André Giusti - foto: Luana Lleras
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Neste mês de outubro, completa 15 anos do lançamento de meu primeiro livro de contos, Voando pela noite (Até de manhã). Ele traz dez histórias escritas na primeira metade da década 90, que foram minhas primeiras incursões no mundo da prosa, após anos de uma longa “oficina literária” com a prática da poesia.

Nesse sentido, o livro é como uma represa que arrebentou, pois deu vazão àquela ânsia de autor inédito, tendo pela primeira vez a medição pública de seu trabalho, mesmo que a edição seja pequena e a venda menor ainda.

Voando pela noite (Até de manhã) foi escrito numa moderníssima (para época) olivetti praxis 20 – quem se lembra? –, cuja tecnologia oferecia no máximo o corretor ‘liquid paper’ embutido nas engrenagens e acionado por meio de uma tecla à esquerda.

Mas o livro, posso dizer, viveu na “pele” a revolução da informática. No início de 1996, foi digitado num PC 486 que rodava o “assombroso” windows 95. Salvo em disquete, lá se foi meu primeiro rebento impresso numa barulhenta matricial emprestada por meu amigo, vizinho e poeta Henrique Miranda para os braços do Jorge Viveiros de Castro. Entrincheirado entre centenas de livros no girau da editora 7Letras (que à época chamava-se Sette Letras), ele próprio fez a edição e escaneou a capa. Esta, aliás, foi concebida por mim mesmo e materializada pelo fotógrafo Lafayette Máximo. Além do casal se agarrando em cima de um dodge charger 73, eu também apareço ali, de forma “hitchcockiana” no alto à esquerda, encostado na parede de um bar que existia na rua Borda do Mato, no Grajaú que tanta inspiração me deu para escrever.

Há muitos anos não leio os contos de Voando pela noite (Até de manhã). Da última vez que o fiz, identifiquei, além das literatices de um escritor iniciante, minha evolução não apenas como autor, mas também como pessoa, e fiquei em paz com isso.

Lançado em 1996, ele foi finalista do Prêmio Jabuti no ano seguinte. Meus dois outros livros pela editora (A solidão do livro emprestado e A liberdade é amarela e conversível) passaram batidos pelos olhos dos jurados do mesmo prêmio, apesar de serem infinitamente melhores. Arrisco dizer que os dois não lograram êxito nesse sentido porque não trazem cenas de sexo, violência gratuita e personagens doentios, ao contrário do irmão mais velho. Desse palpite em relação ao gosto dos jurados dos prêmios literários, nasceu-me uma certa desilusão com a literatura.

De uma forma ou de outra, parece-me que os mil exemplares de Voando pela noite (Até de manhã) esgotaram-se. Há certo interesse da editora em lançá-lo no formato e-book, mas confesso que a temática e as infatilidades de autor inciante tiram-me parte do entusiasmo para isso. De qualquer maneira, ele está inteiramente disponível em www.andregiusti.com.br , com exceção do conto Ângela Sauer, disponível apenas na versão impressa.

E como já preveni o leitor dos defeitos técnicos cometidos em um livro de estreia, agora estou à vontade para convidar todos a conhecerem o debutante.

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Escolas de classe média de Brasília darão carros 0km e ‘tablets’ aos alunos que alcançarem os primeiros lugares no Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem. Levam, dessa forma, para dentro da sala de aula, prática consagrada há algumas gerações em diversas famílias abastadas.

A promoção, por mais que diretores insistam em dizer que tem o objetivo de incentivar o aluno a se esforçar em obter boa colocação no exame, vestiu roupa de estratégia de marketing. O objetivo nítido é fazer com que o colégio abocanhe as primeiras posições, apareça bem no ranking a ser publicado nos jornais e atraia mais e mais alunos. Afinal, qual adolescente às portas de completar 18 anos não vai querer estudar no colégio que dá um carro?

Em um mundo cada vez mais acostumado a enxergar a vida pela ótica do mercado, a ideia é boa e deverá atingir seu propósito. Como não tenho formação acadêmica que me credencie analisá-la pelo prisma pedagógico, tento enxergá-la – ela e seus efeitos – pela lente das agruras que a vida impõe a todo ser humano em trânsito nesse planeta.

