André Giusti - foto: Luana Lleras
voltar para o início do blog

É sempre a fiscalização que precisava ser feita e não foi porque não há gente suficiente para fiscalizar, pois não há verba disponível para contratar.

Dinheiro até havia, mas foi desviado para propaganda de governo ou pra obras sem necessidade, mas que são boas de dar voto na eleição.

Mas se o fiscal foi e viu um monte de coisa errada – que faltava extintor, porta, alarme, que a parede estava rachada, que o barco não tinha salva vidas – , já foi logo dizendo “a gente pode resolver isso por bem menos do que o valor da multa”.

E aí pagou-se o que pediu o fiscal e deixou-se o que estava errado do mesmo jeito, porque o estado é corrupto e funcionário público adora uma propina, né? Mas, olha, eu paguei porque ele pediu, tá? Eu acho um absurdo, tô indignado, eu não sou corrupto, é que não tenho como regularizar minha situação agora, sabe como é, né? Abri o negócio faz pouco tempo e ainda não tive retorno do investimento, mas vou providenciar tudinho, pode deixar.

Então, vende-se mais ingressos do que o espaço permite, coloca-se mais gente do que o barco aguenta, constroi-se mais um andar porque o prédio é firme e segura mais uma laje. E não precisa se preocupar não, vem sem medo, isso aqui não pega fogo, não cai, não afunda.

E assim vamos morrendo, todos nós e nossos pais, nossos filhos e amigos nos incêndios, naufrágios e desabamentos no país que não apenas não é sério, mas que adia todos os dias o tempo de finalmente começar a ser.

Comentários (3)

Recentemente trabalhei em um ministério do Governo Federal em que uma norma interna obrigava que bolsas e mochilas fossem abertas na saída para que a segurança do prédio conferisse se nada do patrimônio público estava sendo levado.

Percebendo que o confere não passava de uma simples olhadela displicente, certa vez brinquei com um dos guardas: “pode olhar mais, não tô com pressa não”. “Isso é só pró-forma”, ele me respondeu sem muita vontade de espiar mais nada o resto da noite.

Alguns dias atrás, fiz exame admissional. O médico limitou-se a medir minha pressão e a perguntar se eu andava me sentindo bem. Sequer ouviu meus batimentos. Não chegou a dizer que aquele exame era pró-forma, mas acho que não precisava mesmo falar nada.

Parece que a verificação das normas de segurança e da capacidade de lotação das boates de Santa Maria é feita de mesma maneira: pró-forma.

Aliás, no Rio Grande do Sul todo.

Aliás, no país inteiro, como tudo que diz respeito à vida das pessoas.

Comentários (2)

Viajando de carro no fim do ano reparei que estão desaparecendo as frases dos parachoques de caminhão. No lugar delas, os motoristas têm pintado dizeres bíblicos ou uns que anunciam outros modos de salvação.

As frases me distraíam durante as viagens de carro quando eu era criança, poupavam a paciência de meus pais, já que eu ficava pelo menos um tempo sem perguntar de cinco em cinco minutos se já estávamos chegando.

A que uso como título nesse texto é, certamente, a mais famosa de todas. Resignada, sintetiza com lirismo a vida de quem ganha o pão de cada dia cortando o Brasil atrás de um volante. Foi nome três anos atrás do que tem se chamado ultimamente no cinema de road movie.

Mas o principal viés dessa “literatura” estradeira era o humor coalhado de malícia. “Por falta de roupa nova, passei o ferro na velha”, “A moça casa com o pão pensando no salame” e “Sogro rico é que nem porco gordo: só dá lucro depois que morre” tinham essa roupagem Zorra Total e A Praça é Nossa, só que engraçadas.

Minha inocência à época não permitia que eu alcançasse a intenção dessas frases, mas hoje, depois de tanto ler na vida, considero aqueles caminhoneiros do passado uma espécie de poetas da estrada, levando-se em conta que poesia é lirismo, mas também é irreverência, e pode (e deve) ainda ser humor e malícia.

