André Giusti - foto: Luana Lleras
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Fonte vsegurosconsultoria.blogspot.com

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O cenário é o estacionamento de um dos melhores colégios de Brasília e provavelmente do país. O estacionamento fica ao lado, ocupa um terreno do mesmo tamanho do terreno do colégio, e precisa ser assim, afinal são cerca de seis mil alunos.

O nível do ensino é proporcionalmente inverso ao nível de gentileza que os pais e responsáveis adotam dentro do estacionamento.

Tente sair de uma vaga em horários de entrada e saída dos alunos. É tarefa mais difícil do que as provas do próprio colégio.

Com milhares de alunos, a fila de carros que se forma é gigantesca. Luz de ré acesa, movimento do carro deixando claro qual é a intenção do motorista, mas ninguém para, ninguém cede a vez, mesmo que haja um gesto de mão pedindo clemência.

Outro dia, no estres de conseguir sair da vaga, um motorista ouviu do outro, que não lhe deu passagem: a preferência é minha, mostrando que na sociedade de hoje preferência é mesmo mais importante que gentileza. Como se o filho de um não fosse colega do filho do outro, como se no dia seguinte quem nega a passagem não fosse precisar que alguém lhe cedesse a vez.

A falta de coletivismo incentiva atitudes que em nada melhoram a situação. O pai de um aluno meteu o dedo na cara de um motorista de van escolar, que também lhe negara passagem, e disse aos berros: você serve pra transportar gado, e não criança. O banzé pode não se justificar, mas não deixa de ser compreensível.

No estacionamento dessa escola, é de se perguntar por que os pais gastam tanto dinheiro com a formação dos filhos, se o básico, o que é de graça, eles não dão: a educação para que respeitem e considerem o próximo, o semelhante.

Ali, naquele lugar, nunca se fez tão necessária a reflexão: que filhos vamos deixar para o mundo?

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Reprodução

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Ganhei Apontamentos de História Sobrenatural de meu velho pai quando eu tinha 15 anos.

É uma idade perigosa para se ler poesia. Você pode ser capturado por ela e nunca mais ser devolvido ao mundo dos certos, sensatos, coerentes e ponderados.

Foi o que aconteceu comigo.

Além de ter 15 anos, eu provavelmente estava apaixonado, pois jamais me esqueci deste poema, chamado O vento.

“Havia uma escada que parava de repente no ar
Havia uma porta que dava para não se sabia o quê
Havia um relógio onde a morte tricotava o tempo

Mas havia um arroio correndo entre os dedos buliçosos dos pés
E pássaros pousados na pauta dos fios do telégrafo

E o vento!

O vento que vinha desde o princípio do mundo
Estava brincando com teus cabelos…”

Mário Quintana tinha um quê bem latente de misticismo, mas que no geral passava longe da religiosidade e distava muito, mas muito mesmo, do esoterismo. Também por este aspecto – o místico – ele me conquistou de cara.

Mas o determinante para que se torna-se meu poeta favorito (ele ganha apenas por meio corpo de Drummond e Leminsky, mas ganha) foi seu jeito. Quintana não era poeta apenas porque escrevia. Era poeta porque vivia como poeta, e poesia é algo muito além de escrever. Poesia é a forma como se olha a vida, e pra isso nem é necessário escrever uma linha.

Além desse lado docemente fantasmagórico, Quintana era divertido em seus poemas, irônico, debochava da sociedade de uma modo quase infantil, tamanha a pureza com que fazia isso.

E era romântico, um romantismo totalmente oposto à pieguice e ao romantismo enjoativo feito glacê de bolo.

Quintana faz parte não apenas do meu mundo de leitor, ele habita até hoje meu mundo de homem, de pessoa.

Desde que li o poema acima, o vento do princípio do mundo esteve sempre brincando com os cabelos de todas as mulheres que amei.

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Fonte www.allposters.com.br

Fonte www.allposters.com.br

É óbvio que ninguém gosta de alguém por que quer gostar. Se fosse assim, não haveria sofrimento, muito menos dupla sertaneja.

A gente gosta porque gosta, e em boa parte dos casos não consegue a explicação.

Mas quem sabe o tempo e as cicatrizes nos ajudem a entender que é melhor gostarmos de uma pessoa que se pareça conosco naquilo que temos de bom, que tenha ao menos algumas das nossas (poucas ou muitas) qualidades.

Evitemos, depois de tanta ladeira e trilha acidentada, nos envolvermos justamente com quem possui alguns (ou quase todos) dos nossos defeitos, principalmente os piores.

