André Giusti - foto: Luana Lleras
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Dizem aí que choveu…

set/2010

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Isso é cheiro de chuva?

(ou é apenas alucinação?)

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P/ Alexandre Carolli, que estava a meu lado naquele dia.

 

Quem acordou naquela manhã e foi trabalhar normalmente não poderia imaginar que se tratava do dia de inauguração da chamada Nova Ordem Mundial.

E continuei sem me atinar para isso mesmo quando o segundo avião atingiu uma das torres. Eu era coordenador de jornalismo da Rádio CBN no Rio e estava em uma reunião de pauta, quando os jornalistas decidem o que será noticiado ao longo do dia.

Meu primeiro trabalho foi convencer aos outros reponsáveis pela rede CBN que a progranação normal deveria ser imediatamente interrompida para que a cobertura fosse toda dedicada ao que acontecia em Nova York, mesmo que se tratasse apenas de um improvável acidente aéreo.

O resto daquela terça-feira passou como se estivéssemos correndo em um túnel escuro, barulhento, enfumaçado, no qual não havia como parar de correr, voltar, caminhar mais devagar. A urgência da notícia nos fez ir, de forma quase irrefletida, até à noite sem comer, movidos a café, esquecidos de nós mesmos e entregues àquilo que à época era nossa paixão: informar.

Já desconfiado de que dera minha contribuição para a documentação da história mundial, voltei para casa bem tarde, com a sensação amarga de que o mundo, a humanidade e a possibilidade do amor estavam por um fio. Provavelmente foi a mesma sensação que tiveram os da geração anterior, que viram a Alemanha invadir a Polônia.

Hoje, sacramentado que existe há uma década um novo ordenamento no planeta, minha angústia, passado esse tempo, é um tanto diferente: assusta muito mais por perceber que esses dez anos passaram quase tão rápido quanto as duas torres foram ao chão. 

 

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Agora ele dormia como dormiriam os sinos de bronze nos campanários das igrejas nas madrugadas quietas das cidades pequenas.

O dia intenso cobrara seu preço.

Às quatro da manhã fora acordado pelo interurbano da mulher. Ele precisava voltar imediatamente. A bolsa d’água arrebentara e ele seria pai pela primeira vez em poucas horas, ainda naquele dia, antes do almoço.

Mas como, se a médica garantira que a menina viria nos meados de setembro, e agosto ainda se despedia dos calendários?

Sem resposta, deu-se conta outra vez de si apenas quando já estava no balcão da companhia aérea, tentando antecipar a passagem.

Explicava em voz alta a situação, incomodando o silêncio do saguão nos primeiros minutos da manhã ainda escura. Não que houvesse má vontade da atendente, mas é que precisava dar vazão àquela ansiolítica euforia que incendeia o ineditismo de determinado tipo de alegria.

Comprou um livro que o acompanhasse nas duas horas de espera pelo embarque. Até hoje pouco ou nada lembra da história, já que as páginas não capturaram a cabeça nas nuvens. Mesmo assim, esse tornou-se um dos livros inesquecíveis de sua vida.

No voo sua ansiedade tentava, mas não conseguia, aumentar a velocidade de cruzeiro daquele ultrapassado 737 de barulhos medonhos e aeromoças de humores igualmente envelhecidos. E o monstro com sua fuselagem cansada cortava o céu sem nuvens da mesma forma que um magro e cansado burrico galgaria cada metro de uma íngreme picada ao sol.

Finalmente em terra, finalmente em um táxi, finalmente seus pés ganharam com alegria desesperada o corredor infinito do hospital.

A enfermeira idosa, cuja coleção de nascimentos assistidos há muito entrara no imenso campo dos milhares, entregou-lhe a filha enrolada em panos e mantas. Para ver pela primeira vez o rosto mais amado de sua vida, sem jeito ele teve que desfazer um tanto aquele embrulho. Assemelhava-se ao faminto que precisa vencer a casca grossa da fruta até chegar à polpa.

Ela vai ficar com a gente? Perguntou, entortado pela falta de habilidade em segurar pacotes frágeis. Para sempre, respondeu a enfermeira, que dando as costas deve ter ido tratar de outro que chegava ao mundo.

E o resto do dia foi de fotografias, telefonemas… e deslumbramento. A pequena ali no canto do quarto, ao lado da cama da mãe, os olhos fechados em sono profundo, respirando em paz o ar pesado do planeta.

Às nove da noite, ele se lembrou de comer alguma coisa; às dez, de tomar banho; às onze desabou em um daqueles cruéis sofás-cama reservados aos acompanhantes. Apagou como uma velha máquina que se tira da tomada.

