André Giusti - foto: Luana Lleras
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A foto foi feita em frente à sede do Superior Tribunal de Justiça, em Brasília.

Talvez nem seja um caso de individualismo automotivo, aqueles em que o sujeito pensa primeiro em seu carro, e depois no semelhante que, a pé, precisa usar a calçada. Talvez, distraído, ele nem tenha se dado conta do que fez.

Mas isso só aconteceu – e não é apenas a cara de Brasília, mas do país da qual ela é a capital – porque o Brasil é cada vez mais escravo do automóvel.

Como súdito da indústria automobilística, cede aos encantos das linhas de montagem, que nos últimos anos acharam por bem investir e entupir as ruas com essas monstruosas caminhonetes, cuja vocação é para andar no campo, e não atulhar ainda mais o espaço exíguo das grandes cidades.

Cada vez mais raras, as vagas de estacionamento parecem ainda menores nos últimos anos com a ascensão de tudo quanto é tipo de Hilux, quem sabe o mais banal demonstrativo de status de nossa pobre classe média endividada.

Se os governos, ao longo dos últimos 60 anos, optaram pelo desleixo com o transporte coletivo e nos obrigaram a trocar os pés pelas rodas, que nós, ao menos, procuremos, quando formos comprar um automóvel, fazer escolhas mais sensatas dentro da opção errada que nos foi imposta.

PS: Por falar em classe média, ela reclama tanto só de imaginar em voltar a pagar a CPMF, mas paga feliz R 20 por um suco de laranja em Brasília só porque o restaurante é da moda.

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pt.depositphotos.com

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Ele se perguntou se realmente gostava dela. Estava calado, dirigindo, cruzando a cidade à noite, voltando cansado.

Ouvia BB King. Para começar a responder a si mesmo, fez outra pergunta:

- Se ela hoje batesse de surpresa na porta, dizendo que veio passar a noite e que só vai embora de manhã, como você reagiria?

Ele sorriu, acelerou na curva e passou a quinta. Uma alegria, uma euforia desceram-lhe pelas costas como alguma coisa que treme lá dentro. Enxergou o próprio rosto se inclinando , os olhos alegres, a boca se contraindo risonha, marota.

- Então, está dada a resposta… – e encerrou aquela história, agora em voz alta.

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deliciasedelicias.wordpress.com

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Criado sob os ditames machistas, o rapaz de 20 anos, filho único, é incapaz de executar tarefas banais na rotina de casa, como, por exemplo, levar o prato da mesa para a pia da cozinha.

Lavá-lo é impensável e dar um jeito na louça toda pra quebrar o galho da mãe divorciada, com que ele vive, é fora de cogitação.

A mãe, em que pese talvez uma certa falha dela mesma por não ter incutido na criança, anos antes, o senso de colaboração, agora, acertadamente, pede e repete que ele coopere.

Em seguida ao pedido, sempre vem a profecia, e ela prega que desse jeito o rapaz não terá casamento que se sustente, pois as mulheres, já de algum tempo, não admitem arcar sozinhas com as tarefas domésticas. No que, aliás, estão cobertas de razão.

Não sei se é um caso isolado, mas me parece um exemplo de cegueira retrógrada dos homens da chamada geração Y: nascem sabendo manejar toda a tecnologia disponível no mundo, mas não abandonaram a cabeça de seus avós, que viveram nos anos 1940.

Acho que cabe às novas mamães postura firme desde quando a criaturinha começa a se entender como gente: lave seu prato, faça sua cama, recolha sua roupa. Aos papais, se também mantêm a cabeça nos idos de antigas gerações, que acordem para o real: se empregada doméstica é classe fadada à extinção, a esposa lava passa cozinha encera é cada vez mais rara de se encontrar. Pro bem dos homens e do mundo, diga-se de passagem.

Tenho vontade de sentar com o garoto e explicar tudo isso a ele, dizer que ele precisa mesmo colaborar com a mãe, mas ir além na explicação, mostrando que haverá nisso uma vantagem que ele poderá tirar para proveito próprio, inclusive quando for casado: é que quando mulheres pedem que façamos uma coisa, o melhor é fazer logo, pois quanto antes fizermos, menos elas falarão em nossos ouvidos.

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blogs.estadao.com.br

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Acho que um dos males da vida moderna é fazer uma coisa pensando em outras duas ou três.

