André Giusti - foto: Luana Lleras
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Eu me lembro de quando o Collor confiscou a poupança. Era uma sexta-feira, e eu estava em um bar assistindo ao Jornal Nacional. Houve gente que enlouqueceu naquele dia; houve gente que se matou depois. Eu estava terminando a universidade. Não tinha dinheiro na poupança. Aliás, nem na poupança nem em lugar nenhum.

Eu também me lembro da primeira vez que ouvi falar em internet. Foi entrevistando Sérgio Motta, futuro ministro das Comunicações do Fernando Henrique. Futuro, porque o presidente ainda era o Itamar. O Sérgio Motta já morreu, o Itamar se foi este ano e o FH saiu do governo há quase uma década. E hoje não há ninguém que nunca tenha ouvido falar em internet.

Depois que, outro dia, vieram-me à cabeça esses dois fatos, dei-me conta do óbvio: nossa idade é proporcional à de nossas memórias. Mas falo desse tipo de memória, de acontecimentos que marcaram a sociedade em determinada época, e com a qual é possível identificar quem é contemporâneo de quem (em outras palavras: quem envelhece igual a você). Não, aquele tombo que você levou na cozinha da sua avó não vale, ninguém sabe quando foi.

Puxei o fio e lá vieram – não exatamente na ordem cronológica – as Diretas Já, a morte do Tancredo, o fim da URSS, a queda do Muro, o atentado ao Rio Centro, o governo do Geisel, a Anistia, a volta do Brizola (que também já morreu), a promulgação da Constituição.

Eu lembro da Vila Sésamo, do Roque Santeiro e da Odete Roitman. Lembro bem de As Frenéticas estourando nas paradas. E me lembrei que lembro do Pelé jogando. No Kosmos, mas me lembro.

Olhando-me no espelho, puxei o mais que pude, para que viesse mesmo o que estivesse no fundo mais fundo. Quero ver aonde isso vai dar, pensei. E com a angústia da quase certeza de que metade da vida já se foi, lembrei-me de mim na barca para Paquetá e alguém apontando a construção da Ponte Rio-Niterói.

Parei por aí.

E você? Qual a sua lembrança mais antiga?

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Para Jr.

 

De repente surgiu uma vaga no estacionamento principal daquela grande repartição pública em Brasília. É que uma funcionária da seção fora transferida, e era ela quem tinha o direito de pôr o carro lá, uma área coberta no sub-solo do prédio.

O outro estacionamento não era coberto. Portanto, sujeito à chuva que encharca a cidade em metade do ano, e ao sol causticante da seca em outra metade. Além do mais, ficava em outra rua, não tinha o conforto do elevador perto. Fora o agravante: depois de certa hora, ficava mais cheio que estacionamento de shopping em semana de natal.

Pelo critério da importância do cargo, a vaga deveria ficar com aquele sujeito, que inclusive tornara-se agora o mais antigo da seção. Quando quisesse, poderia parar o carro no estacionamento coberto, informou o chefe.

Mas ele declinou de sua prerrogativa. Deixa pra fulana. No horário em que ela entra, quase nunca tem vaga do outro lado. Como chego mais cedo, não tenho problema para estacionar.

                             * 

Para melhorar o mundo, você não precisa necessariamente se embrenhar na África tentando salvar as doze milhões de pessoas que morrerão de fome por lá.

Se não for possível abrir uma instituição e tirar da rua todos os miseráveis, tudo bem.

Pequenos gestos de gentileza, de fraternidade, que não fazem eco, que muitas vezes se encerram na brevidade de um segundo, também podem tornar melhor a vida de alguém.

E melhorar a vida do próximo é, sem dúvida, a melhor maneira de melhorar o mundo. 

 

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O senso comum pode produzir conclusões frágeis, que não se sustentam quando examinadas por uma análise apenas pouco mais criteriosa. O que é consenso, pode ser falácia, e segue prevalecendo mesmo que uma contracorrente o tenha desmascarado, porque tornou-se justamente isto: aquilo que todo mundo pensa.

Mas permeia a cabeça do brasileiro médio uma concordância geral sobre um determinado assunto na qual enxergo razão consistente. É a que diz respeito à crítica cinematográfica.