Nos últimos anos, trabalhei com diversas pessoas na faixa dos 20 aos 30 anos, e diariamente constatava a dificuldade que essa geração tem para ouvir um não. A qualquer de seus pedidos negados, segue-se sempre a cara amarrada de quem – para quem vê de longe – sofreu a maior e mais cruel das injustiças. Não pensam que aquele seu pedido, se atendido, muitas vezes poderá prejudicar, e muito, o andamento do trabalho ou sobrecarregar os colegas. E com a mesma dificuldade que possuem para enxergar os limites de seus direitos, sentem-se igualmente desmerecidos, desprestigiados quando executaram a contento a tarefa, mas não receberam elogios do chefe.

Imagino que para eles, elogios – e outras recompensas – deveriam estar vinculados ao cumprimento obrigatório dos deveres que a cada um compete dentro de um ambiente de trabalho. E é bom frisar que em boa parte dos casos o trabalho é feito apenas dentro dos limites estritos do satisfatório, sem brilho, sem diferencial.

Boa parte do tempo a que me referi acima, passei tentando compreender porque procedia assim a tal da geração X, Y, Z, ou sei lá que outra letra a determine. Adquirida a dádiva da paternidade, percebi que os “injustiçados” vieram de uma criação que banalizou a recompensa, que aceitou como quotidiano a paga com doce à criança que comeu tudo no almoço; o tênis novo pelas notas boas no bimestre; o carro zero pela aprovação no vestibular.

E como me parece que as escolas estão institucionalizando essa prática, é de se esperar para os próximos anos ainda mais choro, lamúria e beicinho quando não apenas o chefe, mas a própria vida pegar e disser “você não fez mais do que a sua obrigação”.

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Encontrei-os na porta do restaurante esperando alguém ou algo feito um táxi. Eu vinha do mercado, carregava pequenos pacotes no início de noite.

Reconheci-os de pronto, e eles se espantaram por isso. É que as lembranças mais antigas são as mais bem guardadas, eu brinquei, se nos conhecêssemos ontem perigava eu me confundir. E continuei simpático.

Por falar nisso, faz uns vinte anos a última vez? Arrisquei moderado, querendo ser gentil, pois eu mesmo sabia que fazia mais, muito mais.

Trinta daqui a quatro meses, eles corrigiram, foi no nosso casamento, logo depois nos mudamos para Brasília. E contaram ainda das idas e vindas até a vida chegar na normalidade da estabilização.

Falaram dos netos. Meus Deus! Como podem aqueles dois jovens naquela festa de casamento numa noite de verão serem avós?

E eu, que na mesma festa era só um adolescente de cabeça virada por uma garota um tanto mais velha que conheci num feriado de janeiro na praia e que jamais se deu conta de minha passagem pela terra?

Como pode aquele frangote insignificante que segurava o copo de coca-cola tentando imitar homem feito ter se transformado nesse sujeito subindo a rua carregado de pacotes, dúvidas e ansiedades?

E quando nos despedimos, pensei que o tempo é mesmo pipa que a linha ‘rebentou’ da mão da gente e que vai cair sabe-se lá em que terreno baldio, telhado de casa velha ou até mesmo mar desconhecido.

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Camila tem TV moderna no quarto que é só dela.

Tem computador que fala desenha canta faz o trabalho de casa por ela.

Tem saia blusa calça pra escola curso festa e qualquer ocasião.

E com as roupas combinam sempre seus sapatos tênis sandálias chinelinhos coloridos.

Camila tem boneca que dança penteia namora e faz cocô.

Mas Camila não tem uma coisa que ela queria muito e a mãe ocupada e o pai no trabalho já disseram que não não e não não adianta insistir.

Ela queria tanto uma irmã pra ajudar a segurar a barra da vida, que Camila nem sabe ainda que às vezes pesa tanto.

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Filha, não precisa quase dois metros de papel higiênico para enxugar dois pinguinhos de xixi numa “piquita” desse tamaninho aí.