Nada contra a religiosidade de ninguém, mas o sumiço das velhas frases de parachoque me fazem pensar num país que por causa de uma fé ausente de racionalidade e da já repisada auto ajuda barata, está perdendo seu talento natural de rir das próprias mazelas.

Comentários (2)

Há nove anos minha carteira de trabalho não saía da gaveta. Todo esse tempo trabalhei como pessoa jurídica, figura cada vez mais fácil nas redações e assessorias de comunicação país afora.

No caso de algumas empresas, contratar como PJ realmente viabiliza a oferta de trabalho. Pela CLT seria inviável e um posto de trabalho estaria fechado. Em outros, no entanto, é esperteza patronal disfarçada de modernidade na relação trabalhista.

Julgamento de mérito à parte, minha surrada carteira viu a luz do sol depois de muito tempo e eis que sou pego de surpresa pelo rapaz do departamento de recursos humanos: “não há mais espaço para contrato de trabalho, você terá que tirar outra”, me avisa tranquilo, devolvendo-me o livreto amarelado que certamente é mais velho do que ele.

Sentei num canto e folheei suas pequenas páginas, e os anos de minha vida profissional passaram manchados de canetas e carimbos. Mas essas marcas não são apenas borrões, são mais ainda lugares, pessoas queridas ou desprezadas, alegrias, sonhos e desilusões.

Gabriel Garcia Marques diz que um homem descobre que está envelhecendo quando começa a se parecer com seu pai. Hoje descobri que isso acontece também quando a carteira de trabalho acaba e não há mais espaço para carimbos e canetadas, e ficamos com um ar abestalhado, segurando o documento, pensando que o tempo deveria ter mais consideração e não nos pegar de surpresa quando fosse avisar que está passando e que estamos mesmo envelhecendo.

Comentários (1)

Acho que o problema da Lei dos Bons Costumes não é o passado da atriz Myrian Rios, mas o presente da deputada Myrian Rios.

Ela manteve a prática de quase todos os parlamentares brasileitos, independentemente da esfera administrativa: elaborou e apresentou um projeto de lei inconsistente, de conteúdo vago, que certamente não dá a quem cabe executar os instrumentos necessários para isso.

A diferença é que ela conseguiu a sanção de um governador, cuja única consistência parecem mesmo ser a esperteza e o oportunismo político.

O conceito de bons costumes pode ser particular de cada pessoa. Se esses costumes são solidariedade, fraternidade e igualdade no tratamento entre todos, não adianta haver lei que os faça serem aplicados. É muito mais questão de um movimento interior de todos nós nesse sentido.

Não acho que as fotos sensuais de Myrian Rios no passado invalidem qualquer intenção que ela possa ter de agir em prol do que considera bons costumes. Se fosse impedimento, um ex-alcoólatra jamais poderia ajudar quem quer largar o vício. E é bom lembrar que, para a contrariedade de muitas religiões cristãs, a história começa a descobrir que Maria Madalena, ex-prostituta, foi um dos principais vultos do cristianismo.

Mas podem continuar publicando as fotos antigas da atriz e deputada. A Myrian Rios dos maus costumes era muito melhor.

Comentários (1)

Certas coisas em Brasília acabam explicando outras que acontecem nessa cidade incompreensível, capital de um país difícil de entender.

O cidadão que precise de um nada consta nas áreas cível e criminal obtém a certidão gratuitamente na Justiça Federal.

O mesmo ocorre no âmbito dos tribunais superiores e no Banco Central. É de graça comprovar que você não cometeu crime eleitoral, não está enrolado com a Justiça Militar nem se beneficiou de esquema financeiro suspeito.

Entretanto, uma simples certidão que diga que você não deve nada à Justiça e muito menos à Polícia do Distrito Federal sai por 45 pratas. Por que quando peço, a União diz de graça que a minha barra tá limpa, e pro DF fazer o mesmo eu tenho que meter a mão no bolso? Por que uma inocência é grátis e a outra, cobrada?

É de se imaginar os rios de dinheiro que correm numa cidade que a cada segundo sabe-se lá quantos mil precisam provar que são íntegros e honestos.

