André Giusti - foto: Luana Lleras
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passarosdevidro.wordpress.com

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Já não era de agora que Antognioni Patrese desconfiava seriamente de que Maria Ismália não era mesmo uma pessoa de verdade, ou seja, alguém de osso carne pele músculo que nasce cresce morre e faz no intervalo disso o que for possível.

Era muito encantamento pra serem de gente normal o mistério doce do olhar vivaz e os cabelos meio em desalinho trazendo sempre ideia de vento em praia vazia.

Até que Mardochil, o sábio de bolso que Antognioni trazia consigo para esclarecer dúvidas sobre as cores dos caleidoscópios, confirmou a pulga que morava atrás da orelha do outro.

Maria Ismália realmente não nascera de um ventre humano, fruto de conluio carnal entre homem e mulher. Ela é personagem de um livro infanto-juvenil de muito sucesso nos anos 60, lido em todas as escolas de normalistas.

Ela era moça simples e bela, que tratava com justiça, pelo nome e com sorriso o homem da carroça, a preta que engomava roupas, o negrinho tísico, vendedor de garrafas, arrimo de família.

Lia histórias para crianças pobres e dava comida aos bichos doentes. Nas horas vagas falava de poesia e tocava piano para as flores, melhorando o canto dos pássaros.

Até que um dia, uma menina esqueceu o livro aberto e pegou no sono. Curiosa, Maria Ismália escapou da página em que a leitura fora interrompida e veio ver a vida aqui fora.

Quando tentou voltar, a menina havia fechado o livro e guardado na estante.

A edição se esgotou, o escritor morreu, a editora faliu, e apesar do sucesso, nunca mais outra edição.

Dizem que nem no sebo se encontra.

Desde então, Maria Ismália vive por aí, eterna e encantada como era na história, fazendo do mundo seu grande livro.

 

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boy playing a guitar

gol

Não fazia a mínima ideia do que era colofão. Até que o Eduardo Lacerda e o Ricardo Escudeiro me pediram um para o meu primeiro livro de poemas – Os Filmes em que Morremos de Amor -, que já tá lá no forno da Patuá. A página da editora ( http://www.editorapatua.com.br/), explica que colofão é um texto que “deve relacionar uma experiência particular do autor com o livro e com a proposta da editora, a de que livros são amuletos”.

Me empolguei com a ideia e acabei escrevendo dois. Eles lá que escolham um.

1.
E como desde a década de 90, por ocasião de uma namorada difícil de conquistar, Melquíades Anatole não escrevesse sequer um único verso, já não mais se considerava poeta. Até que Mardochil, seu sábio de bolso para situações de baixa estima, soprou-lhe no melhor ouvido: “Sabe aquela batida de trivela que você deu na tampinha de refrigerante outro dia na porta da funerária?” Sim, Melqui se lembrava. “Pois é, só os poetas conseguem bater de trivela numa tampinha de refrigerante, fazendo com que ela levante voo e entre na gaveta, entre o asfalto e o chassi do carro, triscando o pneu traseiro como se fosse trave. E ainda comemorar achando que foi realmente gol”.

2.
Num domingo chuvoso de 1985, aos 17 anos completos, Anastácio Jochen Mass convenceu-se de que jamais seria guitarrista, devido à total inépcia para fazer vibrar as cordas do instrumento. Subir o Himalaia de joelhos lhe seria mais palatável que algum dia solar Starway to Heaven. Até que Mardochil, seu sábio de bolso para situações de baixa estima, apareceu-lhe pela primeira vez e recomendou: “Escreva poesia!”. Sem entender, Jochen desprezou o conselho: “Eu quero fazer barulho, poesia não faz barulho…”, ao que o sábio redarguiu de bate pronto: “Faz sim! Dependendo de quem ouça, faz muito barulho. Faz tanto barulho, que é capaz de deixar o sujeito sem dormir”.

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As Forças Desarmadas

Por ocasião de feriado de sete de setembro, postei no feici búqui que meu desfile do Dia da Independência seria com trabalhadoras, campoenses, médicos, professoras e por aí vai.

Nada contra os militares, mas até hoje não entendo porque, sendo a pátria e sua independência (?) lugar e conquista de todos, porque, então, apenas um estrato da sociedade deve estar representado na marcha comemorativa?

Bem, mas não é sobre isso que quero falar.

Encerrei o post daquele dia avisando que meu desfile seria o das forças desarmadas, e é aí que entra o que tenho a dizer.

As Forças Desarmadas foi um dos belos livros de contos que li em minha vida, ainda bem jovem, mas o curioso é que só cheguei a essa conclusão algum tempo atrás, já bem mais pros 50 do que pros 40.

O autor, Júlio César Monteiro Masrtins, apresentava um pequeno programa sobre livros e literaturea na primeira rádio em que trabalhei em minha vida profissional, ainda como estagiário, a Estácio FM.

