André Giusti - foto: Luana Lleras
voltar para o início do blog

Minha amiga jornalista Roberta Paz diz que sente vontade de se retirar do feicibúqui por causa da quantidade de baboseiras postadas na rede social. Mas, aí, lê uma ou outra coisa interessante de alguém inteligente, volta atrás e permanece.

Comentei dizendo que a essa altura, com a consolidação do mundo digital a cada minuto, sair do feici ou das outras redes sociais é como se, 20 anos atrás, você se trancasse em casa sem TV, rádio ou telefone. Começa a ser impensável nos dias de hoje, ainda mais para quem, feito eu ela, trabalha com comunicação.

A exemplo da vida de verdade, a digital nos cerca com suas delícias e relevâncias, ensinamentos e lições proveitosas, mas também arrasta para junto de nós sandices das quais só o ser humano é capaz. Traz também o nenhum relevo de coisas que não nos levarão a lugar algum, das quais nada tiraremos para melhorarmos a nós e ao mundo.

E a exemplo da vida real, cabe-nos a seleção. Na rua, quando nos entregam panfleto de religião diferente da que temos – ou não temos -, amassamos o papel e, se somos educados, damos mais alguns passos e jogamos no lixo. Se alguém nos chateia, evitamos o convívio. Com quem tem opinião contrária, ou discutimos ou silenciamos. Mantemos amizades, relações formais ou ligação de espécie alguma. Vai depender das afinidades. Na vida digital, isso tudo está ao alcance de um clique.

É quase igual à vida real.

Só não é de carne e osso.

Comentários (0)

O brasileiro possui uma tendência incontrolável para idolatrar pessoas. E como sou um homem de comunicação, é notório que somos nós, em nossa necessidade de criarmos super heróis, semideuses que alimentem nossa audiência, os responsáveis por colocar lenha nessa fogueira.

Geralmente, são atletas; muitas vezes, atores e atrizes. Quase nunca autoridades.

A maneira avassaladora como veiculamos as imagens desses idolatrados não deixa à sociedade muita chance de refletir sobre o fato de que eles nada mais são do que…pessoas, imperfeitas, sujeitas a errar a cada instante do dia.

De vez em quando, vem o baque: o tal atleta perfeito competia dopado, o ator maravilhoso agredia a mulher. E a isso reagimos com desfaçatez, como se não fôssemos ótimos em erguer pedestais.

O ministro Joaquim Barbosa foi alçado a super homem (aliás, batman), redentor da moralidade de uma nação capenga de ética, de honestidade aleijada. Na época do julgamento do mensalão, não houve interesse em observar se o discurso duro e as atitudes contundentes poderiam, em alguns casos, ser interpretados como arrogância e prepotência, características do ser humano, de quem tem osso sustentando músculos e pele, como qualquer um.

E agora Joaquim Barbosa, que pela linha sucessória pode sentar na cadeira de Presidente da República, chama um repórter de palhaço e o manda chafurdar no lixo.

Acho que haverá vacância no cargo de super herói.

Precisamos fabricar outro semideus.

Comentários (0)

Eu era estagiário na Rádio Manchete AM do Rio quando, lá pelo final dos anos 80, me mandaram cobrir o lançamento de uma campanha do governo contra a AIDS. O filme era estrelado por vários artistas e atletas, gente do top de Ayrton Senna e Xuxa, o casalzinho da época. Entrevistar um dos figurões era trabalho elementar para qualquer repórter que ali estivesse.

A mim, entretanto, apenas um importava: Zico!

Cheguei trêmulo perto dele e perguntei se poderia entrevistá-lo. Nervoso, me enrolei para ligar o gravador. Gaguejei e perguntei qualquer bobagem sobre a importância da campanha. Não prestei atenção a uma vírgula do que ele disse. Enquanto Zico falava, olhava seu rosto e à minha memória vinham apenas as tardes de domingo, os braços pro alto e o grito pela felicidade de um gol do Flamengo naquele templo mágico que era o antigo Maracanã.

