André Giusti - foto: Luana Lleras
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Bastante pertinente o artigo de ARTHUR ELOI ontem, no UOL (https://omelete.uol.com.br/series-tv/artigo/stranger-things-nostalgia-anos-80/), sobre a nostalgia de uma geração que nem sonhava em nascer na década de 80, mas que cultua aqueles tempos e tem naqueles anos boa parte de suas referências. De forma bem acertada, o autor, que nasceu, segundo ele mesmo, muito tempo depois, nos lembra o quanto atualmente há de influência dos anos 80 na estética do cinema, da música, da eletrônica.

Não esperem de mim aquele papo tiozão de que aqueles eram tempos melhores. Havia muita coisa ruim, acreditem, e O Menudo nem era o pior exemplo (Teve Figueiredo e Sarney, um em cada metade da década, e pra fechar com chave de ouro, Collor eleito no final).

Menudo

É que me lembrei de uma entrevista do Ringo, quando, dez anos atrás, o Sargent Peppers fez 40 anos. Ele disse que nem ele nem os outros Beatles tinham qualquer ideia de que estavam gravando simplesmente aquele que é considerado o mais importante disco da história do Rock.

E vocês sabem que era mais ou menos assim, com todos nós, naqueles tempos? Vivíamos intensamente, mas talvez sem perceber, em toda sua dimensão, as mudanças que estavam acontecendo, e muito menos sem imaginar que aquilo tudo teria tanta influência quando tivéssemos cabelos grisalhos e filhos namorando.

É até engraçado lembrar que à época cultuava-se demais os anos 60. Durante um período, eu mesmo achei que os anos 60 é que haviam sido legais.
Agora, já faz pelo menos uns dez anos que há esse culto todo à década de 80, o que sugere o aparecimento de um ciclo de nostalgia a cada 20 anos.

Fichas

O artigo do link acima faz, definitivamente, cair a ficha (usando uma expressão bem oitentista) de que aquilo que se tornou história passava corriqueiramente pelas nossas mãos, feito as notas mais vagabundas de nosso vagabundo dinheiro de então. E a gente, por imaturidade, não prestava tanta atenção.

Mas, se pensarmos bem, isso é uma propriedade até óbvia da juventude: ela só vai mostrar o quão inesquecível foi, depois de ter passado.

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wack

Talvez porque eu seja um sujeito que sempre ganhou a vida com a comunicação, o preconceito quando vem de um formador de opinião me deixa mais triste. E indignado.

Câmeras e microfones, que são instrumentos de informação, devem discutir divergências, mas promovendo a paz e a igualdade entre as pessoas.

Um estúdio de TV ou rádio é palco apropriado para se ajudar na construção de um mundo novo, e não na alimentação do velho mundo do ódio e da discriminação.

Preconceito e discriminação são lamentáveis partindo de qualquer pessoa.

Mas se ela tem o poder profissional de reverberar isso, tornam-se ainda piores.

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prateleiras

A trabalho, tenho visitado algumas indústrias no Distrito Federal, pois Brasília não é apenas essa repartição pública a céu aberto que o país imagina.

Hoje, em uma fábrica de pães, que exporta até para os Estados Unidos, alguém que estava comigo na visita chamou a atenção para as instalações da fábrica.

A simplicidade espartana começava pela sala de trabalho de um dos sócios, onde mal couberam ele, a esposa, eu e as cinco pessoas que eu acompanhei. Oito no total.

Nos esprememos ainda mais porque em uma mesa transversal estava um delicioso café da manhã. Cada um de nós se serviu, não havia ninguém para fazer isso.

PGR

Não sou servidor público. Estou servidor público. Pela terceira vez, aliás.

Nessas passagens, me acostumei a ambientes amplos, salas e antessalas e corredores com sofás e outras salas de espera. E mais móveis, e mesas, e cadeiras para todos os lados. Em um dos órgãos públicos em que trabalhei, no espaço do gabinete principal moraria, com conforto, uma família de quatro pessoas. E em todos eles, garçons e copeiras, café e água gelada pra cá e pra lá, entrando e saindo de intermináveis reuniões.

Sem falar nos vidros fumês, nos pisos de mármore.

