André Giusti - foto: Luana Lleras
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Não tenho certeza, mas me parece que há uma brisa na literatura nacional soprando na direção de se inovar a forma de escrever um romance.

Há autores tentando, e alguns conseguindo manter o interesse do leitor.

Caso de José Rezende Jr. em seu recém-lançado A Cidade Inexistente (7Letras).

A história aborda um drama silencioso e desconhecido do Brasil que vive nas grandes cidades: as pessoas atingidas por barragens, que tiveram que sair, muitas vezes às pressas, do lugar onde viveram durante anos, porque sua história e a de sua família despareceu debaixo das águas de alguma hidrelétrica.

Como inovação, no livro não há, declaradamente, um personagem principal, papel que parece caber à própria cidade afogada.

Personagens se revezam recebendo as luzes principais da narrativa.

Ora um aparece mais do que outro, e logo em seguida se recolhe por algumas páginas, para dar espaço a quem aguardava a vez.

Uma aposta feliz de Rezende, capaz, com essa ousadia, de inclusive abiscoitar outro Jabuti, o que já fez alguns anos atrás.

E o que embala o leitor no vai e vem de cada personagem é a narrativa dotada de extrema sensibilidade humana, com invólucro da mais fina poesia.

Não me consta que Rezende seja poeta, e se de fato não é, conseguiu ser, inovando na forma de escrever um romance.

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Moro

Nesta 4ª feira, no Senado, certamente o ex-juiz vai dizer que é normal magistrado conversar com promotores.

Suponho que realmente seja.

Minha dúvida é se é normal um magistrado estar em grupos de zap conversando com os promotores.

Por mais formal que seja, um grupo dessa espécie sugere proximidade, objetivos em comum.

Será que ele também fazia o mesmo com os advogados de defesa?

Se é normal para um lado, deveria ser também para o outro, eis minha outra dúvida.

Enquanto isso, aguardo mais celeridade do Intercept nas revelações sobre esses diálogos.

Greenwald voltou a repetir que o material está sendo analisado, checado, em nome do bom e responsável jornalismo.

Muito bom que seja.

Mas pela minha experiência na profissão, séries de reportagens chegam ao público apenas depois de superada essa fase de checagem e comprovação.

O diálogo envolvendo FHC é pesado, incômodo (que uso aqui como eufemismo de comprometedor), mas acho que está havendo mais propaganda do que entrega por parte do site.

Ou de uma entrega mais rápida.

Paciência não é um recurso renovável.

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O Sérgio Augusto Novaes Cabral postou o link da gravação ao vivo dessa música aí debaixo.

O meu link é a versão de estúdio.

Certamente é o maior hit do Foreigner, uma banda meio farofa meio sessão da tarde (é só reparar no vídeo, que está a uma passo da cafonice).

E eu não tô nem aí, porque me amarro no Foreigner e essa é, em minha opinião, uma das canções mais lindas de minha geração e de toda a história da música pop.

E torna-se mais bela pela lembrança que me traz.

É que a 1ª vez que a ouvi foi em uma baita festa pra lá da Curicica, um lugar no Rio que à época era provável que fosse demarcado pela Funai, mas que hoje deve estar coalhado de condomínios e shoppings com estátua da liberdade na entrada.

Não conhecia a dona da festa, fui arrastado por um camarada da escola, que tinha um fusca azul com um siri enfeitando a alavanca de câmbio.

Eu ainda não tinha idade para dirigir.

Mas como o fuscão azul vivia sem gasolina e a gente sem dinheiro, fomos de ônibus.

Na volta, perdemos o busum / baú e tivemos que andar durante duas horas – mato de um lado e de outro – no meio da madrugada.

Tudo isso para pegar um 2º ônibus que nos levaria até um ponto onde, então, pegaríamos um último até em casa.

Passamos mais tempo indo e voltando do que na festa.

E rimos de tudo, e nos divertimos com tudo.

E a música se tornou inesquecível, e todo aquele tempo também.

Por que a gente desaprende a relaxar quando cresce, quando vira adulto?

