André Giusti - foto: Luana Lleras
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sickchirpse.com

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Uma diarista me conta que está trabalhando três vezes na semana em uma casa cinematográfica no Lago Norte, bairro chique de Brasília.

Segundo ela, a mansão é toda high-tech, “tem até parede que sai do lugar para aumentar espaço, acredita?”, ela fala, e eu tento imaginar como é uma parede que saia do lugar.

A dona da casa, segundo ela, tem uns trezentos pares de sapatos, e apenas para guardar joias, uma parte considerável de um armário em um dos tantos quartos (ela até hoje não tem certeza de quantos são).

Mas a patroa, que talvez não consiga usar tantos sapatos ao longo da vida, já no primeiro dia de trabalho de minha colega diarista mandou que ela levasse de casa o próprio almoço.

Claro, a gente pode compreender e imaginar que num lugar tão carente, de tanta pobreza, um prato de comida deva realmente fazer muita falta.

Aliás, o dia em que soube dessa história, precisamente ontem, foi realmente difícil.

A avenida L2 Norte é uma das tantas retas de Brasília.

No final dela, havia um imenso terreno aberto e gramado (eu costumava dar uns pedais por ali, simulando trilha).

Há poucos meses, começou uma obra faraônica no local, daquelas em que há até guindaste gigantesco para levantar coisa muito pesada.

Finalmente consegui saber o que vão fazer ali (não há uma placa anunciando o que vai ser).

Perguntei a uma dupla de operários, que estava descansando em frente, na hora do almoço.

“Vai ser igreja”, contou um deles.

“Que igreja? Universal? Assembleia de Deus?”, eu quis saber.

“Dos ‘mórmus´”, me respondeu.

Nada contra igrejas, ou religiões, especialmente se elas tornam o sujeito uma pessoa melhor (algo que muita delas, a julgar pelo que vemos, não parecem fazer), mas em um país que precisa tanto de escola, de hospital, de área pública de lazer, de moradia popular (aliás, bem ao lado da obra há duas invasões miseráveis de catadores de lixo) vão levantar mais uma igreja?

Às vezes – principalmente de uns anos para cá – tenho realmente muita vontade de mandar o Brasil ir se foder.

Começando por Brasília.

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The Wall

Não tive um professor que tenha me marcado profundamente.

Na verdade, hoje os acho agentes (até inconscientes) de um sistema opressor, que te forma para trabalhar e produzir riqueza para que meia dúzia de três ou quatro se locupletem e deixem herança para seus descendentes.

E, claro, para que você não incomode o poder vigente.

Um sistema que privilegia a área de exatas, em detrimento do pensamento crítico e do autoconhecimento.

Tanto é assim que sempre são considerados melhores alunos aqueles que se destacam nas matérias que exigem cálculo.

Pro bem e pro mal, no meu caso, o papel de mestre acabou ficando com a vida mesmo.

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caimasuloficial/Instagram

caimasuloficial/Instagram

Quanto tempo vai demorar pra gente reconstruir tudo, depois que eles destruírem tudo?

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Foto El Confidencial

Foto El Confidencial

Fiquei sabendo por esses dias que agora existe ´gatificação´ da casa.

Um cara vai na tua casa e adapta o que ele encontra às necessidades e bem estar da sua gatinha ou gatinho.

Não tenho muita experiência com os felinos.

Tem menos de um ano que adotei uma gatinha, e me parece que ela vive muito bem com a caixinha de areia, a toquinha, o cantinho da ração e uma pequena tábua que pus na janela telada para ela tomar conta da vizinhança.

Fiz apenas o que me disseram para fazer quem tem gato há mais tempo, e não gastei um cobre com isso.

Ela tá lá, aprontando, se divertindo, comendo tudo e fazendo cocô toda hora.

Não me disse que sente falta de um ambiente customizado e adequado às suas peraltices.

Cada vez mais se fortalece a indústria de invenção de necessidades, que encontra na classe média endinheirada e otária uma ótima oportunidade de empreendedorismo.

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O Globo

O Globo

Diziam que essa pandemia era a chance de a gente se melhorar.

Não sei se houve resultado.

Mas que muita gente conseguiu se piorar, ah, isso conseguiu.

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homem-arrependido-de-joelhos-convertido-salvo-por-deus

Cerca de dez anos atrás a Fiat lançou um modelo esportivo do Pálio.

