André Giusti - foto: Luana Lleras
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Meu novo site e meu novo blog entram no ar consolidando em mim uma certeza (com perdão pela redundância): a internet vai, aos poucos, libertando nós, os escritores.

Até 2009 eu era um escritor que pouco produzia. Os livros e um ou outro suplemento literário eram minha únicas vitrines. Livros não lançamos a toda hora, e no Brasil, que dizem ser de poucos leitores, às vezes penso que existem dez escritores por metro quadrado. Pode-se imaginar toda essa gente disputando um espacinho nos escassos suplementos literários.

Por ocasião do lançamento do meu site, a divulgadora da página me exortou a lançar também um blog. E disse o óbvio: você é escritor e jornalista, precisa escrever. E muito. E sempre. E todos os dias.

O óbvio mudou minha forma de trabalhar, e, consequentemente, minha relação com os leitores e minha recepção pelo público. Obriguei-me a atualizar o blog praticamente todos os dias, e a quantidade aliou-se ao poder de disseminação da internet. Passei a ser lido, comentado, divulgado, tudo o que um escritor na verdade quer e busca quando senta para escrever.

Mas a nossa libertação do velho formato impresso ou de nossas gavetas de guardados, veio mesmo com o feicibúqui. A rede social do garotão Zukerberg pode ser – e é para quem se dispõe – um canhão enlouquecido disparando contos, crônicas, poemas e afins para todos os lados. “Ah, mas tem muita porcaria”, dirão os de má vontade. Claro, mas então, qual a diferença, nesse aspecto, para o cinema, teatro, TV, música e o próprio mercado que despeja toneladas de livros na praça?

Já publiquei poemas na rede que receberam 10, 20, 50 curtidas, fora as pessoas que leram e não se manifestaram. Adoro o livro impresso e acho que jamais morrerá, mas quando, ainda mais em se tratando de poesia, gênero lunático sempre de lado, que um poema meu, se apenas encontrado na forma impressa, seria lido por 50 pessoas num mesmo dia? Nunca, nem na cabeça virada de poeta.

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Amanhã entra no ar a nova versão do meu site e do meu blog. O carrinho amarelo, que durante quatro anos serviu de mote para minha página na internet por ocasião do lançamento de meu livro A Liberdade é Amarela e Conversível, sai de cena. Em seu lugar, entra um novo conceito de página e de blog,  centrados na minha figura como escritor. Os detalhes e o visual novo vocês saberão e verão amanhã.

Para me despedir desta antiga versão, com a qual aprendi a escrever para a grande rede, deixo com vocês dois textos publicados em janeiro deste ano, e que falam justamente de transformação, de mudanças, disso que, assim como a morte, é inevitável: o passar do tempo. Vejo vocês amanhã, com nova cara, mas com o mesmo amor por esse ofício que escolhi como forma de interpretar o mundo: escrever.

*

As estranhas réguas do tempo 1 e 2

 

É difícil, em um início de ano, fugir de qualquer reflexão sobre o tempo, sejam as banais os as que requerem maior engenharia.

Comecei minha vida profissional trabalhando com pessoas nascidas nos anos 40 e 50, ou até mesmo mais velhas, com idade para serem meus pais.

Minha geração, nascida nos anos 60, saiu da universidade, consolidou-se no mercado e viu chegar os filhos da década de 70. Mesmo que ainda não fosse tanta, já possuíamos alguma experiência para passar a eles.

Quando o novo século entrou, as pessoas que nasceram nos anos 80, portanto na minha adolescência, apareceram para ajudar nossa adaptação à reviravolta tecnológica do planeta. Ao lado deles, compreendemos, de uma hora pra outra, que fax e CD estavam obsoletos.

Dez anos se passaram e eis que, duas semanas atrás, pouco antes do natal, a estagiária pega e me conta que nasceu em 1994. Fiquei calado observando os movimentos ágeis de seus dedos na tela do smartphone, pensando como é possível que alguém que nasceu em 1994 já esteja aqui, ao meu lado, trabalhando, aprendendo o meu ofício. Aliás, como é possível que alguém tenha nascido em 1994 e já tenha idade para ser minha filha?

O tempo nos oferece estranhas réguas para medirmos o quanto ele passa.

E o quanto estamos envelhecendo.

***

Há nove anos minha carteira de trabalho não saía da gaveta. Todo esse tempo trabalhei como pessoa jurídica, figura cada vez mais fácil nas redações e assessorias de comunicação país afora.