Não deveríamos, porque quando começamos a envelhecer, percebemos que precisamos urgentemente reaprender.

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Verão de 1984.

Mais de uma hora de ônibus até a praia, em Ipanema, posto 9, em frente à rua Joana Angélica.

Me achava o Menino do Rio, o André de Biase do subúrbio.

Amarrada no cadarço do calção a grana certa prum guaraná (Guaraná Taí, gostoso como um beijo!) e um pão de mel na padaria da esquina com a Visconde de Pirajá.

Na cabeça era tanto sonho que um verão só não bastaria para viver tudo.

No coração, a alegria de encontrar meus amigos e saber que iríamos rir muito, muito mesmo.

Nos ouvidos, essa canção do Slade, que tocava de 5 em 5 minutos na Rádio Cidade.

Nada de viver no passado, mas às vezes dá vontade de voltar lá rapidinho, dar uma choradinha de alegria e, pronto, encarar de novo o presente, que é o que existe de verdade.

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1 – Tanta escola pra fazer ou melhorar, tanto hospital pra fazer funcionar bem, tanto esgoto pra colocar e a discussão é sobre quem pode ou não usar fuzil.

(Parabéns aos envolvidos).

Bolso

2 – “Eu tenho arma há anos e nunca matei ninguém”. O sujeito fala como se ele, armamentista, fosse ser a regra em um país onde vai ficar 10 vezes mais fácil ter uma arma. E fala com um tom de quem está fazendo um grande favor a todos nós sendo civilizado e não fazer nenhuma cagada com o trabuco na mão.

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canstockphoto.com.br

canstockphoto.com.br

Teria sido suficiente e acima de tudo republicano dizer que “todos têm o direito de se manifestar, mas peço que entendam que o Brasil passa por um momento orçamentário difícil e os cortes são necessários, inclusive na educação”.

Mas ao chamar manifestantes de “massa de manobra” e “idiotas úteis”, o governante só reafirma seu (único) talento, conhecido há mais de 20 anos, de jogar gasolina na fogueira, além da sua não menos conhecida total falta de preparo para o cargo que exerce.

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André Dahmer

André Dahmer

O cartum de André Dahmer me remeteu a uma impressão / sensação que sempre tive em relação à literatura, e mais especificamente à crítica literária e ao gosto das editoras.

É só uma impressão, repito, mas me parece que livros cujos personagens são doentios, infelizes, psicopatas, violentos – por aí vai – são mais bem aceitos e ovacionados pela crítica literária.

Não tenho qualquer levantamento estatístico; apenas meu exemplo pessoal.

Em meu 1º livro, Voando Pela Noite (Até de Manhã), lançado em 1996 pela 7Letras, há um conto em que o personagem principal cheira cocaína o tempo inteiro, estupra uma colega de faculdade e se mata (e mata a garota) em um acidente de carro.

Sempre foi o conto preferido da editora, a ponto de, na 2ª edição, em 2013, ter passado a ser o último do livro, para “fechar com chave de ouro”.

Relembrando de alguns (bons) títulos que li nos últimos anos e que foram premiados, verifico que todos eles têm personagens principais doentios, tristes, assassinos ou que acham a vida uma bosta e o ser humano sem salvação.

Personagens ricos, sim, com muito conteúdo, mas nenhum feliz, nenhum “de boa” como se diz hoje, construindo no leitor uma perspectiva melhor do mundo e da humanidade.

Até me pergunto se não é uma derivação intelectual-literária do sensacionalismo dos programas popularescos de TV.

É normal que a literatura aborde a tristeza e suas primas, os desvios de comportamento e seus derivados, pois todos fazem parte da vida.

Mas alegria e a bondade também fazem.

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Guia do Filósofo Aprendiz na Internet - Blogger.com

Guia do Filósofo Aprendiz na Internet – Blogger.com

Filosofia, sociologia e história – especialmente filosofia – não são apenas disciplinas importantes.

São as mais importantes de todas e assim deveriam ser consideradas por quem monta os currículos escolares.