Procuremos querer aqueles ou aquelas que, a exemplo de nós, gostem de lua derramada em espelho d’água, ou que se lembrem com exatidão do perfume da mata na estrada para Ouro Preto de manhã cedo.

Fujamos, por experiência acumulada, de quem se assemelha a nós naquilo que temos de pior, sejam as inseguranças, os ciúmes descabidos, os complexos de superioridade ou inferioridade, as mesmas invejas.

A possibilidade de as coisas darem certo no primeiro caso é real, mesmo que ainda não tenhamos comprovado, porque, quem sabe, nunca encontramos alguém que se irmane a nós em nosso lado bom da força.

No segundo caso, as hipóteses de sucesso são quase nulas.

E disso nós sabemos muito bem, a ponto de podermos evitar.
*
Acesse também minha fã peigi no feici búqui: https://www.facebook.com/andre.giusti.5?ref=hl

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O Encontro Marcado

Quando eu li O Encontro Marcado pela primeira vez, eu tinha apenas 15 anos.

Reli-o outra vez aos 17 e uma terceira, já adulto, com 20 e tantos, o que me provou que, na primeira leitura, eu não tinha maturidade suficiente para entender o principal romance de Fernando Sabino e um dos mais importantes da literatura brasileira no século 20.

Mas por incrível que pareça, a primeira vez que devorei a história angustiada de Eduardo Marciano foi a mais marcante para mim.

Eduardo é o próprio Fernando na juventude e isso nunca foi segredo, do mesmo modo que a plataforma dos outros personagens, amigos de Eduardo, são Hélio Pellegrino, Oto Lara Resende e Paulo Mendes Campos, amigos da vida toda do autor.

Certo trecho do livro fala sobre as derrotas, que a vida é feita delas, bem mais, muito mais do que as vitórias. Um desses personagens – não lembro agora qual – é categórico ao dar a garantia a Eduardo Marciano: “Na vida, perdemos sempre”.

Aquilo calou fundo em mim, pois à época eu vivia, pelo que me lembro, a primeira das minhas decepções amorosas, e aos 15 anos elas são sempre maiores do que realmente são. E o livro se tornou eterno para mim por este e por outro motivo: assim como Eduardo Marciano, eu era candidato a escritor, e toda aquela agrura do personagem, em seu embate com a literatura, já fazia parte também de mim, embora eu sequer soubesse, e muito menos entendesse.

Nos últimos meses, procurei sem sucesso, folheando o livro, esse trecho especificamente, para reproduzi-lo aqui no blog e retomar novamente essa seção, chamada Livros da Minha Vida. Até parece que ele se perdeu nas páginas amareladas pelo tempo.

Mas se não reencontrei essa parte do livro, não há problema. Sua mensagem ficou na minha memória feito marca de canivete em tronco de árvore, até porque após demissões, divórcio e mortes a comprovei ao logo da vida: perdemos sempre, em todos os campos, em todas as idades, e mesmo que não saibamos exatamente porque, seguimos sempre tentando recomeçar.
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Acesse também minha página no feici búqui: https://www.facebook.com/andre.giusti.5?ref=hl

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Acabo de ler nas agências de notícias que um estudante de 13 anos e outro de 19 foram esfaqueados hoje, aqui em Brasília, durante uma tentativa de assalto.

Parece que o alvo do ladrão era o celular. As vítimas, pelo que percebo, são meninos de classe média, alunos de um bom colégio e de uma boa faculdade, provavelmente moradores de bons lugares.

O assaltante é o mesmo, mas deu as facadas em momentos diferentes e em pontos opostos da cidade: Asa Sul e Asa Norte.

Trata-se de um menor, e, aguardando que seja retomada ainda hoje a mesma saraivada enraivecida de pedidos pela redução da maioridade penal que deu o tom da semana que está se acabando, recebo a mensagem da mãe de um aluno da escola das minhas filhas. Ela diz que é por isso que não deixa o filho, também de 13 anos, sair sozinho. Respeito. Cada um tem seu modo de combater a violência, inclusive impedindo os filhos de viver.

Não sei ainda, mas o histórico do adolescente infrator não deve diferir muito do outro que matou o médico, também a facadas, no Rio: faltou família, faltou escola, não foi um problema de idade para se punir e condenar.