No caso de algumas empresas, contratar como PJ realmente viabiliza a oferta de trabalho. Pela CLT seria inviável e um posto de trabalho estaria fechado. Em outros, no entanto, é esperteza patronal disfarçada de modernidade na relação trabalhista.

Julgamento de mérito à parte, minha surrada carteira viu a luz do sol depois de muito tempo e eis que sou pego de surpresa pelo rapaz do departamento de recursos humanos: “não há mais espaço para contrato de trabalho, você terá que tirar outra”, me avisa tranquilo, devolvendo-me o livreto amarelado que certamente é mais velho do que ele.

Sentei num canto e folheei suas pequenas páginas, e os anos de minha vida profissional passaram manchados de canetas e carimbos. Mas essas marcas não são apenas borrões, são mais ainda lugares, pessoas queridas ou desprezadas, alegrias, sonhos e desilusões.

Gabriel Garcia Marques diz que um homem descobre que está envelhecendo quando começa a se parecer com seu pai. Hoje descobri que isso acontece também quando a carteira de trabalho acaba e não há mais espaço para carimbos e canetadas, e ficamos com um ar abestalhado, segurando o documento, pensando que o tempo deveria ter mais consideração e não nos pegar de surpresa quando fosse avisar que está passando e que estamos mesmo envelhecendo.

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É difícil determinar o que faz uma pessoa ser interessante, aquela que esconde e ao mesmo tempo deixa à mostra algum aspecto que nos cativa, mas que não conseguimos explicar exatamente o que é.

Ser cátedra, ter pós-doutorado na França, ser executivo de multinacional, líder reconhecido no mercado ou político influente faz o sujeito importante, mas não necessariamente interessante.

Também não é passaporte para ser interessante saber dos últimos lançamentos da Apple, da Samsung ou ter sido um dos primeiros a ir ao restaurante da moda, que forma dois quilômetros de fila na porta.

A bem da verdade, é mais provável que pessoas assim despertem sonolência em vez de interesse.

Dessa forma, eliminando esses tipos, você se surpreende verificando que com quem gostaria de conversar por mais de 15 minutos é o uruguaio que veio para o Brasil cursar a escola de circo. Ele joga malabares no sinal em que você para todos os dias, e hoje a apresentação dele estava tão boa, mas tão boa, que você, batendo palmas dentro do carro, se desculpou sinceramente por não ter nenhum trocado, ao que ele, em bom portunhol, respondeu “não tem problema, seu aplauso foi meu melhor cachê do dia”.

Há também a balconista da farmácia, que certamente foi trabalhar enlatada num ônibus, mas que te vende um antigripal com atenção e sorriso largo, e de quebra deseja de coração que você fique bem, que amanhã acorde melhor. E no dia seguinte, quando você passa, ela coincidentemente está na porta da loja e pergunta: O senhor se sente melhor?

Sem falar na loura tingida da casa lotérica, aquela em que você entrou aproveitando que não havia fila, para jogar sem qualquer esperança na mega sena. Ela apanha a nota que você pegou na carteira e diz que com o troco dá pra jogar na quina que corre à noite e, quem sabe, ganhar um milhão. “Aí, o senhor volta aqui e me dá um presente”, e pisca o olho, divertida, misturando malícia e pureza. E ela faz isso de um jeito tão alegre que você promete a si mesmo que se ficar milionário vai mesmo comprar um mimo pra ela.

E pra balconista.

E dar um belo cachê pro uruguaio.

Porque cada um, a seu modo, fez ao menos cinco minutos da sua vida serem um pouco melhores e mais divertidos.

*

Nesta 2ª feira, dia 26, entram no ar meu novo site e meu novo blog, neste mesmo endereço.

PS2: De terça, 27, a sexta, 30, participo da Bienal de Literatura e Poesia do Açougue Cultural T-Bone, na 312 Norte, em Brasília, quando lançarei também meu 5º livro – História de pai, memórias de filho – e a 2ª edição de Voando pela noite (Até de manhã) – meu primeiro livro. Vejo vocês lá!

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John Lennon contou certa vez, em uma entrevista, que quando compôs Help, um dos maiores hits da banda, ele estava realmente desesperado e precisando de ajuda. Era por volta de 1964, e com o mundo aos pés dos Beatles, cercando-os de glamour, era difícil imaginar que um deles não estivesse bem e realmente pedisse socorro, ao contrário do que a letra, aparentemente pueril, possa sugerir.