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A fome dos jovens em viver intensamente o presente faz com que eles não se deem conta da importância futura de certos acontecimentos que presenciam, e que deles às vezes até fazem parte.

Eu tinha 23 anos no dia primeiro de outubro de 1991 e, bem de acordo com a idade, não percebi que era testemunha do nascimento de uma revolução no radiojornalismo brasileiro, e porque não dizer no próprio rádio nacional?

Com pouco tempo de profissão, eu era um dos repórteres mais novos do Sistema Globo de Rádio no Rio, cuja locomotiva à época era a Rádio Globo. Quando a CBN entrou no ar naquele dia, a redação se dividiu entre os que achavam maluquice uma rádio que só transmitiria notícias e os que, contrariados – mas não sem razão -, viam naquilo tudo apenas acúmulo de trabalho.

Não lembro se aderi a alguma dessas correntes, mas tenho certeza de que não possuía a menor dimensão do que aquilo significaria para a minha profissão, e para mim como profissional, em particular.

Pedi demissão da empresa cerca de um ano depois e retornei em 1995 para viver o melhor período de minha vida profissional. Aprendi a ser repórter – e a ser repórter de rádio – fazendo, diariamente, o que chamávamos de ‘rádio nervoso’, sob a batuta de algumas das pessoas que mais entendem do veículo no país, infelizmente há muitos anos longe da CBN.

‘Rádio nervoso’, na época, traduzia-se em trabalho apaixonado de cavucar notícia e ‘brigar’ – muitas vezes até com os colegas de trabalho – para entrar no ar e cumprir o sagrado dever de informar.

O tal ‘rádio nervoso’ era ao vivo, sujeito a erros e vexames, mas geralmente compensado com a sensação/certeza de que havíamos dando um show de jornalismo no ar, e depois disso os jornais e a TV’s que se virassem para correr atrás e recuperar o prejuízo.

O ‘rádio nervoso’não apenas era feito ao vivo, mas era feito do local onde os fatos aconteciam, e não do interior das gélidas e silenciosas redações de hoje em dia, onde olhos medrosos acompanham sem piscar – e apurar e confirmar e questionar e duvidar – o que as agências de notícias publicam, prática que está quase incorporada aos manuais de redação não só das rádios, mas também de muitas TV’s.

O ‘rádio nervoso’ era transmitido por gente que sabia (e tinha coragem) de mudar um noticiário inteiro estando ele já sendo transmitido; que não se prendia ao texto; que fazia do improviso ao microfone a forma natural de se comunicar com o ouvinte.

Não, o ‘rádio nervoso’não era feito por jornalistas com pavor de notícia de última hora, muito menos por quem – com todo respeito ao talento que possa ter escrevendo para jornais e revistas – não consegue intimidade com o microfone para chamá-lo de você.

Foi trabalhando assim, ‘nervoso’, que participei de coberturas memoráveis, tais como o leilão da Vale e o julgamento da dupla Guilherme de Pádua e Paula Thomáz.

Não sendo submetidos às leis do ‘terrorismo como método de gestão’, pelo menos no Rio trabalhávamos com seriedade e cobrança dura das chefias, mas igualmente com alegria e descontração, o que não raro era usado para consertar nossos próprios erros.

Foi o que aconteceu quando, cobrindo manifestação no centro da cidade, encerrei meu boletim informando que os manifestantes iram fechar a rua, mas errei feio no slogan da emissora, o lendário ‘CBN, a rádio que toca notícia’, acabando por dizer – ao vivo, é claro – a rádio que toca na rua. No estúdio, Marco Aurélio, meu modelo de âncora, não deixou a bola cair: sim, André Giusti, toca na rua, no carro, no trabalho, em todo o lugar a CBN toca.

Até hoje, aquela CBN da qual fiz parte, toca no meu coração.

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Quando cheguei a Brasília treze anos atrás, vindo do Rio, era normal que eu confrontasse a qualidade de vida nas duas cidades. Nesses embates, conheci diversos exemplos de uma espécie arrogante que habita a capital do país.  Principalmente no que dizia respeito à criminalidade, havia uma necessidade desse tipo de pessoa em afirmar que o Rio era o inferno e Brasília o paraíso.