Às duas da manhã, começou a ouvir choro de criança lá nas profundezas de seu sono de chumbo, e à medida em que acordava, o choro aumentava, tornando-se estridente, corneta, buzina, alarme de incêndio.

Ela só queria mamar, estava com fome, só isso. Recém-nascidos não sabem manejar panelas, abrir geladeiras.

Ele pulou do sofá, obrigado a acordar rápido e entender logo sua nova realidade.

A partir dali, tudo seria diferente.

Inclusive o amor.

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O vento arrasta as últimas folhas secas e avisa que a chuva não tardará tanto mais, embora não venha amanhã nem depois, ou no final da outra semana.

Avisa que ela está em casa, preparando-se para sair, feito mulher com seus longos banhos, colônias e cremes.

Antes de vir – lembra o vento – a chuva passará na casa da primavera, e juntas buscarão a esperança, trazendo-a criança para todos nós.

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Um estudante foi espancado no fim-de-semana depois de ter saído de um bar, aqui em Brasília, onde assistiu às lutas do tal UFC. Ele entrava no carro quando dois mastodontes, ao que parece, resolveram descarregar no rosto do rapaz a energia represada durante a pancadaria televisiva.

Os jornais tratam o assunto com aquele tom de “ Ó, que absurdo”, adotando a praxe de mostrar quão é boçal esse tipo que já de algum tempo é corriqueiro nas grandes cidades.

Compatível em tamanho com a estupidez dos agressores se torna a desfaçatez com que a mídia se isenta de qualquer responsabilidade na ocorrência de uma imbecilidade igual a essa. O jornal que se condoi da mandíbula destroçada do estudante é o mesmo que dedicou primeira página e ampla cobertura do evento em seu caderno do esportes.

TV’s entraram pela noite de sábado exibindo para todo o Brasil o cacete comendo solto na telinha. O interessante é que se mostrarão consternadas – e nem por isso deixarão de lado o sensacionalismo – caso na saída de alguma boate um ou outro ‘pitboy’ decidir reeditar o combate, de preferência contra um inocente franzino.

E a reportagem irá ao ar como se fossem distintas as emissoras que televisionaram a luta e as que levam ao público, em forma de notícia, os alcances da estupidez humana. Como se o faturamento milionário das primeiras com a violência não entrasse nos cofres das outras, que pousam de cidadãs e responsáveis.

Durante uma década, entre 2000 e 2010, a Unesco promoveu a chamada Cultura da Paz. Consistia no cultivo de valores que promovessem o entendimento entre as pessoas.

Durante dez anos a Unesco tentou fazer com que a mídia aderisse à campanha e colocasse no ar uma programação que incentivasse a harmonia no planeta.

Passou dez anos falando sozinha, talvez sem se dar conta de que há dois tipos de valores para a mídia. Um é o do discurso da plástica jornalística, que com ares de bom moço condena a violência e alardeia a paz.

O outro é o do faturamento por meio da busca da audiência a qualquer preço, que se confirma cada vez mais como o motor de toda a engrenagem.

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Talvez pelo cabelo cortado de um jeito, por algum detalhe na roupa que escape ao presente.

Pelo modo de andar sorrir falar pisar a grama nas tardes sempre antigas de domingo.

Mas principalmente pelas canções eternas que levantam no ar quando passam falsamente incógnitas no caminho das multidões.

Peço perdão pela estranheza que transforma meu delírio em constatação, mas certas mulheres lembram exatamente as mulheres da época em que elas nasceram, como se, viajantes do tempo, tivessem vinte anos desde aquela época.

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Eu me lembro de quando o Collor confiscou a poupança. Era uma sexta-feira, e eu estava em um bar assistindo ao Jornal Nacional. Houve gente que enlouqueceu naquele dia; houve gente que se matou depois. Eu estava terminando a universidade. Não tinha dinheiro na poupança. Aliás, nem na poupança nem em lugar nenhum.

Eu também me lembro da primeira vez que ouvi falar em internet. Foi entrevistando Sérgio Motta, futuro ministro das Comunicações do Fernando Henrique. Futuro, porque o presidente ainda era o Itamar. O Sérgio Motta já morreu, o Itamar se foi este ano e o FH saiu do governo há quase uma década. E hoje não há ninguém que nunca tenha ouvido falar em internet.

Depois que, outro dia, vieram-me à cabeça esses dois fatos, dei-me conta do óbvio: nossa idade é proporcional à de nossas memórias. Mas falo desse tipo de memória, de acontecimentos que marcaram a sociedade em determinada época, e com a qual é possível identificar quem é contemporâneo de quem (em outras palavras: quem envelhece igual a você). Não, aquele tombo que você levou na cozinha da sua avó não vale, ninguém sabe quando foi.