Não vanglorio nem execro a iniciativa privada. Não defendo estado mínimo nem estatizante. Cada um tem sua função, que precisa ser exercida com eficiência em prol da sociedade, não visando apenas o lucro, muito menos o interesse político.

Mas inegavelmente existem dois países.

Um é o que a gente compra nas prateleiras (em forma de pão de queijo, por exemplo).

O outro é o que a gente paga em forma de imposto.

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Dove

Todo esse tempo e esqueci de dizer: tá acabando o último frasco de xampu Dove que comprei na vida. É o mínimo que eu poderia fazer.

Dove 2

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preview_todososabismosbaixa

O mais recente livro de minha conterrânea, e assim como eu radicada em Brasília, Cinthia Kriemler, apresenta vários sintomas de um bom livro.

O principal deles é: a gente pega e demora a largar, lamenta quando tem que parar, ir dormir. Lamenta ainda mais quando acaba de ler, o que é um dos encantos da leitura.

Mas Todos os Abismos Convidam Para um Mergulho (Editora Patuá, 2017) possui um traço principal nesse rico mundo de autores contemporâneos.

Cínthia Kriemler não teve a pretensão de buscar uma forma diferente de contar uma história, não buscou a vaidade de ser ovacionada com um “oh, como ela é uma autora genial e inovadora”.

Buscou tão somente contar de forma objetiva, direta, nua e crua (muito crua) uma triste e real história de nossos dias, que precisa ser denunciada todos os dias.

Dessa forma, sem invencionice que dê sono ou simplesmente impeça a compreensão do livro, ela cumpre sua função de escritora: dizer o que pensa e colocar o leitor para refletir.

Recomendo.

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macarronada

Em São Paulo, entre um show e outro do U2, me perdi em cafés, cantinas e mercados com pastéis e chope.
Como acabei me hospedando em área nobre, esperava uma facada daquelas nas contas. Afinal, era São Paulo, templo da gastronomia, bairros da alta.

Surpresa. E boa. Os preços estão iguais ou até menores do que em Brasília. E se formos levar em conta a proporção do que é servido e fazer a relação quantidade/qualidade X preços, aí é que fica mais barato mesmo.

Voltei para Brasília com a impressão que sempre tive, fortalecida: os preços na capital do país são, na maioria dos lugares, estabelecidos de acordo com os salários irreais de uma elite do funcionalismo público, aquela mesma cujos contracheques causam escândalo quando aparecem no jornal nacional. E que se dane a maioria assalariada, com o que vem no fim do mês cada vez mais achatado.

Um café espresso bem servido (e bom, muito bom) em São Paulo me custou R$ 6, R$ 7. Aqui, já paguei, meses atrás, os mesmos R$ 6 por dois míseros dedos de café sem qualquer biscoitinho pra fazer dupla, nem água gasosa em copo de cachaça. Mas o lugarzinho é cool e aproveita que a classe média precisa posar de descolada ouvindo jazz e Cartola junto ao Parque na Asa Norte domingo de manhã.

Lá, em Sampa, encontrei um espaguete gigantesco, que entope três italianos esfomeados feito eu, por pouco mais de R$ 100. Aqui, sejamos justos, encontra-se também comida farta e por preço razoável, mas temo que, além de não serem a regra geral, esses lugares estão cada vez em menor número em relação aos que te deixam com fome por R$ 50, R$ 60. Mas fiquemos quietos, comamos calados. Afinal, são locais gourmets, bistrôs e servem cozinha de autor.

Pra encerrar, os vinhos. É claro que o dono do restaurante precisa ganhar uma margem boa em cima da garrafa. O problema é que em Brasília, em boa parte dos lugares, o povo parece querer ganhar três garrafas em uma. Lá, na Paulicéia, vinhos que conheço estavam no máximo R$ 20 mais caros.

Não fui a todos os restaurantes de São Paulo, claro, mas foi uma mostra que me surpreendeu.

É muito injusto quando, revoltadas com a corrupção, pessoas dos quatro cantos dessa pátria injuriada querem culpar Brasília pela roubalheira. Esquecem que aqui se recebe o lixo político das 27 unidades da Federação. Inclusive o nosso, que também o produzimos.

Mas esse achaque ao consumidor nos bares e restaurantes, embora não seja invenção candanga, é um traço que vem se acentuando na cidade, fazendo com que a desconexão de muitos de seus moradores em relação à realidade do país comece pela cozinha, balcão e adega.