Se o jornal diz que o filme é bom, não perca tempo nem dinheiro. E vice-versa. É o que recomenda o senso desse brasileiro médio, sujeito de bom nível cultural, mas distante das rodas da intelectualidade.

E o conselho tem mesmo seu fundo de verdade.

Este ano a crítica me fez perder duas vezes dinheiro com ingresso de cinema.

Bem impressionado pelo prêmio no Festival de Cannes e pelos elogios que o classificam no mínimo como obra prima, assisti a um dos filmes mais monótonos e entediantes dos últimos tempos.

A árvore da vida joga no lixo uma bela história ao optar discutir Deus e religiosidade inserindo sequências intermináveis de imagens exaustivas no meio do conflito dos personagens. Cansado, louco para ir embora, mas sem coragem de sair no meio do filme, o sujeito sentado diante da telona acaba não enxergando conexão entre a trama e o devaneio do diretor Terrence Malick. E não há Brad Pitt ou Sean Penn que faça valer o tempo (longo, são quase duas horas meia) e o dinheiro gastos.

A outra oportunidade que perdi de fazer outro programa foi quando assisti a Um homem que grita.

Classificado como poesia pelos críticos, o filme é outra ode à monotonia, com o agravante da atuação ruim dos atores e da péssima fotografia, que ao menos se salva no caso de A árvore da vida.

Às vezes é de se acreditar que existe mesmo uma relação contrária de forças entre crítica e público, com a primeira se esforçando para contrariar o segundo. Ou algo maior que a vocação para ser espírito de porco: o prazer de escrever para que milhares sintam-se imbecis e ignorantes, porque não compreendem a genialidade do diretor que só ele, crítico, conseguiu.

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Emociona a história dos operários da Câmara dos Deputados que encontraram, durante o conserto de um vazamento, frases em uma parede escondida, escritas dois, três anos antes da inauguração da capital do país. Os erros de ortografia em algumas revelam a probabilidade maior de que tenham sido escritas pelas mesmas mãos que ergueram o Palácio do Congresso Nacional. A linguagem simples carrega em alguns casos uma poesia simplória que depositava esperança naquele sonho de cidade perdido aos poucos ao longo do tempo, até chegar, nos dias de hoje, ao limiar do caos.

Algum gatilho da engenharia talvez seja o responsável por essas frases e a parede que as exibe terem ficado ocultas durante todos esses anos. Esse anonimato, certamente, é seu maior encanto. Para reparar nisso, não faltou sensibilidade ao operário que, incumbido de corrigir o vazamento, deu de cara com esses exemplares de uma espécie de “arqueologia contemporânea”. Getúlio Dias Ferreira, 55 anos – criança na inauguração de Brasília -, conta aos jornais que sentiu a importância das frases por causa das datas assinaladas abaixo de cada uma delas. Viu logo, e igualmente emocionado, que eram rastros deixados por colegas seus, cujos nomes e rostos a história oficial do país não se importou em assinalar.

As frases na parede escondida da Câmara dos Deputados  fizeram-me lembrar de outro caso dessa “arqueologia contemporânea”, só que esse, exemplo que vai no caminho oposto da valorização do nosso patrimônio, da nossa memória. Aconteceu com um sujeito que comprando uma grande e bela casa e decidindo reformá-la (um dos passa-tempos prediletos dos brasilienses), descobriu que uma das paredes era decorada com os azulejos de Athos Bulcão. Já ia mandar que um dos peões sentasse a marreta na obra de um dos homens que deram indentidade a Brasília, quando foi alertado que o “tal de patrimônio histórico” podia encrencar com aquilo. A contra-gosto, optou por uma “preservação forçada”.

O sujeito é alto funcionário de uma das casas do Congresso, o mesmo lugar onde Getúlio vai de ponta a ponta procurando vazamentos, e de vez em quando encontrando relíquias históricas. O primeiro ganha um dos mais altos salários do funcionalismo público, o que permite acesso tranquilo aos livros, aos museus; o segundo, o convencional que recebe um operário para manter sua vida de ônibus, casa modesta e filhos, em tese, sem tanta perspectiva em termos de educação e formação. Na comparação entre os dois, muitas diferenças, e a constatação de que dinheiro e escolaridade não representam tudo. Ou pelo menos não cem por cento de tudo.