Puxei o fio e lá vieram – não exatamente na ordem cronológica – as Diretas Já, a morte do Tancredo, o fim da URSS, a queda do Muro, o atentado ao Rio Centro, o governo do Geisel, a Anistia, a volta do Brizola (que também já morreu), a promulgação da Constituição.

Eu lembro da Vila Sésamo, do Roque Santeiro e da Odete Roitman. Lembro bem de As Frenéticas estourando nas paradas. E me lembrei que lembro do Pelé jogando. No Kosmos, mas me lembro.

Olhando-me no espelho, puxei o mais que pude, para que viesse mesmo o que estivesse no fundo mais fundo. Quero ver aonde isso vai dar, pensei. E com a angústia da quase certeza de que metade da vida já se foi, lembrei-me de mim na barca para Paquetá e alguém apontando a construção da Ponte Rio-Niterói.

Parei por aí.

E você? Qual a sua lembrança mais antiga?

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Para Jr.

 

De repente surgiu uma vaga no estacionamento principal daquela grande repartição pública em Brasília. É que uma funcionária da seção fora transferida, e era ela quem tinha o direito de pôr o carro lá, uma área coberta no sub-solo do prédio.

O outro estacionamento não era coberto. Portanto, sujeito à chuva que encharca a cidade em metade do ano, e ao sol causticante da seca em outra metade. Além do mais, ficava em outra rua, não tinha o conforto do elevador perto. Fora o agravante: depois de certa hora, ficava mais cheio que estacionamento de shopping em semana de natal.

Pelo critério da importância do cargo, a vaga deveria ficar com aquele sujeito, que inclusive tornara-se agora o mais antigo da seção. Quando quisesse, poderia parar o carro no estacionamento coberto, informou o chefe.

Mas ele declinou de sua prerrogativa. Deixa pra fulana. No horário em que ela entra, quase nunca tem vaga do outro lado. Como chego mais cedo, não tenho problema para estacionar.

                             * 

Para melhorar o mundo, você não precisa necessariamente se embrenhar na África tentando salvar as doze milhões de pessoas que morrerão de fome por lá.

Se não for possível abrir uma instituição e tirar da rua todos os miseráveis, tudo bem.

Pequenos gestos de gentileza, de fraternidade, que não fazem eco, que muitas vezes se encerram na brevidade de um segundo, também podem tornar melhor a vida de alguém.

E melhorar a vida do próximo é, sem dúvida, a melhor maneira de melhorar o mundo. 

 

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O senso comum pode produzir conclusões frágeis, que não se sustentam quando examinadas por uma análise apenas pouco mais criteriosa. O que é consenso, pode ser falácia, e segue prevalecendo mesmo que uma contracorrente o tenha desmascarado, porque tornou-se justamente isto: aquilo que todo mundo pensa.

Mas permeia a cabeça do brasileiro médio uma concordância geral sobre um determinado assunto na qual enxergo razão consistente. É a que diz respeito à crítica cinematográfica.

Se o jornal diz que o filme é bom, não perca tempo nem dinheiro. E vice-versa. É o que recomenda o senso desse brasileiro médio, sujeito de bom nível cultural, mas distante das rodas da intelectualidade.

E o conselho tem mesmo seu fundo de verdade.

Este ano a crítica me fez perder duas vezes dinheiro com ingresso de cinema.

Bem impressionado pelo prêmio no Festival de Cannes e pelos elogios que o classificam no mínimo como obra prima, assisti a um dos filmes mais monótonos e entediantes dos últimos tempos.

A árvore da vida joga no lixo uma bela história ao optar discutir Deus e religiosidade inserindo sequências intermináveis de imagens exaustivas no meio do conflito dos personagens. Cansado, louco para ir embora, mas sem coragem de sair no meio do filme, o sujeito sentado diante da telona acaba não enxergando conexão entre a trama e o devaneio do diretor Terrence Malick. E não há Brad Pitt ou Sean Penn que faça valer o tempo (longo, são quase duas horas meia) e o dinheiro gastos.

A outra oportunidade que perdi de fazer outro programa foi quando assisti a Um homem que grita.

Classificado como poesia pelos críticos, o filme é outra ode à monotonia, com o agravante da atuação ruim dos atores e da péssima fotografia, que ao menos se salva no caso de A árvore da vida.

Às vezes é de se acreditar que existe mesmo uma relação contrária de forças entre crítica e público, com a primeira se esforçando para contrariar o segundo. Ou algo maior que a vocação para ser espírito de porco: o prazer de escrever para que milhares sintam-se imbecis e ignorantes, porque não compreendem a genialidade do diretor que só ele, crítico, conseguiu.

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