André Giusti - foto: Luana Lleras
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A repartição toda na sala de reunião para a festinha de aniversário de uma das chefonas do lugar.

Mas ele disfarçou e correu dali, sem paciência alguma pra aquela coisa de esperar com pratinho na mão para pegar docinho e salgadinho na mesa apinhada de uma gente cheia de braços, mãos e cotovelos (principalmente cotovelos).

Definitivamente, às vezes parecia mesmo um E.T nesse mundo de humanos.

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Não é de se estranhar a atitude do capitão Bruno Rocha, comandante do Batalhão de Choque da PM do Distrito Federal.

Rir de forma debochada para uma câmera, mesmo que amadora, dizendo que lançou porque quis spray de pimenta em manifestantes, é só mais uma prova da falta de preparo psicológico – não falo técnico ou operacional – das polícias país afora. Historicamente agem com raiva, raiva sempre batizada de rigor nas explicações oficiais.

Talvez, então, aqui no isolamento de meu ofício, eu também possa usar o fígado para questionar se cara a cara com um bando de traficantes armados, no meio de uma favela carioca, o capitão teria lançado mão do sarcasmo.

Mas o assunto, dentro do assunto, é outro.

Dois outros aspectos é que na verdade me espantam.
capitão
O primeiro é ver alguns jornalistas, ou outros profissionais de comunicação, apoiarem a ação desastrosa da PM do DF no 7 de setembro. Se a repressão foi necessária contra os vândalos, não foi nem jamais será contra jornalistas e fotógrafos que estavam trabalhando.

Ainda argumentam que na cobertura de uma guerra, repórteres sabem que podem morrer. E muitos realmente morrem. Mas são situações totalmente diferentes. Profissionais foram agredidos fisicamente e com o tal spray de pimenta simplesmente porque estavam olhando ou fotografando o que acontecia. Quando estamos cobrindo esse tipo de manifestação, estamos sim sujeitos a bombas, pedradas e fumaças que levam às lágrimas, mas nunca como alvo, o que, pelos relatos e imagens, claramente não foi o que aconteceu no Dia da Pátria.

O segundo aspecto que me espanta é que até agora – e por isso esperei bastante para escrever sobre o assunto e o faço no final de tarde de terça-feira, 10 – apenas oficiais do comando da PM falaram sobre o assunto em nome do Governo do Distrito Federal, e é claro que as palavras foram favoráveis à ação da PM. No máximo, a velha cantilena de que “se houve excessos, eles serão punidos”, como se, de novo historicamente, fosse corriqueiro a polícia reconhecer que agiu com excessos.

Acho pouco para um governo, cujo partido sempre lutou pela democracia e contra a repressão do aparato policial.

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Estação Cultural

Ainda falando sobre cultura de graça, e novamente no CCBB de Brasília.

Está funcionando desde a semana passada a Estação Cultural, uma parceria entre o Banco do Brasil e o Açougue Cultural T-Bone.

Trata-se de uma estante de livros, nada mais que isso, equipada com uma tela para navegação eletrônica. É uma forma inteligente de atrair a criançada para o mundo fantástico da leitura sem afastá-los da tecnologia, que já vem no DNA da molecada de hoje em dia.

Na Estação Cultural, que funciona o dia inteiro, pegam-se os livros que se quiser e devolvem-se quando quiser. Não há ficha para preencher, protocolo para dar entrada, nem qualquer outra chatice semelhante. E, como dito no começo, é de graça, 0800, como se diz deliciosamente nas rodas modernas.

Esta já é a segunda estante que a capital do país recebe. A primeira fica no próprio Açougue T-Bone, no comércio da quadra 312 Norte.

Quem não é de Brasília pode estranhar, mas é disso mesmo que se trata o Açougue Cultural T-Bone. Até às 18h corta-se para bife, depois disso, lê-se poesia, toca-se música e, acima de tudo, democratiza-se a cultura numa cidade em que esta é, no geral, artigo apenas para deleite da elite.

Aliás, no próximo dia 19, Raimundo Fagner sobe ao palco armado na calçada do T-Bone. Show gratuito para milhares. Antes do show, eu e mais um grupo de poetas faremos um recital. Mas depois eu conto os detalhes.

 

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A artista plástica Patrícia Secco consegue um trabalho original em algo que não é nem um pouco novo: pintar máscaras.

Há séculos artistas mundo afora decoram de maneiras diversas aquilo que se usa para cobrir o rosto nos bailes de carnaval e, ultimamente, para se esconder atrás da covardia de não assumir o que se faz e o que se pensa.

Mas ela busca – e consegue – diferença em relação ao que já foi feito, quando, com rara felicidade, alcança harmonia entre cores fortes e alegres. Mas o grande feito não é nem esse. Apesar do colorido intenso, as máscaras de expressão neutra não perdem o ar de mistério e a sobriedade que guardam historicamente.

A exposição Brasil, mostra tua cara pode ser vista de 3ª a domingo, das 9h às 21h no Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília.

