André Giusti - foto: Luana Lleras
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A tela é do artista plástico Marcos Brasil. Ele vive ou mantém ateliê na Chapada dos Veadeiros, lugar que abriga o Parque Nacional, e que fica há cerca de duas horas e meia da capital do país.

O trabalho dele e de outra artista, Cris Maia, dizem muito o que é a Chapada, um dos lugares mais lindos que conheço desse país extasiante, onde nasci e que amo, apesar de nossas crises de relacionamento.

Vale a pena conhecer não só a Chapada dos Veadeiros, mas também o trabalho do Marcos e da Cris.

Quem é de Brasília, no geral, chega na Chapada de olho fechado. Para quem não é, o caminho é vir até aqui e pegar a BR 020, que vai para o Nordeste. Um trevo não tão distante nos joga na estrada que dá em Alto Paraíso, cidade goiana, porta da Chapada.

Mas melhor é esperar passar o período das chuvas, pois os rios da região ficam perigosos demais por causa das chamadas cabeças d’água, que surgem de repente levando tudo que está pela frente.

A época ideal é entre março e julho, quando a chuva começa a dar trégua e o período mais crítico da seca ainda está relativamente longe.

Com o céu inteiro sobre a cabeça sustentando o sol, as estrelas ou a lua, embrenhe-se na grandeza de um trilha, renda-se à majestade de uma cachoeira.

Você não vai sair de lá do mesmo jeito que chegou, e por mais cético que seja, por um momento vai pensar se esse povo que acredita em  fada, duende e gnomo é mesmo tão maluco assim como dizem.

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O funk carioca é o maior vespeiro da música brasileira em todos os tempos.Mexer nele é ter a certeza de que se vai levar ferroada. Mas resolvi fazê-lo após a leitura do artigo que está no link abaixo.

Não conheço o site, muito menos o autor. Não me importa qual a corrente ideológica dos dois. O que me importa é que concordo com o que ele diz.

O meu problema com o funk não é de preconceito. É de estética. É uma música ruim, grotesca, pobre melodicamente, cantada (ou falada/gritada?) por quem não tem a mínima técnica vocal.

Vai no mesmo embrulho da chatura do pagode paulista, do sertanejo e do axé, este último um Jason da música brasileira, que quando a gente acha que já morreu, ele ressurge das trevas esporrrentas dos trios elétricos.

E se você já está salivando na frente da tela, me xingando de branco reacionário, elitista, segregacionista e outros tais que terminem com o mesmo sufixo, saiba que não tenho a mínima paciência para Chico Buarque. A música dele não me representa, não me toca, não me abala, com exceção de duas ou três canções. O que, aliás, é perfeitamente possível de acontecer com o funk carioca, embora eu não me anime nem um pouco a tentar descobrir.

Quer mais? Me dão sono todas essas cantoras que desde os anos 90 cantam do mesmo jeito as mesmas coisas. Ouvir uma, para mim, é ouvir todas as Anas, Margaretes e Vanessas.

Não tá bom? Pois não tolero Bethoven e polka me dá nos nervos, bem como outras tantas músicas feitas por gente mais branquicela do que eu.

Quem me conhece ou me acompanha por aqui sabe quais são minhas praias, e que pra mim quem sabe fazer música que mexe com a alma e o corpo é o negro. O branco que faz bem é porque imitou.

Mas não o funk. Porque é ruim. Porque é grotesco.

Porque eu não posso ser taxado de preconceituoso quando o problema é só estético.

Não posso ser tido como racista apenas porque não gosto de uma música que uma camada da elite branca aparenta fingir que gosta apenas para se passar por descolada e igualitária.

http://www.elhombre.com.br/indefensavel-e-insistente-culturalizacao-funk-carioca/

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Stevie Wonder

A foto é do arquivo pessoal do músico João Filho e está nos jornais de hoje.

Numa quadra de Brasília, ele viu Stevie Wonder, que havia se apresentado um dia antes na cidade, entrar numa confeitaria.

Nada do outro mundo, não fosse João fã ardoroso de Stevie.

O saxofonista esperou um bom tempo até se aproximar do pop star e começar a tocar jazz. O objetivo, claro, chamar a atenção do ídolo.

A dica do segurança do músico estadunidense funcionou: “toca Garota de Ipanema que ele vem”.
Stevie arranjou uma gaita, se aproximou e, juntos, ídolo e fã levaram Wave, de João Gilberto.

Claro que até o último dia de sua vida João Filho vai lembrar e falar desse momento.

Há poucos meses, no Rio, Bruce Springsteen saiu andando pela praia (sozinho, se bem lembro), até topar com um simples mortal tocando violão. Pegou o instrumento e presenteou quem passava perto com um memorável unplugged improvisado.