É assim que se perde carteira, óculos. No meu caso, dancei no cadeado que prendia minha bicicleta na garagem do prédio.

Tirei e não pus de imediato onde costumo pôr. Suponho que tenha deixado no chão, pois já revirei os cinco continentes e não encontrei.

Como ainda tenho um resto de fé na humanidade, logo que dei por falta dele, fui à portaria perguntar se alguém encontrou e devolveu. Fiz isso duas vezes e já me convenci de que terei mesmo que comprar outro.

Imagino quem achou repetindo a velha rima de quando eu era criança: “achado não é roubado, quem perdeu foi descuidado”. Parece uma frase bonitinha e inocente dita por criança, mas é um péssimo indício de formação de caráter.

Não, achado não é roubado, mas também não deve ser, em boa parte dos casos, de quem acha. Ainda mais se foi achado no prédio em que você mora ou no ambiente de trabalho. O “descuidado” é provavelmente seu vizinho ou seu colega.

Domingo agora, dia 16, anunciam novos protestos contra a corrupção. Vou sugerir que protestem também pela devolução de todos os cadeados de bicicletas que foram achados e dos quais os donos nunca mais tiveram notícias.

Vou pedir também que protestem pela devolução das carteiras e dos óculos. Que protestem sim contra qualquer forma de corrupção, inclusive esta, que é se apropriar do que não é nosso, vestindo a capa da desculpa do descuido do outro.

Do contrário, acho inócuo pedir a renúncia da presidente ou de qualquer outro político.

Até lá, me aperto ainda mais no apartamento, dividindo o pouco espaço com minha magrela, porque se levaram um cadeado tão besta, que dirá o que ele prendia.

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“Olhe, procure não gostar de uma mulher que goste de um homem que goste de continuar morando com os pais depois dos 25 anos.

Ela possivelmente vai querer dizer o que você deve vestir, comer, calçar e, com algum provável abuso sem limite, o que pensar.

E você procure não gostar de um cara que goste de continuar – e ache isso normal – morando com os pais depois dos 25 anos.

É grande o risco de ele achar que você deve fazer tudo pra ele em casa, do tipo que não passa nem perto de louça na pia nem de cama pra arrumar”.

É, faz sentido.

morandoforadecasa.wordpress.com

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*Não necessariamente nesta ordem, e, em boa parte dos casos, algumas ao mesmo tempo

Rock’ n Roll – bem alto, pra aquietar os demônios.

Blues – para que a alma e as vísceras cantem e chorem.

Vinho (tinto) – na alegria e na tristeza, porque a vida é bela nas duas.

Chocolate amargo  – para depois do vinho.

Literatura – como defesa grito vômito coquetel antiloucura.

Livros – pra entender a realidade ou fugir dela (e prevenir  do Alzheimer).

Carros antigos – dirija um e saiba o porquê.

Camiseta calça jeans all star – para ter 15 anos sempre.

Velhos amigos – para se sentir com 15 anos sempre.

Filhas – para me sentir alguém realmente importante.

Sol – nos ombros no rosto dentro de mim.

Lua – no mar no jardim no sofá da sala escura no corpo dela nua.

Chuva – de repente e rápida ou vagarosa e o dia todo no meio da madrugada no fim da tarde na camiseta dela colada ao corpo.

Vento- pra voar sem sair do lugar.

Mar – pra ter saudades do cerrado.

Cerrado – Pra ter saudades do mar.

Rio – pra se sentir em casa, mas querer voltar pra Brasília.

Brasília – pra se sentir em casa, mas querer voltar pro Rio.

Língua – uma na outra e em outras partes.

Sexo – com tesão encanto paixão amor (nunca em hipótese alguma sem nenhum).
*
*Publicado originalmente em 8.10.2014

Marília Chartune

Marília Chartune

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ttssupremo.blogspot.com

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Por esses dias, estava prestando serviço em uma repartição pública, onde me entregaram um cartão de acesso para que eu não precisasse passar todos os dias na recepção e pegar aquelas etiquetas melequentas.

Para entrar no condomínio onde moro, é necessário um cartão praticamente idêntico.

Este cartão deixo sempre no carro, já que em Brasília a vida é mesmo sobre rodas, mas sempre que vou dar minha corrida diária pelas redondezas, preciso levar o cartão para passar na portaria do condomínio.

Então, nesses dias, subo pro apartamento com ele no bolso.

