André Giusti - foto: Luana Lleras
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Olhem os carros que carregam campanha desses dois candidatos a deputado em Brasília. Será que eles vão defender o interesse de quem anda de ônibus? Acho que não, hein?

campanha1

campanha2

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A recente visita que fiz ao Centro de Ensino Fundamental da Vila Planalto, em Brasília, para uma palestra sobre literatura, me permitiu comprovar duas coisas.

A primeira é que a burocracia, com sua vaidade e indolência, chega a ser inimiga da racionalidade.

Desde o início do ano, alguns móveis velhos e destruídos estão acumulados no fundo da escola. É lixo, não há outra definição para o amontoado de ferro e madeira de fórmica sem qualquer utilidade para um país que precisa com uma urgência de séculos investir no ensino básico.

Mas por que então não se recolhe toda aquela tralha inútil e se dá a ela o fim lógico? É porque se trata de patrimônio, e como tal necessita de regras até mesmo para deixar de existir, o que, aliás, é compreensível.

Mas qualquer um que tenha passado um mínimo de tempo no serviço público é capaz de ao menos imaginar alguns motivos para se emperrar a tarefa simples de jogar no lixo o que já não presta mais.

É bem possível que dona burocracia esteja refém de seus filhotes vaidosos, que, por preguiça funcional ou pequenez de seus cargos e de suas almas, estejam protelando ao máximo uma simples assinatura ou um carimbo banal, porque isso lhe traz uma idiota sensação de poder que ameniza suas frustrações pessoais.

A minha outra confirmação diz respeito a essa necessidade de ter e essa visão descartável do consumo que escraviza a cada ano mais a classe média brasileira, sempre inquieta com seus smartphones ultrapassados e seus televisores que não possuem as polegadas necessárias.

Nesta escola há dois irmãos gêmeos, que nos últimos dias frios em Brasília não têm aparecido juntos na aula. Um dia, vai um; outro dia, vai outro. Intrigada, a diretora procurou a mãe dos dois para saber o motivo. É que só há um casaco para os dois, e assim eles fazem revezamento para usá-lo. Vai à escola quem estiver no dia de usar o casaco.

Simples como jogar fora o que é lixo.

Moveis escolares

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Hoje é Dia do Escritor.

Dia disso e dia daquilo sempre me despertaram o enfado. Todos os dias são de ser o que se é e fazer o que se ama, ou o que se tem para fazer para ganhar a vida. Somos mulher todos os dias, mãe e pai idem, pedreiro e padeiro de segunda a domingo, da manhã até a noite.

Mas vá lá, me resolvi por algumas palavras no dia de quem vive delas.

Há de se ter técnica literária, mas para escrever, você tem que sangrar. Se não sangrar, você está sendo falso, está enganando o leitor.

Um texto tem que ter sangue e carótida e jugular pulsante para que ele corra.

Um texto tem que ser de carne e osso.

Senão será  isopor.

sangue

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Essa história de um grande jornal ter matado o Suassuna antes da hora me lembrou duas histórias de redação.

A primeira aconteceu na Rádio Globo do Rio de Janeiro.

Boato de que gente famosa morreu é algo corriqueiro nas redações. Um desses foi sobre a cantora Sandra de Sá, à época apenas Sandra Sá.

A informação de que ela havia batido a cassuleta chegou e ninguém conseguia confirmar.

Ermelinda Rita, ao lado de Ricardo Ferreira, a melhor apuradora com quem trabalhei, foi prática: ligou pra casa da cantora. Caiu na secretária eletrônica, mas ela não se fez de rogada. “Ô Sandra, é o seguinte, aqui é da Rádio Globo é tá o maior papo de que você morreu. Liga pra gente.” Não deu cinco minutos e o telefone tocou, do outro lado o jeito esculachado: “Minha filha, que porra é essa de que eu morri?”.

A outra foi na saudosa JB AM. Fim de domingo, começa o zum zum zum de que um ministro – não lembro qual – abraçara o Zé Maria. Antônio Ribeiro, um dos meus mestres em reportagem de rádio, fez a mesma coisa: “Ministro, desculpa a hora, mas há um boato de que o senhor morreu…”. Rápida pausa antes da resposta: “Bem, parece que não, né, meu filho?”

Como em tudo na vida, às vezes no jornalismo é preciso fazer o óbvio e até mesmo passar pelo ridículo.

Ridículo

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Começam a fazer algum sucesso em Brasília as placas de automóveis com as letras formando a palavra PAZ.

Sem cumprir a contento sua função de educador do trânsito, o Detran do Distrito Federal lançou mão dessa jogada de marketing fácil: dez mil carros novos estão sendo emplacados com a palavra PAZ. A ideia é conscientizar as pessoas e reduzir o absurdo número de mortes em acidentes de trânsito, que no ano passado abreviaram a vida de mais de 350 pessoas na capital do país e arredores.

É de ser ter coragem para dirigir um carro emplacado com essa combinação de letras. Paz é tudo que quase todos nós dizemos querer, mas que quase ninguém age verdadeiramente no sentido de consegui-la, seja a pé, de carro, moto, seja sem sair de casa.