Esta semana, conversando com uma amiga, ela, que tem no amparo ao semelhante uma de suas características não apenas pessoal, mas também profissional, me confessou que as pessoas não perguntam como ela vai, se está precisando de alguma coisa, se a vida anda mesmo bem como aparenta. E ela não falava de qualquer pessoa, falava das mais chegadas, daquelas que formam o chamado círculo íntimo.

Acontece com quem vive de dar o braço para ajudar o outro a caminhar, e que, quando está mal, fica sem jeito ou graça de pedir que também lhe estendam o braço. Então, o mundo, mesmo que próximo, segue ao redor como se nada houvesse de anormal.

O mesmo se dá com aquelas pessoas que primam pelas chamadas atitudes positivas perante a vida. Principalmente em épocas de redes sociais com lindas fotos de crianças sorridentes, gatinhos limpinhos e paisagens paradisíacas ilustrando frases de força, fé e esperança, é difícil saber se uma pessoa, às vezes de algum modo próxima a nós, está realmente bem.

Por isso, se você tem alguém bem chegado, de quem goste muito, e essa pessoa é o tipo “consoladora a toda hora” ou aquele “iluminado pelo otimismo”, de vez em quando dê uma checada se tudo realmente está correndo bem. Mas faça isso com o coração, com sinceridade nos olhos, querendo saber se tudo está mesmo ok como aparenta. Isso pode significar, para quem você gosta, a passagem da tristeza para a alegria. Ou, em casos extremos, a diferença entre a vida e a morte.

***

Recentemente, donos de restaurantes de Brasília distribuíram quentinhas na hora do almoço à população na rodoviária da cidade em protesto contra a alta carga tributária e os encargos trabalhistas que encarecem o preço final dos pratos que eles servem nos estabelecimentos. Muito justo. Mas será que é isso que justifica que um restaurante de Brasília cobre R$ 8,00 por uma cerveja long neck que no supermercado custa  R$ 2,65? Isso se chama carga tributária, encargo trabalhista ou se chama ganância?

PS: Nesta 2ª feira, dia 26, entram no ar meu novo site e meu novo blog, neste mesmo endereço.

PS2: De terça, 27, a sexta, 30, participo da Bienal de Literatura e Poesia do Açougue Cultural T-Bone, na 312 Norte, em Brasília, quando lançarei também meu 5º livro – História de pai, memórias de filho – e a 2ª edição de Voando pela noite (Até de manhã) – meu primeiro livro. Vejo vocês lá!

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É do senso comum do brasileiro que o Estado, com sua costumeira agilidade de paquiderme prenhe subindo a escadaria da Penha, não emprega os impostos que pagamos naquilo que é público, portanto, de uso comum.

A ideia é correta, porém incompleta.

Incompleta na medida em que o Estado não é o único agente responsável por conservar aquilo no qual nosso dinheiro é usado para manter em condição decente de uso.

Se é público, a responsabilidade é de todos, ou das duas partes – estado e sociedade -, como num casamento, em que o ‘felizes para sempre’ não cabe só à mulher ou só ao marido. É esforço diário dos dois.

No parquinho infantil de uma quadra de Brasília, a cerca de ferro está no chão, derrubada por alguém, ou provavelmente por mais de uma pessoa, que muito mais do que força teve a intenção de danificar o que é de todos, dele (ou deles) inclusive.

No Rio, com a nova lei que multa quem joga lixo no chão, muita gente reclama com acerto da falta de lixeiras nas ruas. Mas também é certo  que não é sacrifício algum a pessoa segurar o lixo que tem à mão até encontrar local apropriado para se desfazer dele.

Independentemente de quem seja a mulher e o marido nesse casamento Sociedade-Estado, quem derruba a cerca de um parquinho ou joga lixo no chão é a parte que não reconhece seu papel na relação, que joga nas costas do outro todo o esforço para o sucesso do enlace e que, pensando bem, está mais é querendo que o casório vá por água abaixo.

OS: Na próxima 2ª feira, 26/8, entram no ar meu novo site e meu novo blog. Aguardem!

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No gosto nostálgico do primeiro gole dessa cerveja que tomo antes do almoço de domingo, tantas épocas e lugares, quanta gente.

