético, reafirmei a pergunta que faço a mim mesmo há tempos: quando que, publicando meus poemas, contos e crônicas apenas em livros ou outro veículo impresso, eu teria mais de 1.200 leitores em poucos dias?

Espectro impensável, ainda mais para a poesia, gênero dos dois textos, limitado a um universo bem restrito de leitores.

O livro é sagrado e sempre será objeto de desejo meu como autor, mas como em outros campos da vida moderna, não se pode menosprezar, ou ficar cego para o potencial das redes sociais na literatura.

É claro que entre o que se publica há muita coisa de valor discutível.

Como sempre houve, há e haverá nos livros.

No cinema, no teatro, na música.

E na vida.
*
Acesse no FB André Giusti Escritor

https://web.facebook.com/andre.giusti.5/?ref=hl

Comentários (0)

A notícia já era esperada para qualquer momento.

Na semana passada, a médica dissera que pelo aspecto do ovário, ou sei lá mais do quê, a coisa não passaria mesmo deste mês.

E quando pelo telefone a mãe dela me avisou, com ar de riso, que havia novidade, nem precisou completar a frase.

Eu mesmo, apressado, me encarreguei disso:

- Ela ficou mocinha! – e nem percebi que essa expressão – ficou mocinha -, que julgo tão ultrapassada, tão coisa de avó e avô, de um tempo em que as mulheres não tinham vontades ou direitos, me saiu da boca feito um sabonete que escorrega das mãos. Logo de minha boca, homem que se pretende tão moderno.

Toquei a campainha do apartamento pensando no que poderia dizer a ela, a minha filha mais velha.

Mas…o que se diz a uma menina que menstrua pela primeira vez? Tem que dar parabéns? Lembrar que antigamente era bem pior, porque os absorventes, pelo que dizem, não eram tão confortáveis?

Não me vieram palavras, eu nunca deparei com uma menina que tenha ficado menstruada pela primeira vez. E eu, claro, também nunca fiquei para saber como é e ter o que dizer.

Na dúvida, abri um sorriso, e a abracei com amor. O amor resolve tudo, até a dúvida do que dizer à filha mais velha, quando ela menstrua pela primeira vez.

Cheio de mel na voz, perguntei:

-Você tá se sentindo bem, meu amor?

- Tou, ué! – ela respondeu, com a impaciência típica de uma pré-adolescente, e no silêncio que fez em seguida, me perguntava por que, afinal, não estaria se sentindo bem.

É que a transformação do corpo parece que ainda não chegou muito à cabeça. Quer saber é da novelinha pra criança que passa à noite, da piada besta que o coleguinha postou no grupo do uatzápi.

Ninguém vira mulher de uma hora para outra, eu imagino, porque também não virei homem logo no dia em que meus primeiros espermatozoides vieram ao mundo.

Não obstante a pressa desse mundo precoce, a transformação ainda é gradual, e mesmo que não tenha sido eu a ficar menstruado pela primeira vez, posso notá-la – essa transformação – no espelho, me avisando que aos poucos estou deixando de ser pai de uma menina para ser pai de uma mulher.

Comentários (0)

www.avidacomesclerosemultipla.com.br

www.avidacomesclerosemultipla.com.br

Acho que ele se chama Juvenal, embora seu nome possa ser Quirino, não tenho certeza.

Eu o conheço, passo sempre por ele, mas ele não sabe quem eu sou. É que sempre passo por ali de bicicleta, nunca de carro. Ou seja, não estaciono no ponto dele.

Juvenal – ou Quirino – é guardador, ou flanelinha, dependendo da cidade de quem me lê. Como ouvi de um deles certo dia, ele “mexe com o ramo de estacionamento”.

Hoje passei com minha magrela de novo por ele. Eu vinha pelo canto da rua, e tentava enxergar, na beira do meio fio, entre um carro e outro estacionado, uma rampinha em que eu pudesse subir, pegar a calçada e de lá a ciclovia.

Mesmo ainda de longe, o “dono do ponto” captou minha aflição, e logo foi apontando uma brecha entre os carros em que eu pudesse pegar uma rampinha e seguir em paz pedalando. “Aqui, ó! Entra aqui, ó!”, indicou rápido onde eu deveria virar, antes que eu passasse do local.

Virei e segui em paz pedalando, pensando que Juvenal, ou Quirino, é um cara legal, do tipo que percebe a necessidade do próximo, e o melhor: se importa com ela.

Mesmo que não se dê conta, já entendeu que para ser solidário não é preciso, necessariamente, embarcar numa força humanitária para combater a fome na África.

Dá pra ajudar o semelhante entre um motorista e outro que liberam uma gorjeta.

Comentários (0)

Um dos melhores rifis de guitarra de toda a história do Rock`n Roll. Valeu, David! Pega teu disco voador, que os homens das estrelas estão te esperando.

Comentários (0)