Dirigir um carro emplacado com PAZ é estar permanentemente vigilante para com os nossos piores e mais enfezados demônios, aqueles que adoram mostrar a cara ao mundo especialmente quando estamos ao volante.

Há de ser ter muito controle sobre eles.

Eu, por exemplo, não me garanto.

Placas de paz

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Fotopoema14

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Qiando

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A vingança do timão

Quando eu li A Vingança do Timão, eu tinha por volta de 13 anos e minha cabeça era ocupada por três coisas: futebol, futebol e futebol.

Mas o gosto pela leitura já ocupava parte de minhas horas vagas há alguns anos. Portanto, um livro que falava sobre futebol reunia paixão e prazer. Com esse binômio, o li parecendo a Alemanha jogando contra a Seleção Brasileira: rápido e voraz.

Carlos Moraes nos conta a história de um time de meninos no interior do Rio Grande do Sul. A história nos fala de amizade, superação e liderança. Mas, acima de tudo, na figura do pobre e mirrado Bejeja, ponta autêntico que entortava os adversários, é história sobre o futebol como forma de expressar a arte, a alegria e de fazer com a bola o improvável e o impensável para os adversários, e deste modo ser uma das mais fortes e genuínas expressões da identidade brasileira.

Tudo o que dentro das quatro linhas comprovamos nesta Copa estar perdendo nos últimos anos.

Se querem mesmo renovar o futebol brasileiro, sugiro começar lendo A Vingança do Timão.

PS: Pra encerrar o assunto: é doloridamente irônico que a melhor Copa de todos os tempos (pelos menos entre as que assisti) tenha sido aqui, para vermos ao vivo a pior Seleção Brasileira da história.

 

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Já ouvi algumas vezes que a adoração aos Beatles se deve, em parte, à banda ter acabado em seu auge.

Pelé parou aos 37 anos, quando poderia jogar – dizem os mais velhos – pelo menos mais duas temporadas, ainda mais no futebol norte americano de 40 anos atrás.

Ayrton Senna virou semideus pela forma como correu e morreu, mas a esta última se pode acrescentar a idade – 34 anos – e ao arrojo e perícia com que ainda pilotava.

O que quero dizer é até algo que não é novo, mas me parece sempre pertinente: parar (ou ser interrompido) no auge, ou em estágio semelhante, parece reforçar a tinta do carimbo de nosso nome no papel da posteridade.

Nem sempre todos entendem isso, e ainda vão além: retornam aos postos nos quais se consagraram com o desafio de repetir o êxito, sem perceber que os instrumentos poderão não ser os mesmos, mas que a cobrança poderá ser ainda maior.

O Schumacher da Ferrari sempre viverá na memória de quem ama F1, mas o Schumacher que insistiu na volta pela Mercedez arranha, certamente, a lembrança que se têm do primeiro, o imbatível.

Felipão nunca foi um Telê Santana, nem na educação e muito menos no conhecimento sobre futebol.

Mas havia sido campeão do mundo. Penta campeão.

Parreira foi tetra, depois de 24 anos sem que o Brasil levantasse o caneco mais famoso do mundo.

Insistiu em voltar e fazer o mesmo na Copa de 2006. Não satisfeito, ainda deu o braço ao outro para voltar pela terceira vez.

Deve ser bem difícil ter a consciência não apenas da hora de parar, mas de saber que em alguns casos já fizemos o nosso melhor, que não seremos melhores do que nós mesmos fomos algum dia. De que não faremos do mesmo jeito que fizemos.

É algo que passa, quem sabe, por um certo senso de sobrevivência, de preservação da nossa imagem, do nosso nome.

Acho que pensar num jogador de pôquer que ganha uma fortuna numa noite e que na noite seguinte perde tudo, quando poderia ficar em casa curtindo a riqueza, explica um pouco essa situação.

Poquer

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Faca entre os dentes

Das quatro seleções que sobraram na Copa, acho a brasileira a mais fraca. A que menos apresenta padrão de jogo, a mais confusa taticamente, a dona dos passes mais defeituosos. A que possui os jogadores, digamos, mais medianos.

Sem Neymar, é um quadro com agrave considerado.

Isso torna a disciplinada, fria e calculista Alemanha favorita amanhã.

Só que não.

A estupidez do lance que tirou nossa maior estrela da competição (notem que na visão da Fifa é menos grave quebrar uma vértebra do adversário do que mordê-lo)pode ter posto um gosto de sangue na boca do escrete canarinho. Sangue não no sentido do uso da violência, mas no sentido da superação de que cada um que estiver em campo pode querer provar que não está ali apenas à sombra de uma única peça do elenco.

Talvez os especialistas em liderança corporativa pudessem falar melhor sobre isso, mas acho que a saída de Neymar divide de forma mais equânime entre a equipe a responsabilidade pela conquista do título.

E em última e mais simplória análise, é possível que queiram provar que não existe a tão decantada – e real – dependência que a Seleção tem do Neymar.

Ou seja, no frigir dos ovos, a joelhada do colombiano pode se transformar em fator positivo para a seleção e abalar a Alemanha e quem mais ainda vier pela frente. É torcer pra isso.

PS: Essa Copa do Mundo deveria ter returno.

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