André Giusti - foto: Luana Lleras
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O Camundongo

O Camundongo

Você que não mora em Brasília, ou sequer a conhece, talvez não saiba que ela não é exatamente uma repartição a céu aberto.

Antes de ser capital do país, é uma cidade.

Com gente morando.

E onde há gente, há problemas.

E um deles, em Brasília, parece ser a vontade inabalável de parte da sociedade, incluindo o estado, de torná-la a capital nacional, quiçá mundial, da chatura e da caretice.

O portal Metrópoles noticia hoje que uma chilena foi presa no metrô de Brasília porque estava cantando (http://www.metropoles.com/distrito-federal/chilena-e-presa-apos-cantar-em-estacao-do-metro-df ). Seguranças deram-lhe uma espécie de chave de braço não porque ela estava fazendo arruaça, depredando o patrimônio, roubando outros passageiros, mas porque estava cantando.

Música no metrô, que mundo afora e mesmo no Brasil torna estações locais menos inóspitos, é proibido por decreto em Brasília.

Duas semanas atrás, o mesmo portal noticiou que em um prédio de uma quadra nobre as crianças eram proibidas de brincar na portaria.

Moradores que se recusam a viver numa cidade morta foram para baixo desse prédio (aqui chamam de bloco) e fizeram manifestação com palhaços, brincadeiras de roda e coisas afins. Parece que deram jeito na insensatez do estatuto do condomínio.

Mais conhecida talvez seja a Lei do Silêncio, que proíbe música ao vivo nos bares.

Admito em alguma parte a razão das pessoas que moram junto a esses lugares, mas quem pode viver num lugar em que não se ouve um som de violão, uma voz afinada atravessando a noite?

Neste caso, até o momento pelo menos, nada de consenso, nada de um meio termo, apenas a construção da chatice e da caretice.

Brasília, a capital do país, acusada injustamente de ser a culpada pela cultural e enraizada roubalheira nacional, é uma cidade que adoece mentalmente a passos largos.

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CONTI outra

CONTI outra

Às vezes eu me sinto um espírito desencarnado, em Brasília, a versão real do homem invisível do seriado de TV da década de 70.

Na rua, no corredor do prédio, na academia, nas barras de ginástica do parque onde você malha quase todos os dias com as mesmas pessoas: ninguém te olha.

Você passando e o vento são a mesma coisa: incapazes de abalar quem cruza teu caminho.

Já não é nem mais questão de bar bom dia, boa tarde, boa noite. Trata-se de olhar na cara, nos olhos do semelhante que vai no sentido contrário, e que é vizinho ou companheiro de atividade física.

Antes que algum brasiliense cego me mande voltar pro Rio, aviso que gosto daqui, local de rara arborização urbana, por exemplo, entre outras qualidades.

Mas já são quase 20 anos nesta cidade e uma dificuldade confessada com as relações humanas.

Já já vem alguém pra bater: ah, mas aquela coisa de carioca contar a vida toda em cinco minutos de fila também enche o saco.

Concordo.

Mas uma encheção de saco não compensa a outra.

Então, cada canto com sua dificuldade.

E seguimos vivendo, aqui ou lá.

Mas eu tinha que falar.

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Fábio Motta/Estadão Conteúdo

Fábio Motta/Estadão Conteúdo

Como ainda tem gente aqui pelo feici búqui dizendo que o Eike Batista tinha que ficar numa cela comum, com um bando de presos comuns, eu resolvi escrever sobre isso.

Em cela comum, tudo bem, mas como presos comuns, jamais.

Eike Batista é um homem como outro qualquer, seu dinheiro não lhe faz melhor que nada nem ninguém, principalmente em quesitos morais.

Mas preso comum definitivamente ele não é.

Não pode ser considerado preso comum um homem que teve nas mãos um governador de estado e provavelmente muitos outros do mesmo quilate, ou até maiores.

Se ele morre numa rebelião nesse barril de pólvora que é o sistema carcerário, o país será privado de revelações que podem ajudar a passar a limpo a vida nacional.

Cela comum para Eike, mas de preferência sozinho, e vigiado de perto, porque ninguém sabe do que é capaz um homem que de sétimo mais rico do mundo, se vê de repente comendo farofa na quentinha e fazendo cocô num buraco no chão.
*
Ps 1: A melhor coisa dessa eleição para a Presidência da Câmara é que o Bolsonaro só teve quatro votos.

