André Giusti - foto: Luana Lleras
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Quando cheguei a Brasília treze anos atrás, vindo do Rio, era normal que eu confrontasse a qualidade de vida nas duas cidades. Nesses embates, conheci diversos exemplos de uma espécie arrogante que habita a capital do país.  Principalmente no que dizia respeito à criminalidade, havia uma necessidade desse tipo de pessoa em afirmar que o Rio era o inferno e Brasília o paraíso.

Carioca convicto e vaidoso de minha cidade – o que continuo sendo e serei sempre – não tinha mesmo com defendê-la. O Rio começava a viver seu período mais crítico em termos de segurança pública, coincidente(?) com o primeiro ano do reinado do casal Garotinho. Brasília tinha lá seus problemas à época, mas nada que nos desse a sensação de que sair à rua era estar com a vida por um fio.

Mais de um década depois, tendo adotado Brasília como casa e cidade do meu bem querer até a morte, percebo que, enquanto minha terra natal reage ao banditismo, a que é minha por adoção assiste impávida à escalada do medo.

Na semana passada, um grupo fez um arrastão em um dos restaurantes mais sofisticados da Asa Norte, uma das chamadas área nobre de Brasília. Lá se foram relógios, carteiras, joias e cartões em meio ao “saboreio” de vinhos caros e pratos da alta cozinha. Fosse um caso assim – que está se tornando frequente na cidade – noticiado dez anos atrás, aquele tipo de brasiliense que citei no início nem se daria ao trabalho de saber onde ocorrera. Diria prontamente: só pode ser no Rio.

A criminalidade que hoje interrompe o jantar de uma elite outrora tranquila com sua segurança, é um pavio acesso já há alguns anos na periferia da cidade desplugada da realidade do país. Como ninguém apagou antes, o fogo está chegando bem perto da pólvora.

O arrastão nos restaurantes talvez seja o exemplo mais emblemático, mas os sequestros-relâmpagos e o tráfico/consumo de crack são os mais assustadores. Quanto a este, aliás, estão agora tentando improvisar políticas públicas de combate e prevenção, pois a droga começou a devastar as famílias de classe média – não sem aviso, aliás, pois há tempos ela faz o mesmo com a população de rua.

Mesmo passível de críticas e necessitando de ajustes, o combate à criminalidade no Rio surte efeitos. A sensação de segurança do carioca pode não ter chegado a dez, mas pelo menos saiu do Zero. Na contramão, cresce nos últimos anos o medo do brasiliense de, por exemplo, parar à noite nos estacionamentos das superquadras e ser levado por dois ou três drogados a “passear” pelos caixas eletrônicos.

No caso do Rio, o estado finalmente entendeu que a situação não deveria piorar ainda mais. Em Brasília, a PM mais bem paga do Brasil pouco é vista pela população, permanecendo numa escala de folga incompreensível para o contribuinte e, em número considerável, fazendo segurança de gabinetes.

É de se perguntar então às autoridades e também ao tipo de brasiliense supracitado: o inferno reagiu. E o paraíso, nada?

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Terra molhada avisa: a vida se renovou.

No fogão, o café prepara o dia.

2010

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No fim da tarde

no cruzamento de avenidas aflitas

além da fumaça do diesel

acima da acidez do chorume

resistia o cheiro novo

da primavera anunciada.

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Todas as vezes que em pequeno ia a casa de parentes ou amigos da família, era obrigado a cumprimentar um por um quando chegasse, em especial os donos da casa. Caso contrário, experimentava a aplicação dos métodos ortodoxos de educação, dos quais, diga-se de passagem, não guardo qualquer trauma.

Cresci, virei pai e reproduzo em meu modo de educar boa parte da educação que recebi na infância, como por exemplo o ritual dos cumprimentos. Por isso, já fui e ainda sou olhado de soslaio e com estranheza por muita gente.

Muitos vão além das expressões de estranhamento e me criticam com frases feitas do tipo “ah, é criança, deixa ela, não tem importância”, marcas características do discurso que adota como princípio a leniência, a permissividade, a condescendência irrestrita para com os pequenos.

