André Giusti - foto: Luana Lleras
voltar para o início do blog

Estou de costas para a TV ligada e ouço a inconfundível voz do Pedro Bial anunciando as atrações do programa que ele apresenta, o tal Na moral, que me parece mais uma tentativa desesperada da TV aberta em reverter a queda de audiência dos últimos tempos.

A voz do Bial é ótima, radiofonicamente perfeita, mas é difícil descrever minha irritação quando a ouço, tal é sua identificação com o lixo que a telinha vem jogando em nossas casas nos últimos anos.

Eu não tinha, até agora, qualquer conceito formado sobre o tal Na Moral, mas a chamada do programa, que apenas ouvi, pois – repito – estava de costas, me comprova que, apesar da roupagem descolada do título e da ginga enjoativa do apresentador, é mais do mesmo da pobreza televisiva.

A quem possa interessar, o tema do programa de hoje (é hoje? Nem sei…)é o preço do corpo humano. Como não se disse com clareza o que será discutido, cheguei rapidamente a pensar que se tratava de algo relativo à prostituição, mas logo o modo “simpático e legalzinho” do Bial apresentar me esclareceu a dúvida: quanto vale o popozão da popozuda?, ele pergunta.

Já nem cabe mais discutir como um jornalista como o Bial, que para os moldes de TV era um grande profissional, derrapou na curva tempos atrás e está até agora caindo no abismo da babaquice.

O que me desanima é que a cada dia a televisão perde mais e mais oportunidades de ser um veículo pertinente, interessado em construir uma sociedade melhor.

E o que me entristece é que o objetivo é esse mesmo, não há ninguém por trás das câmeras cometendo algum engano.

Comentários (1)

Esse desejo todo de consertar o país e tentar mudá-lo a partir da execração pública dos políticos me faz pensar na cena que vi certo tempo atrás num hipermercado.

Na fila do caixa, o sujeito tomava tranquilamente uma cerveja.

Quando terminou, ainda faltava algum tempo para pagar o que havia comprado. Com a mesma naturalidade que um deputado ou senador pega um avião da FAB para viagens particulares, o homem recolheu a longneck a um canto escondido. Não manteve a pequena garrafa junto ao resto das compras que iria pagar em poucos minutos, portanto, não pagaria pelo que consumiu, daria, como deu, calote. Roubou.

Percebi em seu rosto o sorriso de malícia que um costume brasileiro, histórico e distorcido gosta de caracterizar como sendo de malandragem, mas que não é. É corrupção, que pode não ser igual em valor a que desviou dinheiro da merenda escolar e do remédio do posto de saúde, mas é a mesma no rasteiro valor moral.

Agora, que a mesmice do silêncio do conformismo volta a ocupar as ruas, é de se pensar que a melhor maneira de se mudar o país é fazê-lo em duas etapas.

Mudar a nós mesmos é uma delas.

Talvez, precipitadamente, tenhamos começado pela segunda.

Comentários (0)

Semanas atrás, com um velho companheiro de profissão, eu relembrava histórias dos lugares onde trabalhei, os momentos em que, para aliviar a tensão de um ofício em que o stress é ingrediente principal da rotina, homens feitos se permitiam ser moleques de escola. E daqueles que ficam depois da aula na sala da diretora.

Durante mais de três anos apresentando o programa CBN Brasília, uma de minhas diversões preferidas era arremessar bolinhas de papel no operador de áudio Bebiano Nunes, um dos melhores profissionais da área técnica do rádio com quem trabalhei.

E a diversão dele era a mesma: devolver em cima de mim as mesmas bolinhas de papel.

Certamente os ouvintes nunca notaram, mas quantas vezes eu, falando ao microfone, levei uma bolada na testa, no nariz, na orelha. O mesmo acontecia com ele, tendo que manter a rádio no ar sendo bombardeado pela minha, modéstia à parte, boa mira.

Havia até comemoração: acertar a testa e o nariz do outro era como marcar uma cesta de três pontos no basquete.

Rindo da lembrança, pensei na felicidade, se ela é mesmo uma coisa inteiriça, única, uma cidade a que se chega. Ou se é algo dividido, que vem e vai de forma espaçada, uma estrada que passa por várias cidades e nunca chega a uma em particular.