Tinha cores fortes – vermelho, amarelo -, rodas de liga leve e umas faixas laterais na parte baixa das portas imitando carros de competição, para firmar bem a pegada esportiva.

A imprensa automotiva chamou o carro de “foguetinho”, por causa do arrojado (para a época) motor 1.8.

Fiquei apaixonado pelo carrinho, quis comprar.

O dono da oficina em que eu levava meu carro me desaconselhou: o motor era nervoso, mas bebia demais, eu ia perder muito dinheiro quando quisesse vendê-lo, pois quem comprava um Fiat Pálio queria economia.

Não era um bom custo-benefício, ele resumiu a macarronada.

E eu atendi seu conselho.

Domingo passado, dei de cara com um desses Fiats na vizinhança: vermelhinho, lindo, super conservado, como se me dissesse: me pega, cara, e me leva para a estrada.

Fiquei olhando a lataria que brilhava à luz da manhã e pensando de quantas curvas fechadas e retas maravilhosas, daquelas que a gente enfia o pé, abdiquei por causa do tal valor de revenda.

O dinheiro do carro que comprei no lugar do Paliozinho nervoso, e que vendi tempos depois, já evaporou e não tenho a mais vaga lembrança de quanto era e de quanto lucrei (e se lucrei), ao contrário do que aconteceria com as curvas e as retas, que estariam até hoje aqui comigo, em deliciosas lembranças.

Deixei de ser feliz por causa de custo benefício.

Como o mundo nos impõe e consegue, na maioria das vezes, nos contaminar com sua pobreza.

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Pandemia

O slogan O Melhor do Brasil é o Brasileiro foi criado alguns anos atrás por uma campanha que envolveu veículos de comunicação e afins.

A meu ver, um grande equívoco.

O brasileiro médio, principalmente este, de cultura universitária e de classe média, é sujeito apegado a valores e a crenças que não o deixam enxergar além do seu pequeno grande quintal, ou além do para-brisa da sua SUV financiada ou seu grande Jipe importado.

Ele faz de sua verdade e sua crença, adquiridas sem qualquer vivência, a lei que quer fazer prevalecer acima da ciência, da história, da geografia, da filosofia.

Acreditar que nada acontece a quem se joga no esgoto nesse país é apenas um dos emblemas de quem anda pelo mundo feito um cavalo com tapadeiras, justamente para não ter visão periférica, panorâmica, e olhar apenas em uma direção.

Soube de um velho (e neste caso chamo de velho por causa de seu comportamento) que se recusou a usar máscara nessa pandemia.

Descia pro boteco como se nada estivesse acontecendo no mundo.

Adoeceu e em duas semanas entrou para a estatística dos mortos pelo Covid.

Levou junto a esposa e uma das filhas, legando aos dois filhos que se salvaram uma família despedaçada.

Para mim, não há outra classificação possível para esse sujeito: agir dessa forma, tendo à disposição toda a informação que há sobre a doença, é atitude de homicida doloso, ou seja, aquele que tem a intenção de matar.

É o típico cidadão que opera na humanidade de acordo com sua convicção formada provavelmente a partir de lendas e crendices.

Acrescente-se a isso um tanto de egoísmo e individualismo e chego ao caso da professora da conceituada escola de classe média de Brasília.

Ela comunica à sua personal trainer (ela tem uma, afinal, ela é chique) que não quer mais aula on-line, quer voltar pra academia fechada no ar condicionado (um paiol de vírus) porque “essa coisa de pandemia já encheu o saco”, e ela e as amigas estão saindo, se vendo, indo aos bares, aos cafés, aproveitando a vida com o que ela tem de melhor, afinal “todo mundo vai ter que morrer mesmo”. Inclusive a personal que, coitada, tá sem grana e não tem como abdicar de dar aula para a dondoca egocêntrica.

Como é possível que caia a curva de contágio dessa e de qualquer outra doença do gênero?

Enquanto outros países já começam a lutar contra uma 2ª onda da doença, a gente se debate ainda na 1ª, com boa parte da população (e o desgoverno, claro) vivendo no planeta faz-de-conta.

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optclean.com.br

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O despreparado-mor da República tenta empurrar nos governadores a culpa pela cagada que o Covid tá fazendo em nossas vidas.

