André Giusti - foto: Luana Lleras
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- Se emocionar, aplaudir, renovar a esperança. Nunca perder o senso crítico.

- Por que casar significa obrigatoriamente morar juntos?

Respeito não significa necessariamente “debaixo do mesmo teto e ao lado, na mesma cama”.

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1 – Essa vontade de chorar quando uma família se junta para tirar uma foto no meio do shopping, no meio do dia.

2 – Existe vida além de você. Muita, inclusive.

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Não sei e ninguém deve saber de quem é a frase, mas essa coisa de a vida ser gangorra é teoria consolidada e de aplicação prática.

Então vejamos o caso do Ronaldinho Gaúcho.

Com apenas 17 anos, eu acho, fez um dos mais belos gols da história da Seleção Brasileira (Contra a Venezuela, Copa América, 1999).

Saiu do Grêmio pela porta dos fundos, rodou um pouco pela Europa e parou num Barcelona que, pelo que me lembro, só não era melhor que o do Messi. Lá, foi eleito o melhor do mundo duas vezes.

Antes, no entanto, ajudou – e muito – o Brasil a levantar o quinto caneco de sua história. Lembram que ele colocou o Rivaldo na cara do Gol contra a Inglaterra e depois fez o golaço de falta? Tudo bem, foi expulso depois, mas é por esse tipo de coisa que o futebol é apaixonante.

Em 2006, estava naquela insossa seleção na Copa da Alemanha, aquela em que, segundo O Estado de São Paulo, o outro Ronaldo, na atualidade raso comentarista de TV, fumava, tomava coca-cola  sem parar pelos cantos e repetia para os mais jovens que não sabia o que estava fazendo ali, já que estava mesmo  com a burra transbordando vil metal. Dizem que o Gaúcho foi um dos poucos, senão o único jogador que saiu realmente abatido de campo depois que comprovamos sermos fregueses da França em copas do mundo. Sim, foi aquele jogo em que o Roberto Carlos se preocupou mais em ajeitar a meia.

Dali em diante, a gangorra da vida de Ronaldinho Gaúcho parece que estacionou lá embaixo. Lembrem-se: no mesmo ano o Barcelona perdeu o título mundial para o arquirrival dos tempos de Rio Grande, com um gol de Adriano Gabiru, do qual eu pelo menos nunca mais ouvi falar.

Foi para o Milan, onde parecia não querer mais saber de chamego com a pelota.

Na volta ao Brasil, fez que ia e não foi pro Grêmio, e por lá acho até que o povo prefere ver um colorado do que o dentuço pela frente.

Acabou no Flamengo e depois de aparentar que seria ídolo, saiu brigado e com fama de pinguço. Hoje, percebe-se que por lá as coisas não andaram bem muito mais por incompetência e picaretagem da antiga diretoria.

Foi parar no Atlético, time grande, mas, até então, de títulos pequenos.

Nesse meio tempo, andou queimando ainda mais seu filme, vestindo a amarelinha naquele time sem graça do Mano Menezes. Quando a coisa começou a melhorar pro nosso escrete, teve que engolir o Felipão dando a entender que ele não era bom exemplo para o grupo.

Aí, quando você acha que a vida do cara já desceu mesmo a ladeira e que não sobe mais de volta, ele pega e é campeão no título de Libertadores mais sensacional que um clube brasileiro conquistou.

A vida não é só gangorra. É também um bagulho muito doido, e essa frase é que não sei mesmo de quem é.

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Há algo dentro de mim fazendo com que eu me sinta vivo. E não é só o coração batendo.

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Funcionários de uma empresa que presta serviços ao Aeroporto Internacional de Brasília fizeram manifestação reclamando o pagamento de uma série de direitos. Pelo que li, a empresa é enrolada com falcatruas e deslizes trabalhistas.

Não discutindo a justiça do protesto, é, mais uma vez, pertinente contestar a forma como foi feito: fecharam por três horas a única pista que dá acesso ao Aeroporto da capital do país. Imagine-se o tanto de gente descendo dos táxis e correndo com mala na mão para não perder o voo.

Repito: sou a favor que se pare o trânsito, a cidade, o país e o mundo por uma causa que diga respeito a toda a sociedade. Por questões afetas apenas a um pequeno grupo, não concordo.

