André Giusti - foto: Luana Lleras
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Canal Sony

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Nesse dia vergonhoso de ressaca moral desse país hipócrita, não estou cá me perguntando por onde andam as patricinhas e mauricinhos com suas camisetas Nike da seleção nem as dondocas com suas panelas Tramontina clamando contra a ladroagem.

Esses já era esperado que não aparecessem, posto que o que os incomodava era tão somente ter menos uma vaga para medicina na federal por causa do sistema de quotas, ou correr o risco de ter que viajar ao lado de uma nordestina humilde que entrou em um avião a primeira vez para ver a filha em São Paulo.

Sinto falta de meus colegas jornalistas e blogueiros de esquerda utilizando seu talento com as palavras para protestar, por exemplo, contra a omissão da CUT, UNE & Cia nos protestos de ontem, e contra o claro corpo mole que o PT fez na votação vexaminosa.

Adotando as comparações com o futebol tão usadas nos dois mandatos de Lula, a atuação do PT ontem me fez lembrar a do Peru contra a Argentina na Copa de 78. Dinossauros da arquibancada feito eu saberão do que falo.

Helena Chagas nos ajuda a entender isso em seu brilhante artigo em Os Divergentes (osdivergentes.com.br) – blog de cobertura política que distribui pancada de forma democrática, ou seja, pra todos os lados.

O interesse eleitoral não moveu apenas os que já sabemos podres, velhacos, corrompidos. À maneira clássica do PMDB, agiram de modo igual, nos bastidores da politicagem, muitos que fazem carinha moralista de nojo em público, para os holofotes, quando o assunto é bandalheira.

(E enquanto escrevo, o silêncio perdura)

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Nosso Lar

A foto é do Centro de Ensino Eurípedes Barsanulfo, que fica no subúrbio carioca do Lins de Vasconcelos.

Nesse prédio, entre 1983 e 1985, vivi alguns dos melhores anos da minha vida.

E foram tão bons porque foi aí que conheci alguns dos meus melhores amigos até hoje.

O colégio pertencia à extinta Caixa de Pecúlio dos Militares, a Capemi, sigla famosa nos anos 70 e início dos 80.

Na base da roubalheira, quebraram a Capemi. Só um exemplo ilustrativo para quem teima em acreditar que na ditadura não havia ladroagem.

Com destino incerto, o colégio foi assumido naquele tempo – com muita coragem e amor à educação – pela família que mantinha uma escola infantil, a Nosso Lar, a quem sou ligado por amizade e afeto até hoje.

No ano passado, a família decidiu – com todo direito – que não queria (e não podia) mais tocar o CEEB.

Até o momento, não apareceu ninguém disposto a investir no maior ativo (para usar bem a linguagem do mercado) que um país pode ter: a educação de seu povo.

Vivêssemos sob a égide de um estado que realmente pusesse em prática seu conceito original de cuidar da sociedade, o colégio seria encampado para servir a um ensino público de qualidade.

O prédio, um dos maiores da zona norte do Rio, se deteriora a olhos vistos, correndo o risco de a qualquer momento ser invadido por quem não tem (ou diz não ter) casa.

Eu não consigo dizer com palavras a dor que me causa, como ex-aluno, olhar essa foto. Qualquer coisa que eu possa escrever estará muito longe da alegria que eu sentia em ir todas as manhãs para este lugar.

Mas a pichação na fachada explica exatamente porque a Suécia tem, continuadamente, os melhores índices de desenvolvimento humano, e porque o Brasil patina há mais de 500 anos em seus vários níveis de indigência.

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angustiado

Confesso que desde que o Lula foi condenado pelo Moro, caí numa espécie de letargia, e minha opinião sobre o assunto não vai além de uma massa amorfa, sem cor, sem gosto, sem temperatura.

Logo eu, que até por força de ofício sempre me empenhei em arranjar o que dizer.

Hoje, o máximo que alcanço é: não sei.
Não consigo enxergar provas, ao menos as ditas cabais, contra o ex-presidente, por mais que a TV Globo gaste metade do Fantástico tentando garantir que elas existem.