Já deve ter gente parando por aqui a leitura, me mandando ir pra Cuba e me perguntando se eu pensaria assim caso uma de minhas filhas fosse esfaqueada. Mas peço licença para lembrar que além do passado desses infratores (que nenhum de nós da classe média tem a mínima ideia de como possa ter sido, porque simplesmente sempre tivemos família e escola), me parece que há outro motivador importante ligando também os três crimes. Eles queriam a bicicleta cara, o celular caro, e em outras vezes mataram e feriram por um par de tênis caro, por um casaco da moda, todos esses objetos e tantos outros que a mídia, com o bombardeio da propaganda, nos faz acreditar que precisamos desesperadamente ter e engolir para sermos aceitos por uma sociedade que sim, cada vez mais olha o semelhante de acordo com o celular, o tênis, o casaco, o carro, e por aí vai.

E pergunto se isso não é também uma grande facada, e ainda maior, a entrar todos os dias em nossa carne, provocando uma brutal hemorragia que, anestesiados, seguimos em frente sem sentir?

Fonte www.cantuemfoco.com.br

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Fonte vimeo.com

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Assisti a dois filmes neste fim de semana que penso valerem registro.

O primeiro é Três Corações, uma produção francesa do ano passado.

A história trata de uma terrível coincidência amorosa, que embora inusitada, não isenta nenhum mortal de vivê-la, mesmo que a possibilidade seja menos que ínfima.

Dois pontos me chamaram a atenção no filme. Um é a tensão permanente, que vai quase da primeira cena até a última.

O outro é o final. Feliz? Triste? Trágico? Suave?

Necessário, eu diria.

Fonte www.adorocinema.com

Fonte www.adorocinema.com

O segundo é Um pombo pousou num galho refletindo sobre a existência, um filme de nacionalidade quadrupla.

Se o título causa estranheza, espere para ver o filme.

Ele é tão estranho, que provoca até gargalhadas em alguns momentos, especialmente no começo.

Mas logo depois o que aparece na tela é de dar nó na cabeça.

Quando algo ameaça fazer sentido, há um novo surto no roteiro, na direção, e tudo volta a ser um quebra cabeça lisérgico de dez mil peças.

Não se sinta burro quando sair do cinema.

Desconfie é da honestidade intelectual de quem disser que esse filme é uma obra de arte, uma sacudida da genialidade na mesmice do cinema.

Porque não é.

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The first time I met the blues certamente foi ouvindo você cantar e tocar.
E hoje o céu ficou mais blue.
Valeu, Menino Rei do Blues!

Fonte www.oesquema.com.br

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Ela já foi um cachorro que entrava em casa, subia no sofá, metia-se nas cobertas quando dormia na cama dele.

Fazia cocô e xixi na sala.

Até que um dia ele resolveu que ela ficaria lá fora, e fechou a porta das visitas e também a dos fundos.

Hoje ela ainda late, mas é lá do fundo do quintal, presa na casinha, sem água nem ração.

Às vezes, quando a casa está em silêncio, ainda se ouvem seus latidos, cada dia mais exaustos.

Chegará o dia, e este não tardará, em que ela estará morta ao amanhecer, e ele a enterrará sem qualquer emoção.

Apenas com as marcas secas do tempo em que ela entrava em casa.

Fonte noticias.band.uol.com.br

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Releio O Alienista, um dos mais famosos contos de Machado de Assis, e me detenho algum tempo em um detalhe que passou despercebido na primeira leitura, há anos.

É a explicação do bruxo do Cosme Velho do que seja matraca. Ao ler sua descrição, concebe-se como perfeito o significado que a palavra possui na atualidade.

Como no Brasil colônia não havia imprensa, algumas formas rudimentares davam ao povo a satisfação do que acontecia na sociedade.

Uma delas era a matraca, instrumento que, pela descrição de Machado, fazia, em linguagem contemporânea, um esporro do cão.

Quem tinha algo a comunicar à sociedade – qualquer fato, nascimento, morte – contratava um sujeito, que parava no meio dos povoados de então e começava a tocar a matraca. O barulh0 atraía o povo e a mensagem era dada. Com a maestria de quem foi o maior escritor brasileiro de todos os tempos, e um dos maiores do mundo, Machado de Assis escreve que “O sistema tinha inconvenientes para a paz pública”. A partir do atual significado do vocábulo, é de se imaginar o quanto.

Portanto, se você não conhecia esta história, agora, quando seu sua chefe chefa mulher marido namorada namorado colega de trabalho desandar a encher seus ouvidos com a língua sem freio, contenha-se, e desvie sua ânsia de lhe apertar o pescoço para pensar na genialidade de Machado de Assis.

Fonte www.memorialdoimigrante.org.br

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Distraído, chega na bilheteria do cinema e pede:

- Moça, vê uma inteira pro Terra Salgada.

Contando as notas pro troco, ela responde, sorrindo no canto da boca:

- É quase isso, moço, é quase isso…

Fonte imovision.com.br

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