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É relativamente fácil explicar porque determinados programas de TV estão no ar há tantos anos. Aliados, formato e produção fizeram – e fazem – com que atravessassem décadas no vídeo dos brasileiros, marcando religiosamente a hora do dia, o dia da semana. Mesmo que eu passe longe da TV na hora em que estão sendo exibidos, tenho que admitir que é o caso do Fantástico, do Domingão do Faustão, do Gugu, do Vídeo Show (Meu Deus! Será que não há um exemplo de bom gosto?).

Mas como explicar a permanência – e o sucesso – do Chaves? Se não me engano, ele, Chapolin, Kiko, seu Madruga e os demais já estão arrancando risadas da segunda geração de brasileiros. Agora mesmo, enquanto escrevo, minhas filhas perdem o fôlego de tanto rir na sala. Pela frieza lógica da produção televisiva de hoje, calcada na tecnologia, nos efeitos, no apelo visual, seria inxistente um lugar para Chaves e seu tosco aparato mexicano de cenários, de mixagem e edição de fundo de quintal. Se fosse automobilismo, diria que um Fiat 147 se mantém na pista ao lado de Ferrarris, Masseratis, Porsches.

Precisei lançar meu olhar de pai para entender a durabilidade de Chaves na TV. Ele se porta como criança, foi a conclusão a que cheguei. Faz as mesmas trapalhadas que seus telespectadores fazem ou gostariam de fazer, e da mesma forma inocente, pura, relaciona-se com o Kiko, com a Chiquinha, figuras facilmente identificáveis por nossos pequenos com o amiguinho da escola, a coleguinha do prédio. Daí cheguei à conclusão do óbvio, mas que parece ignorado pela mídia talvez nas duas últimas décadas: a criança, por ela mesma e sem interferência, quer ser tratada como criança, e não como projeção de adulto – mini gente grande  – usando sapatos de salto, maquiagem, roupas que antecipam a sexualidade e vivendo experiências que ela, pela própria característica biológica, não consegue processar.

Provavelmente os produtores de Chaves nunca pensaram em chegar ao sucesso evitando essa “antecipação” de uma maturidade restrita ao invólucro, mas acabaram acertando em cheio.

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Não quero o rádio ligado

nem mesmo a TV sem som.

Levante os vidros do carro

feche as janelas dos fundos.

Que não me chegue nenhum

ruído de trânsito

falatório no corredor

choro de criança

ou

cachorro latindo.

Preciso do silêncio do nada

movendo-se no vácuo.

Quero a mudez insolúvel das pedras.

Preciso escutar os meus erros

os gritos de meus desatinos

e na exaustão de todos eles

finalmente ouvir a paz.

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Poucos setores da economia me parecem tão predatórios quanto a chamada indústria da construção civil. Os que usam a contra-generalização para defender grupos em sua maoiria claramente culpados me pedirão logo cuidado com as palavras. E eu direi claro, claro, deve haver uma ou duas construtoras no país que dão bola para responsabilidade ambiental, social e coisa e tal. Deixem-as soltas e veremos a Floresta da Tijuca, por exemplo, loteada e transformada em condomínio, sempre com o argumento de que as cidades precisam se desenvolver, de que é preciso reverter o déficit de moradia da classe-média.

Em Brasília, a natureza vive de ter os pedaços arrancados por essas tais “fábricas” de apartamentos, caixotes cada vez mais mínimos e cuja finura das paredes nos permite conhecimento total da intimidade do vizinho. E vice-versa. Agora, os tão “ocupados com o desenvolvimento da cidade” querem construir um shopping-center em um terreno que abriga nascentes do Parque Olhos D’água, no final da Asa Norte, área nobre da capital do país. O local reúne espécies do cerrado, que vêm sendo devorado em grandes nacos nos últimos anos por outros predadores, tais como a soja e a pecuária.