Em uns dez ou doze contos (não lembro bem, não tenho mais o livro na estante, apenas em minha lembrança), Júlio César apresenta uma visão crítica da juventude da época – primeira metade da década de 80 -, perdida nas drogas e no tal vazio existencial da falta do que e de quem amar, oprimida pela agonizante ditadura militar e já escravizada pela indústria cultural.

Acho que o livro tem um cheiro de Caio Fernando Abreu, grande influência da época. Se por acaso você aceitar minha dica e se interessar em ler, diga depois se achou o mesmo.

Júlio César Monteiro Martins escreveu mais livros. Lembro que li outros dois, mas me passaram em branco.

Fiquei anos sem ter e procurar notícias dele. E sem lembrar de As Forças Desarmadas.

Até que, há não muito tempo, soube pela internet que fora viver na Itália ainda nos anos 90, me parece.

E que falecera em 2014.

Impactado pela notícia, o nome do livro pulou automaticamente de velhos fichários mentais, trazendo pela mão seu conteúdo e seu valor.

Saiu do ostracismo de minha memória de meia idade para desfilar na avenida chamada Livros da Minha Vida.

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Saquarema, RJ viajeaqui.abril.com.br

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ronaldonezo.com

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A semana com este feriado no meio me faz novamente pensar que temos trabalhado demais, e cada vez mais com menos necessidade.

Li na rede social dias atrás que um estudo sei lá onde propõe que o fim de semana tenha três dias.

Acho que três dias seguidos enferrujariam a pessoa, e o tranco da volta ao batente seria pior do que é hoje, ou seja, a terça feira seria pior do que é a segunda.

Então, flanar sábado e domingo, encarar o trampo segunda e terça e dar outra pausa, menor, na quarta talvez fosse ótima saída para a produtividade e pra nossa saúde física e mental.

Descansados, produzimos mais, ficamos menos doentes, faltamos menos ao serviço, paramos menos dias para nos tratar. Acho que entra até alguma coisa de lógica econômica nessa história, com o patrão ganhando mais, proporcionalmente. Sei lá.

Só sei que nosso tempo no ambiente de trabalho é excessivo, querem de nós não apenas o que não podemos dar, mas também o que não é necessário.

O que é feito em dez, doze horas de trabalho que não pode ser feito em dois turnos de seis horas, com duas equipes, uma da metade da manhã à metade da tarde, e a outra a partir daí e até a metade da noite?

Penso que mais da metade das reuniões inúteis a que comparecemos deixaria de existir, e os projetos, que muitas vezes ficam parados porque um de nós, exaurido, foi parar no estaleiro e está a base de antidepressivo, ganhariam objetividade na aplicação e rapidez na execução, além de doses maiores de criatividade, por causa das mentes repousadas.

A sociedade de consumo, por meio da mídia, seu braço de propaganda, vende a ideia de que o mundo bom é o que produz bens de consumo. Um país em crise precisa, segundo especialistas, aumentar a produção e as vendas. E aí somos pessoas vazias, infelizes, de carro zero e celular último modelo.

O que precisamos é que nossas relações pessoais ocupem mais tempo em nossas vidas do que nossa network. Além do convívio com os nossos – sejam quais forem esses nossos –, em algum momento precisaremos também ficar com nós mesmos, naquela solidão sem compromisso com horários, irmã da paz de espírito.

Por isso, menos horas de trabalho durante o dia. Menos dias de trabalho durante a semana.

Poderá não ser tão bom para o PIB, que na verdade desde sempre só alimenta quem mais tem, sempre teve e quer mais.

Mas será ótimo para a nossa saúde mental, familiar e social.

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virgula.uol.com.br

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Olha, sei lá, mas famoso e famosa quando anunciam que estão se separando (ou casando), me cheira a estratégia de marketing e promoção, viu?

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Getúlio

Jânio

JK

Jango

Dilma-Rousseff

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Portas, janelas, becos, átrios, ruínas … A alma de homem moderno se refaz no antigo.

Pírenópolis, GO. Fotos Giusti Press e Ana Maria de Souza

Pírenópolis, GO.
Fotos Giusti Press e Ana Maria de Souza

PIRI 2

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Piri 13

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Tudo o que eu quero pra hoje é uma estrada em Goiás que me leve a um lugar aonde eu possa parar o tempo.

Fotos br.worldmapz.com

Fotos br.worldmapz.com

GO 338 3

GO 338 4

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casa simples

Quando abriu a porta e acendeu a luz, o pequeno apartamento de apenas 30 metros quadrados lhe pareceu tão maior e vazio quanto uma mansão de 20 quartos sem móveis e moradores.

Naquela noite, foi dormir cedo, muito mais por solidão do que por cansaço.

