André Giusti - foto: Luana Lleras
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Fiquei espantado – e assustado – com o resultado da tese de mestrado que uma amiga faz sobre a percepção dos jovens de hoje em dia sobre a ditadura militar.

Estudantes de diversas áreas do conhecimento entendem como “ mal necessário” os 20 anos que os generais passaram sentados na cadeira mais importante do poder no país.

Como justificativa, alegam que a ditadura livrou o Brasil do comunismo, ou seja, fizeram atravessar quatro décadas a paranóia que moveu a UDN e levou às ruas a Marcha com Deus pela Liberdade.

Penso que as respostas não careçam apenas de falta de informação ou visão histórica (como poderia, à época, um Presidente levar o Brasil ao comunismo sendo dono de latifúndios e trabalhista por conveniência política e oportunismo eleitoral?). Quando pensamos que crianças foram torturadas na frente dos pais, passa a ser também falta de qualquer sentimento que se apiede do ser humano.

Mas é de se enxergar nessa postura – paradoxal quando se trata de jovens defendendo forças que combatiam a liberdade – a culpa dos que assumiram o poder na chamada redemocratização. É provável que o costume da corrupção e do uso da política como instrumento de atendimento a interesses particulares tenham impedido o nascimento, no ideal desses jovens, da crença de que a democracia não é perfeita, mas é bem melhor do que qualquer outra opção de governo.

A conduta lamentável de homens públicos nesses quase trinta anos coloca lenha no fogaréu da falta de informação dos que justificam – e indiretamente defendem – a estupidez e a crueldade como prerrogativas de mandatários. E agora, a partir dessa pesquisa, o que mais preocupa é que essa postura não está mais restrita aos conservadores que viveram, apoiaram e muitas vezes fomentaram a repressão. Ela começa a brotar nas mentes que deveriam, até por uma questão digamos hormonal por causa da juventude, defender a liberdade.

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Uma coisa que estamos esquecendo é que o Marco Feliciano tem legitimidade para estar lá. Entrou pelo voto popular na Câmara, e na comissão, pelo voto de quem foi votado pelo povo.

A coisa é tão óbvia que chega a ser matemática.  Se chegou lá pela força da pregação religiosa, é outra discussão. Pelas regras – certamente enviesadas – eleitorais e que regem o parlamento, o lugar pode realmente ser dele, como está sendo, apesar da chiadeira.

Aliás, há informações nas redes sociais que dão conta da existência de uma corrente, abaixo assinado ou coisa que os valha reunindo um milhão de assinaturas a favor do pastor que, ao que tudo indica, põe na conta da Bíblia o preconceito que ele próprio nutre contra negros e homossexuais.

E aí precisamos reconhecer também a legitimidade de quem o apoia. Conservadores e reacionários também têm o direito à manifestação, que não é propriedade das forças progressistas. O vento precisa soprar pros dois lados. Há legitimidade em pedir que o Feliciano saia e em pedir que ele fique.

Só não é legítimo preconceito. Contra negros, gays, religiosos, ateus.

Em tempo: sou heterosexual, pai de três meninas, carioca, flamenguista, rockeiro, blueseiro, precisando aparar a barba, vou tomar vinho logo mais e o Marco Feliciano não me representa.

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O jornalista Adriano Oliveira postou na semana passada seu espanto frente à capacidade que as letras de músicas sertanejas possuem de se superar em matéria de imbecilidade. Para confirmar o que dizia, transcreveu duas frases, gesto que não repetirei para poupar quem me lê agora.

No mesmo dia, recebo e-mail de outro jornalista, Hélio Doyle, comunicando com pesar o encerramento da edição impressa da Revista 61.

Embora não pareça, as duas coisas estão correlacionadas.

A 61 foi uma tentativa refinada de discutir com inteligência, senso crítico e profundidade o dia a dia de Brasília. Matérias detalhadas e diferenciadas, fugindo do óbvio, eram arrumadas em uma edição preocupada em embalar com estética e bom gosto a informação de qualidade.

A revista foi além. Publicou contos e poemas (eu mesmo emplaquei dois contos em suas páginas). Que doideira, no dias de hoje, uma revista de assuntos gerais dar espaço à literatura!