De vez em quando a sociedade brasileira acorda de sua pasmaceira e resolve fazer barulho para impedir que os absurdos se concretizem. É o caso agora. Manifestações de moradores têm ocorrido nos últimos dias – inclusive neste domingo, no próprio parque – na tentativa de sensibilizar o estado a brecar mais um triunfo da ganância da estupidez humana. Parece que está dando certo. O Governo do Distrito Federal já mandou avisar que nessa administração nada será construído no berço das nascentes, a terra continuará sendo da água, dos pássaros e das árvores, e não da C&A, da Renner, das Casas Bahia ou outro paraíso dos enforcados pelo crediário. Ainda existem algumas poucas vantagens em se votar no PT. Devido a um resquício de pudor, o partido, ao menos na fachada, permanece comprometido com determinadas causas sociais. Fosse o outro bando partidário comandando o DF, madame já poderia se preparar para ir às compras.

Mesmo com a garantia estatal, a pressão da sociedade não perde a razão. É preciso que essa área em que estão as nascentes seja anexada legalmente à área do parque, para que não apenas as “torneiras” sejam intocáveis, mas também as “caixas d’água”.

Tudo isso não serve para refletir apenas em cima da questão ambiental. Há outra também tão importante quanto, embora não tão visível, e que diz respeito ao nosso modo de viver. A proliferação de shoppings-centers em qualquer canto das cidades revela o quanto o brasileiro se tornou escravo do consumo. Ao abandonarmos, após a segunda guerra, o modelo europeu de civilização e adotarmos o estadunidense, adotamos também como estilo de vida, razão de existir, o consumo desenfreado, motor principal da economia deles. E já que os temos como modelo, é bom olharmos com muita atenção o que a receita que usamos está fazendo com quem a inventou.

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As meninas aprontavam-se para um banho de piscina. Posto o biquíni, a mais velha chegou para o pai, apontando a barriga desnuda. Ali, naquele ponto que indicava, segundo ela, três anos antes a irmã cravara-lhe uma dentada, certamente em alguma disputa por brinquedo ou doce.

Absorvido pelas coisas desimportantes das “gentes grandes”, pouca atenção deu o pai ao queixume, até porque nos breves segundos em que seguiu a indicação do pequeno dedo, nenhuma marca de dentes ou outra qualquer enxergou na barriga desinibida da pequena criatura.

Inventada ou não, a lembrança da garota chamou a atenção da irmã. Na leveza dócil dos seis anos, a suposta e cândida canibal aproximou-se. Ajeitando os óculos, queria ver a marca de seus dentes na carne gerada no mesmo ventre de onde viera. Mas a outra, como se tomada por mágoa arrastada durante um triênio, resolveu espezinhar, e toca de virar de costas, escondendo a pançinha.

E assim ficaram por uns barulhentos instantes: uma girando em torno de si mesma, escondendo a marca que jurava carregar, e a outra acompanhando-a nas voltas, tentando ver o que as mãos da irmã a impediam.

Mas girar girar girar cansa e dá tonteira. Foi quando resolveu tentar pelo argumento, embora irritada, sem tom de negociação: Fui eu quem mordi, eu tenho direito de ver! E as lentes aumentavam seus olhos azuis arregalados, que eram, naquela idade, espelho de suas primeiras convicções.

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A bateria do celular dele

Demora quase um mês para acabar.

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No geral a vida se parece mesmo com uma viagem de navio. Agora já estava em alto mar, embora as luzes do último porto pudessem ainda ser vistas. Imensidão maior que a das águas, só a da certeza de que embarcar era mesmo necessário. Saudade era coisa como alguma daquelas constelações infinitamente acima: estavam lá, mas eram intangíveis. Imaginar quanto tempo de calmarias ou tempestades, dias impiedosos de sol e noites inquietas de solidão, só resultava no cálculo impreciso da ansiedade. Inclusive o destino, a chegada, era bom que reconhecesse, por via das dúvidas: não era inteiramente seguro que alcançasse. Só os portos que deixamos existem de fato, só eles são verdadeiramente seguros, daí tornarem-se esgotados de emoções e vida. Dele – do destino -  trazia imagens formadas na mente a partir do que escutara de alguém em uma ou outra ocasião. Por isso essa sensação de imigrante faminto, esperançoso e incerto que saiu da Europa e veio para o Brasil no século 19.

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