Alguns anos mais tarde, jornalista um pouco mais experiente, fui entrevistá-lo para um especial da Rádio CBN sobre o centenário do Flamengo. Esperei quase nada que ele me atendesse. Quando foi a hora, o próprio Zico saiu da sala e mandou que eu entrasse. Ficamos mais de uma hora conversando. Ele, à vontade, como se nem fosse um dos maiores jogadores da história conversando com um jornalista desconhecido.

Quando terminou a entrevista, e antes de me despedir, disse o que queria ter dito anos antes, no lançamento da campanha, mas que não tive coragem.

-Cara, eu sou Flamengo por causa de duas pessoas…

Me olhou sorrindo, calado, esperando a conclusão.

-Meu pai…

E ele franziu a testa, mantendo o sorriso.

-…e você.

Ficou vermelho, encabulado.

-Valeu, garoto! Vai nessa!- e me estendeu a mão.

Definitivamente, aquele era o meu ídolo.

Comentários (5)

A imprensa tradicional, principalmente os chamados jornalões, parece que ainda não acordou para a realidade: ela não é mais a única fonte de informação nem a única fomentadora do debate público.

Mas continua achando que é, e insiste estampar nas primeiras páginas, como se fosse de interesse geral, assuntos afetos a seu umbigo.

Em nada mudou meu dia a manchete da Folha informando que FHC acha Dilma ingrata. Almocei no mesmo lugar, vou dormir na mesma cama, receberei o mesmo salário.

Com a mesma certeza de que escrevem com alguma pertinência prática para nossas vidas diárias, colunistas de política lançam notas que, na verdade, são apenas satisfações aos que lhes dão informações. Servem aos donos do poder, não no sentido de governo e oposição, mas no daqueles cujas ações estão secularmente voltadas para o que é de seus próprios interesses.

Diante dos novos tempos, principalmente os jornais parecem deter a mobilidade de uma estátua. Iniciam as reportagens com fatos que já são conhecidos pelo público desde a tarde do dia anterior.

Mas em vez de a imprensa parar para pensar no que está fazendo – ou deixando de fazer – e se reinventar, volte e meia o que acontece é algum figurão que preenche longas e enfadonhas colunas nos velhos jornais vir a público atacar o conteúdo produzido na internet, principalmente nas mídias sociais (que, como todo conteúdo, também não é 100% pertinente).

Parece mesmo um sinal de que a estátua é de açúcar e está tendo os pés comidos pelas formigas.

Comentários (1)

Perfeição causa espanto por que não se encontra a toda hora.

Um carro esportivo italiano, um vinho francês, um escritor como Gabo. Uma banda de rock brasileira com 30 anos de estrada.

O Barão Vermelho sabe exatamente o que faz, e faz com tanta perfeição que às vezes nem dá vontade de dançar, mas ficar quieto no show, observando-o tocar, sacudir a própria Terra e o resto da galáxia.

Não fosse a perfeição, seria a alegria de ser uma banda de Rock’n Roll autêntico, sem arranjos moderninhos e chatinhos, sem letras em espanhol. Alegria de tocar músicas perdidas na voz de Cazuza no primeiro disco. Ei, geração Z! Você sabia que o Cazuza era o vocalista do Barão no início? Aliás, geração Z, você sabe quem foi o Cazuza?

O chamado BR Rock teve quatro bandas realmente grandes, sendo que, além do Barão, outras duas estão ainda em atividade. A quarta não teria sentido existir sem Renato Russo.

A diferença é que os Paralamas e os Titãs não empolgam mais, e precisam, muitas vezes, se apresentar juntos para ver se em dupla conseguem ser um. O Barão, sozinho, tem a pegada de cinco, seis, oito.

Se fossem pessoas, por exemplo, homens de meia idade, Paralamas e Titãs seriam flácidos, barrigudos, sedentários. O Barão seria o tio sarado, que se alimenta bem, vai pra academia todo dia e pega menininha.