Mas o que me incomoda – e sempre me incomodou nesse imbróglio de petrolão, tríplex e que tais – é o tanto de acusação contra Lula.

Não tenho dúvida de que o PT se perdeu inteiramente no jogo do poder, inclusive pelo caminho da roubalheira. Mas aguardo que me provem se Lula também cedeu ou não ao canto do cisne.

Cá na minha pureza de honrador de IPVA e IPTU em quantas prestações o estado me permita livrar-me da faca afiada que ele põe sobre minha jugular todos os anos, ainda sou o tipo que pensa que pelo o que Lula se propôs a fazer pelo país, nas inúmeras campanhas eleitorais, não deveria existir sequer uma pulga atrás da orelha de algum de nós em relação à sua integridade.

Mas existe. Um circo de pulgas, aliás. E atrás das orelhas de milhões que, como eu, não estão convencidos nem do sim nem do não.

Assim como não me convence – e nunca convenceu – a figura ungida de santidade midiática do juiz de Curitiba.

Igualmente me incomoda demais a imagem dele cochichando aos risos com Aécio Neves poucos meses atrás (e essa foto é só um exemplo de procedimentos duvidosos).

Será que ali, ele, um juiz, não tinha sequer uma desconfiança de que o senador estava enrolado também nesse dominó todo?

Acho que isso deveria incomodar também os que enxergam em Moro uma espécie de Capitão América com alma feminina de mulher maravilha.

Do eleitor convicto que fui em outras eras, restou somente que a expectativa para 2018 é a de que eu seja um cidadão cabisbaixo, com a certeza apenas de ‘em quem não votar’, o que é muito pouco para os meus padrões de politização.

Enquanto isso, Bolsonaro sobe nas pesquisas.

E aí, o que me assalta não é somente a dúvida, mas também a angústia e o desespero.

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Passei uns três dias pensando e cheguei à conclusão que, no fundo, eu já esperava chegar: o tal do leitor sensível é realmente censura.

Ou melhor, é patrulhamento ideológico, que é a censura sem o poder de veto do estado.

Patrulhamento ideológico, pelo que reza a história política do país, é uma expressão que surgiu nos anos sessenta. Era praticado por setores da esquerda que realmente têm dificuldade em conviver com a democracia, com a opinião diversa e, especialmente, contrária.

Embora seja e já tenha me posicionado contra atrocidades do tipo homofobia e racismo, confesso o temor de estar na mira do leitor sensível, aquele que será pago pelas editoras (e o fará também nos canais de produção de conteúdo, como as redes sociais) para identificar preconceitos raciais, de gênero, de orientação sexual – e por aí vai – nos livros.

Para Sempre Cinderela

Para Sempre Cinderela

Sou homem de classe média (bem média mesmo, quase fodida, embora melhor que a maioria no país), branco, olhos claros, meia idade, descendente de europeu. Sou o protótipo físico do racista, do homofóbico, do machista, e numa sociedade em que a aparência instiga julgamentos instantâneos, já me sinto vigiado com atenção redobrada pelo leitor sensível.

É claro que não vou me intimidar, mas temo que ao criar, por exemplo, um personagem que odeia negros ou homossexuais, a patrulha dos que muitas vezes enxergam chifre em cavalo e cabelo em ovo venha para cima de mim dizer que aquilo na verdade é meu preconceito expresso numa terceira voz disfarçada. É algo que os próprios críticos literários dizem da Emília em relação a Monteiro Lobato.

A figura do leitor sensível não ajuda em nada no combate a preconceitos. Ao contrário, pelo que vejo está é instigando a salivação dos Danilos Gentiles e Bolsonaros de plantão, que pisoteiam com escárnio o (necessário) politicamente correto, a na verdade dizerem prazerosamente: olha lá, tá vendo como é ditadora essa cambada de preto, bicha, sapatão e feminista?

Liberdade de expressão é tão importante em uma sociedade que a luta contra o preconceito passa necessariamente – e até obviamente – por ela.

Nos casos de apologia, via literatura, do racismo e seus odiosos similares discriminatórios, mais eficaz e salutar que a figura do leitor sensível será o boicote à obra, e, em última análise, a Justiça.

