André Giusti - foto: Luana Lleras
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Batom na cueca

Ao contrário de muitos conhecidos meus, não tenho qualquer segurança para erguer o braço e gritar “Lula é inocente!”.

Da mesma forma, estou longe da convicção de que o processo caminhou com o rigor jurídico necessário, elemento básico para que a Justiça seja feita.

Muita coisa me deixa confuso, desde a ausência do batom na cueca (chamado de prova cabal no juridiquês) no processo até o espetaculoso power point do promotor.

Na reta final, no Supremo, o ministro que era a favor vira contra; a ministra que era contra vira a favor.

E, por último, o juiz decreta a prisão mais rápido do que em qualquer outra situação da lava-jato.

Parabéns aos que possuem convicção nesta hora.

Minha única certeza é de que nunca senti nesse país um clima tão pesado e desfavorável à liberdade como agora.

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temer22

Em um primeiro momento, o silêncio (até agora) de Michel Temer sobre as declarações inoportunas do comandante do Exército acerca do julgamento de hoje no STF me lembraram da nulidade de José Sarney em seu último ano de governo.

Com a popularidade lá no dedão do pé, a exemplo do atual mandatário do país, Sarney não fedia nem cheirava para a nação. Uma declaração de Mailson da Nóbrega, então ministro da Fazenda, fazia muito mais eco na época.

Ainda num primeiro momento, a mudez de Temer me sugeriu medo mesmo, cagaço do falar grosso das fardas e coturnos.

Mas não, rapidamente mudei minha interpretação.

Acho que Temer mandou o ministro Raul Jungman, chefe da segurança na área federal, dar uma justificativa protocolar em nome do governo sobre essa tentativa de intimidação que partiu da esfera superior da caserna.

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Tenho pra mim que o general mór falou com a anuência do Presidente da República, que é, inclusive, o chefe das Forças Armadas, como reza a própria Constituição que os militares dizem tanto fazer valer.

Anuência ou mesmo determinação, fazendo com que a tentativa de intimidação ao STF tenha na verdade origem em instâncias bem superiores aos quarteis.

Do contrário, que chefe admitiria uma declarações dessas sem dar um tapa na mesa e dizer em bom português “cala a boca que quem manda aqui sou eu!”

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Talvez Rosângela Vieira Rocha tenha deliberadamente optado por um texto não literário em O Indizível Sentido do Amor (Patuá, 2017).

Se realmente optou por esse caminho, acertou.

Reconheço que eu próprio teria feito diferente, pondo no local da narradora uma personagem na terceira pessoa para me distanciar dos fatos contados nas quase duzentas páginas do livro.

Mas a opção de Rosângela é claramente pelo relato pessoal, quase como alguém que escreve uma longa carta a uma amiga íntima, contando o que foi feito de sua vida nos últimos meses.

Em alguns trechos, me senti como se estivesse ao lado dela, viajando de ônibus, de trem, enquanto ouvia atento a história bonita que minha companheira de viagem tinha a contar.

É, e tem mais isso: é bonita a história de O Indizível Sentido do Amor.

Como, aliás, são todas as histórias que falam de um amor verdadeiro e eterno.

Recomendo.

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espertinho

1. Em reunião com secretários de estado, empresário do setor da construção civil de Brasília reclama do hospital paulista que para ampliar as instalações na capital do país contratou empresa de engenharia de São Paulo.

Sugere ao secretário responsável pelo conselho de governo que autorizou a liberação do empréstimo de mais de R$ 200 milhões que em casos assim deveria haver uma cláusula para o empréstimo obrigando a quem recebe o dinheiro contratar uma empresa de Brasília. E reclama que assim o dinheiro vai circular lá em São Paulo.

Quando o assunto é política de preços ou relação com o empregado, o empresário brasileiro prega o estado mínimo, enche a boca com o discurso “moderno” de que o mercado é que deve tocar o barco e que o governo deve ficar quietinho e não meter o dedo nessa cumbuca.