Confesso que por mais encantadora que seja a criança, para mim perde toda a graça – e me causa mesmo antipatia – se ela chega a minha casa e, sem sequer me olhar na cara, some corredor adentro até parar no território reservado dos quartos, onde, não raro, sua curiosidade a leva aos armários e gavetas. “Ah, ela é tímida”, já ouvi várias vezes como justificativa, um remendo cínico para o áspero cobertor da má educação, da falta de modos. A desculpa geralmente escapa da boca de quem, sem querer repetir o modelo repressivo dos pais, nunca acertou a mão no limite aos filhos.

Acho que está claro, mas não custa confirmar: não falo da educação chamada de etiqueta, esse instrumento fútil tão usado para se praticar a falsidade e a hipocrisia. Falo de educação como respeito às pessoas em geral, todas em pé de igualdade, independentemente daqueles conhecidos fatores que provocam a imbecilidade da discriminação.

Entrar na casa dos outros sem cumprimentar – e também em outras situações não pedir licença ou desculpa – não terá, num primeiro momento, consequência maior do que o certificado público de que os pais estão falhando em algum ponto. Mas como a educação é amiga íntima da gentileza, é de se esperar que no futuro será cada vez mais raro quem, por exemplo, ceda o lugar no metrô a um idoso ou a vez na fila a uma mulher grávida.

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Dizem aí que choveu…

set/2010

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Isso é cheiro de chuva?

(ou é apenas alucinação?)

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P/ Alexandre Carolli, que estava a meu lado naquele dia.

 

Quem acordou naquela manhã e foi trabalhar normalmente não poderia imaginar que se tratava do dia de inauguração da chamada Nova Ordem Mundial.

E continuei sem me atinar para isso mesmo quando o segundo avião atingiu uma das torres. Eu era coordenador de jornalismo da Rádio CBN no Rio e estava em uma reunião de pauta, quando os jornalistas decidem o que será noticiado ao longo do dia.

Meu primeiro trabalho foi convencer aos outros reponsáveis pela rede CBN que a progranação normal deveria ser imediatamente interrompida para que a cobertura fosse toda dedicada ao que acontecia em Nova York, mesmo que se tratasse apenas de um improvável acidente aéreo.

O resto daquela terça-feira passou como se estivéssemos correndo em um túnel escuro, barulhento, enfumaçado, no qual não havia como parar de correr, voltar, caminhar mais devagar. A urgência da notícia nos fez ir, de forma quase irrefletida, até à noite sem comer, movidos a café, esquecidos de nós mesmos e entregues àquilo que à época era nossa paixão: informar.

Já desconfiado de que dera minha contribuição para a documentação da história mundial, voltei para casa bem tarde, com a sensação amarga de que o mundo, a humanidade e a possibilidade do amor estavam por um fio. Provavelmente foi a mesma sensação que tiveram os da geração anterior, que viram a Alemanha invadir a Polônia.

Hoje, sacramentado que existe há uma década um novo ordenamento no planeta, minha angústia, passado esse tempo, é um tanto diferente: assusta muito mais por perceber que esses dez anos passaram quase tão rápido quanto as duas torres foram ao chão. 

 

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Agora ele dormia como dormiriam os sinos de bronze nos campanários das igrejas nas madrugadas quietas das cidades pequenas.

O dia intenso cobrara seu preço.

Às quatro da manhã fora acordado pelo interurbano da mulher. Ele precisava voltar imediatamente. A bolsa d’água arrebentara e ele seria pai pela primeira vez em poucas horas, ainda naquele dia, antes do almoço.

Mas como, se a médica garantira que a menina viria nos meados de setembro, e agosto ainda se despedia dos calendários?

Sem resposta, deu-se conta outra vez de si apenas quando já estava no balcão da companhia aérea, tentando antecipar a passagem.

Explicava em voz alta a situação, incomodando o silêncio do saguão nos primeiros minutos da manhã ainda escura. Não que houvesse má vontade da atendente, mas é que precisava dar vazão àquela ansiolítica euforia que incendeia o ineditismo de determinado tipo de alegria.

Comprou um livro que o acompanhasse nas duas horas de espera pelo embarque. Até hoje pouco ou nada lembra da história, já que as páginas não capturaram a cabeça nas nuvens. Mesmo assim, esse tornou-se um dos livros inesquecíveis de sua vida.

No voo sua ansiedade tentava, mas não conseguia, aumentar a velocidade de cruzeiro daquele ultrapassado 737 de barulhos medonhos e aeromoças de humores igualmente envelhecidos. E o monstro com sua fuselagem cansada cortava o céu sem nuvens da mesma forma que um magro e cansado burrico galgaria cada metro de uma íngreme picada ao sol.

