André Giusti - foto: Luana Lleras
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Quase não tenho memórias do meu primeiro dia dos pais. Sei que minha filha mais velha era bebê, estava beirando fazer um ano e ainda não andava. Portanto, tinha que carregá-la no colo, carrinho ou no tal bebê conforto, cujo nome correto deveria ser “papai desconforto”. Por causa dele, aliás, precisei aumentar a carga na musculação e fazer alongamento que nem gato.

A lembrança mais forte me remete a um único detalhe da festinha na creche onde a pequena havia sido matriculada. Era uma frase, sem assinatura, no painel do corredor principal: “Pai, pise firme! Eu seguirei os seus passos.”

Nunca descobri o autor, assim como jamais li qualquer outra coisa tão bela e significativa que se referisse à relação pai e filha(s), no meu caso. Consegue ser objetiva e ao mesmo tempo ampla em sua mensagem, enquanto que sua força está nos sentimentos de confiança e responsabilidade que carrega. O primeiro, da parte de quem fala. O segundo, do lado de quem ouve.

Ao ler a frase, me peguei chorando a ponto de pôr os óculos escuros para disfarçar. Metade das lágrimas, claro, era por causa do primeiro dia dos pais como pai. A outra metade – e ali só eu sabia disso – era por causa do primeiro dia dos pais do filho que meses antes ficara órfão. Órfão de pai.

*Publicado em 10.8.2013

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A Brasília da Rodoviária do Plano Piloto e do Conic é bem mais interessante que a da Esplanada dos Ministérios.

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Um dos paradigmas que mais oprime o ser humano, especialmente o homem no sentido masculino, é o de que chorar significa fraqueza.

Se fosse possível contabilizar, é possível que víssemos o quanto, ao longo da história, essa postura equivocada da sociedade provocou de câncer, infarto, derrame, alcoolismo, dependência das drogas e suicídio.

Mesmo com todo reconhecimento conquistado pela psicanálise e psicologia no último século, a desconfiança em relação à personalidade de quem verte lágrimas parece não ter abandonado o imaginário social. Vide as críticas que os jogadores da seleção sofreram na Copa, e isso bem antes da chinelada da Alemanha.

Alguns conceitos difundidos nas últimas décadas sobre liderança e gestão me parecem também ter posto lenha numa fogueira que para o bem da sanidade mental da espécie deveria estar é se abrandando. O melhor líder é o que não fraqueja? Ou o que se mostra falho como toda pessoa?

Não é chorar por tudo, mas nunca chorar pode ser o caminho mais breve para a loucura, e não digo a loucura sã dos artistas e dos de bem com a vida, mas a loucura que leva às trevas da alma.

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Ninguém precisa ver, e, dependendo de quem esteja perto, é melhor que não veja mesmo, mas no silêncio do quarto, na casa vazia enquanto os outros não voltam, debaixo do chuveiro aberto que abafará os soluços, chore mesmo, amiga, amigo, por amor, morte, traição, decepção, demissão.

Certamente as lágrimas não vão trazer o desfecho, a solução do problema ou livrá-lo do drama numa passe de mágica, mas dentro do peito o coração despedaçado ficará ao menos um pouco mais leve. E, desculpe-me a obviedade, tudo que é mais leve é mais fácil de carregar.

Outra coisa: não se force a ter esperança, não se desespere se procurá-la dentro de si e ela não responder de imediato. A exemplo do amor, esperança não se encontra em prateleiras.

Há horas em que parece mesmo que todas as portas estão cerradas, todas as luzes apagadas e você nem desconfia de onde esteja o interruptor mais próximo.

Pois a esperança virá quando você menos espera. Quem sabe depois de você chorar a noite inteira, se for preciso?

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1. Se pra quem tá bem final de domingo já é uma bosta, imagina pra quem tá fodido.

2. Você não precisa de motivo nenhum pra lembrar da pessoa, mas a porra do acaso ainda te dá mais uns 40.

conversa

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A Revista Mallarmargens publica três poemas meus que fazem parte do livro Os filmes em que morremos de amor, ainda inédito.

Boa leitura!

http://www.mallarmargens.com/2014/07/3-poemas-de-andre-giusti.html

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Olhem os carros que carregam campanha desses dois candidatos a deputado em Brasília. Será que eles vão defender o interesse de quem anda de ônibus? Acho que não, hein?

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A recente visita que fiz ao Centro de Ensino Fundamental da Vila Planalto, em Brasília, para uma palestra sobre literatura, me permitiu comprovar duas coisas.

A primeira é que a burocracia, com sua vaidade e indolência, chega a ser inimiga da racionalidade.

Desde o início do ano, alguns móveis velhos e destruídos estão acumulados no fundo da escola. É lixo, não há outra definição para o amontoado de ferro e madeira de fórmica sem qualquer utilidade para um país que precisa com uma urgência de séculos investir no ensino básico.

Mas por que então não se recolhe toda aquela tralha inútil e se dá a ela o fim lógico? É porque se trata de patrimônio, e como tal necessita de regras até mesmo para deixar de existir, o que, aliás, é compreensível.

Mas qualquer um que tenha passado um mínimo de tempo no serviço público é capaz de ao menos imaginar alguns motivos para se emperrar a tarefa simples de jogar no lixo o que já não presta mais.

É bem possível que dona burocracia esteja refém de seus filhotes vaidosos, que, por preguiça funcional ou pequenez de seus cargos e de suas almas, estejam protelando ao máximo uma simples assinatura ou um carimbo banal, porque isso lhe traz uma idiota sensação de poder que ameniza suas frustrações pessoais.

A minha outra confirmação diz respeito a essa necessidade de ter e essa visão descartável do consumo que escraviza a cada ano mais a classe média brasileira, sempre inquieta com seus smartphones ultrapassados e seus televisores que não possuem as polegadas necessárias.

Nesta escola há dois irmãos gêmeos, que nos últimos dias frios em Brasília não têm aparecido juntos na aula. Um dia, vai um; outro dia, vai outro. Intrigada, a diretora procurou a mãe dos dois para saber o motivo. É que só há um casaco para os dois, e assim eles fazem revezamento para usá-lo. Vai à escola quem estiver no dia de usar o casaco.

Simples como jogar fora o que é lixo.

Moveis escolares

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