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O Globo

O Globo

A quem interessar possa: assisti duas vezes (5ª e sábado) aos shows do U2 que estão em São Paulo e tenho alguns pitacos. Vamos lá!

1 – O U2 é um monstro. Um monstro arrastador de multidões. E não vem a festivais por aqui simplesmente porque não cabe. Pegue uns cinco Lolas, some a uns três Rock in Rio e, quem sabe, dará a metade de um show do U2.

2 – De pista, é praticamente impossível ver a primeira parte do show (quatro músicas anteriores a Joshua Three). Isso porque algum gênio da engenharia de palcos fez esse braço do palco principal mais baixo. Mas a banda também deu a sua colaboração: esse começo de show não passa no telão. Imagino que eles tenham pretendido fazer com que nos sentíssemos em 1987, ano de lançamento de Joshua, quando, pela minha metade centenária memória, não havia telão nos shows.

3 – Bono Vox tá cantando (muito) diferente as músicas. É normal que ao vivo haja variações na melodia original, mas acho que ele tá exagerando. Já há alguns anos venho notando isso nas gravações ao vivo da minha segunda banda predileta (sim, só estão atrás dos Beatles) e nessa turnê no Brasil (aliás, em São Paulo) a coisa tá mais nítida. No sábado ele conseguiu cantar ainda mais diferente do que na quinta. Se a gente ama todas aquelas canções, amamos porque as conhecemos daquele jeito com que foram gravadas nos discos de vinil ou CD anos e anos atrás. Pra que mudar, cantar diferente, então? A não ser que sua bela voz já não seja realmente a mesma dos tempos da árvore de Joshua.

Sombras e Árvores Altas - blogger

Sombras e Árvores Altas – blogger

4 – Em 1997, ano da primeira turnê da banda no Brasil, pelo que me lembro o público era, basicamente, de gente solteira ou casal de namorados. 20 anos depois, a base da plateia é gente casada/divorciada/casada de novo levando os filhos adolescentes para assistir à banda mais importante de toda uma geração que chegou aos 50.

5 – E essa mesma geração cinquentona parece que aprendeu com os filhos a assistir a um show por trás das lentes dos celulares, filmando ou fotografando. Isso atrapalha demais a quem quer simplesmente assistir com os olhos. Que tal um Déjà vu e voltarmos a gravar apenas na nossa lembrança, na nossa memória a emoção e a beleza de um espetáculo?

Filmando U2

6 – Entre um show e outro, dei um pulo no Eataly, uma espécie de Guanabara dos ricos (cariocas entenderão). Vi três negros lá. Todos trabalhando. De que adianta ir ao show do U2, gritar contra o preconceito e a favor da igualdade se a gente não se revolta ou sequer percebe isso no meio do desbunde de um lugar como esse?

Negro

7 – Para os amigos do Uber: na volta do segundo show, sábado, quem me salvou em São Paulo foi o bom e velho táxi.

8 – O U2 é, a cada ano, mais e mais minha segunda banda predileta.

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Impacto

Levei meu carro no último sábado para trocar os pneus dianteiros. Preço bom, dividido em quatro vezes e cinco anos de garantia. Condição favorável para meu bolso.

Tendo carro há quase 30 anos, a gente acaba escolado nas práticas desonestas do setor automotivo. Portanto, entrei preparado para o que ouviria dos mecânicos da Impacto Pneus e Rodas, loja da 502 norte (perdoem-me os que não moram em Brasília pelo endereço).

Carro no elevador, lá no alto, e começa a cantilena: suas rodas estão empenadas, o pivô e o rolamento da roda direita traseira estão condenados. De quebra, pra juntar no pacote da picaretagem, descolaram um vazamento de óleo na hora da troca (o chão de minha garagem está limpinho, sem qualquer mancha).

Observe sempre nesses panfletos com promoção de pneus que a compra está condicionada à montagem, ao alinhamento de direção e ao balanceamento das rodas. E é aí, com os pneus desmontados, que a faca da malandragem entra na boa fé do cliente. Fragilizado, pego de surpresa, o consumidor autoriza o serviço. E sabe aquele bom negócio que você achou que estava fazendo comprando os pneus? Esqueça! Ele foi pulverizado com o gasto de um conserto que os mecânicos são obrigados a inventar, por ordem do patrão, e também porque, me disseram, recebem comissão pelo charlatanismo.