Finalmente em terra, finalmente em um táxi, finalmente seus pés ganharam com alegria desesperada o corredor infinito do hospital.

A enfermeira idosa, cuja coleção de nascimentos assistidos há muito entrara no imenso campo dos milhares, entregou-lhe a filha enrolada em panos e mantas. Para ver pela primeira vez o rosto mais amado de sua vida, sem jeito ele teve que desfazer um tanto aquele embrulho. Assemelhava-se ao faminto que precisa vencer a casca grossa da fruta até chegar à polpa.

Ela vai ficar com a gente? Perguntou, entortado pela falta de habilidade em segurar pacotes frágeis. Para sempre, respondeu a enfermeira, que dando as costas deve ter ido tratar de outro que chegava ao mundo.

E o resto do dia foi de fotografias, telefonemas… e deslumbramento. A pequena ali no canto do quarto, ao lado da cama da mãe, os olhos fechados em sono profundo, respirando em paz o ar pesado do planeta.

Às nove da noite, ele se lembrou de comer alguma coisa; às dez, de tomar banho; às onze desabou em um daqueles cruéis sofás-cama reservados aos acompanhantes. Apagou como uma velha máquina que se tira da tomada.

Às duas da manhã, começou a ouvir choro de criança lá nas profundezas de seu sono de chumbo, e à medida em que acordava, o choro aumentava, tornando-se estridente, corneta, buzina, alarme de incêndio.

Ela só queria mamar, estava com fome, só isso. Recém-nascidos não sabem manejar panelas, abrir geladeiras.

Ele pulou do sofá, obrigado a acordar rápido e entender logo sua nova realidade.

A partir dali, tudo seria diferente.

Inclusive o amor.

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O vento arrasta as últimas folhas secas e avisa que a chuva não tardará tanto mais, embora não venha amanhã nem depois, ou no final da outra semana.

Avisa que ela está em casa, preparando-se para sair, feito mulher com seus longos banhos, colônias e cremes.

Antes de vir – lembra o vento – a chuva passará na casa da primavera, e juntas buscarão a esperança, trazendo-a criança para todos nós.

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Um estudante foi espancado no fim-de-semana depois de ter saído de um bar, aqui em Brasília, onde assistiu às lutas do tal UFC. Ele entrava no carro quando dois mastodontes, ao que parece, resolveram descarregar no rosto do rapaz a energia represada durante a pancadaria televisiva.

Os jornais tratam o assunto com aquele tom de “ Ó, que absurdo”, adotando a praxe de mostrar quão é boçal esse tipo que já de algum tempo é corriqueiro nas grandes cidades.

Compatível em tamanho com a estupidez dos agressores se torna a desfaçatez com que a mídia se isenta de qualquer responsabilidade na ocorrência de uma imbecilidade igual a essa. O jornal que se condoi da mandíbula destroçada do estudante é o mesmo que dedicou primeira página e ampla cobertura do evento em seu caderno do esportes.

TV’s entraram pela noite de sábado exibindo para todo o Brasil o cacete comendo solto na telinha. O interessante é que se mostrarão consternadas – e nem por isso deixarão de lado o sensacionalismo – caso na saída de alguma boate um ou outro ‘pitboy’ decidir reeditar o combate, de preferência contra um inocente franzino.

E a reportagem irá ao ar como se fossem distintas as emissoras que televisionaram a luta e as que levam ao público, em forma de notícia, os alcances da estupidez humana. Como se o faturamento milionário das primeiras com a violência não entrasse nos cofres das outras, que pousam de cidadãs e responsáveis.

Durante uma década, entre 2000 e 2010, a Unesco promoveu a chamada Cultura da Paz. Consistia no cultivo de valores que promovessem o entendimento entre as pessoas.

Durante dez anos a Unesco tentou fazer com que a mídia aderisse à campanha e colocasse no ar uma programação que incentivasse a harmonia no planeta.

Passou dez anos falando sozinha, talvez sem se dar conta de que há dois tipos de valores para a mídia. Um é o do discurso da plástica jornalística, que com ares de bom moço condena a violência e alardeia a paz.

O outro é o do faturamento por meio da busca da audiência a qualquer preço, que se confirma cada vez mais como o motor de toda a engrenagem.

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