Mas, no caso, o objeto central acaba não sendo nem esse, mas sim a imobilidade da administração pública para beneficiar o cidadão.

Como já disse, só existe uma pista rumo ao Aeroporto JK. Nos jornais de hoje, as autoridades discutem como construir uma via alternativa que chegue ao terminal, porque as cercanias são quase todas áreas de preservação ambiental, intocáveis – com toda razão – de acordo com a lei.

Só que não se trata de construir outra via. A que existe é suficiente, ainda mais que está sendo ampliada. O que deve ser feito é simples, porém, no Brasil, autoridade não rima com coragem. Determine-se que nenhuma manifestação classista pode interromper o trânsito, simplesmente porque existe uma regra que remonta aos primeiros tempos da civilidade: o direito de um termina onde começa o do outro. Portanto, quem quiser protestar que berre o dia inteiro se necessário, mas em cima da calçada, sem parar a vida dos outros. Se for pro meio da rua, terá que sair.

Mas não, no Brasil se dá uma volta enorme quando a saída está debaixo do nariz, embora incorra, muitas vezes, em ônus político.

É um bom país, mas com um talento enorme para resolver seus problemas tirando apenas o sofá da sala.

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1 – O problema de você querer se mostrar otimista demais é acabar se passando por deslumbrado.

2 – Essas pessoas que eram tão nossas amigas quando estávamos por cima, ou quando éramos importantes para seus interesses pessoais, e que hoje nos cumprimentam rapidamente sem nem pararem para falar direito, aumentam tanto nossa sensação de solidão.

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Para quem realmente deseja que o país mude, deve ser parada obrigatória um cinema em que esteja sendo exibido o documentário Dossiê Jango, de Paulo Henrique Fontenelle.

Logo no início, há um depoimento que chama a atenção sobre o momento que o Brasil vivia quando os generais deram o golpe.

Éramos um país cuja inteligência e o talento floresciam em diversos campos da educação, saúde, artes, literatura e pensamento, movido por um forte crescimento econômico. Tudo que se busca e não se encontra atualmente.

Pelo documentário, o Brasil de 64 era aquele universitário brilhante, primeiro da sala, com emprego onde quisesse após a formatura, mas que sofreu um acidente brutal e teve a vida limitada por sequelas gravíssimas.

Então, logo nos primeiros minutos de projeção, cai por terra qualquer dúvida que ainda possa existir se os 21 anos de treva e terror fardados possuíram alguma utilidade para o país.

Mas há outros dois aspectos relevantes no documentário de Fontenelle.

Um joga luz sobre um plano pouco explorado quando se fala de Jango: seu apego com limites éticos ao poder, adjetivo que cairia bem aos políticos de hoje.

Vendo que se resistisse ao golpe nosso território seria dividido pelos EUA e haveria um banho de sangue no país, ele joga a toalha, e junto vão sua vaidade e sua biografia, a qual o documentário tenta devolver parte do reconhecimento merecido.

O outro é o aspecto jornalístico.

O expectador sai do cinema convencido de que as ditaduras sul-americanas mataram não apenas Jango, mas também JK e Lacerda.

Ele não prova isso, porque a prova definitiva não há, mas investiga, vai aos documentos da época, deixa claras as evidências e ouve pessoas pertinentes, inclusive tomando depoimentos inéditos no caso. Ou seja, lança mão de todos os instrumentos necessários para conseguir do público o que um documentário sobre a morte de um ex-Presidente da República precisa: credibilidade.

Coisa que falta ao jornalismo de hoje em dia.

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Na última festa de fim de ano do colégio de minhas filhas, havia mais pais e mães na beira do palco se acotovelando para bater fotos ou filmar do que criança se apresentando.

Desde que a era digital nasceu para a fotografia, é cada vez mais difícil encontrar alguém que assista a alguma apresentação que não seja por trás do enquadramento de uma máquina amadora, celular ou smartphone.

Parece que não é mais possível que um espetáculo seja visto sem que os olhos tenham a intermediação da tecnologia.

Nada contra a fotografia e a tecnologia, menos ainda em relação à união das duas, que, inclusive, fez com que amadores feito eu descobrissem o prazer de, por exemplo, retratar as nuvens da cidade onde moro.

