André Giusti - foto: Luana Lleras
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resposta

Escrevi esse poema quando tinha 19 anos.

Logo depois, Mauro Cesar o musicou em alguma daquelas tardes/noites intermináveis de Rio das Ostras dos anos 80.
Agora em dezembro ele me disse que a nossa música, feita na época do vinil e da fita K7, vai ser gravada e posta no spotify.

Três décadas depois.

Cantou pra mim baixinho, à capela mesmo, no bar ainda vazio, enquanto esperávamos que chegassem parte dos amigos daquela época.
Quando ele terminou, parecia que eu tinha acabado de escrever, e ele de fazer a música.

Era tanto frescor, que nem parecia que aquilo nascera num tempo que fica cada vez mais distante no calendário (e mais perto na saudade).

Perdão aos mais exigentes se esse poema não é literatura, mas apenas a emoção sincera e pura de um garoto de 19 anos apaixonado pela vida.

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E como tomei um chá de cinema neste fim de semana, fiquei pensando nos filmes a que já assisti na vida e fiz uma rápida seleção dos melhores, na minha opinião. Espremi muito, e com muito esforço cheguei à conclusão de que esse três foram os que mais me emocionaram.

Forrest

cinema paradiso

O Filho da Noiva

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Paper boy capa

Um livro que você compra por R$ 10 naquela bienal de literatura, em que a literatura mesmo passou longe. Parecia feira de papelaria, de concurso público ou de livro religioso.

Um livro que você não sabia que era best seller, segundo o New York Times.

Que você não imaginava que houvesse virado filme com alguns atores que você gosta.

Muito menos que houvesse sido indicado à Palma de Ouro, em Cannes.

Um livro sem invencionices literárias, sem experimentos pretensamente geniais, sem personagens pretensamente densos, complexos e fascinantes, daqueles que te fazem se sentir imbecil, porque você acabou dormindo ao tentar entendê-los.

Um livro que não é de nenhum autor que está em alguma lista dos dez autores contemporâneos mais imprescindíveis do momento, daqueles que quando você lê, não entende porque o sujeito está na lista.

Um livro que você não entende como pode ser o único do autor traduzido para o português.

Um livro que você só larga porque precisa dirigir, ir trabalhar e tocar a vida.

Um livro que te faz querer que o dia acabe logo, pra você voltar pra casa e ler.

 

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Floresta da Tijuca/RJ Foto Giustipress

Floresta da Tijuca/RJ
Foto Giustipress

- Que vida besta essa tua, hein, tartaruga? – o homem disse, e deu uma cuspidinha.

O bicho moveu a pequena cabeça fora do casco:

- Melhor que a tua, estressado pra pagar conta e criar filho.

- …

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Púlpito Cristão

Púlpito Cristão

Na calçada entre o Conjunto Nacional e o Conic, dois dos centros comerciais mais importantes de Brasília, você vê o que quer e o que não quer.

Há lá um senhor de seus 70 anos, que não tem uma das pernas, mas tem um dos assovios mais afinados que já ouvi. Não é exagero dizer que parece uma flauta. Para acompanhá-lo, ele tocava um padeiro com uma pegada de percussionista.

Divertido, sempre tinha uma piada para quem passava. Coisa leve, nada impróprio, do tipo “a vida de casado é boa… mas a de solteiro é melhor”.

Quando eu ia pro almoço, me aproximava dizendo “a vida de casado é boa…” e ele completava “…mas a de solteiro é melhor”, para soltar em seguida uma risada ainda mais engraçada.

Na volta, eu deixava uma moedinha pra ele e soltava uma outra frase do seu próprio repertório: “vamu trabalhar, se não a mulher vai embora”. E ele repetia. E ria em seguida. E voltava a assobiar e a bater com ritmo seu pandeiro.

Sumi uns tempos da rota Conic-Conjunto Nacional.

Reapareci outro dia e dei com o sinhozinho de uma perna só, assovio de flauta e pandeiro de mestre. “A vida de casado é boa…”, brinquei, mas ele não completou. Até sorriu, mas, com um livro preto na mão, me devolveu a brincadeira com uma pergunta, estranhamente austero: “vamos ouvir a palavra de Deus, irmão?”

Desconcertado, segui meu caminho. Na volta do almoço, nada de assobio nem pandeiro, muito menos piada. Apenas “vamos ouvir a palavra de Deus, irmão?”.

Nada contra suas escolhas, seus novos caminhos.

É que tantas vezes passei por ali amargurado, triste, e as brincadeiras dele, sempre de bem com a vida, não obstante a perna que lhe falta e a esmola que pedia, me deixavam um pouco melhor.

Ele pode ter se encontrado espiritualmente, mas pra mim, tornou-se uma pessoa sem graça.

Eu precisava mais de suas piadas do que da palavra de Deus.

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Giustipress

Giustipress

- Filha, por que você pintou só um pedaço das unhas ?

