André Giusti - foto: Luana Lleras
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metropoles.com

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O desabamento de parte da estrutura térrea de um prédio na Asa Norte, em Brasília, aconteceu no final da madrugada de domingo.

Houvesse sido apenas 24 horas depois, uma segunda-feira de manhã, seria bem mais difícil que a conta fosse apenas de automóveis esmagados pela estrutura que ruiu sobre a garagem.

Hoje parte de um viaduto da principal via de tráfego da capital do país caiu faltando dez minutos para o meio-dia.

Fosse meia hora mais tarde, haveria tráfego maior de gente indo almoçar e pegar/levar filhos na escola.

Seria, portanto, bem mais difícil que não houvesse veículos, inclusive ônibus, passando no momento no exato local do desabamento.

Aliás, já é espantoso que não houvesse qualquer veículo sobre o trecho na hora H em que a estrutura veio abaixo.

É impressionante a imagem de um pequeno automóvel vermelho dando ré segundos depois e apenas a poucos metros do que de repente se transformou em um imenso vão. Apenas mais alguns instantes e seria tarde para que o motorista fizesse a manobra de recuo e fuga do que se anunciava uma tragédia.

Embaixo do viaduto, há uma área que serve de estacionamento, e junto ao que agora é escombro existe um restaurante que recebe por dia cerca de 500 fregueses. Tudo leva a crer que não havia ninguém próximo ou dentro dos carros e no restaurante estavam apenas umas 15 pessoas, que felizmente acabaram vítimas somente de um baita susto.

Mais alguns momentos, o movimento aumentaria. E muito. Se a vida é loteria, isso é mega-sena acumulada.

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Brasília investe pesado na compra e colocação de câmeras e outros equipamentos de vigilância de trânsito, os conhecidos pardais e barreiras eletrônicas que coíbem o excesso de velocidade.

A cidade também possui uma queda acentuada por alargar vias e erguer novos viadutos, sempre em detrimento do transporte público.

Deveria se preocupar mais com as estruturas que já existem e que já passam de meio século, fiscalizar o que vai apodrecendo em silêncio, escondido, despercebido pela pressa diária da população e pela negligência das autoridades.

Porque em algum momento os céus, ou seja lá o que for que protege essa terra, podem esgotar sua quota de milagres.

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Adoro Cinema

Adoro Cinema

Na minha vida profissional trabalhei com alguns colegas que sempre se mostraram preocupados em demasia com os interesses comerciais e políticos das empresas em que trabalhavam.

Quando uma matéria tinha sinais de que poderia incomodar relações prezadas pelos patrões, ainda antes de ela ser fechada o sujeito já estava cheio de dedos, refugando na hora de escrever o que sabia e o que era importante dar conhecimento à sociedade, o principal cliente de um veículo de comunicação.

Ben Bradlee, personagem de Tom Hanks no excelente The Post – A Guerra Secreta, é o editor chefe do Washington Post e seu (único) compromisso é com a informação no caso do vazamento de um relatório secreto do governo americano sobre a guerra do Vietnam.

Em duas horas de filme, Bradlee enfrenta pressões principalmente dentro do próprio jornal para não dar conhecimento ao povo americano da notícia que é nitroglicerina pura.

Em certo momento do filme, me lembrei de um rapaz, de futuro promissor na profissão, que chegou certa vez para mim na redação com um belo exemplo daquilo que chamamos furo de reportagem.

Titubeante, sua preocupação maior era se haveria represália quando a matéria fosse ao ar. Respondi que na emissora havia gente que ganhava bem mais do que ele para se preocupar com isso, e que seu papel ali, naquela hora, era gravar a matéria e entregar ao editor.

Pois Ben Bradlee, a partir de experiências anteriores do personagem, torna-se exemplo a ser seguido por alguns colegas que, infelizmente, se acham mais realistas do que o rei e se arvoram em defender interesses que na verdade nem sabem se são realmente de quem os emprega.

E se forem, a preocupação é justamente do patrão.

A nossa é com a notícia.

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Menina andando de bicicleta
Testemunhar a conquista de um filho nos traz igualmente a sensação da vitória.

Quando dobram alguma dificuldade, ultrapassam obstáculos, obtêm êxito em desafios é um pouco (aliás, um muito) de nós que também sai vencedor.

Nossa dedicação não deixa de estar ali consagrada.

Pela minha lembrança, o primeiro desses tantos momentos é quando a criança aprende a andar, quando solta de nossas mãos e vai pela casa, pela calçada, confiante já em suas próprias pernas.

O segundo certamente é quando aprendem a andar de bicicleta.

Por esses dias, pela terceira vez em minha vida de pai levantei esse troféu imaginário.

Após alguns dias de tombos e choro, minha filha mais nova saiu pedalando pelo jardim, enchendo de gritos de alegria (meus, dela e das irmãs) a noite de verão.

