André Giusti - foto: Luana Lleras
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Dudu

 

Maur~icio

Em dois dias, duas mortes prematuras, duas pessoas que tiveram interrompido o pleno exercício da vida, quando esta chegava ao auge.

Na sexta-feira, Eduardo de Carvalho Vianna perdeu a breve luta contra o câncer. No dia seguinte, um problema cardíaco levou Maurício Torres. Os dois, jornalistas. O primeiro, uma espécie de contraparente meu. O segundo, companheiro de trabalho na minha pré-história profissional. A morte dos dois nos tirou o tapete, como sempre faz quando chega por volta dos 20, 30, 40 anos de uma pessoa querida.

No primeiro caso, escuto o lamento de alguém próximo a ele. Triste, abalado, se arrepende das vezes que teve vontade, mas não entrou em contato com o Eduardo, chora pelas mensagens dele que não respondeu, ou o fez de forma rápida, sem a merecida atenção. A partida do Maurício também deve ter suscitado a mesma reação em um ou outro amigo.

Eduardo e Maurício partiram, mas me deixaram uma lição que outros que se foram antes do que imaginamos ser a hora já haviam me deixado, mas que eu nem sempre aplico na relação com as pessoas queridas.

Deu vontade, liga. Recebeu mensagem, responde na hora. Ficaram de se encontrar, marquem mesmo, na casa de um ou do outro, no bar mais próximo, o quanto antes. Mesmo que você acredite na vida após a morte, é bom demonstrar (e receber) amor e carinho enquanto somos de carne e osso, antes de retornarmos ao nosso vagar pelo cosmos, em alguns casos, de maneira antecipada.

Claro, vamos acreditar que viveremos muito, vamos ser otimistas que morreremos velhos contando piadas uns aos outros, mas vamos nos falar mais, nos permitir mais.

É só para nos prevenirmos contra o remorso e o arrependimento nos casos de câncer e infarto, por exemplo.

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Que sujeito esquisito que, em estando na sala de espera do consultório ou na fila do cartório, lê livros em vez de ver mensagens no celular.

esquisito

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Preste atenção quando aponto estrelas acesas feito lâmpadas fracas além do nada da cidade nervosa. Costumo pensar que elas deixaram de existir há milhões de anos.

Eu gosto de mostrar na rua automóveis antigos, aqueles em que as famílias sumidas nos retratos esmaecidos pegavam as estradas aos domingos descendo a serra ou voltando da praia.

Escute bem quando eu te falar das portas e janelas dos casarios do século 18. Por elas – note bem, eu tenho certeza – até hoje passam comendadores tiranos e suspiram moças pelo amor que lhes proibiram.

Me encantam ainda os azulejos formando painéis nos jardins das casas de subúrbio. É lá que ainda nossos pais e tias conversam sobre assuntos que não nos interessavam.

Gosto também de imaginar um lampião antigo iluminando esquinas desertas na madrugada e te contar que debaixo dele um bêbado maldito resmunga arranhando o silêncio das almas.

Escute bem quando eu disser sobre as bandas de rock e seus épicos discos de vinil que comprei lá por mil novecentos e oitenta e tanto, dos velhos cantores negros de blues que me ensinaram a sorver a vida feito um trago quente de conhaque.

Gosto de te contar de poetas ou pintores que morreram tísicos pobres esquecidos sem reconhecimento e amor nos quartos mofados dos asilos públicos.

Portanto, preste atenção nessas histórias inúteis sem aplicação alguma na vida prática, que não alteram em nada o movimento dos aeroportos nem mexem no lucro das bolsas.

Fique atenta, pois quando te falo de tudo isso estou te entregando pequenos pacotes de mim, envelopes abertos com minha loucura e pouco a pouco confessando que te amo.

Pacotes

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Quando parou pela última vez para reabastecer, já passavam das quatro da tarde. E ainda faltavam umas cinco horas de viagem.

Enquanto corriam os números no visor da bomba, ele decidia: ou encarava a estrada à noite para cumprir o plano inicial de chegar no mesmo dia, ou fazia o recuo estratégico, e na manhã seguinte – corpo descansado, banho e café – seguia com mais segurança e disposição.

Ou a noite na estrada com seus mistérios, riscos e surpresas em aberto, tais como caminhoneiros à base de rebite, ou a mesma noite que seria outra se optasse por um hotel honesto, com a segurança da cama e o conforto do banho quente.

Escutou a si mesmo apesar do barulho dos caminhões que estacionavam no posto. Passando o cartão para pagar, ouviu-se dizendo que queria chegar e dormir em sua cama, sentir a água do chuveiro que conhecia, tomar do vinho que o esperava.

Acendeu os faróis, acelerou e aumentou os Stones, que embalavam a viagem desde a última parada: “I was born in a crossfire hurricane”.

Optou mesmo pelo risco que o levaria à satisfação. Deixou no acostamento a cautela acomodada.

Foi assim que já na primeira curva da noite percebeu, por trás de uma montanha, um clarão amarelando o céu azul escuro. Era a lua, em seu primeiro dia de cheia, plena, dona das estradas do céu e da terra. Ficou difícil dirigir, conciliar a tangência das curvas com o olhar querendo escapar pela janela e se perder nas alturas. Ela o acompanhou a viagem inteira. E aquela imagem, certamente, fará o mesmo até o fim da vida.