Quando se vive aqui, percebe-se que os baronatos, entre eles os cartórios, construíram suas riquezas a custa do favorecimento do estado, tanto no âmbito da execução, quanto no da elaboração das leis. Tudo, é claro, com uma boa recompensa a quem executa e a quem legisla.

Pagar para provar que se é inocente é lei em Brasília. Portanto é legal, mas, ponto pacífico, o que é legal não é necessariamente moral.

Discrepâncias como essa da certidão explicam ao morador de Brasília porque, nessa cidade que não possui indústria, e cuja arrecadação vem basicamente da prestação de serviços, BMW virou fusca, Porsche não é mais novidade e o trânsito de Ferraris está cada vez mais intenso.

E hoje, certamente, para mostrar que não sou ladrão, assassino ou picareta, contribuí para aumentar a frota de carrões na capital do país.

Comentários (1)

Alguns dias atrás ouvi de um conhecido a definição perfeita para janeiro: é a segunda-feira dos meses. Concordo, muito menos porque é o mês que inaugura um novo calendário, e muito mais pelo que traz de ressaca dos excessos e da fugaz euforia de dezembro.

Na verdade, o ano não começa em janeiro,.  Nossas expectativas, frustrações, mágoas, rancores e sonhos são ainda os mesmos do ano passado. De 2011. 10. Quiçá do ano 2 mil. Um ano pode muito bem começar em maio. Até em dezembro.

Em Brasília, cidade incompreensível por vocação, janeiro é mês que se anda de casaco, dorme-se de janela fechada e puxa-se o edredom de madrugada.  Empunha-se o guarda-chuva, mete-se o pé nas poças, enfia-se o carro na enchente. Em outros cantos do país, pelo que leio, as torneiras celestes também começaram a ser abertas, tranformando ruas em rios. Janeiro não me parece que tenha aquela coisa dourada de verão de cinema ou de novela das seis.

É o mês das dívidas contraídas com os exageros do crediário e dos pré-datados de dezembro; das dívidas que fazemos nas livrarias e papelarias para o material escolar dos filhos; é o mês da angústia por outras dívidas, aquelas de março e abril, quando chega pelo correio a extorsão estatal do IPVA e do IPTU.

Não fosse por pessoas queridas terem nascido em janeiro, eu o dispensaria daquela folhinha pendurada na parede. Ainda mais porque piorou nos último anos: é quando começa o Big Brother.

Comentários (1)

Há muito tempo eu não me encontrava com você. E hoje, por um  desses desvios que a vida nos dá de presente como remanso da rotina, abri um de seus livros numa de suas histórias* mais preciosas.

Era um lugar em que o sol da manhã brincava de recortes com jaqueiras, jequitibás e mangueiras, e de uma a outra, em voos largos, outros breves, o bem-te-vi, o sanhaço e o joão-de-barro cumpriam a tarefa da polinização, ameaçada pelo bicho homem e seu desprezo pelas árvores.

Cantavam os pássaros. Creio eu que me contavam sobre você: “ah, o velho Braga nos conhecia, pelo canto e pelo voo, de acordo com o vento”. Foi o que supus, não entendo a linguagem deles, essa ciência era seu domínio, um de seus ingredientes para transformar o corriqueiro em magnífico.

Pois, sentado com o livro entre as mãos emocionadas, eu parecia aquele sobrinho que ouve o velho tio depois de ter ido correr mundo e voltado sabendo que o mundo é bem diferente daquele que estava nos meus planos. Ao redor havia o vento nas folhagens e a insistência dos pássaros, agora em outro assunto. Lembravam-me que a simplicidade é coroa da beleza, e que esta de nada mais precisa para ser o que é. Advinha nos livros de quem aprendi isso!

