André Giusti - foto: Luana Lleras
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Ele se opôs à tirania do Estado e à opressão do establishiment, colocando-se ao lado dos pobres, dos discriminados, dos excluídos pelo status quo. Ele fez a revolução com a única arma que empunhou: o amor. Feliz Natal!

São Gonçalo do Rio das Pedras, MG Foto de Maria Beatriz Madeira Giusti

São Gonçalo do Rio das Pedras, MG
Foto de Maria Beatriz Madeira Giusti

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Poema de natal

jesus hoje não conseguiu engraxar todos os sapatos que precisava
não vendeu pano de prato o bastante nem pra voltar pra casa

jesus perdeu a perna na linha do trem
tá pelo INSS mas o dinheiro não dá
pro gás prum quilo de arroz
lata de óleo pacote de macarrão

jesus nasceu com um caroço horrível
no pescoço que não o deixa mamar
mas fazer o que se a rede pública
não opera ou só tem vaga pro ano que vem

hoje jesus pediu um sanduíche na porta do
truck’s mas todo mundo disse que não tinha
e disseram que a prefeitura tem que dar
jeito em jesus assim pedindo na porta dos lugares com as pessoas querendo passar

há anos jesus ficou louco toma cachaça na rua desde que a mulher a filha morreram ninguém sabe como nem ninguém quer saber porque jesus toma tanta pinga o que importa só é que não pode dar dinheiro se não jesus vai beber mais e mais e aí mesmo é que não sai daqui da vizinhança

jesus mete a cara no crack no beco do rato do setor comercial sul porque desde que tem memória apanhou com barra de ferro do pai e a mãe também o queimava com garfo esquentado no fogão

mil homens já desfrutaram da carne de sífilis de jesus desde os 13 anos quando ele meteu a faca na costela do padrasto abusador e família pra ele virou puta cafetina travesti rufião
hoje jesus dormiu sozinho de novo na enfermaria para doentes terminais de cirrose hepática
a única parente viva é a tia da catarata que pega três ônibus e há dias não aparece pra visitar

jesus nunca recebeu visita no asilo em dia das mães

jesus veio da roda dos enjeitados pro orfanato misericórdia do senhor
é preto nasceu sem braço olho torto demais pra fora já tem 15 anos ninguém vai adotar
esperavam ver jesus no templo iluminado
de mármore cara pastor de anel de pedra
na igreja cheia de santo branco e louro
no palavrório da palestra no centro espírita

mas Jesus não esteve por lá

jesus andou a tarde inteira pelo calçadão de madureira debaixo do sol carregando a bolsa de colostomia com a receita na mão tentando explicar pra alguém do remédio que precisa tomar
*

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Aqui a ausência é presença
E o silêncio é música.

Igreja Matriz

Igreja Matriz

Cidade só tem 250 habitantes, de acordo com IBGE

Cidade só tem 250 habitantes, de acordo com IBGE

Nos anos 60, cidade se mudou para a beira da BR-060, mas alguns não quiseram ir

Nos anos 60, cidade se mudou para a beira da BR-060, mas alguns não quiseram ir

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Pousada Sô Vigário - Pirenópolis - GO

Pousada Sô Vigário – Pirenópolis – GO

Pousada Sô Vigário - Pirenópolis - GO

Pousada Sô Vigário – Pirenópolis – GO

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Casarão em frente à Igreja Matriz - Pirenópolis - GO

Casarão em frente à Igreja Matriz – Pirenópolis – GO

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Penso que um dos objetivos da arte, seja música, literatura, pintura, teatro, é transportar a gente para um outro lugar, mesmo que seja o nosso próprio lugar, para que entendamos melhor nossa condição. Hoje, ao deparar com essa tela em um mero corredor de um prédio em Copacabana, fui levado de imediato a esse local da tela. Queria dizer à ou ao artista, cuja identificação se resume às iniciais FW, que sua arte cumpriu esse objetivo: me transportou prum lugar de onde demorei a voltar.

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Na disputa pelo 3º lugar na Copa do Mundo deste ano, em determinado lance a Inglaterra chegou com perigo ao gol da Bélgica. Com perícia, o defensor tomou a bola na pequena área e deu início a um contra-ataque. Em apenas cinco toques o time belga chegou na cara do gol adversário, obrigando o goleiro inglês a um milagre.

Lembrei disso por que outro dia assisti à reprise de alguns lances dos amistosos da seleção de Neymar e demais mascarados. Parecia a reprise de todos os jogos dos últimos anos dessa camisa que um dia encantou o mundo: passes pro lado, pra trás, cruzamentos nas mãos do goleiro, carrinhos. Uma burocracia parecida com a que o cidadão comum enfrenta no serviço público para conseguir determinadas certidões.

Almanaque Cultural Brasileiro

Almanaque Cultural Brasileiro

E, agora, o Palmeiras é campeão. Ou deca, como se orgulham seus torcedores, que põem nessa conta, com a estranha chancela da mesma CBF que organiza a supracitada seleção burocrática, títulos de uma época em que o campeonato brasileiro só era disputado por clubes do Rio e São Paulo.