Stevie e Bruce. Duas ótimas lições de vida para quem tem o tamanho da prepotência e da arrogância inversamente oposto ao do talento musical.

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Ouvi hoje: Acidente com caminhão da yakult mata milhões de lacto bacilos.

(Quem tem mais de 40 vai entender)

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1. É claro como água, para mim, que a opção pela iniciativa privada para fazer a segurança dentro de um estádio, numa partida de futebol, foi movida pelo mais puro – e sórdido – interesse econômico.

O crescimento do mercado da segurança privada é algo consolidado no país há muitos anos, alimentando-se justamente de outro crescimento: o da criminalidade e da consequente insegurança da população.

No comando dessas empresas estão, em boa parte, oficiais da Polícia Militar, a mesma que ficou do lado de fora do estádio em Joinville, enquanto bandidos (não torcedores) se matavam, ameaçando a integridade dos verdadeiros atleticanos e vascaínos.

É bom lembrar que ano que vem é ano eleitoral e as firmas de segurança financiam candidatos. Então, nada melhor do que encerrar 2013 engordando o pé de meia com o dinheiro público, para logo logo, bancar o deputado e o senador, que retribuirão cedendo ao lobby no parlamento.

Os comedidos, muito mais por medo do que por respeito a alguém ou algo, virão com a ladainha do “não se pode acusar sem provas”.

O problema é que no Brasil o costume tá virando o maior comprovante da corrupção.

2. Leio em algum canto que no jogo entre Vasco e Corinthians, em Brasília, a segurança no estádio ficou por conta da inciativa privada. Quem estava lá, viu de perto – ou sofreu na pele – o que aconteceu.

O Brasil é um país que se recusa a aprender com seus próprios erros.

3. Eu não consigo entender como o Vasco, que há dois anos – 2011 – só não foi campeão brasileiro por aqueles caprichos do futebol (e também porque houve muito favorecimento ao Corinthians), vai parar de novo no fundo do poço.

Se não entendo o Vasco, menos ainda compreendo o Fluminense: com dinheiro, patrocínio e campeão brasileiro, chafurdando no vexame.

“Parabéns”aos dois pela proeza.

4. Posso até estar embalado pela emoção indignada de ver a estupidez em Joinville, mas a cada dia perco mais a vontade de torcer pela seleção na copa, na copa que será em nosso país.

E quando penso no tal do legado que as cidades teriam, que a copa melhoraria o transporte, e isso e aquilo outro, toda essa balela que nos venderam para apoiarmos o evento, aí mesmo é que me vem um desejo de que essa seleção, que não me representa, vá pras cucuias com requintes de crueldade: 3X0 pra Argentina em pleno Maracanã.

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1.

Por esses dias assisti a um trecho de uma entrevista que Nelson Piquet concedeu à Marília Gabriela poucos dias após a morte de Ayrton Senna.

A jornalista perguntou por que Piquet não foi ao enterro do companheiro de profissão.

Com a língua ferina que o fez tão famoso quanto seu talento num cock pit, Piquet respondeu que não eram amigos, não se davam, tiveram problemas e ele não iria ao funeral apenas para proveito da própria imagem. Citou Alain Prost, lembrando que o francês espezinhou e falou mal de Ayrton a vida toda, e estava lá segurando a alça do caixão em pose consternada para as câmeras.

Hoje pela manhã, assistindo à cobertura sobre a morte de Nelson Mandela, ouvi se manifestarem, consternados feito Prost, chefes de governo e também jornalistas que no curso da história, pelo que me consta, não apenas jamais disseram um ai contra o apartheid, mas também, tradicionalmente, se eximem de se levantar contra as injustiças sociais, seja na forma racial, de gênero ou econômica. No caso de jornalistas, bombardeiam, inclusive, inciativas que vão no sentido de reduzir a disparidade entre as oportunidades oferecidas a brancos e negros no Brasil. A política de quotas é só um exemplo.

Às vezes um pouquinho de Piquet em cada um de nós caberia bem.

2.

Amiga minha reclama no feicibúqui da santificação que a imprensa, no geral, sempre faz quando uma personalidade do quilate de Mandela retorna à verdadeira vida.

Diz, com razão, que ninguém é bom o tempo todo.

Defeitos são inerentes ao ser humano, por mais que brilhe a luz do sol no coração da criatura.

Mas a diferença de algumas pessoas para outras não é somente o fato das virtudes serem maiores e existirem em número bem superior aos defeitos.

A diferença é que os defeitos dessas pessoas não atrapalham a vida de ninguém.