O equilíbrio inseguro foi se firmando a cada vai e volta emocionado da novidade, conquistada também com um pouco do meu esforço em lhe transmitir amor e confiança.

Vendo-a se distanciar no longo corredor embaixo do prédio e dominar o mistério de se mover sobre duas rodas, sobreveio-me a orgulhosa impressão de que estou colaborando para que, quando realmente estiver longe de mim, saiba se equilibrar também na vida.
*
André Giusti
Do Livro As Estranhas Réguas do Tempo (Crônicas, Editora Multifoco, 2014)
À venda aqui, na seção Livros do site

Capa As Estranhas Réguas

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Cony

Comprei este exemplar de um dos clássicos de Carlos Heitor Cony uns dois meses atrás.

A morte do autor, há algumas semanas, fez com que a obra furasse a minha sempre extensa fila de livros a serem lidos.

Percebi nas páginas que contam a história de um publicitário e sua mulher, 30 anos mais jovem, traços comuns a outros livros de Cony.

Parece haver em sua literatura a imperfeição da pressa jornalística, característica de quem escreve sempre com o ponteiro do relógio apontado contra si, feito uma arma.

Isto faz pensar que alguns parágrafos poderiam ter sido escritos de outra forma.

Talvez também o que dizem os personagens em alguns momentos poderia estar na boca do narrador. E vice-versa.

Há, até mesmo, a impressão de que Cony usou de modo inadequado determinado verbo, quando deveria ter optado por outro, que demonstraria melhor o sentido que ele quis dar à frase.

Mas – com tudo isso e apesar disso – tente e veja se consegue interromper ou deixar de lado a leitura de um livro de Cony.

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O Pontão do Lago Sul é um dos mais belos locais de Brasília. À beira do Lago Paranoá, reúne bares e restaurantes sofisticados e, claro, bem caros em sua maioria.

Pena que a beleza do local é inversamente proporcional à qualidade das músicas que ali se escutam.

O Pontão, em minha opinião, é um exemplo de que poder aquisitivo nada tem a ver em absoluto com bom gosto, principalmente cultural.

E ontem uma das músicas, sempre tocadas em alto volume dentro dos iates e lanchas luxuosos que desfilam pela orla, me chamou particularmente a atenção.

Não pela pieguice imbecil das letras ou pela pobreza aguda das melodias e dos arranjos.

Não pelo grotesco a que a maioria dos brasileiros se acostumou, anestesiada, a ouvir.

Mas pela agressividade da banalização do ato sexual, descrito de uma forma tão grotesca e vulgar, que me senti agredido, ofendido.

Lanchas

Estou longe de ser santo e os prazeres físicos me chamam por demais a atenção, mas aquilo que ouvi na letra passa feito um rolo compressor por cima da dignidade das mulheres. E de uma certa forma da dos homens também, por dar a entender que todos nós agimos daquele jeito.

Se você fica insensível a uma letra que diz “transa com uma, duas, seis, dezesseis” – e o verbo usado não era transar, estou amenizando -, se você não sente ao menos um pingo de nojo, pare e pense, procure ajuda, meu/minha amigo/amiga, porque você não está com a cabeça sã.

A bordo da bela lancha de sei lá quantos mil pés, rapazes e moças brancas, filhos da boa cepa brasiliense, regalavam-se com a música (?) que a indústria fonográfica tenta nos fazer acreditar que é o canto das favelas. Favelas que por sinal ninguém ali naquela embarcação tem sequer uma migalha de noção do que sejam.

Por causa de uma criança que em companhia da mãe entrou numa exposição de arte em que havia um homem nu, o tal MBL fez um escarcéu dos infernos.

Por que, então, não tenta impedir a veiculação de uma música com esse teor?

Se existem mesmo os tais moral e bons costumes, o que ouvi neste domingo é que é, certamente, uma violação a esses ditames.

Não se trata de liberdade de expressão. É lixo embrulhado em ofensa e agressão à dignidade.

O MBL não fez nem fará nada, assim como não vejo os eleitores que votarão na boçalidade e na estupidez dizerem nada, porque o pensamento e a conduta média de todos se coadunam exatamente com o que prega a letra da música.

Quando é do interesse, vestem a capa da moralidade.

Quando não, se trancam no silêncio da cumplicidade de quem trata mulheres, negros, gays, índios apenas como material de rima para um funk barato.

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Interrogação

Eu permaneço sem me convencer de que Lula é culpado, apesar da unanimidade do placar de ontem.

Não posso me convencer da culpa quando lembro do juiz de rostinho colado ao do Aécio, rindo e contando segredinhos.

Se jornais como o New Yor Times colocam em xeque tudo isso, que dirá minha consciência.