Antes de mais nada, parabéns ao Palmeiras pelo título deste ano. O time foi o mais eficaz em momentos decisivos e merece a conquista, mas – e agora me chamarão de flamenguista recalcado – penso que há algo realmente muito errado com nosso futebol quando o técnico do time campeão nacional – e, portanto, em tese o melhor time do país – é o mesmo técnico do maior vexame pelo qual uma seleção já passou na história das copas do mundo.

Os torcedores do Palmeiras (com o qual simpatizo, diga-se de passagem, por causa da origem italiana) têm todo o direito de comemorar.

Mas nosso futebol é um doente que pode estar se encaminhando pro estágio terminal.

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Malabares

É difícil determinar o que faz uma pessoa ser interessante, aquela que esconde e ao mesmo tempo deixa à mostra algum aspecto que nos cativa, mas que não conseguimos explicar exatamente o que é.

Ser cátedra, ter pós-doutorado na França, ser executivo de multinacional, líder reconhecido no mercado ou político influente faz o sujeito importante, mas não necessariamente interessante.

Também não é passaporte para ser interessante saber dos últimos lançamentos da Apple, da Samsung ou ter sido um dos primeiros a ir ao restaurante da moda, que forma dois quilômetros de fila na porta.

A bem da verdade é mais provável que pessoas assim despertem sonolência em vez de interesse.

Dessa forma, eliminando esses tipos, você se surpreende verificando que com quem gostaria de conversar por mais de 15 minutos é o uruguaio que veio para o Brasil cursar a escola de circo. Ele joga malabares no sinal em que você para todos os dias, e hoje a apresentação dele estava tão boa, mas tão boa, que você, batendo palmas dentro do carro, se desculpou sinceramente por não ter nenhum trocado, ao que ele, em bom portunhol, respondeu “não tem problema, seu aplauso foi meu melhor cachê do dia”.

Há também a balconista da farmácia, que certamente foi trabalhar enlatada num ônibus, mas que vende um antigripal com atenção e sorriso largo, e de quebra deseja de coração que você fique bem, que amanhã acorde melhor. E no dia seguinte, quando você passa, ela coincidentemente está na porta da loja e pergunta: O senhor se sente melhor?

Sem falar na loura tingida da casa lotérica, aquela em que você entrou aproveitando que não havia fila, para jogar, sem qualquer esperança, na mega sena. Ela apanha a nota que você pegou na carteira e diz que com o troco dá pra jogar na quina que corre à noite e, quem sabe, ganhar um milhão. “Aí, o senhor volta aqui e me dá um presente”, e pisca o olho, divertida, misturando malícia e pureza. E ela faz isso de um jeito tão alegre que você promete a você mesmo que se ficar milionário vai comprar um mimo pra ela.

E pra balconista.

E dar um belo cachê pro uruguaio.

Porque cada um, a seu modo, fez ao menos cinco minutos da sua vida serem um pouco melhores e mais divertidos.
*
Do livro As Estranhas Réguas do Tempo, de André Giusti, crônicas (Editora Multifoco, 2014)
À venda neste link https://bit.ly/2PMyAQg ou comigo no inbox

Publicado originalmente neste blog em 22/8/2013

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Caravan moderna 1

O designer Eduardo Oliveira redesenhou um dos grandes sucessos da indústria automobilística brasileira.

Se fosse fabricada atualmente, seria assim, como aparece nas fotos, a boa e velha Caravan, a preferida das famílias, funerárias e equipes de reportagem de TV nos anos 70 e 80.

Em minha opinião – e isso é apenas a minha opinião – a repaginação da Caravan (Eduardo Oliveira fez também a do Opala, procure e veja que espetáculo) é um oásis de beleza no deserto do horroroso mundo preto e prata das SUVs japonesas e coreanas, que com suas lanternas e faróis pontiagudos me parecem mais super-heróis orientais do tempo da TV Tupi.

Mostrei as fotos a Sergio Maciel, outro aficionado por automóveis e, feito eu, saudosista dos carros que dirigimos (ou sonhávamos dirigir) quando éramos moleques.

Ele me respondeu que não haveria mercado para a Caravan hoje em dia, por mais bela que fosse, pois está longe de derreter no mercado a consolidação da ditadura das SUVs/ tanques de guerra que ocupam duas vagas.

Triste, concordo, e com o perdão do pessimismo, parto do pueril exemplo de um automóvel e acabo considerando que a beleza é elemento relegado a 2º, 3º, 4º planos nos sombrios dias atuais. Na música, na dramaturgia, nas artes plásticas, literatura, roupas, arquitetura. Nos automóveis.

Caravan moderna 2

No geral, o tal custo benefício reina, para fortalecimento da aridez dos espíritos e das emoções.

Meu velho amigo se estende, e me lembra que além da beleza também foram para debaixo do tapete a inteligência, a cultura, a compaixão. A liberdade de expressão está indo igualmente, acrescento, ainda mais triste, porque, afinal, esses quatro últimos elementos não dizem qualquer respeito aos automóveis.

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