Mandela

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Ouço uma das repórteres de que mais gosto da TV Globo em Brasília dizer que o bandido “efetuou três disparos”.

Qual a dificuldade que há em informar ao público que o bandido “deu três tiros” ou “atirou três vezes”?

Provavelmente a mesma que há em dizer que “o motorista estava dirigindo bêbado”, pois a opção parece que precisa ser, necessariamente, a mais complicada e pobre estilisticamente: “o motorista estava sob efeito de álcool” ou (pior ainda) “dirigindo após ter ingerido bebida alcoólica”.

Ninguém que encontre um amigo que tenha enchido a moringa vai contar para os outros que o viu após “ele ter ingerido grande quantidade de bebida alcóolica”. Vai é contar pra todo mundo que fulano “tava mamado”, “bebeu tudo” ou simplesmente estava bêbado.

Guardadas as devidas distâncias que o texto jornalístico deve ter da linguagem coloquial, ele deve estar muito mais próximo dela do que da linguagem intrincada e pedante da Polícia, das repartições públicas, dos administradores de empresa, dos advogados e dos médicos. Quando escrevem, geralmente todos esses acham que fazê-lo bem é fazê-lo difícil, e nós, jornalistas, estamos caindo nessa esparrela.

Principalmente os repórteres jovens, em sua maioria estão escrevendo como velhos, não se dando conta de que o dever profissional nos impõe traduzir para o homem comum o linguajar dos diversos profissionais com quem lidamos dia a dia.

Parece mesmo que no lugar de ensinarmos aos outros como se comunicarem de forma mais simples e objetiva, e por isso mesmo mais bonita, eles estão nos “ensinando” a escrever complicado. E feio.

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pedrinho

Descobri o mundo de Monteiro Lobato por meio da literatura e logo depois por meio da TV, na segunda metade dos anos 70, no seriado com Zilka Salaberry, Jacira Silva, Julio César, Rosana Garcia e Dirce Migliacio, entre outros.

Por aí, há de se ter uma ideia da importância da telinha na formação cultural da minha geração, com certeza a primeira a ser realmente impactada pelo veículo de comunicação que mudou o comportamento da humanidade no século 20.

Se vinha pelas páginas ou pelas imagens via satélite, me era indiferente: o fascínio que Lobato exerceu sobre mim me construiu como leitor, me ajudou a ser criança. As denúncias de que era racista, e que me parecem procedentes, são contra a pessoa. Para mim, não arranharam o brilho do autor, até porque não necessariamente um grande artista será um grande ser humano.

Mas a porta desse mundo de magia e aventura foi Caçadas de Pedrinho, terceiro ou quarto título da série infantil mais famosa – alguém duvida? – da literatura brasileira. A época, eu morava numa casa antiga no Grajaú, bucólico recanto da zona norte carioca. Havia um quintal com plantas viçosas e uma goiabeira, cujos troncos formavam uma forquilha onde eu adormecia.

Era difícil existir um menino que, tendo lido ou assistido ao Sítio do Picapau Amarelo, não tenha querido ser o Pedrinho. Não, ele não era nosso ídolo: ele era o que queríamos ser em nossas brincadeiras. Tenho certeza de que naqueles tempos eu fui, ao meu modo, um pouco, ou até muito o Pedrinho, porque, sem dúvida, aquele quintal no Grajaú era o meu Picapau Amarelo.

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Torcedor

Não enxergo despautério maior do que sofrer por causa de um time de futebol.

Quanta energia desprende o ser humano, em sua existência de finitude inexorável, em se abalar por causa de 22 sujeitos tentando domar os caprichos de uma bola. Quanto dessa energia poderia ser empregado por ele em algo que o melhorasse como pessoa e, por conseguinte, melhorasse também a vida ao redor de si.

Qual propósito em atravessar os dias que antecedem uma final de campeonato em estado de angústia permanente? Enquanto mastiga dentro do peito esse sentimento opressivo, o homem não percebe as dádivas que a natureza o oferece desde os primeiros minutos da aurora às estrelas distantes da noite.

Tudo por causa do futebol.

Que pobreza espiritual enxergar em detalhes bestas sinais de que há conspiração favorável ou contrária a seu time no dia da peleja decisiva. Que influência terá no resultado mudar o local de assistir ao jogo ou vestir uma roupa diferente daquela que se trajou na última vitória?

Quanto atraso emocional no grito enlouquecido na janela, acordando a vizinhança no início da madrugada, na hora que o juiz apitou o fim do embate por um troféu que ele, torcedor, nem sequer verá de perto. Nenhuma diferença fará em sua vida o time A, B ou C levantar a taça.



(Meu Deus! Como sou pobre de espírito e atrasado emocionalmente!)

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