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G1 - Globo.com

G1 – Globo.com

De uns tempos para cá, comecei a tentar entender pessoas que usam o banheiro de onde trabalham e não dão a descarga, especialmente naquela situação que todos podem imaginar.

A primeira hipótese que me ocorre é que são extremamente infelizes no local onde ganham o pão de cada dia. Odeiam tudo ali – o salário, o serviço, o chefe, as pessoas – e quando vão ao banheiro devem imaginar a privada como a sala, a seção ou o departamento, e que lá dentro estão os chefes e os colegas. Penso que devem mesmo imaginar, naquele exato instante, que são imensos gigantes sentados sobre o prédio.

Essa infelicidade talvez venha desde a formação profissional, dos anos de faculdade. Quem sabe o autor do quadro repugnante com o qual você depara no banheiro queria ser médico, ator, arqueólogo. Não conseguiu ser por alguma razão e pá: “o mundo que veja projetado nessa privada o que eu acho da minha vida”.

Casamento infeliz, pais e sogros insuportáveis, filhos com problemas, dívidas impagáveis do cartão.

Todas essas possibilidades me vêm à cabeça quando vou usar o banheiro e vejo que não há condição.

Sentido-me mais afortunado que os funcionários da limpeza que terão que dar um jeito naquilo, procuro achar que a pessoa que usa o banheiro e não dá a descarga é alguém infeliz sem coragem para mudar a própria vida e correr atrás da felicidade.

Medroso, acomodado, agride o mundo de forma escatológica extravasando suas frustrações.

Não pensa que há saídas mais higiênicas de trabalhar nossos complexos.

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Foto OAB - BA

Foto OAB – BA

Rodrigo Leitão me contou recentemente que quando entrevistou a ministra da Cultura da França, anos atrás, precisou subir quatro andares de escada. O prédio, onde ao menos à época ficava o ministério, era antigo, não possuía elevador, e a ministra cansava todos os dias as canelas e os joelhos nos degraus.

No mesmo papo, outro colega de profissão, Ivan Godoy, lembra-se da entrevista que fez com o ministro das Relações Exteriores de um país que não me lembro qual, mas era um desses em que há escola ótima e hospital perfeito para todo mundo e ninguém fica na rua pedindo esmola.

Assim que o Ivan aceitou o café que o ministro ofereceu, o próprio figurão levantou-se, foi no canto da sala e voltou com um copinho de café de garrafa térmica.

No Brasil, não apenas ministros, mas secretários de estado, que muitas vezes nem sabem direito o que estão fazendo no cargo, sobem e descem em elevador privativo, apartados de quem banca seus salários.

Qualquer chefete de repartição pública mequetrefe tem direito a garçom vestido de pinguim trazendo cafezinho e água gelada na bandeja.

Nem me estenderei aos carros oficiais e verbas de gabinete. Ficarei apenas nesses dois exemplos de mordomia rastaquera, a partir da qual vislumbramos um estado cimentado nos privilégios e nas distorções.

Revoltados e perplexos, assistimos todos os dias à consolidação do imenso descalabro que é a vida nacional.

O problema também é este: num país de grandes escândalos, acabamos por não nos dar conta das pequenas indecências diárias.

Mas nos insurgirmos também contra elas, seu costume e sua historicidade arraigada em nossa cultura, é um bom começo para combatermos as grandes patifarias nacionais.

Podemos começar subindo com todo mundo no elevador e pegarmos café da garrafa térmica em caso de virarmos secretário, ministro ou nada além de chefete.

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O Dia

O Dia

Veja

Veja

Tenho me abstido de escrever sobre o momento político.

Confesso que me abateu o ânimo o nítido conluio entre os três poderes a favor da manutenção do descalabro.

Mas é que também têm me causado enfado, como nas últimas horas, tentativas como as de provar que não existiram as agressões verbais dos chefetes do PT contra a Míriam Leitão, que, tendo a projeção que possui, deveria ser internada caso criasse uma história fantasiosa de desrespeito.

Esse esforço de desmerecer a afronta sofrida pela jornalista me arranca tantos bocejos quanto os comentários que ela própria faz na TV.