Como não autorizei a marmota, passei a ser tratado com mal humor. O sorriso com o qual o vendedor me atendeu desapareceu do nada.

Dois dias depois, levei meu carro na mecânica de uma seguradora que fica exatamente ao lado. Meu pedido foi: alinhar direção e balancear as rodas. Nada mais falei, apenas disse que voltaria depois do almoço para pegar o carro.

Quando cheguei, meu surrado Volkswagen estava lá, prontinho, me esperando. Perguntei se encontraram algum problema. Nada. O que havia para ser feito era apenas o que eu havia pedido.

O problema, a meu ver, sai das rodas do meu carro e alcança a conjuntura nacional. O empresário que age dessa forma com o consumidor é o mesmo que se jacta de gerar empregos e chora horrores por causa da carga tributária do país. Agindo como um Eduardo Cunha do mundo das rodas e pneus, ele vê o Jornal Nacional e fica roxo de raiva do deputado e do senador metido na falcatrua. Não vê que o macro só reflete o que se faz no micro.

Ah, e se você, dono da Impacto está lendo isso agora, um último recado. Sabe os dois pneus traseiros que fiquei de comprar aí mês que vem? Esquece.

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Nosso Lar
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Tempos atrás escrevi em meu blog sobre o abandono do prédio onde funcionou o colégio em que fiz o segundo grau, no subúrbio do Rio.

Doeu ver a depredação de um lugar onde construí algumas de minhas melhores amizades e vivi intensamente três anos de minha adolescência.

Na semana passada, tive um baque semelhante.

As Organizações Globo fecharam e puseram à venda o lendário prédio da Rua do Russel, na Glória, zona sul carioca, endereço durante décadas de um canhão chamado Rádio Globo e de uma revolução no rádio chamada CBN.

A exemplo do prédio do colégio, lá vivi alguns dos melhores anos de minha vida, agora no plano profissional. Aliás, foi naquelas salas e estúdios onde aprendi a ser jornalista.

O que o abandono e o fechamento de dois lugares tão marcantes para mim podem significar? Me perguntei, dia desses. Só cheguei a uma conclusão: eles estão ensinando sobre a impermanência das coisas, que, no fundo, é a grande lição que precisamos aprender.

Ricardo Rodrigues, um dos chefes que tive no Sistema Globo de Rádio, disse, em meio à lamentação coletiva na rede social, que as rádios que ajudamos a fazer estarão sempre dentro de nós.

E é isso mesmo.

Aquele prédio abandonado no subúrbio da minha adolescência não é o meu colégio. O meu colégio está vivo dentro de mim, com sua algazarra de moleques e meninas.

E aquele prédio fechado e à venda não é mais onde aprendi a amar minha profissão. O prédio onde trabalhei está erguido dentro de mim, e nele continuo na labuta do ofício que amo.

O que vivi e aprendi nesses lugares – e em tantos outros – é que é perene e permanente, com uma capacidade de atravessar o tempo bem maior do que o concreto e o ferro misturados.

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http://www.uai.com.br

http://www.uai.com.br

Não, eu realmente não levaria minhas filhas, que estão entre a infância e a adolescência, à exposição no Museu de Arte Moderna de São Paulo, motivo do bafafá da vez.

Não acho que estejam na idade de verem de perto um pinto adulto cheio de pentelhos.

Para mim, a nudez de um adulto carrega no geral uma erotização natural, mesmo que não seja a intenção.

Isso posto, ninguém tem nada a ver com a minha visão de pai.

E desde que não haja agressão ao direito da criança, ninguém tem nada a ver com a decisão de ninguém enquanto pai ou mãe.

Nem a direita nem a esquerda.

Na nota divulgada pela direção do Museu, está clara a informação de que na entrada da exposição há um aviso bem claro sobre o que será visto lá dentro.

Então, entrar ou não, com criança ou sem, é uma decisão de foro íntimo, que não diz respeito a ninguém.

Nem à direita nem à esquerda.

E isso deveria ser o suficiente para evitar qualquer bafafá.

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