Mas, dependendo de onde está seu interesse, aí o estado não deve ser tão mínimo assim, e uma pitadinha generosa de protecionismo estatal lhe cai muito bem sim senhor.

Ronaldinho

2. Não é nem o caso de lembrar que a ligação de Ronaldinho Gaúcho com a política é zero para que ele se candidate logo ao Senado, câmara alta que, pela tradição, exige maturação pessoal e política do candidato.

Também acho desnecessário questionar qual a ligação do ex-jogador com Brasília e o Distrito Federal como um todo, para que ele tenha escolhido ser nosso representante, nós, moradores do DF.

Quantas vezes ele passou pela cidade na vida?

Acho que é suficiente lembrar apenas que o eleitor que confiar a ele seu voto é tão safado e sem vergonha quanto a escória que ocupa parte das cadeiras do parlamento na atualidade.

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Marcia Luz

Marcia Luz

Trate como gentileza o que é dever do outro.
Agradeça até mesmo quando um gesto não passa de obrigação da outra pessoa, como, por exemplo, o motorista que para na faixa de pedestre.

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Portal Terra

Portal Terra

Colega meu de profissão, jornalista de talento e experiência, observa de forma pertinente que não vale a pena o Jornal do Brasil voltar às bancas se for para fazer o mesmo feijão com arroz sem sal e sem refogado que anda sendo feito nas redações de seus antigos e agora novamente concorrentes.

O que se espera do novo JB é ao menos uma tentativa de honrar o que ele foi até a década de 80, e principalmente nas duas décadas que se seguiram à grande reforma do jornal no fim dos anos 50.

Só não concordo com meu colega quando ele diz que precisamos de um jornal de esquerda.

Jornal não é partido para ser de esquerda, centro ou direita.

A linha política de um jornal, e qualquer outro veículo de imprensa, tem que ser o interesse da sociedade, a informação sem rabo preso que ajude na construção de um país melhor do que este que moralmente cai aos pedaços.

Utopia? Não vejo outra maneira de a imprensa inspirar confiança na população.

A política de um jornal só pode ser a do “Pau que dá em Chico dá em Francisco”.

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Abaixo de zero

Leio tardiamente o grande sucesso de Bret Easton Ellis, livro que à época chegou a ser considerado O Apanhador no Campo de Centeio da minha geração.

Fiquei particularmente impressionado com a capacidade do autor de dizer sem falar, de deixar claro uma situação e um sentimento comum entre os personagens sem se referir objetivamente àquela ou a este.

Descrevendo uma sucessão de cenas e acontecimentos fúteis, mundanos, banais, Bret desnuda o vazio de viver de seus personagens, jovens bem nascidos no grand mond do cinema americano, mas o faz sem juízo de valor, sem dizer categoricamente “Que bosta de vida que essa gente leva”.

Isso é feito – e aí mora o grande barato do livro, diria até um pingo de genialidade literária – induzindo o leitor a ter uma quase certeza de que cada um dos personagens pensa – sem dizerem nem para si mesmos – que a vida deles realmente não possui sentido algum.

Além da futilidade e do vazio existencial, outro traço une todos que aparecem na história: a total ausência dos pais desses jovens.

Abaixo de Zero não tem o objetivo de entreter (embora seja livro difícil de largar) nem encantar pelo estilo literário (simples, sem elegância até).

Me parece ter um objetivo bem mais importante do que todos estes: nos manter permanentemente atentos com a utilidade que estamos dando às nossas vidas.

Recomendo.

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Lava jato

A Câmara Legislativa do Distrito Federal poderia ao menos uma vez na vida provar a utilidade de sua existência e criar lei proibindo o funcionamento de lava a jatos que utilizem água.

Numa cidade que se vê ameaçada pela crise no abastecimento, “chega dói” (como se diz no vizinho estado de Goiás) ver centenas de litros escorrerem pela lataria dos modelos de luxo dos moradores da capital do país.

Quem quiser carro brilhando, que faça a opção pela lavagem a seco, mais cara, por certo, mas com resultado melhor para o veículo e infinitamente mais racional para o meio ambiente.