Ontem, pus um cartão ao lado do outro: o do trabalho e o do condomínio. Na hora de sair à rua, nada da catraca liberar minha passagem. Claro, havia levado o do trabalho.

Voltei ao apartamento, desci com o cartão certo. Ok, noite tranquila.

Hoje de manhã, entro no carro, ligo o motor, mas dou pela falta do cartão. O do trabalho.

Desligo o carro, volto ao apartamento.

Vou abreviar a parte que vai da porta à garagem. Já estou na portaria e preciso passar o cartão, o outro, que libera a saída dos carros. Mas cadê ele?

Dou a ré, estaciono de novo, subo outra vez.

Subindo e descendo, indo e voltando, esquecendo e lembrando, perdi uma meia hora no total.

Meu pai passava a tranca no portão de casa e ia embora ganhar o pão de cada dia. Chegava no trabalho, dava bom dia ao porteiro e subia. Sua cara conhecida era sua senha de acesso.

Depois que finalmente consigo sair do condomínio, me preparo para as senhas que confundirei em algum momento até a noite: a do cartão de débito, a do cartão de crédito, a que acessa aquele documento, a do site do banco.

Numa época de tanta tecnologia, minha cabeça às vezes parece um paleolítico 486.

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www.consisteelevadores.com.br

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Gosto de gente que antes de se sentar num refeitório coletivo, ou mesmo numa praça de alimentação, pede licença a quem já está sentado.

Gente que entende o óbvio: aquela mesa não é de ninguém, e por isso mesmo é de todo mundo.

Gente que quando se levanta, pede licença de novo, desta vez para ir embora, e ainda deixa votos de bom apetite, bom trabalho, boa tarde.

Gosto de gente assim.

E das que pedem licença também quando precisam passar entre duas pessoas que conversam num corredor.

Gosto de gente que segura a porta, que faz o elevador esperar; de gente que quando seguram a porta ou elevador para ela, agradece sorrindo. E dá bom dia. E deixa um até mais quando chega em seu andar.

De gente que pede desculpa quando esbarra ou pisa no pé.

Que sendo seu vizinho, ou trabalhando na sala ao lado, não passa olhando pra frente ao cruzar com você no corredor, como se não houvesse absolutamente ninguém vindo em direção a ela.

Gosto de gente assim.

Pena que, ao que parece, estejam saindo pouco de casa nos últimos tempos, pois estão cada vez mais difíceis de se encontrar.

*

Acesse também minha fã peigi no feici búqui, procure por André Giusti Escritor

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Para quem não conseguiu ler nos jornalões, ver nas grandes redes de TV ou escutar nas grandes rádios, cá estão as declarações de Francisco na Bolívia. Pra mim, é a personalidade mundial mais importante desde Mandela.

Em tempo: não sou católico.

Em tempo 2: Francisco está ficando acima de todas as religiões.

http://exame.abril.com.br/mundo/noticias/papa-defende-mudanca-do-sistema-economico-mundial-3

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www.falandodeflamengo.com.br

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Aos desavisados do mundo bola, Paolo Guerrero é um atacante peruano que chega ao Flamengo com a promessa de virar ídolo da maior torcida do mundo.

Na minha vida de rubro-negro febril e devotado, já vi umas 253 promessas iguais a ele. Dessas, talvez umas 18 ou 19 tenham realmente vingado.

Mas, ao menos na estreia, contra o Inter, deu um sinal de que pode se juntar a essa minoria de sucesso com o manto sagrado.

Na primeira ou segunda bola que pegou, mandou pro fundo do balaio do Inter, em plena casa do adversário, acendendo outra vez a chama da esperança da torcida de que o Mais Querido do Brasil saia da zica em que se encontra.

Pois bem, por causa de acordo com o Corinthians, clube pelo qual Guerreiro jogava até pouco tempo atrás, ele não pode enfrentar o ex-clube.

Ou seja, o Flamengo vem de uma vitória importante e não vai poder contar com o jogador que se desenha ídolo da Gávea, justamente num jogo contra o clube que, depois do próprio Flamengo, é o mais popular do Brasil, jogo este que poderia chamar torcedor, lotar o Maraca e colocar um bom troco nos sempre raspados cofres dos times.

Na semana em que se completa um ano do atropelamento e morte da seleção brasileira, morra também, de vez, futebol brasileiro, abraçado a algum gênio do marketing esportivo, que nunca deve ter chutado uma bola descalço no asfalto.

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