André Giusti - foto: Luana Lleras
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Nem deslumbramento, nem desespero.

Quero o equilíbrio.

equilibrio

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Três dias depois das eleições há ainda muita ironia e rancor escorrendo nas redes sociais. Escorrendo, diga-se de passagem, feito o chorume do caminhão do lixo, exemplo do que há de mais repugnante na vida de uma cidade grande.

Alguns eleitores de Aécio Neves não parecem nem um pouco convencidos de que se Dilma Rousseff fizer um bom segundo governo todos ganharão, inclusive eles, que com todo direito preferiram a outra candidatura. Nem vou falar dos que espumam preconceito e discriminação, prefiro citar apenas os que ao menos não perderam os limites do tolerável.

Por sua vez, muitos dos que reelegeram a presidente permanecem se valendo do sarcasmo para tripudiar em cima da outra parcela da população que optou pela alternativa de poder. Como se não fosse legítimo que optassem, como se esse procedimento não fizesse parte de uma democracia pela qual a própria Dilma lutou até sofrer marcas na carne.

Resiste, de maneira estúpida, um clima de clássico regional, quando um time abateu o outro no domingo com uma vitória tão dramática quanto histórica.

Muito mais do que no futebol, que não é mais coisa séria há muito tempo, na política, protelar escárnio pela vitória e inconformismo com a derrota é muito mais do que  enfadonho excesso,  é nocividade para a vida nacional.

futebol

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Cerca de dois anos atrás fiquei chocado quando uma reportagem mostrou cartas com conteúdo racista trocadas entre Monteiro Lobato e um amigo dele.

Pelo que me lembro, um de nossos maiores escritores enaltecia os Estados Unidos pelo fato de o país possuir entidades que formavam a Ku Klux Klan, agregadora de representações que acreditam haver superioridade da raça branca.

Mesmo chocado, não pus de lado minha admiração pelo escritor. O homem passou a ser merecedor de minhas ressalvas, mas a aura do criador do Sítio do Pica Pau Amarelo se manteve intocada.

Um grande artista não é necessariamente um exemplo de ser humano. Gostarmos de sua obra não é ponte obrigatória para admirá-lo como pessoa.

Lobão é uma das figuras mais importantes e emblemáticas do Rock Brasil e da música pop nacional.

Discos como Lobão e os Ronaldos, de 1984, é uma das melhores coisas que se fez naqueles anos da turbulência da redemocratização. Há outros antológicos, como O Rock Errou, lançado dois anos depois.

Esse Lobão, que embalou todo uma geração no rádio, nas festas e bailes continua existindo para mim, vivendo no mesmo lugar que reservei para Monteiro Lobato, o escritor.

O Lobão que diz que a ditadura brasileira “arrancou apenas umas unhazinhas” não ofusca o autor de pérolas como Corações Psicodélicos. Note bem que não o condeno por criticar o governo, pois todos têm o direito de  querer outro governante para o país. Mas não posso ficar impassível diante de sua leniência com a estupidez dos anos de chumbo.

Para este tapo os ouvidos, e continuo a escutar o Lobão que vive naquela época em que desconhecíamos sua imbecilidade.

https://www.youtube.com/watch?v=Xtabf5qGW5U

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Acho que fui um dos primeiros a comprar ingresso para o show do Paul McCartney em Brasília.

Pouco depois das 7h abri o site de venda e garanti o meu,  cadeira superior, o mais barato, que é o que o orçamento permite.

Resmunguei bem contra o valor da tal taxa de conveniência, de preço nada conveniente, por sinal.

Há ainda a tal taxa de entrega pra quem compra pela internet. Pelo valor, chega-se a acreditar que o próprio Paul vá levar o ingresso pra gente, em casa. Dispensei. Eu mesmo vou pegar.

Vi Paul McCartney a primeira vez que ele veio ao Brasil, no velho Maracanã, em 1990. Ele tinha mais ou menos a idade que tenho hoje, entre 45 e 50. Foi memorável, até porque era a primeira vez que eu via, ao vivo, um dos dois principais integrantes da banda que é a minha principal referência de música. Até hoje. Até sempre.

Me lembro que, em determinado momento do show, pensei comigo, quase chorando: “pô, essa cara foi o melhor amigo do John Lennon!” .

Esta vez agora não deverá ser diferente. Primeiro porque possivelmente será a última vez de Paul no Brasil, mesmo que ele tenha vindo com bastante frequência nos últimos anos. Segundo porque gosto muito mais dos Beatles do que há 24 anos.

Mas minha expectativa para o show aumenta por um detalhe simplório: irei com minha filha mais velha, de 11 anos.

Ela ouve Beatles desde que estava na barriga. Meu primeiro presente pra ela foi o CD Beatles for Baby. Sabe décor  que o Paul fez Hey Jude pro Julian quando John se separou da primeira mulher. Sabe que o Ringo é o mais velho dos quatro. Sabe que a Linda morreu de câncer. Sabe que…e agora irá ao seu primeiro show de Rock. Debutará logo assistindo a quem.

O avô materno ensina às netas quem foram  Mozart e Beethoven, coloca o CD para que escutem. Diz que aquelas músicas foram feitas há mais de 200 anos e que até hoje a humanidade as escuta.  Eu concordo e acho válido.