Machado e Assis não é mundialmente famoso porque escreveu em português. É o caso do Barão. É impensável, para o mundo, Rock’n Roll na língua de Camões. Não fosse isso, e colocássemos lado a lado o Barão e essas bandas estrangeiras contemporâneas, insípidas na sua maioria, não ia ter pros gringos não.

Comentários (2)

Percebo certo destaque quando se fala ou escreve sobre José Saramago para o fato de ele não acreditar em Deus. Pode ser impressão minha, mas há uma inclinação em ressaltar o ateísmo como algo que reforce a intelectualidade de determinada pessoa.

Não me parece que Frei Betto, por exemplo, tenha menor capacidade intelectual do que Saramago, mas há muito artigo, resenha ou ensaio sobre variados temas que, sutilmente, querem nos levar a crer que o intelectualmente chique precisa ser ateu. Acho que isso se acentuou com a crise declarada na Igreja Católica pela renúncia do Papa.

É mesmo difícil para a inteligentzia mundial aceitar o Deus tirano e vingativo que nos fizeram engolir durante séculos. Mas inteligência e cultura oferecem sempre instrumentos para se pensar em possibilidades diversas. Uma delas é a de um Deus que não aja como feitor de escravos. A outra é admitir (e aceitar) a própria dificuldade em se explicar Deus. Mas talvez neste ponto entre a soberba de certos intelectuais: o que eles não conseguem explicar, simplesmente não existe.

O fato é que me parece rasteiro diminuir o valor de um intelectual que declara fé em Deus ou em outra entidade. É como decidir que um ateu não possa ser pessoa piedosa, fraterna e solidária, o que, aliás, deve ser o mais importante para Deus, no caso de ele existir realmente.   

Comentários (2)

Uma das frases mais famosas de Aparício Torelly, o Barão de Itararé, diz que “De onde menos se espera, de lá é que não sai nada mesmo”. Diversas vezes comprovei a assertividade da teoria de Aparício. Só quem nem tudo é absoluto, principalmente quando envolve pessoas.

Existem aquelas que, pela convivência e amizade, sabemos que estarão lá, nos estendendo a mão em momentos de dificuldade, e que nos enxergarão por dentro apenas olhando em nossos olhos, ouvindo nossa voz ao telefone.

Pelo menos em tese.

O problema é que a vida atual se amontoa de tal forma que pode muito bem impedir nossa percepção em relação ao outro, mesmo que esse outro seja aquele cúmplice de tantas épocas, aquele que, apesar do sangue diferente, é irmão ou irmã.

Quem sabe ainda muitos anos de amizade cristalizem a máxima do “ele sabe que pode contar comigo sempre, é só me chamar que eu vou”. Só que nem sempre o outro chama, às vezes quer ser descoberto em seu silêncio. Ou em seus olhos e voz. E aí o grande amigo não se faz presente quando mais precisávamos, porque não reparou que pedíamos socorro sem pedir.

Mas a vida também gosta da arte da compensação, e abre caminhos para que nos aproximemos, em horas doloridas, de pessoas que são no máximo boas colegas. E por alguma razão desconhecida, essas pessoas pegam e te ouvem, te entendem os olhos e a voz, te chamam pra sair porque sacam que você não pode ficar sozinho em casa, e se você quiser chorar, surpreendentemente te deixam à vontade para isso e te oferecem o ombro.

Agradeçamos, então, esses ombros, que apesar da pouca proximidade, fizeram-se providencialmente íntimos para o nosso consolo, nosso desabafo. Nos tornemos atentos a eles, a suas querências de desabafar e ser consolados.

Quanto aos amigos de sempre e de toda a vida, é necessário considerar também se sempre, e absolutamente sempre, percebemos que seus olhos estavam vazios e suas vozes aflitas.

Comentários (2)

Ok, você me encaminha um abaixo assinado para tirar Renan Calheiros da presidência do Senado. Concordo, também não o quero nem para presidente de clube de truco.