É um cínico, canalhice cabeluda, mas – é duro, dá um nó nas tripas dizer isso – em alguma medida há razão no que acusa o alucinado.

Vejamos Brasília.

Se o governador tivesse sido macho e mantido a postura que teve nas primeiras semanas da pandemia, possivelmente a cidade, mesmo que não houvesse se livrado totalmente do vírus, teria hoje condição de voltar com mais segurança ao que deve ser o normal daqui pra frente.

Mas não, abriu as pernas para associações comerciais e semelhantes, uma espécie de sanguessugas que pensam em primeiro lugar neles, em segundo lugar neles e em terceiro lugar neles.

Agora, com os números lá em cima e sem qualquer sinal de que haverá recuo no perigo real de contágio, tem bar aberto, cafeteria chiquezinha funcionando e um cabo de guerra com a Justiça para abrir escola (tudo com a anuência de uma parcela imbecil da população que acha que estamos vivendo em agosto do ano passado).

O Brasil tomou LSD e vive sua realidade lisérgica.

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consumidormoderno.com.br

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É claro que não se deve e não se pode desejar a morte de ninguém, mas deixando a hipocrisia de lado, quem nunca, ao menos por um centésimo de milésimo de segundo, não pensou que seria melhor se o Zé Maria abraçasse aquela figura cuja serventia para a humanidade a gente fica tentando e não consegue encontrar?

Ao contrário, o sujeito arruma confusão e dá prejuízo como quem respira.

Em alguns casos, no entanto, é até pouco inteligente querermos que a pessoa bata a cassuleta.

Dependendo, o cara pode virar lenda, objeto de culto, arrebanhar seguidores e aí mesmo é que a gente não se livra dele.

E no meio disso aparecer alguém até pior (porque pior sempre existe, creia).

Então, é melhor deixar a peça viva e torcer para que a sua sucessão de desatinos e estultices o faça derreter em praça pública, feito um sorvete ruim no asfalto de verão, para que todos vejam, quiçá inclusive os imbecis que o cultuam, a ilusão em que se meteram e, de quebra, nos levaram junto.

É como uma morte estando vivo, para alguns casos, a morte ideal.

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Dois livros recentes (um, pouco mais do que o outro) cativam o leitor para falar de dois dos fatos mais importantes da história do Brasil: a Proclamação da República e a construção de Brasília.

Começo pelo fato mais antigo, narrado na obra mais recente.

Obra de Aguinaldo Tadeu narra ciúme e escândalo na queda de P II

Obra de Aguinaldo Tadeu narra ciúme e escândalo na queda de P II

A Mulher que Proclamou a República, de Aguinaldo Tadeu (Editora Penalux), fala de um tórrido caso de amor, com direito a ciúme e escândalo, envolvendo um dos personagens mais vultosos da nossa história.

O pano de fundo é a queda da Monarquia e a ascensão do novo sistema de governo, uma mudança que para variar passou ao largo da vontade do povo ( Foi golpe, e a frase tão repetida de quatro anos para cá é, vejam só, mais do que centenária).

No livro, em que tive a honra de assinar a orelha, o mineiro Aguinaldo Tadeu coloca como cereja do bolo da conspiração contra Pedro II um motivo tão estapafúrdio que se por acaso for mesmo ficção, em se tratando de Brasil e seus absurdos, poderia muito bem ser verdade.

Na obra de Lima, a verdadeira construção de Brasília

Na obra de Lima, a verdadeira construção de Brasília

O outro livro, lançado ano passado, é Às Margens do Paraíso (Editora CEPE), em que Lima Trindade construiu personagens consistentes, cujas vidas se entrelaçam no massacre diário e silencioso das classes pobres e operárias que construíram Brasília, a capital de todos os brasileiros (dependendo, é claro, da cor e da condição social desses brasileiros).

Na receita para erguer às pressas uma cidade no nada que era o Planalto Central, uma mistura de utopia, ideologia, tirania e corrupção, que não foi criada por partido algum, posto que, em maior ou menor grau, é composição do DNA tupiniquim.

A Mulher que Proclamou a República e Às Margens do Paraíso são livros importantes em um país que precisa olhar para trás se quiser andar realmente para frente, algo que se recusou a fazer nesses primeiros 520 anos de existência.

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