Acho que fico mesmo com as últimas hipóteses, que constroem  a minha certeza de que a felicidade pode muito bem ser acertar a testa do colega de trabalho com uma bolinha de papel.

E comemorar como se houvesse feito uma cesta de três pontos.

Comentários (7)

1)Durante o calor das manifestações do mês passado, algumas mensagens criavam diálogos passados num futuro daqui a 50 anos se referindo a toda essa confusão como a revolução de 2013.

O exagero é patético, mas é inegável que os frutos vieram, embora alguns de forma atropelada, sem a devida análise que mereciam.

Quando se poderia imaginar o Congresso pensando em abrir mão do recesso ou o Senado derrubando o voto secreto em toda e qualquer situação, inclusive quando se trata da própria pele dos senadores?

O problema é que isso tudo é bem parecido com um churrasco. A gente vai lá, toca fogo no carvão, a labareda sobe, acende a brasa e a carne assa. A brasa tá acessa, a carne tá assando, mas se o churrasqueiro relaxar e deixar pra lá, a brasa apaga. E a carne – eles – só vai prestar mesmo com a brasa acesa.

2)É constrangedora a posição de alguns setores da esquerda que, em vez de aceitarem e entenderem o que aconteceu/está acontecendo, preferem desqualificar tudo, em especial com aquela história de “criados a pera e Ovomaltine”. Volto a dizer: quem foi às ruas derrubar o Collor tinha o mesmo perfil sócio econômico dos manifestantes de hoje, a diferença é que usavam camiseta e botton do PT e da CUT.

Quanto ao PT, não inventou a corrupção e precisa ter a história respeitada, mas não pode ficar agindo como aquele sujeito que, anos atrás, era o dono da festa e agora fica fazendo pirraça porque não é convidado.

3)Há assunto muito mais importante para a Presidente Dilma propor que a população responda no plebiscito. Voto facultativo e reeleição são ótimos exemplos. Mas ela perdeu uma ótima oportunidade de mostrar que está “antenada com os anseios do povo”, para usar uma expressão que os políticos adoram.

4)Quem acha que plebiscito é desnecessário tem medo da vontade popular.

Comentários (1)

Acho que ainda dá para escrever sobre a Seleção Brasileira. O oba oba por uma vitória como a de ontem dura até o fim da segunda feira.

1)Há um aspecto nessa seleção  que me chamou a atenção durante a Copa das Confederações e que me conquistou, me fez torcer verdadeiramente por ela ontem. É uma seleção de garotos simples, sem estrelismos, unidos em torno de um objetivo. Ali parece não haver aquela coisa de um querer ser mais do que o outro. O próprio Neymar, cuja postura me incomoda muitas vezes, estava humilde, sem posar de astro. No caso dele, a bola baixa fora de campo cresceu dentro das quatro linhas.

2)Não sei se é desmerecer a vitória ou cautela necessária, mas em excesso. Há gente falando que Copa das Confederações não é a Copa do Mundo – e não é mesmo – e que nem Alemanha nem Argentina estavam. Ok. Mas estavam a Itália, o México, que para nós é carne de pescoço, e a tão falada e poderosa Espanha. Sobre esta, pode-se até pensar se levou mesmo a sério o torneio. Pela cara de paella sem tempero que fizeram ontem depois do jogo, levaram.

3)Peço perdão pela expressão, mas o Brasil pôs o pau na mesa e gritou: são cinco títulos mundiais em cima dessa camisa amarela aqui. Se vocês tocam bem a bola, a gente já faz isso há muito mais tempo.

4)A vitória de ontem não deixa der ser, embora não vá mudar a situação, um tapa na cara de quem barra nossos idosos no aeroporto e trafica nossas mulheres pobres para serem prostitutas.

5)O país não vai ser melhor se a Seleção perder, uma coisa nada tem a ver com a outra. Nos últimos 20 anos, o Brasil avançou em diversas áreas, inclusive na democracia, e foi campeão do mundo duas vezes. Dá pra ter escolas, hospitais e ônibus bons e ensacar todo mundo dentro das quatro linhas.