Até hoje não sabe se sonhou ou se tudo não passou de sua imaginação, disfarçada de sonho naquele limiar do sono, quando já estamos quase dormindo, mas ainda restam algumas tomadas plugadas ao mundo concreto do dia que termina.

O que sabe é que se viu numa casa bem maior que seu apartamento, mas bem longe de ser mansão.

Era térrea, sem escadas, e chamava a atenção pela simplicidade, pelo acabamento desleixado.

O piso era de cimento queimado e lembra-se de que duas ou três paredes estavam ainda no reboco. Não sendo antiga, também não era recém-construída. Percebia-se que estar pronta sendo inacabada era traço permanente, incorporado com o tempo.

Outra marca era a claridade permeando a sala espaçosa, três grandes quartos e a cozinha, capaz de caber mesa pra seis.

Em seu dorme não dorme, sonha não sonha, não conseguia a certeza se a luz do dia era a da manhã ou a da tarde.

Era luz, e isso era o mais importante. Ali, pelo jeito, ele pensou quase dormindo (ou sonhando?)que o luar também deveria fazer visitas, e se hospedar feito primo que vem sempre.

O vento, este mais que se hospedava. O vento morava. Aproveitava as grandes janelas sempre abertas, sem grades e cortinas, e circulava pelo ambiente de poucos móveis e imensos clarões entre mesa e sofá, camas e guarda-roupas.

O vento entrava e saía, esperava alguns instantes, voltava. O vento parecia um cachorro de casa: do quintal pra dentro, de dentro pro quintal, até que alguém o notasse e fizesse festa pela sua presença.

Quando sua mente, naquele túnel irreal, ainda percorria os cômodos e vislumbrava do janelão da cozinha uma varanda imensa, coberta por telhas, sem laje, começou a ouvir vozes de meninas, meninas entre a infância e a pré-adolescência.

- Pai! ‘Cê tá em casa, pai? – era a voz da filha mais velha, entrando esbaforida, jogando a mochila no primeiro espaço vazio.

- Pai! Tirei nove em matemática! – avisou a do meio, entrando junto à primeira.

- Pai, cadê o Dique? – e logo surgiu a caçula, passando por ele e voltando segundos depois, seguida pelo cachorro labrador imenso e carinhoso. Ele sorriu no sonho, ou no que quer que fosse aquilo que embalava seu adormecer: havia também um cachorro, para também entrar e sair quando quisesse.

Eram suas filhas, e moravam com ele no sonho, no limiar do sono ou na imaginação meio acordada, outra metade adormecida. Não precisava pegá-las de quinze em quinze dias, pois era ele quem cuidava delas todos os dias, do que haveria para almoço e para a janta, era ele quem recolhia suas presilhas de cabelos, suas fitinhas e laços esquecidos pelos cômodos. Era ele quem as ouvia contar histórias do recreio na escola e entregarem, cada uma, segredos inocentes sobre namoradinhos.

E depois que almoçavam, nas tardes de sábado, iam para a varanda terminar de rir das tolas piadas que contaram à mesa. Lá pelo meio das três horas, esticado em uma encorpada cadeira de madeira rústica, ele perdia os olhos em um horizonte baixo que havia para ser medido do alto da colina onde ficava a casa. A paisagem sumia num cochilo bom e profundo, mas reaparecia quando ele acordava com o vento mais forte derrubando mangas no fundo do quintal e anunciando chuva grossa no fim da tarde.

Espreguiçava-se em paz, com a certeza do cheiro da terra e grama molhadas. Era a mesma certeza de que mais tarde, quando já fosse noite, as nuvens descarregadas do temporal dariam lugar no céu às estrelas, e que ainda mais tarde uma lua amarela, pela metade, subiria o muro do mesmo horizonte baixo.

Terminando de esticar os braços e os últimos bocejos, levantava-se e ia investigar os quartos, onde as encontrava enfiadas nos livros, nas mensagens dos celulares e quase sempre no apronto sem fim dos cabelos.

Do corredor, perguntava alto:

- Quem vai querer pizza de noite?

- Eu!

- Eu!

- Eu!

E a sequência irrompia pela casa, carregada pela expectativa do sabor.

Eram suas filhas, moravam com ele, e ele, quando chegava em casa, não encontrava solidão. Ouvia no sonho, ou no galope da imaginação, a chuva chegando, sentia o cheiro da terra molhada invadindo a casa. As janelas batendo com o vento e a copa da mangueira sacudida lá fora avisavam que ele era feliz e que aquela era uma casa simples e em paz.

Um dia, o curso normal da vida levaria as três, uma a uma, mas logo logo o recompensaria com netos e netas, e a casa, sempre inacabada, estaria cada vez mais firme em sua simplicidade e em sua paz.

As filhas moravam com ele.

E se realmente sonhara, fora o sonho mais lindo que tivera na vida.

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