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A TV da barbearia está ligada em um jogo qualquer da terceria divisão e o barbeiro passa a navalha na sua nuca para fazer o pé do cabelo e conta uma daquelas piadas que de tão imorais fariam corar as quengas e os rufiões de outrora. Em seguida ele coloca o espelho atrás da sua cabeça para que você confira na imagem contraposta no espelho maior que está a sua frente se o trabalho dele está ok mas você espia rápido e fala tá ótimo porque foi pênalti no jogo da terceirona. Só que você não espera que exatamente no momento em que a bola será chutada da marca fatal o sujeito ensope seu cangote com uma loção azul esverdeada que é exatamente igual ao perfume do quarto de algum hotel que você não sabe qual foi nem onde é nem com quem dormiu nele. Só tem certeza que foi há muito tempo e numa cidade muito distante da que você mora e que lá você deixou pra sempre um pedaço maravilhoso da sua vida do seu coração dos seus sonhos planos e do seu corpo. E feliz coração bumbando desesperado tentando se lembrar você nem reparou que o pênalti foi chutado na trave e no rebote o zagueiro grosso que só ele deu um bico tão forte que a bola foi parar na arquibancada e que o barbeiro só está esperando você se levantar pagar a conta e dar lugar a outro freguês.

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O Globo Esporte, da TV Globo, está fazendo 35 anos. Sou de uma geração que saía correndo da escola para assistir ao Léo Batista apresentar as notícias do futebol. Na época do Flamengo do Zico, o Globo Esporte das segundas-feiras era, para mim, o mais saboroso dos programas de TV.

Hoje levaram ao ar uma edição especial de aniversário. Acharam por bem destacar a história de alguns apresentadores e repórteres que ao longo desse tempo apareceram na telinha falando de esportes na hora do almoço.

Peço perdão por ser ranzinza, mas não me despertou interesse assistir à entrevista que a apresentadora bonitona concedeu ao próprio Globo Esporte à época em que era campeã de bodyboard. Muito menos me comoveram as contingências em que foi feita a primeira reportagem a entrar no ar do outro jornalista, que hoje é um dos principais da emissora.

Como jornalista, ainda gosto mais de notícia do que da vida dos outros, e esperava que um programa especial sobre os 35 anos do Globo Esporte pudesse trazer uma retrospectiva do que de mais importante aconteceu em três décadas e meia. Passamos de tri a penta no futebol; deixamos de ser o país de alguns dos melhores pilotos de F1 e passamos a ser a pátria do vôlei. Vamos sediar uma Copa do Mundo e uma Olimpíada. Será que não há nada de importante a falar sobre isso no aniversário do programa?

Mais uma vez, peço perdão por ser ranzinza, mas é que ainda acho que os fatos que viram notícia são mais importantes do que nós, que produzimos notícias .

PS: Mudando de assunto. A dona do bar em que tomo café diariamente disse que todos os dias levam dali dois ou três frascos de adoçante, alguns já pela metade, inclusive. Como você acha que agiria uma pessoa que rouba um frasco de adoçante pela metade se estivesse no lugar do deputado e do senador aos quais, possivelmente, ela acusa de ladrão?

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Esqueça, cara! Ela não vai te surpreender. A crise de criatividade é geral, inclusive entre as mulheres.

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Quase não tenho memórias do meu primeiro dia dos pais. Sei que minha filha mais velha era bebê, estava beirando fazer um ano e ainda não andava. Portanto, tinha que caregá-la no colo, carrinho ou no tal bebê conforto, cujo nome correto deveria ser “papai desconforto”. Por causa dele, aliás, precisei aumentar a carga na musculação e fazer alongamento que nem gato.

A lembrança mais forte me remete a um único detalhe da festinha na creche onde a pequena havia sido matriculada. Era uma frase, sem assinatura, no painel do corredor principal: “Pai, pise firme! Eu seguirei os seus passos.”

Nunca descobri o autor, assim como jamais li qualquer outra coisa tão bela e significativa que se referisse à relação pai e filha(s), no meu caso. Consegue ser objetiva e ao mesmo tempo ampla em sua mensagem, enquanto que sua força está nos sentimentos de confiança e responsabilidade que carrega. O primeiro, da parte de quem fala. O segundo, do lado de quem ouve.

Ao ler a frase, me peguei chorando a ponto de pôr os óculos escuros para disfarçar. Metade das lágrimas, claro, era por causa do primeiro dia dos pais como pai. A outra metade – e ali só eu sabia disso – era por causa do primeiro dia dos pais do filho que meses antes ficara órfão. Órfão de pai.

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