Da mesma forma me entendia (na verdade, me enoja) o procedimento igual quando o alvo é personalidade alinhada com o chamado “outro lado”. Tenhamos como exemplo os insultos que já foram dirigidos à atriz Letícia Sabatella.

O pior é a pobreza argumentativa de ambos os polos: “ah, mas quando xingaram fulano vocês não disseram nada!” ou ” Quero ver agora o que vai falar aquelazinha que defende os direitos desse, daquele e daquele outro”.

Esse embate raso, calcado no ódio e na ausência de diálogo, pode alimentar ainda mais a despolitização das pessoas, porque chega uma hora em que não há mais saco para Fla-Flu, para Piquet ou Senna, para Marlene ou Emilinha (atenção, mais novos, pesquisem este último).

Discussão política virou sinônimo de barraco nesse país, quando precisa ser cadeira gentilmente puxada para que o adversário sente e converse, pois do contrário haverá o império dos conluios prevalecendo sempre sobre nossas necessidades.

Que tal substituirmos o desmerecimento pela respeito à opinião contrária como primeiro passo para uma sociedade saudavelmente politizada?

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espingarda

Pai: …aí ela me apareceu com o namorado mês passado lá em casa…

Amigo do pai: e como é o rapaz?

Pai: educado, inteligente, simpático, gosta dela, trata com carinho e respeito, foi gentil e respeitoso com todos lá em casa também…

Amigo do pai: que bom!

Pai: bom porra nenhuma!!!!

Amigo do pai: ué, você não gostou dele?

Pai: nããããããão!!!! Claro que não!!!!

Amigo do pai: por quê, cara?

Pai: porque ele tá pegando a minha filha, ora! Por isso: ele tá pegando a minha filha! Eu odeio esse moleque!!!! O-dei-o!!!!

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Saudades do Rio - UOL Fotoblog

Saudades do Rio – UOL Fotoblog

Um dos tipos de pessoa que mais me dão enfado são aquelas que acham que o passado era melhor.

À beira dos 50 anos, muitos de meus pares em idade dão o mundo por acabado, por exemplo, a partir do término do Led Zeppelin.

Algumas coisas quem sabe realmente eram melhores 30, 40 anos atrás. O futebol brasileiro e a Fórmula 1 são o que me ocorrem após algum esforço. Ou seja, nada com importância capaz de eleger o passado melhor do que o presente. Portanto, muito pouco para haver razão em ser passadista.

Mas os piores da espécie são os passadistas que se arvoram de politizados, e que não passam de analfabetos políticos sem conhecimento histórico (invariavelmente o segundo é condição obrigatória para o primeiro).

É aquele que ganhou espaço nos últimos anos, por causa das redes sociais, dizendo que na época da ditadura militar não havia isso ou aquilo.

Outro dia descobri um sujeito cuja referência do passadismo é mais recente. Encheu a boca para dizer: “Nem na época do Collor havia tanta bandalheira! ”.

Os dois casos confirmam o mal que faz a ausência do supracitado conhecimento histórico.

Na ditadura e no governo Collor ninguém gravava a conversa com ninguém.

E muito menos havia delação premiada.

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Temer

Pode até não haver prova cabal de que Temer mandou comprar o silêncio do Eduardo Cunha, mas não há como deduzir outra coisa quando o dono do grande matadouro diz “O que que eu mais ou menos dei conta de fazer até agora: eu tô de bem com o Eduardo” e o Presidente da República de ocasião diz que “Tem que manter isso, viu?”.

Falta muito pouco mesmo para ser batom na cueca.

Essa é a parte da gravação que está, digamos oficialmente, ainda no terreno da forte suspeita.

Mas há outra que já galgou o patamar da imoralidade.

É quando o Presidente da República – o Presidente da República!!!!!! – ouve o dono do matadouro dizer que está manejando juízes e procurador de acordo com seus interesses.

Ouve e não fala nada. Exatamente. O Presidente da República, autoridade mór do país, ouve alguém dizer – com a maior naturalidade – que está interferindo na Justiça e fica calado.

É mais do que incompatível com o cargo.

É crime.

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