6)Então, vamos continuar gritando por um país melhor?

Comentários (0)

Caso ocorra realmente o plebiscito sobre a reforma política, a pergunta mais importante, a que mais quero responder é: você é contra ou a favor do voto facultativo?

Responderei, sem qualquer sombra de dúvida, um clamoroso “a favor”.

Escolher não querer escolher é um direito de qualquer pessoa, e por isso mesmo já é, pra começo de conversa, um princípio democrático.

Se não gosto de José nem de João nem de Chico, por que terei que aceitar que um deles deverá me representar? Pela pobreza do critério do “menos pior”? Há situações na vida em que simplesmente não há o “menos pior”, mas sim equivalência de ruindades.

O que você faria se precisasse escolher entre Jair Bolsonaro e Marcos Feliciano? O voto facultativo o livraria do sacrifício de precisar ir à urna anular seu voto.

É provável que o voto facultativo não seja posto em consulta. É algo que não interessa aos políticos, pois com a população desobrigada a votar, terá que melhorar, e muito, a qualidade dos candidatos, pois o voto terá força pelo convencimento e não pela imposição.

Quero poder, num dia de eleição, não perder meu tempo se nenhum candidato conquistou a certeza do meu voto.

Se quiser viajar, viajo, vou para a praia, me enfio no meio do mato.

Mas também o farei com outra certeza: a de que não poderei reclamar depois.

Comentários (3)

Uma. Não me lembro de ter visto nas redes sociais ninguém postar comunicado da PM sobre alguma manifestação da mesma forma como foi feito ontem por causa da passeata que saiu da Favela da Rocinha, passou pela do Vidigal e foi até a casa do Governador, no Leblon.

Chamou-me a atenção a palavra pacífica grifada com marca texto no ofício da corporação.

O que estava grifado ali não era exatamente a palavra, mas sim todo o pânico (ou quase certeza?) da população carioca de que, saindo da favela, o protesto só poderia descambar para o terror promovido por moradores manipulados por bandidos.

A manifestação foi pacífica, ao contrário de outras em que participaram brancos bem nascidos e criados da zona sul.

Uma boa maneira de mudar um país é combater os nossos preconceitos.

Outra. Abaixaram o preço das passagens, caiu a PEC 37. Agora, o grande desafio das manifestações de hoje, quarta-feira, 26, é serem pacíficas.

Mais uma. Ouvi certa vez esse ditado: “O boi só apanha no lombo porque não sabe a força que tem”. Acho que o boi descobriu que tem força.

Encerrando. Pra cima deles, Brasil! (E não estou falando do Uruguai).

Comentários (1)

Há uma tentativa de desqualificar o movimento que tomou conta do país nas últimas semanas dizendo que ele é organizado por jovens bem nutridos e formados. Com ironia, dizem que o tal gigante que acordou foi criado à base de pera e Ovomaltine.

É fato que muitos participantes, e não são poucos, cospem na história dos movimentos sociais, fomentadores dos partidos de esquerda, cuja luta nos últimos anos permitiu que houvesse manifestações iguais a essas, embora a PM, às vezes, não pareça ter sido avisada.

Se pudessem, certamente, bradariam em praça pública que negro só pode entrar em universidade pública se houver estudado em colégio caro, o que é quase uma impossibilidade no Brasil. Gritariam, também, que aqueles com cara de doméstica ou porteiro deveriam continuar viajando pro Nordeste nos ônibus da Itapemirim. Nada de avião.

Mas aí entra a miopia de quem está contra, principalmente no PT. Não querem enxergar que a periferia também, talvez aos poucos, em menor escala, está indo às ruas. Portanto, também estão gritando os que foram criados à base de aipim cozido, pão simples e água de poço, e que, aproveitando a brincadeira de fazer metáfora, seriam o anão raquítico e faminto, essa dor e vergonha que a injustiça impinge à história do país.

E o PT, principalmente, não quer enxergar que se distanciou dessa gente, que se hoje dá para comprar geladeira, máquina de lavar e TV, o hospital continua péssimo, o ônibus, pior ainda, e a escola do filho não ensina direito. Ou seja, nada de muito diferente de dez anos atrás.