Mais tarde, já na madrugada alta da cidade, observava o efeito da luz do abajur transpassando a última taça cheia de vinho e pensava que mesmo o que se anuncia racional, ponderado, seguro poderá reservar riscos e desilusões. O hotel poderia ter pulgas, o chuveiro elétrico não aquecer a água, a cama dura esfarelar suas costas. A acomodação, assim como o risco, também pode trazer sua fatura algum dia.

E optando por ela, quantas vezes permaneceremos mal casados, infelizes no emprego e sem nunca termos visto a lua cheia nascer na estrada.

Lua cheia na estrada

 

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Chão de outuno

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MESSENGER

A tecnologia mudou até nosso modo de brigar.

Nunca mais as duas, três horas de orelha quente por causa do bate boca ao telefone, tentando explicar o que a outra pessoa se recusa a entender, e o que nós mesmos tantas vezes nem sabemos mais o que é, por que surgiu, por que estamos nos justificando.

O Messenger é o novo canal oficial por onde passam, com a alcunha de tráfego de dados, tudo aquilo que não queríamos dizer ao outro, mas dissemos por raiva e nos arrependemos dois segundos depois.

Por ali transitam os motivos da outra parte, e também os nossos motivos, muitas vezes só aceitáveis para nós mesmos.

Com as teclas de nossos notes ou smarts, digitamos apressadamente acusações e julgamentos, e condenamos em duas ou três palavras o outro que tanto amamos e ao lado de quem pensamos enfrentar a vida e suas batalhas.

Da mesma forma que ao telefone dizíamos tanto sem pensar, hoje digitamos, levados pelo impulso e cegos em nossa raiva pelo orgulho ferido, a frase que não terá volta.

São as mesmas teclas que podem também ser usadas para dizer “Para com isso! Vamos ficar bem! Eu te amo! Isso é tudo pequeno perto do que sentimos um pelo outro!”

Ao contrário do telefone, no entanto, o messenger nos reserva angústias extras, criadas com a tecnologia. É aquela que bate quando não sabemos se o outro, mesmo estando on line, leu a mensagem na hora. Ou então aquele torturante tempo de espera dos três pontinhos subindo e descendo, enquanto a resposta é digitada. O que aparecerá na tela? A jura de amor eterno ou o rompimento definitivo?

Na época do telefone, dizíamos palavras que não tinham exatamente aquele sentido que quisemos dar, empregávamos mal determinado verbo, que não cabia naquela situação. Mas como escrever é mais difícil do que falar, hoje pecamos na nossa capacidade de expressão escrita. Sem contar com o diabo do corretor que troca os acentos, não gosta do Ç e a nossa revelia usa palavras que nada tem a ver com o assunto.

Na época do telefone, encerrava-se bruscamente a ligação (o popular ‘bater o telefone na cara’). Depois se ligava de novo, a voz derretida em desculpas e arrependimento. Muitas vezes a pessoa não estava, ou mandava dizer que não estava. Ou não atendia ou não retornava a ligação.

Hoje ela finge que não vê a mensagem, vai dormir sem responder, visualiza em tal horário e sabe Deus quando vai nos retornar. E a gente derretido de arrependimento, pensando porque perdemos tempo com tanta besteira.

A tecnologia é outra.

Nós somos os mesmos.

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1.Sem querer parecer bom moço (até porque não sou mesmo), mas pedir perdão, com o coração aberto, é muito bom. Experimente.

2.Agora é que eu me toquei que todos que vi defender a campanha da banana, do Luciano Huck, são brancos.

3. Acho que o número de reuniões explica, em boa parte, as muitas vezes que o serviço público é ineficiente.

 

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Eu não sou macaco.

Nem eu nem o Daniel Alves, o Tinga ou qualquer outro.

Macaco é macaco, gente é gente.

Nada a ver essa campanha.

O combate ao racismo não precisa de babaquice.

Precisa de engajamento sério.

Macacos

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Galdino

Acreditar na regeneração das pessoas certamente é atitude que fará melhor nossa sociedade.

Que um criminoso tenha oportunidade de recomeçar sua vida, após cumprida a pena sem nada que desabone sua conduta quando atrás das grades, me parece a consagração da Justiça numa sociedade que se pretende justa.

Mas cautela, por menor que seja, nunca fez mal ao que foi aplicada, ainda mais quando se trata da segurança da sociedade.

Um dos acusados da morte do índio Galdino, há 17 anos, em Brasília, passou em todas as etapas do concurso da Polícia Civil do Distrito Federal.

O caso chamou a atenção da imprensa local. Alertada, a Polícia Civil, ao que tudo indica, retirou o nome dele da última lista de aprovados.

O Estatuto de Criança e do Adolescente determina que, cumprida a pena, o infrator não poderá ser discriminado ou ser alvo de preconceito pelo crime que cometeu e pagou.

Isso é Justiça.

Mas impedir que alguém que pôs fogo em um ser humano se torne policial (mesmo que tenha cumprido corretamente a sentença) é cautela.

PS: O assassinato evidente do torturador Paulo Malhães mostra que está bem viva e atuante, portanto assombrando a democracia, de uma espécie de gente que julgávamos extinta da vida nacional.

 

 

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