E a 61 impressa está saindo de cena justamente por isso, porque ousou ser pertinente e conteudista em um país que há cerca de vinte anos, com a ascensão do que insistem em chamar de música sertaneja e de outros gêneros, optou pelo mau gosto, e que cada vez mais se aprimora na superficialidade.

A informação é de que a revista persistirá eletronicamente, quem sabe aguardando que termine a longa noite escura não apenas da música, mas da programação de TV, do humor e da imprensa sedada pela irrelevância.

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É de se elogiar – e muito – a atitude da diretora da Academia de Dança Clássica de Brasília Norma Lillia.

Prestes a levar para o principal teatro da cidade um espetáculo com nada menos que 300 crianças e adolescentes, voltou atrás e cancelou a apresentação, mesmo que após meses de exaustivos ensaios e da frustração do elenco.

Se no passado tantos outros produtores culturais houvessem feito o mesmo, é provável que centenas de pessoas estivessem vivas, inclusive os jovens de Santa Maria.

Explico.

Norma constatou que o imponente Teatro Nacional de Brasília não possui as condições necessárias para garantir a segurança do público e dos artistas, ainda mais quando se trata de menores de idade. Entre outros problemas, há fios soltos nos camarins.

De acordo com os jornais, Norma ouviu dos responsáveis por liberar a apresentação que o espetáculo poderia ocorrer, pois seria possível arrumar “um jeitinho”.

A diretora, então, se recusou a caminhar do velho e viciado modo de tocar esse país, inclusive quando se trata da vida das pessoas.

Não é exagero pensar que ela pode ter evitado uma tragédia maior que a da boate gaúcha.

É o Brasil começando a aprender como no geral todos nós aprendemos: através da dor e do sofrimento.

Menos mal.

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Em uma das passagens do razoável romance O Xangô de Baker Street, de Jô Soares, um diplomata estrangeiro convidado a um banquete na corte de Pedro II quase cai para trás com a fartura e a variedade do cardápio posto à mesa comprida. Mais do que a diversidade dos assados, o bacana na descrição são as cores dos legumes, verduras, frutas e doces. Esse colorido, esse tanto de tanta coisa pra comer sempre foram marca da nossa cozinha, filha de muitas culturas, de todos os continentes.

Se você pegar as fotos antigas de sua família, aquelas tiradas lá pelos idos dos anos 60, 70 e até 80, poderá reparar como seus pais e seus tios eram magros. Repare também como você e seus primos eram crianças magricelas.

Vá para os dias atuais e perceba as pessoas a sua volta: a barriga e a papada abaixo do queixo estão sobrando. Rapazes de 20 e poucos anos têm o físico que, 20, 30 anos atrás, só teriam após a meia idade. Moças novas perdem logo as curvas sinuosas dos quadris porque estas vão sendo escondidas pelo abdômen, que cresce igual à barriga dos namorados. Crianças de 10, 11 anos pesam hoje o que muitos adultos pesavam duas, três décadas atrás.

O brasileiro engordou e parece que não está nem aí. E vai engordando à medida que as cores vão desaparecendo do nosso cardápio, cedendo lugar ao tom uniforme dos sanduíches e das frituras. Juntem-se a isso as quantidades exageradas de hoje em dia (pipoca e refrigerante, por exemplo) e o culto desmedido à cerveja, cujo consumo é incentivado pela indústria e pela propaganda de domingo a domingo.

Não é preconceito, é estatística do Ministério da Saúde. No Distrito Federal, por exemplo, praticamente metade da população está acima do peso. 15% são obesos. Os números cresceram de sete anos para cá.

Não é questão de estética, é de saúde! Se a dieta não mudar, não haverá avanço da medicina que prolongue nossa expectativa de vida. Bateremos mais cedo a “cassuleta” por causa de hipertensão, derrame, enfarte, diabetes.

E pra ser mais chato ainda, é questão de cultura também. Estamos abrindo mão da diversidade histórica de nossa fartura saudável, em favor da pobreza calórica e colonizadora do fastfood.