Mas, antes de assinarmos, vamos parar de dar dinheiro ao guarda para ele aliviar a multa, e de estacionarmos na vaga do deficiente e do idoso, que, se não envolve dinheiro, é também  forma de corrupção, pois corrompe o direito do próximo.

Da mesma forma, vamos deixar que as grávidas e, outra vez, os deficientes e os idosos, sentem nos assentos preferenciais do metrô e do ônibus. Não vamos fingir que estamos dormindo quando eles entram.

Vamos recolher o cocô do cachorro da calçada e respeitar a lei do silêncio no prédio.

Vamos parar de tirar carteira de estudante para pagar meia entrada, se há muitos anos não passamos nem perto de uma sala de aula.

Vamos voltar de táxi ou de carona se bebermos.

Vamos parar de comprar gabarito de concurso público.

Vamos parar de fazer gato na luz, na TV a cabo.

Vamos parar de colocar bolsas e embrulhos para guardarmos lugar no restaurante self service enquanto vamos nos servir, porque, certamente, há alguém que chegou antes de nós, não marcou lugar, e está com cara de bobo procurando onde sentar.

Vamos parar de tomar cerveja na fila da caixa do supermercado e deixarmos a garrafa vazia jogada no canto para não passá-la na leitora ótica.

Amigo(a), jabuti não sobe em árvore, alguém o colocou lá.

Se o Renan, ou qualquer outro é senador, não chegou lá sozinho.

Pense nisso e, se tiver segurança, mande o abaixo assinado.

Comentários (4)

É compreensível que não dê para falar de carnaval na TV se não for com alegria. A cobertura da festa precisa mesmo aproximar o público do clima do espetáculo. Natural e, portanto, nada contra que uma matéria sobre o tema tenha não só alegria, mas ainda descontração e irreverência.

Só que alegria, para os meios de comunicação nesse país, tem se “fantasiado” cada vez mais de imbecilização.

Assisto à matéria sobre umas tais musas do carnaval de Brasília. No geral, as imagens não foram além de umas sambadinhas e do corpo escultural das três eleitas (aliás, por quem?).

Não me lembro das beldades terem dito, nas entrevistas, algo diferente do que fazem para manter aqueles corpanzis dignos dos mais sumários biquínis. Uma delas afirmou, com a mesma naturalidade com que samba, que nesta época do ano sua grande preocupação é mesmo a bunda. Sim, é em função dela – a bunda – que a menina vive esses dias pré-momescos.

E esse foi o grande momento da matéria, o principal da notícia, o lead, como reza o jargão jornalístico

Claro, a culpa não é dela, ou pelo menos não somente dela. Boas entrevistas, ou mesmo apenas boas declarações, surgem muitas vezes por causa de boas perguntas e boas pautas, boas ideias para uma reportagem.

Não estou exigindo discurso politizado ou de elevada consciência social na cobertura da folia. Apenas não quero que tratem a minha inteligência feito uma imensa e bela bunda, que, na TV, só serve para ser consumida nos desfiles e descartada na quarta-feira de cinzas.

Comentários (1)

Anos atrás foi lançado um CD de algumas músicas dos Beatles com arranjos de chorinho.

A crítica desceu o pau. Nem precisava tanto para que eu não comprasse. Betleamaníaco e admirador de chorinho, nunca consegui enxergar casamento entre o ritmo que consagrou Pixinguinha e a música imortal dos quatro de Liverpool.

Tal feito comida, algumas genialidades não se deve misturar. Adoro feijão; amo espaguete. Em pratos separados, em dias diferentes.

Gosto de mudanças, defendo inovações, busco novidades, mas nem sempre esses movimentos significam acerto. Às vezes, deixar como está, como sempre foi, é melhor, inclusive para o bom gosto, para a qualidade do produto final.

Escrevo porque li que o um bloco de carnaval em São Paulo cismou de tocar Nirvana.

Não ouvi. Nem quero. Espero ter os ouvidos poupados.

Meu grito de carnaval hoje é: viva o imutável!

Comentários (4)