Eu tinha doze anos quando fui apresentado a eles. Só mesmo um mestre de muito talento para capturar a cabeça de um garoto para quem a importância da vida não ia além do time de botão, do campeonato de futebol e das primeiras meninas. Hoje, lendo na maturidade suas crônicas – ou será que poemas com outra roupa? -, noto que você é bem melhor do que quando eu tinha certeza de que você era ótimo. É como se eu voltasse pelo mesmo caminho, mas agora reparando na pitangueira que não percebi na ida, ou no casebre distante que me fugiu porque estava olhando para o lado oposto. Acho que a vida se apiedará de mim outras vezes, e me ofertará alguns outros remansos na rotina, antes que eu vire sopro no infinito. Aí faço de novo o caminho e conto o que descobri a mais.

*Publicado em maio de 2010, e, hoje, em homenagem aos 100 anos do maior cronista brasileiro.

Comentários (0)

Minha mãe não passava pelo Café Palheta, na Praça Saens Peña, sem parar para tomar um. Ela e o Rio de Janeiro quase todo. As atendentes deviam ter LER de tanto cafezinho que punham em cima do balcão. Às nossas vistas, de cinco em cinco minutos, era passado um café novo, e seu cheiro conquistava a calçada, arrastando mais gente para dentro da loja.

Outro dia, no Aeroporto Tom Jobim, pedi um cafezinho no Palheta, acho que a única loja da marca que sobreviveu no Rio. Sabe aquele café coado na meia e que está há dois dias na garrafa térmica? Pois é, era quase assim. Contaminei com ele uma das melhores lembranças gustativas da minha infância. À atendente que reclamei, só restou me recomendar o café expresso.

Se for bem feito, o café expresso é gostoso. O problema é que no Brasil, na maioria das vezes, ele não é. Geralmente, é uma água fervendo, fraco ou forte demais, servido com biscoitinhos velhos, e em lugares pretensamente bem “transadinhos” e moderninhos, onde o atendimento, quase sempre, deixa muito a desejar. O preço, claro, está lá em cima, em patamar oposto ao da qualidade.

Não conseguimos copiar o espresso italiano, que é servido morno e com apenas um dedo, muito porque não soubemos, mas também muito porque não quisemos, já que brasileiro acha que bom é só o que há em quantidade, o que vem em demasia.

O fato é que o costume imposto do café expresso parece ter mesmo acabado com uma de nossas mais caras tradições: o café fresco, passado na hora, tomado em pé no balcão, adoçado com açúcar posto naqueles grandes açucareiros de vidro esverdeado.

Alguns anos atrás ainda tomava um cafezinho assim no Aeroporto Santos Dummont, mas há muito não passo por lá. Se ainda existe, que resista a essa ditadura “cafeinada”, cara e sem gosto.

Caso parecido é da pipoca, com seus combos e pacotes de micro-ondas.

Mas isso é assunto pra depois.

Comentários (2)

É difícil, em um início de ano, fugir de qualquer reflexão sobre o tempo, sejam as banais os as que requerem maior engenharia.

Comecei minha vida profissional trabalhando com pessoas nascidas nos anos 40 e 50, ou até mesmo mais velhas, com idade para serem meus pais.

Minha geração, nascida nos anos 60, saiu da universidade, consolidou-se no mercado e viu chegar os filhos da década de 70. Mesmo que ainda não fosse tanta, já possuíamos alguma experiência para passar a eles.

Quando o novo século entrou, as pessoas que nasceram nos anos 80, portanto na minha adolescência, apareceram para ajudar nossa adaptação à reviravolta tecnológica do planeta. Ao lado deles, compreendemos, de uma hora pra outra, que fax e CD estavam obsoletos.

Dez anos se passaram e eis que, duas semanas atrás, pouco antes do natal, a estagiária pega e me conta que nasceu em 1994. Fiquei calado observando os movimentos ágeis de seus dedos na tela do smartphone, pensando como é possível que alguém que nasceu em 1994 já esteja aqui, ao meu lado, trabalhando, aprendendo o meu ofício. Aliás, como é possível que alguém tenha nascido em 1994 e já tenha idade para ser minha filha?

O tempo nos oferece estranhas réguas para medirmos o quanto ele passa.

E o quanto estamos envelhecendo.

Comentários (0)