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Quando fez seu primeiro discurso como deputado federal, o falecido Clodovil ficou escandalizado com o pouco caso que faziam os outros deputados em relação ao que ele dizia do alto da tribuna. Sem medir palavras, como era seu costume, Clodovil bradou contra a falta de educação de seus pares no parlamento.

Quem conhece o Congresso Nacional sabe que, no geral, é hábito de deputados e senadores não darem a mínima para o colega que está se esgoelando no púlpito. Conversam alto, discutem, contam piadas, ficam de costas para o orador. Quase sempre, os discursos são proferidos apenas para os anais da Câmara e do Senado.

É de se pensar que esse descaso seja mais um episódio em que os políticos nada mais são do que um espelho da sociedade que os elege.

Na última semana, participei da apresentação do plano de cobertura jornalística que a Empresa Brasil de Comunicação, EBC, pretende fazer da Conferência Nacional das Cidades, marcada para novembro. Ao contrário dos assuntos tratados nos discursos parlamentares, a questão ali era de interesse de todos os presentes.

Pois duas mulheres, na plateia, pegaram na conversa e assim foram até o final da exposição, como se nada do que estivesse sendo exposto lhes dissesse respeito, como se, inclusive, nem estivessem num auditório, e sim num banco de praça, na mesa de um café.

Observo isso em outros ambientes, como salas de aula, por exemplo. E não me refiro a turmas de ensino fundamental ou médio. Falo de pós-graduação, na qual, em tese, domina a maturidade das cabeças, mas em que, tantas vezes, o que reina é zum-zum-zum na sala, mesmo quando quem tem a palavra é o professor, cujo salário é pago com o dinheiro da mensalidade de quem ali está para ouvir o que ele diz. Ou deveria ouvir, se não estivesse conversando e atrapalhando quem busca concentração. O volume do cochicho pode aumentar, se lá na frente estiver um colega apresentando trabalho.

Dependendo do lugar, conversar enquanto outro fala para uma plateia pode até ser costume. Independentemente de onde, é falta de educação. E sempre, e em qualquer canto, será falta de respeito.

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Minha amiga jornalista Roberta Paz diz que sente vontade de se retirar do feicibúqui por causa da quantidade de baboseiras postadas na rede social. Mas, aí, lê uma ou outra coisa interessante de alguém inteligente, volta atrás e permanece.

Comentei dizendo que a essa altura, com a consolidação do mundo digital a cada minuto, sair do feici ou das outras redes sociais é como se, 20 anos atrás, você se trancasse em casa sem TV, rádio ou telefone. Começa a ser impensável nos dias de hoje, ainda mais para quem, feito eu ela, trabalha com comunicação.

A exemplo da vida de verdade, a digital nos cerca com suas delícias e relevâncias, ensinamentos e lições proveitosas, mas também arrasta para junto de nós sandices das quais só o ser humano é capaz. Traz também o nenhum relevo de coisas que não nos levarão a lugar algum, das quais nada tiraremos para melhorarmos a nós e ao mundo.

E a exemplo da vida real, cabe-nos a seleção. Na rua, quando nos entregam panfleto de religião diferente da que temos – ou não temos -, amassamos o papel e, se somos educados, damos mais alguns passos e jogamos no lixo. Se alguém nos chateia, evitamos o convívio. Com quem tem opinião contrária, ou discutimos ou silenciamos. Mantemos amizades, relações formais ou ligação de espécie alguma. Vai depender das afinidades. Na vida digital, isso tudo está ao alcance de um clique.

É quase igual à vida real.

Só não é de carne e osso.

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O brasileiro possui uma tendência incontrolável para idolatrar pessoas. E como sou um homem de comunicação, é notório que somos nós, em nossa necessidade de criarmos super heróis, semideuses que alimentem nossa audiência, os responsáveis por colocar lenha nessa fogueira.

Geralmente, são atletas; muitas vezes, atores e atrizes. Quase nunca autoridades.

A maneira avassaladora como veiculamos as imagens desses idolatrados não deixa à sociedade muita chance de refletir sobre o fato de que eles nada mais são do que…pessoas, imperfeitas, sujeitas a errar a cada instante do dia.