Mas no show, daqui a exatamente um mês, eu vou virar pra ela e dizer: “Filha, tá ouvindo essas músicas? Pois é, daqui a 200 anos a humanidade vai estar ouvindo e cantando” .

 

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Há uns 20 anos eu não a escutava.

Certamente uma das músicas mais lindas que ouvi em toda minha vida.

Ideal para fins de tarde e amores que julgamos eternos.

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nuvem e sol

Hoje à tarde, quando vi esses raios de sol escapando dessa nuvem, confesso que senti esperança na vida.

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Depois de algum tempo trabalhando com carteira assinada, voltei à autonomia dos tempos modernos, o que significa pagar por conta própria a Previdência Social e aguardar o merecimento das migalhas futuras da aposentadoria.

Só que minha aversão à burocracia é tamanha que adiei até o último momento procurar em minhas gavetas o carnê para pagamento da tal Guia da Previdência Social, mais conhecida pela sonora sigla de GPS, embora não nos sinalize em nada uma velhice de tranquilidade financeira.

Conclusão: chafurdei meus guardados e só e lá pelas tantas descobri o carnê de capinha laranja, sem mais nenhuma folha em branco. Ou seja, pra garantir meu futuro tranquilo junto à Previdência, teria que passar em uma papelaria e comprar um carnê novo. Tudo isso atrasado para o trabalho e com um dia lotado de tarefas e compromissos.

GPS

Burocracia é o tipo de coisa besta que pode levar meu dia pro buraco, azedar meu humor até de noite. Mas acho que com a idade começo a dar musculatura ao mérito de não perder a paz pelo que é pouco e, muitas vezes, quase nada. Como por exemplo um carnê imbecil de pagamento.

Ainda na porta de casa, atinei para o óbvio: deve dar pra pagar no caixa eletrônico. Dito e feito. Dois dos bancos em que tenho conta – Caixa e Banco de Brasília – fazem o pagamento, basta digitar o identificador, aquele número quilométrico do PIS/PASEP, e pronto! Seu futuro, pelo mês este mês, está garantido junto ao INSS, sem que seja preciso sequer tocar em papel.

Quites com a Previdência, saí do banco com aquele certeza de que a própria vida se encarrega de trazer as soluções para os problemas que ela mesma traz, sejam pueris ou problemas realmente verdadeiros. O que ela nos pede em silêncio é apenas paciência.

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Confesso uma saturação desse culto aos anos 80, algo que já se arrasta, pelo que me parece, desde…o final dos anos 90. É muito tempo recordando um tempo que já não existe mais.

É raro andar 20 metros em um shopping center sem que em alguma vitrine esteja alguma das primeiras fotos da Madona. Na rede social, toda hora me surge o He-Man ou o Herbert Viana ainda de óculos. Adoro carros antigos, mas chega de comerciais do passat e do monza.

É pouca também minha paciência para os meus contemporâneos que pregam aos ventos que foi a década em que se fez as melhores músicas. Muitos deles fecharam os ouvidos para o que se fez desde então, e parece que morrerão sem saber que há coisa de qualidade tocando por aí, em vários cantos do mundo. Inclusive no Brasil.

A quem for da geração atual e que tenha esse entusiasmo pelos anos 80, digo que àquela época passamos boa parte dos dias comemorando os 20 anos de algo de extraordinário que havia acontecido nos anos 60.

Aliás, muita gente naqueles idos achava que o barato deveria ter sido mesmo viver vinte anos antes. E enquanto isso, a vida acontecia no presente.

A exemplo do que está sendo agora.

madonna_anos_80_material_girl_1

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Este é meu primeiro vídeo declamando. Fará parte de um projeto maior comAmneres Santiago De Brito Pereira e Fabrizio Morelo, a ser anunciado em breve. O poema é sobre a quadra em que moro, em Brasília, e foi escrito há quase cinco anos. Parte das imagens e a edição são do Thiago Rodrigues. Tomara que vocês gostem.

EU SEMPRE VOU MORAR NA 405 NORTE

Dona vizinha me para e conta
de quando chegou aqui em 1980,
dos filhos formados, que cresceram
brincando na portaria.

As sombras verticais da tarde
também seguirão minhas filhas até o infinito, eu comento,
e dona vizinha ainda me conta que os dela
nunca deixaram de correr na portaria da memória,
que até hoje brincam na portaria da lembrança
(dona vizinha tem nos olhos uma saudade
que vai do primeiro ao último dos pilotis do bloco.)

Eu gosto da dona-de-casa
que passa com hora marcada
para fazer a unha,
da estudante que some no arvoredo
a caminho da universidade,
de quem veio do Maranhão
do Piauí
e nunca mais voltou.

Há sempre lua alta que a madrugada derrama
nos azulejos da cozinha
quando bebo água no meio da noite.

Há sempre uns pingos da última chuva
pesando nas folhas,
virando breves cristais de sol
nas manhãs afobadas da minha pressa.

Há sempre o vento dando no alto das árvores,
e o barulho das árvores conta de um tempo que não volta,
mas que também não vai embora.

(Por falar em tempo, dona vizinha,
vamos conversando no caminho,
se não perderemos
o baile de inauguração da cidade)

*

https://www.youtube.com/watch?v=TkIY3KpRPiU&list=UUSRUDbqQLFfCRkOOwaH1gnQ

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trovinha

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