Mas como cidadão comum, homem do povo com no máximo uma pós-graduação, estou longe de ter a certeza de alguma inocência.

Se não pisei em pedras pontudas nesse rio até agora, suas águas também não se mostram claras para que eu possa ver o fundo.

Parece que é demais exigir ter alguma certeza no Brasil de hoje.

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Cerca de um ano atrás conheci a Nova Acrópole (Nova Acrópole Brasil – Escola Internacional de Filosofia), o que me fez me aproximar da filosofia.

Por interesse, e mais ainda por necessidade interior, tornei-me aluno da escola.

Lá descobri que filosofia é um instrumento para melhorar o mundo a partir de nós mesmos, da nossa melhora diante dos desafios que os problemas diários nos impõem.

Os grandes filósofos falavam as coisas de maneira simples, de fácil entendimento para qualquer um, independentemente do grau de instrução.

Nova Acrópole faz exatamente isso: leva às pessoas a filosofia sem preciosismos acadêmicos, para ser aplicada à vida prática e nos dar possibilidade de melhorarmos o mundo um pouco a cada minuto, começando por nós mesmos.

Então, convido vocês a assistirem à entrevista da professora Lúcia Helena Galvão Maya à Leda Nagle, na qual ela explica não apenas o que é a instituição, mas também qual é a utilidade da própria filosofia para o ser humano.

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Não tive acesso a qualquer estatística do tipo, nem sei se existem.

Mas me parece que, ao menos em Brasília, aumentou nos últimos tempos o número de carros batidos na traseira. E consequentemente os que têm a frente amassada também.

Arrisco com segurança um palpite: gente que dirige digitando ao celular.

A conferir.

batida

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Levei minhas três filhas para assistir ao documentário Cora Coralina: Todas as vidas.

Já no corredor do shopping, a mais velha disse, mãos nos bolsos, pensativa em seus 14 anos.

- Pai, eu entendi tudo o que ela quis dizer nos poemas. Por que outros poetas não escrevem assim, pra gente entender o que eles estão dizendo?

Tentei argumentar que muitas vezes à poesia não cabe apenas o simples papel do entendimento fácil. Muitas vezes é necessária também a construção de imagens fora do senso comum, do normal, do padrão, imagens que inflem as asas da imaginação do leitor.

Tudo bem, ela concordou, mas em seu rosto, visivelmente estava a preferência pelo estilo simples de poeta goiana em dizer coisas belas..

interneeduca.com.br

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Essa parte do documentário é a que cabe a nós escritores: estamos nos fazendo entender? Nossa mensagem está cumprindo seu papel, ou o que dizemos faz sentido apenas para o nosso restrito universo de autor e nossa pretensão estética?

A outra parte do documentário diz respeito a todos nós, poetas, advogados, técnicos em edificações, oficiais de cartório… e é bem mais importante que qualquer reflexão sobre o fazer poético.

O que fazemos diariamente para justificarmos nossas vidas? Estamos colocando nelas toda a alegria, força, dedicação, esperança, energia e amor que elas merecem? Nós somos felizes com nossas vidas?

Ao final do filme, a poesia acaba sendo a menor parte de Cora Coralina.

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Irmãs
Uma das moças na mesa ao lado no restaurante espera a irmã, que demora um pouco. É domingo, faz sol e elas são bem jovens. Portanto, a espera não incomoda.

A irmã chega fazendo cara de lamento e pergunta “Sabe aquele casaquinho que você me emprestou?”. Embora não perca a tranquilidade, a outra já sabe que boa coisa não aconteceu. “Pois é, fui lavar e ele ficou assim e assim”, e detalha o estrago, se desmanchando em pedidos de desculpas.

A dona do casaco não se abala. Dá de ombros, “tudo bem”, e ela diz que tem vários, não vai fazer falta.

É claro que esse comportamento é traço de sua personalidade, mas fico pensando que nele deve haver muito da educação dada pelos pais.

É possível que tenham ensinado que não vale a pena privar-se da paz de um domingo ensolarado por causa de coisas sem muita importância, mesmo que às vezes sejam até maiores e mais valiosas que um casaco.

É provável também que tenham cultivado nas filhas o sentimento de não competição, de não quererem, a qualquer custo e de todo o modo, ser sempre melhor do que a outra, do que os outros em todos os lugares e ocasiões.

Acho que se educarmos nossos filhos assim, no lugar do conflito teremos a harmonia; no da vingança, o perdão, e a amizade substituirá, certamente, a rivalidade.

Quando nos dermos conta, no futuro, teremos contribuído para um mundo melhor.

Aliás, na casa daquelas duas irmãs do restaurante, o mundo certamente deve ser um pouco melhor.
*
André Giusti, do livro As Estranhas Réguas do tempo (Crônicas, Editora Multifoco, 2014)

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