De vez em quando, vem o baque: o tal atleta perfeito competia dopado, o ator maravilhoso agredia a mulher. E a isso reagimos com desfaçatez, como se não fôssemos ótimos em erguer pedestais.

O ministro Joaquim Barbosa foi alçado a super homem (aliás, batman), redentor da moralidade de uma nação capenga de ética, de honestidade aleijada. Na época do julgamento do mensalão, não houve interesse em observar se o discurso duro e as atitudes contundentes poderiam, em alguns casos, ser interpretados como arrogância e prepotência, características do ser humano, de quem tem osso sustentando músculos e pele, como qualquer um.

E agora Joaquim Barbosa, que pela linha sucessória pode sentar na cadeira de Presidente da República, chama um repórter de palhaço e o manda chafurdar no lixo.

Acho que haverá vacância no cargo de super herói.

Precisamos fabricar outro semideus.

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Eu era estagiário na Rádio Manchete AM do Rio quando, lá pelo final dos anos 80, me mandaram cobrir o lançamento de uma campanha do governo contra a AIDS. O filme era estrelado por vários artistas e atletas, gente do top de Ayrton Senna e Xuxa, o casalzinho da época. Entrevistar um dos figurões era trabalho elementar para qualquer repórter que ali estivesse.

A mim, entretanto, apenas um importava: Zico!

Cheguei trêmulo perto dele e perguntei se poderia entrevistá-lo. Nervoso, me enrolei para ligar o gravador. Gaguejei e perguntei qualquer bobagem sobre a importância da campanha. Não prestei atenção a uma vírgula do que ele disse. Enquanto Zico falava, olhava seu rosto e à minha memória vinham apenas as tardes de domingo, os braços pro alto e o grito pela felicidade de um gol do Flamengo naquele templo mágico que era o antigo Maracanã.

Alguns anos mais tarde, jornalista um pouco mais experiente, fui entrevistá-lo para um especial da Rádio CBN sobre o centenário do Flamengo. Esperei quase nada que ele me atendesse. Quando foi a hora, o próprio Zico saiu da sala e mandou que eu entrasse. Ficamos mais de uma hora conversando. Ele, à vontade, como se nem fosse um dos maiores jogadores da história conversando com um jornalista desconhecido.

Quando terminou a entrevista, e antes de me despedir, disse o que queria ter dito anos antes, no lançamento da campanha, mas que não tive coragem.

-Cara, eu sou Flamengo por causa de duas pessoas…

Me olhou sorrindo, calado, esperando a conclusão.

-Meu pai…

E ele franziu a testa, mantendo o sorriso.

-…e você.

Ficou vermelho, encabulado.

-Valeu, garoto! Vai nessa!- e me estendeu a mão.

Definitivamente, aquele era o meu ídolo.

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A imprensa tradicional, principalmente os chamados jornalões, parece que ainda não acordou para a realidade: ela não é mais a única fonte de informação nem a única fomentadora do debate público.

Mas continua achando que é, e insiste estampar nas primeiras páginas, como se fosse de interesse geral, assuntos afetos a seu umbigo.

Em nada mudou meu dia a manchete da Folha informando que FHC acha Dilma ingrata. Almocei no mesmo lugar, vou dormir na mesma cama, receberei o mesmo salário.

Com a mesma certeza de que escrevem com alguma pertinência prática para nossas vidas diárias, colunistas de política lançam notas que, na verdade, são apenas satisfações aos que lhes dão informações. Servem aos donos do poder, não no sentido de governo e oposição, mas no daqueles cujas ações estão secularmente voltadas para o que é de seus próprios interesses.

Diante dos novos tempos, principalmente os jornais parecem deter a mobilidade de uma estátua. Iniciam as reportagens com fatos que já são conhecidos pelo público desde a tarde do dia anterior.

Mas em vez de a imprensa parar para pensar no que está fazendo – ou deixando de fazer – e se reinventar, volte e meia o que acontece é algum figurão que preenche longas e enfadonhas colunas nos velhos jornais vir a público atacar o conteúdo produzido na internet, principalmente nas mídias sociais (que, como todo conteúdo, também não é 100% pertinente).

Parece mesmo um sinal de que a estátua é de açúcar e está tendo os pés comidos pelas formigas.

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