- Ai, pai! O nome disso é francesinha

-…hum, sei…

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Só vim pra dançar Cast

Só vim pra dançar Cast

A crítica desceu o pau, mas acho que O Vendedor de Sonhos, do diretor Jayme Bom Jardim, é um filme necessário.

Como cinema, deixa realmente a desejar. Há buracos no roteiro e saltos na história, mas que acabam relevados por causa da mensagem.

Porque, lá pelo meio do filme, você enxerga que o que vale ali é a mensagem, e não o cinema.

Na história – realmente fantasiosa, como pregam os críticos – os personagens de Dan Stulbach e César Troncoso chamam a atenção para o que nos separa de quem amamos, para o que nos mata todos os dias, nos deixando hipocritamente vivos.

É um filme que denuncia o sistema de uma forma até óbvia, mas acho que precisa ser assim mesmo, porque o sistema está alimentando em nós mazelas, que embora nítidas, nós não estamos conseguindo detectar.

Aliás, desconfio que parte do desprezo da crítica (que está inserida na mídia, é sempre bom lembrar) vem justamente dessa cutucada forte que o filme dá no sistema capitalista.

Vá ao cinema assistir a O Vendedor de Sonhos. Releve o filme, preste atenção na mensagem.

 

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andradetalis - WordPress.com

andradetalis – WordPress.com

Passando pela seção de vinhos do Carrefour Bairros, na 312 norte, em Brasília, me chama a atenção o preço do chileno chamado Travessia, um cabernet que se não é nada do outro mundo, também não nos faz passar vergonha.

Na etiqueta amarela da promoção está escrito, bem claro: R$ 25,99. Aproveito, ponho no carrinho.

Depois de passar no caixa, confiro a nota: R$ 30,99.

Tenho o trabalho de ir novamente à gôndola, e me certifico de que não enxerguei mal: R$ 25,99.

Volto ao caixa. A gerente olha a garrafa, vai lá dentro, volta, pega R$ 5 e me dá de troco, sem dizer nada, sem pedir desculpa.

Seu comportamento me sugere que aquilo é rotina, e logo imagino que de cada cinco clientes, talvez apenas dois confiram a nota e peçam a diferença. Então, já são R$ 15 a mais no faturamento da empresa às custas da (não) promoção.

Claro, claro, pode ter havido um erro técnico, uma falha operacional, nenhuma má fé.

Mas em um país em que não se pode confiar no principal tribunal de Justiça, como acreditar no supermercado?

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G1 - Globo.com

G1 – Globo.com

Já me ocupei muito de falar sobre gente que com o shopping lotado não recolhe a bandeja com o prato em que comeu. Deixa em cima da mesa mesmo, pouco se importando com quem vem atrás equilibrando outra bandeja, com o prato cheio.

Há muito não falo, mas o assunto continua aqui, entalado.

E hoje me lembrei de alguns que, se justificando, dizem que não tiram a bandeja porque assim ajudam a manter o emprego dos funcionários da limpeza, que fazem por ofício o que todos nós podemos fazer por gentileza e senso de viver em comunidade.

É que hoje reparei em algo óbvio.

Quando recolhemos a bandeja da mesa da praça de alimentação, não a devolvemos diretamente ao restaurante. Colocamos em cima daquelas lixeiras grandes, que lembram grandes armários de cozinha, que geralmente ficam junto a pilastras.

E quem as leva dali de volta aos restaurantes? Os funcionários da limpeza.

Ou seja, empregos garantidos.

E hipocrisia e falta de educação e senso coletivo definitivamente desmascarados.

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 Luiza Garonce/G1

Luiza Garonce/G1

Não sou a favor de pichação e depredação a monumentos e prédios públicos, embora não entenda muito o escândalo que se faz quando isso acontece.

Hipócrita, a sociedade não lembra que pouco ou quase nada se importou em ensinar aos jovens a importância de se preservar o que é público, de dizer que o público é de todos. Até porque, em tantos casos, ela própria acha que o público é particular, e no privado faz uso ilícito e imoral dele.

Fora isso, quando o público é uma praça, um parquinho infantil ou uma quadra de esportes abandonados e destruídos na periferia, não há clamor, muito menos indignação de contribuinte e cidadão.

Em todo o caso, se a tática é mesmo partir pra ignorância, que tal, por exemplo, se deixar de lado museus, ministérios e monumentos, e picharmos os muros, estilhaçarmos as vidraças da casa do deputado que desviou dinheiro da merenda?

Que tal virar de cabeça pra baixo o carro do senador que afanou o dinheiro do remédio de alto custo? O carro particular, e não o oficial, pago do nosso bolso. Que fique claro.

Que tal incendiarmos o jipão importado do executivo do banco que determina a cobrança extorsiva de juros e nos rouba cada vez mais com  taxas escorchantes criadas sempre a cada mês?

Por que não afundamos a lancha ou o iate – sob uma linda fogueira de óleo diesel – do diretor da companhia telefônica que manda a moça do telemarketing estar vendendo para nós 10 mega de internet, mas não nos entrega nem três?

Se a estratégia é mesmo a estupidez, acho que estamos atacando os alvos errados.

 

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