Vale muito a pena, inclusive para se levar as crianças, até porque a entrada é franca – como todas as exposições do CCBB – e esse detalhe faz toda diferença para quem tem filhos.
Máscaras 1

Máscaras 3

Másrcaras 2

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Ah, Brasília, você e esse teu céu muito louco!
205 norte, ontem, 8/9, 17h43
Nuvens de Brasília

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Setor Comercial Sul, 18h15
Nuvens de Brasília

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Desde que alguém percebeu que os veículos de comunicação, além de levarem informação e entretenimento, poderiam se tornar ótimos vendedores, não é exagero imaginar a propaganda como espelho do pensamento e dos anseios de uma sociedade.

Creio que tardiamente tomo conhecimento do site publistorm.com e tenho acesso a uma postagem de quase três anos (http://migre.me/fXKUs). Quem acessar, verá peças publicitárias que, se veiculadas hoje em dia, seriam objeto não apenas de denúncia aos conselhos de publicidade, mas às próprias barras da Justiça criminal.

Em um deles, um homem dá palmadas no traseiro da esposa, como se fosse ela uma criança. No outro, outro homem pisa um tapete que tem na borda a cabeça de uma mulher, uma imitação grotesca daqueles tapetes bem cafonas feitos com pele de urso ou tigre, e que em alguma vez já vimos em filmes antigos ou quiçá mesmo em cores vivas.
Homem batendo

Homem pisando
Os anúncios foram feitos para ser engraçados à época, calculo eu que por volta dos anos 1950, e, se hoje causam indignação, traduzem a visão ocidental e oriental – que, ao que me consta, em nada é superior à primeira quando o assunto é relação homem/mulher – que se possuía dos papeis masculino e feminino nesse planeta de desigualdades.

O ponto positivo é a certeza de que houve progresso na percepção sobre esses papeis, e também sobre a de outros que, ao longo da história da propaganda, devem ter servido de piada infeliz dos publicitários.

Mas o progresso não é ainda satisfatório.

Talvez se aproxime disso quando finalmente nos insurgirmos contra o tratamento de mulher objeto dado principalmente às louras nos comerciais de cerveja, ou quando não aceitarmos que, em um país predominantemente mestiço, os anúncios ainda pareçam ter sido gravados na Suécia.

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Justamente aquele pedaço tolo de papel, que jamais poderia sumir, foi o que você perdeu.

Notas antigas de mercado, tanto número de telefone pro qual você não liga, recados que pelo tempo perderam o sentido, e aquele monte de outros papeis que já deveriam estar no lixo desde o século 18.

Mas você foi perder logo a mísera metade do guardanapo onde anotou às pressas, com letra corrida e pior do que costuma fazer, aquele endereço, o valor a ser pago, o nome de quem procurar quando chegasse onde ainda precisa ir, o assunto a ser tratado.

E o papelzinho ficou ali, rolando pela estante, quatro, cinco dias, sujeito a ser engolido pelo mistério das coisas que desaparecem dentro de casa sem explicação. Parece até que ele avisou: eu vou sumir e você vai me dar valor.

Junto, quase na borda, estava o número do celular de quem te passou todas as informações. É claro, você não tem de cabeça o número da pessoa. Aliás, na metade da manhã, já não cabe mais nada em sua cabeça.

Derrotado pela fatalidade imbecil, você olha em volta: não despejou o lixo, o detergente acabou e você nunca que compra, o vazamento da pia só aumenta. A vida besta também está te vencendo, em silêncio e cínica, como o mais perverso dos inimigos. Você pega o carro com vontade de sumiços.

Pode parecer inconcebível que um pedaço de papel idiota possa fazer tanto estrago, mas quando você se dá conta, ele o levou ao balanço da contabilidade de sua vida amorosa, profissional, financeira e qualquer outra vertente que a vida de uma pessoa possa ter. Desanimado, você puxa o extrato. Não parece haver saldo, só déficit.

À noite, na cama, lugar onde você queria ter passado todo o dia, você pede que o sono seja pesado e o amanhã seja mais leve. E realmente você acorda melhor, embora não possa garantir a si mesmo que esteja bem. O lixo e o vazamento ainda estão por ali. O papel não apareceu.

Esperando o diabo do pão pular da torradeira, você meio que ouve uma voz raspar em seus ouvidos: cara, você não é tão mau assim nem culpado de tudo.

A voz parece convencida do que diz.

Só falta agora você se convencer.
cochicoho

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Carvalhido tem 50 anos. Ficou cego aos 20. Tomou um tombo besta, bateu de leve a cabeça. Foi cegando ao longo do tempo, cada dia enxergando menos, até que um dia não viu mais nada.

Ninguém sabia que era possível cegar assim. Pensavam que se nasce com a escuridão das vistas, ou nela se entra de uma hora para a outra. Carvalhido foi aos poucos, como quem entra em água fria.

Cego

Mas os olhos é que ficaram cegos, não a memória.

Carvalhido guardou na lembrança as flores, o voo dos pássaros e o tamanho do mar.

Assim, decidiu ver o mundo pelo lado bonito que conheceu enxergando.

Quando encontra um conhecido, não deixa passar:

-É um prazer revê-lo! – e dá uma risada deliciosamente sacana.

E se você disser que ele é exemplo, lição de vida, vai ouvir de pronto:

-Sou porra nenhuma! – ele desdenha rindo, e tenta lhe acertar carinhosamente as pernas com a bengala.

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