Com todo respeito e reconhecimento às outras matérias, é mais necessário que antes de conhecer equações, fórmulas que cruzam massa e velocidade ou combinações de metais e gases o ser humano estude sobre sua condição nesse planeta e seu papel nessa existência.

Fundamental também que identifique, já nos primeiros bancos escolares, o que é sua relação com o meio em que vive e o que aconteceu no país e no mundo antes de ele, aluno e futuro cidadão, nascer, para que erros do passado não retornem ao presente.

O problema é que as três disciplinas formam pessoas pensantes, capazes de contestar sistemas e quem os conduzem, o que é uma ameaça em potencial ao poder.

O sistema educacional brasileiro, opressor e apenas preocupado com resultados em programas de seleção (para que possa estampar índices de aprovação em outdoors de propaganda de colégios para brancos e ricos) privilegia matérias que exigem raciocínio, mas não pensamento.

E como já esperávamos, essa forma de ensinar nossos estudantes é também agora uma maneira de governar.

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Paulo Brant, vice-governador de MG e o governador Romeu Zema (Novo)

Política é ambiente dos cínicos e partidos políticos são território dos hipócritas.

Todos eles, em maior ou menor grau, mesmo os que possuem certa consideração e preocupação com a sociedade, distanciam seus discursos de campanha ou de tribuna (quando seus representantes são eleitos) da prática diária nos parlamentos ou palácios de governo.

Mas, no quadro atual, o tal partido Novo se supera na hipocrisia.

É o partido do banqueiro João Amoedo, candidato que, após a comprovação dos esperados desatinos do governo Bolsonaro, começou a receber tantas declarações posteriores de voto no 1º turno do ano passado, que é de se estanhar que não tenha ido para o 2º turno.

É o partido que prega o Estado mínimo, enxuto, com arrocho nos gastos públicos, mas cujo vice-governador de Minas usou bem faceiro o helicóptero do governo para sair de um SPA de luxo no último feriado.

Mesma aeronave que, 2º a imprensa mineira, é usada sem parcimônia pelo governador, como se seu partido jamais houvesse falado em contenção de gastos, em Estado administrado como empresa.

É o partido do Estado mínimo.

Mínimo para o povo pobre; máximo para a mordomia dos governantes.

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Brasília, Asa Norte, CLN 402 - Domingo, 21/4

Brasília, Asa Norte, CLN 402 – Domingo, 21/4

Ontem, dia do aniversário de Brasília, a cidade quase desapareceu debaixo d’água.

Caiu um temporal daqueles de se esperar que Noé passasse dando a última chamada para a Arca.

Estava tomando café em uma padaria chiquezinha, dessas que fazem pãezinhos fofos com semente de girassol da Malásia e amêndoas do Turquestão.

Como a rua a minha frente virou uma corredeira e não havia como sair, pedi uma taça de vinho (Rio Sol, feito no Vale do São Francisco, em Lagoa Grande, em Pernambuco, surpreendentemente delicioso) e até exerci meu direito dominical de bom burguês de postar uma foto da taça nas redes sociais.

Quando me dei conta do prazer daquele momento – a cidade submergindo e eu, sequinho, bebendo vinho – me lembrei do sujeito que lava carros em um estacionamento e que mora lá mesmo, numa velha barraquinha de camping, que, de tão pequena, para se deitar ele certamente precisa dobrar os joelhos.

E pensando se a barraquinha não virara barquinho de papel na força da enchente, me lembrei também das quase 300 pessoas trucidadas pela manhã no Sri Lanka, em nome da estupidez religiosa.

vINHO

Não me senti mal, tampouco culpado pelos cristãos inocentes ou pelo sujeito da barraquinha, ou por quem quer que fosse estivesse em risco de perder a casa naquele aguaceiro.

Mas refleti sobre o quanto sou afortunado nesse mundo de miséria material, moral e espiritual.

Se a gente olhar em volta, teremos, a todo momento, motivos para agradecer a sei lá quem ou a quê – depende da crença de cada um -, mas teremos.

PS: A barraquinha do sujeito do estacionamento continua lá, firme e forte, e ele todo feliz, como se morasse numa fortaleza de pedra.

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