PS 2: Se você está lendo isso na minha linha do tempo, é porque não comemorou a morte de Dona Marisa Letícia.

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Depositphotos

Depositphotos

Irmãs na bike

- Sai da frente, sua besta!

- Pedala rápido, lesma!

- Anda direito, imbecil!

Mas (acreditem!) elas se amam.

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 Joanne Weston

Joanne Weston

Dizem que o jornalismo quando não mata, aleija (e é verdade mesmo), mas é uma profissão de ótimas histórias.

A repórter iniciante, promessa de grande profissional, procura alguém que tenha tido chikungunya.

Liga para dezenas de pessoas, mas ninguém teve a doença.

Quando finalmente do outro lado da linha ouve a pessoa dizer “sim, eu tive”, ela não se contém e fala alto, toda a redação escuta.

- Ai, que bom que você teve!!!!

Me lembrou outro caso.

A produtora da TV está atrás de uma matéria sobre incêndios florestais, mas a chefe quer que ela descubra alguém que tenha tido o sítio, a chácara ou a fazenda queimado por esses incêndios.

Fica sabendo que a vizinha do advogado do pai da madrasta da colega de escola “parece que tem sim um sitiozinho que pegou fogo no ano passado”.

Consegue depois de uma hora o telefone da pessoa.

A mulher atende e ela pergunta se o tal do sítio realmente pegou fogo. E quando a mulher responde “não, minha filha, não teve nada disso”, a coitada da produtora não esconde a decepção.

- Ah, que pena! Ôpa, não! Quero dizer…

Ela tenta corrigir, mas já é meio tarde.

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Acervo particular

Acervo particular

Após vinte anos publicando livros, aprendi algumas pequenas coisas.

Duas delas reparto aqui, porque talvez sejam úteis para uma meia dúzia de três ou quatro que começam a se arriscar no mesmo caminho.

A primeira é sobre a noite autógrafos.

Aprenda que aquela pessoa que não foi ao lançamento dificilmente comprará seu livro depois.

Não nutra esperanças no caso da velha promessa: “ah, eu não vou poder ir, mas quero comprar depois, e autografado”.

Esse tipo de pessoa até existe, mas não lota um fiat mille. E se o livro for de poesia, elas cabem numa moto.

A outra coisa é pensar em ter leitores, e não compradores de livros.

Portanto, dispense do desembolso aquele seu grande parceiro, que te adora, que você adora, mas que o último livro que ele leu foi no segundo ano da faculdade. E mesmo assim no resumo.

É sério, não queira vender livros por amizade, isso não terá o efeito que você esperava quando abdicou parte de sua vida para ficar na frente de um computador. O único efeito será o numérico.

Tenho grandes amigos, e mesmo parentes que considero, que jamais leram uma única linha que escrevi nesses mais de trinta anos de ofício.

Não deixaram de ser meus amigos, e jamais deixarão. Não por isso.

Agora, tenho leitores com quem provavelmente nunca me sentarei numa mesa de bar.

Mas que são uma das razões do meu trabalho.

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ASMEGO

ASMEGO

Esta é só a opinião de um modesto e pacato cidadão.

Mas acho que a tarefa de maior responsabilidade da pátria neste momento, e nestas circunstâncias, está no colo da ministra Carmem Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal.

Não entendo do regimento do STF, mas pelo que li ela pode distribuir o processo da lava-jato entre os outros ministros.

A alternativa a isso, pelo o que também li, é o Presidente da República indicar alguém para ser o relator, em substituição ao ministro que morreu.

Então, a minha esperança de modesto e pacato cidadão, é de que a ministra Carmem Lúcia também ache complicado alguém que é citado 43 vezes nas delações do processo indicar alguém que pode justamente anular essas delações.

É só a opinião de um modesto e pacato cidadão, assalariado, que tá se virando como pode pra pagar o aumento da mensalidade da escola das filhas, o material escolar e o uniforme delas.

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emails

Tendo que fustigar velhos emails, descobri que até 2013 – apenas quatro anos atrás – ainda se mandava emails para os amigos dizendo que estávamos com saudades e que deveríamos nos ver.

O passado fica antigo cada vez mais rápido.

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MDig

MDig

Fico sabendo, por intermédio de Maria Balé, que no tênis não se comemora o erro do adversário.

É algo para se levar pra vida pessoal e aplicar todos os dias.

Tanto por quem joga, quanto por quem não joga.

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Fumaça

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