O problema não era só criar uma nova classe média. É também dar a ela condições de viver como classe média.

Agora, são dois gritando: o gigante, pretensamente, contra a forma velhaca de fazer política – cujo pecado o PT sempre prometeu não cometer -, e o anão, porque quer mais do que abrir crediário e equipar a casa.

E merece.

Comentários (0)

Nos dias de hoje tem sido difícil saber quem quer e pensa o quê. Acho que é preciso se posicionar sobre Alguns assuntos. Dessa forma, as pessoas saberão o que esperar de nós.

1-Sou contra qualquer tentativa de golpe, civil ou militar.

2-Sou a favor dos partidos, na vida política e nas manifestações, mais ainda de melhorá-los.

3-Acredito em Deus e respeito os ateus. Não me acho melhor do que eles.

4-Sou espírita e não me acho melhor por isso. Defendo a liberdade religiosa, mas não a imposição da fé.

5-Admiro a umbanda e o candomblé e defendo seus adeptos, pois são discriminados pela sociedade porque as duas religiões são identificadas com os negros.

6-Sou contra o aborto. Como espírita, não concordo com o ato, mas não condeno quem o faz. Sou muito pequeno para julgar uma mulher que vive um drama como esse e acho uma perda de tempo campanhas antiaborto.

7-Sou a favor do casamento gay.

8-Sou a favor da adoção de crianças por casais gays.

9-Sou contra a legalização das drogas.

10-Sou a favor do regime de quotas para os negros.

11-Sou a favor do voto facultativo.

12-Defendo a Marcha das Vadias.

13-Sou contra a redução da maioridade penal, e, claro, a pena de morte.

14-Sou a favor do desarmamento.

Ps: essas posições são consolidadas, nelas não cabe a “Metamorfose ambulante”.

Sobre outros assuntos, talvez eu nem saiba o que penso. Não somos obrigados a achar sempre alguma coisa sobre tudo.

Obrigado pela atenção.

Comentários (1)

Tanto quanto a estupidez verificada ontem à noite em pontos isolados, perigosa também é a tentativa de, a partir disso, desqualificar a legitimidade do movimento dos últimos dias.

Além do vandalismo, persiste a acusação de uma pauta objetiva, como se nosso país não fosse um rosário de mazelas, um mosaico de motivos para se reclamar.

Dos manifestantes se diz que são filhos da classe média, elite, alunos de bons colégios. Digam-me, então, qual a diferença sócio-econômica desses manifestantes de hoje para aqueles de 1992 que derrubaram o Collor, capitaneados, inclusive, pelo partido que está no poder? E para os de 1984, nas Diretas Já? E em 1968, eram pobres e esfarrapados os participantes da marcha dos 100 mil?

Os dois lados, aquele que governa e vê perseguição até na sombra, e o outro, que, na incompetência de ser oposição – até porque nunca foi – tem a ilusão de que esse povo que brada vai querê-lo de volta no poder, querem passar um sentimento de que é hora de recuar, de não ir mais para as ruas. Porque os vândalos tomaram conta, porque os objetivos perderam razão de ser. Porque está ficando perigoso.

Não obstante a estupidez de ontem, os momentos de paz foram numerosos, pelo que pude observar de vários depoimentos. Ocorre que o mal sempre sobressai, e aí não vou falar em sensacionalismo ou cobertura tendenciosa da imprensa. Vou falar da invigilância do bem. O mal se cria porque o bem se omite.

E é aí que quero chegar, para encerrar.

A paz é fruto também da vigília constante, incansável. Em casa, no trânsito, no trabalho, nas ruas. Nas manifestações.

Há algumas recomendações por aí para impedir o vandalismo, tais como se sentar no asfalto para que a polícia identifique logo os baderneiros. Deve haver outras formas também de impedir que nos vença a nossa própria covardia, como querem os estúpidos, os cínicos, os demagogos.

O que não pode é o recuo diante da boçalidade, da hipocrisia e do cinismo, diante de toda essa podridão secular que, enfim, nos fez ir para as ruas.

Comentários (1)