Mas é que alguns acontecimentos talvez precisem ser fotografados primeiramente – e às vezes apenas – pelos olhos, que são as lentes da alma.

É provável que enquanto estivermos procurando o ângulo mais adequado para capturarmos num clique aquele que julgamos o melhor momento, nosso envolvimento maior seja com a mecânica de fotografar, e não propriamente com seu objeto. E como no geral não somos profissionais, é bem possível que aquele verdadeiramente melhor momento – a rodada de saia da filha na quadrilha da festa junina, a cara engraçada do filho na pecinha de natal – não se eternize nem pela técnica da lente nem pelo misterioso mecanismo da memória.

Sem falar que uma foto pode ser esquecida na gaveta, perdida no caminhão de mudança, ou, nessa era hightech, desaparecer na falta de backup.

Já uma lembrança marcante estará conosco até nosso último suspiro de vida.

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Outro dia li em algum lugar uma paráfrase ao que John Lennon disse certa vez sobre os planos que fazemos: “A vida é o que te acontece enquanto você está vendo o celular”.

O avanço tecnológico já exige substituir celular por smarthphone.

Parece que quase ninguém emenda mais de cinco minutos de conversa sem que interrompa o papo para conferir as postagens dos últimos 30 segundos, ou se entrou mais alguma mensagem além daquelas que chegaram dez minutos atrás.

Na academia, malha-se conferindo a pequena tela, e todos com uma expressão absurdamente, grave, séria e concentrada, como se a Dilma estivesse pedindo conselhos sobre a economia ou a inflação. Sem falar na insanidade de se fazer o mesmo ao volante, com o carro em movimento.

Não me acho sujeito complicado de lidar, mas sofro do que chamo tédio das pessoas. Ou de um determinado tipo de pessoa.

Certa vez disse que esperava jamais precisar conversar com alguém que vá para a fila de madrugada para esperar a loja abrir e comprar o novo modelo do iphone. Felizmente, até agora não precisei.

Mas preciso – precisamos – conviver, mesmo que indiretamente, com os excessivamente conectados, os exacerbadamente tecnológicos com seus dedos ágeis e olhos vidrados numa tela touch screem.

E isso cansa um pouco.

Ou, no meu caso, dá tédio.

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Trabalho em um prédio construído no início dos anos 70. O último dos elevadores originais foi desativado há algumas semanas.

Era daqueles revestidos de fórmica, com grandes e desgastados botões pretos de comandos analógicos e pequenas molas de pressão, perfilados num painel de aço riscado por nomes e datas perdidas nos calendários.

O uso diário por anos a fio e o costumeiro pouco caso do Estado com seu patrimônio (no prédio sempre funcionou uma repartição pública) levaram o equipamento ao limite do esgarçamento, a ponto de precisar ser colocado o aviso, contundente, mas sincero: “Lotação máxima 5 pessoas. Cuidado! Risco de despencar!”. Quando as velhas portas desajustadas abriam ou fechavam, a sensação era de que a pequena cabine iria realmente desmontar.

Dono de velhas histórias e desabonado de tecnologia, o barulhento cubículo possuía um mérito: não demorava, ou pelo menos não mais do que o aceitável.

Desativado, deu lugar ao seu moderníssimo substituto, de aço inox brilhante, luz de neon mais clara que o dia e espelhos onde as mulheres sobem ou descem ajeitando os penteados, e os homens, as gravatas. Uma gravação avisa que andar é aquele em que se parou. O andar, aliás, é escolhido antes do embarque: digita-se o número e a tecla confirma. Um espetáculo. De demora, de espera na fila, de desistência e opção de subir pela escada, dependendo de pra onde se queira ir.

Claro, o problema não é o novo equipamento, eu já sabia quando pedi a explicação. Encabulado, alguém responsável admitiu que houve erro na programação do sistema, e que agora precisam refazer tudo, mas que só dá pra fazer no fim de semana, quando não há expediente.

De tudo isso, fica a conclusão que sempre pareceu óbvia, mas que de vez em quando parece ofuscada pelo temor de que as máquinas tomem do homem o comando do mundo. A tecnologia só é fantástica se, por trás dela, houver o mínimo de inteligência que a ponha para funcionar.

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