Uma vez um frentista de um posto de gasolina aqui de Brasília me garantiu que toda aquela água era reaproveitada.

Quando perguntei para quê, ele respondeu: “Para novas lavagens, doutor”.

Menos mal, mas ainda acho um reuso muito rasteiro face à preciosidade do recurso natural mais importante para a vida do Planeta.

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Aílton Freitas / Agência Globo

Aílton Freitas / Agência Globo

A imprensa de Brasília traz a informação de que o departamento responsável pela manutenção dos viadutos da cidade, entre eles o que desabou e milagrosamente não matou ninguém, deixou de gastar mais de R$ 4 milhões na manutenção dessas edificações que passam sobre as cabeças de milhões de moradores da capital do país.

O responsável pelo departamento, que já foi decapitado pela caneta governamental no furacão da crise provocada pelo desabamento, não explicou – eu pelo menos não vi – o motivo de o dinheiro não ter sido gasto.

Com razão, um dos órgãos da imprensa candanga arrisca que a razão foi a austeridade fiscal, compromisso primeiro dos governos no Brasil e lá fora com o mercado financeiro.

Se há algum acerto fiscal do administrador em uma medida como esta, há, no mínimo, um inominável erro político (isso para não entrar no mérito do descaso com a vida da população). Em ano de eleição, uma tragédia provocada por omissão do poder público pode acabar com a pretensão de qualquer governante.

A julgar pelo fato, as contas públicas estão valendo mais do que nossas vidas.

Vale o balanço no fim do mês (pra efeito de marketing, aliás, porque, convenhamos, a despesa nunca é cortada onde realmente deve), mesmo que a cidade desabe ao nosso lado ou em cima de nós.

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metropoles.com

metropoles.com

O desabamento de parte da estrutura térrea de um prédio na Asa Norte, em Brasília, aconteceu no final da madrugada de domingo.

Houvesse sido apenas 24 horas depois, uma segunda-feira de manhã, seria bem mais difícil que a conta fosse apenas de automóveis esmagados pela estrutura que ruiu sobre a garagem.

Hoje parte de um viaduto da principal via de tráfego da capital do país caiu faltando dez minutos para o meio-dia.

Fosse meia hora mais tarde, haveria tráfego maior de gente indo almoçar e pegar/levar filhos na escola.

Seria, portanto, bem mais difícil que não houvesse veículos, inclusive ônibus, passando no momento no exato local do desabamento.

Aliás, já é espantoso que não houvesse qualquer veículo sobre o trecho na hora H em que a estrutura veio abaixo.

É impressionante a imagem de um pequeno automóvel vermelho dando ré segundos depois e apenas a poucos metros do que de repente se transformou em um imenso vão. Apenas mais alguns instantes e seria tarde para que o motorista fizesse a manobra de recuo e fuga do que se anunciava uma tragédia.

Embaixo do viaduto, há uma área que serve de estacionamento, e junto ao que agora é escombro existe um restaurante que recebe por dia cerca de 500 fregueses. Tudo leva a crer que não havia ninguém próximo ou dentro dos carros e no restaurante estavam apenas umas 15 pessoas, que felizmente acabaram vítimas somente de um baita susto.

Mais alguns momentos, o movimento aumentaria. E muito. Se a vida é loteria, isso é mega-sena acumulada.

metropoles.com

metropoles.com

Brasília investe pesado na compra e colocação de câmeras e outros equipamentos de vigilância de trânsito, os conhecidos pardais e barreiras eletrônicas que coíbem o excesso de velocidade.

A cidade também possui uma queda acentuada por alargar vias e erguer novos viadutos, sempre em detrimento do transporte público.

Deveria se preocupar mais com as estruturas que já existem e que já passam de meio século, fiscalizar o que vai apodrecendo em silêncio, escondido, despercebido pela pressa diária da população e pela negligência das autoridades.

Porque em algum momento os céus, ou seja lá o que for que protege essa terra, podem esgotar sua quota de milagres.

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