Carioca convicto e vaidoso de minha cidade – o que continuo sendo e serei sempre – não tinha mesmo com defendê-la. O Rio começava a viver seu período mais crítico em termos de segurança pública, coincidente(?) com o primeiro ano do reinado do casal Garotinho. Brasília tinha lá seus problemas à época, mas nada que nos desse a sensação de que sair à rua era estar com a vida por um fio.

Mais de um década depois, tendo adotado Brasília como casa e cidade do meu bem querer até a morte, percebo que, enquanto minha terra natal reage ao banditismo, a que é minha por adoção assiste impávida à escalada do medo.

Na semana passada, um grupo fez um arrastão em um dos restaurantes mais sofisticados da Asa Norte, uma das chamadas área nobre de Brasília. Lá se foram relógios, carteiras, joias e cartões em meio ao “saboreio” de vinhos caros e pratos da alta cozinha. Fosse um caso assim – que está se tornando frequente na cidade – noticiado dez anos atrás, aquele tipo de brasiliense que citei no início nem se daria ao trabalho de saber onde ocorrera. Diria prontamente: só pode ser no Rio.

A criminalidade que hoje interrompe o jantar de uma elite outrora tranquila com sua segurança, é um pavio acesso já há alguns anos na periferia da cidade desplugada da realidade do país. Como ninguém apagou antes, o fogo está chegando bem perto da pólvora.

O arrastão nos restaurantes talvez seja o exemplo mais emblemático, mas os sequestros-relâmpagos e o tráfico/consumo de crack são os mais assustadores. Quanto a este, aliás, estão agora tentando improvisar políticas públicas de combate e prevenção, pois a droga começou a devastar as famílias de classe média – não sem aviso, aliás, pois há tempos ela faz o mesmo com a população de rua.

Mesmo passível de críticas e necessitando de ajustes, o combate à criminalidade no Rio surte efeitos. A sensação de segurança do carioca pode não ter chegado a dez, mas pelo menos saiu do Zero. Na contramão, cresce nos últimos anos o medo do brasiliense de, por exemplo, parar à noite nos estacionamentos das superquadras e ser levado por dois ou três drogados a “passear” pelos caixas eletrônicos.

No caso do Rio, o estado finalmente entendeu que a situação não deveria piorar ainda mais. Em Brasília, a PM mais bem paga do Brasil pouco é vista pela população, permanecendo numa escala de folga incompreensível para o contribuinte e, em número considerável, fazendo segurança de gabinetes.

É de se perguntar então às autoridades e também ao tipo de brasiliense supracitado: o inferno reagiu. E o paraíso, nada?

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Terra molhada avisa: a vida se renovou.

No fogão, o café prepara o dia.

2010

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No fim da tarde

no cruzamento de avenidas aflitas

além da fumaça do diesel

acima da acidez do chorume

resistia o cheiro novo

da primavera anunciada.

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Todas as vezes que em pequeno ia a casa de parentes ou amigos da família, era obrigado a cumprimentar um por um quando chegasse, em especial os donos da casa. Caso contrário, experimentava a aplicação dos métodos ortodoxos de educação, dos quais, diga-se de passagem, não guardo qualquer trauma.

Cresci, virei pai e reproduzo em meu modo de educar boa parte da educação que recebi na infância, como por exemplo o ritual dos cumprimentos. Por isso, já fui e ainda sou olhado de soslaio e com estranheza por muita gente.

Muitos vão além das expressões de estranhamento e me criticam com frases feitas do tipo “ah, é criança, deixa ela, não tem importância”, marcas características do discurso que adota como princípio a leniência, a permissividade, a condescendência irrestrita para com os pequenos.

Confesso que por mais encantadora que seja a criança, para mim perde toda a graça – e me causa mesmo antipatia – se ela chega a minha casa e, sem sequer me olhar na cara, some corredor adentro até parar no território reservado dos quartos, onde, não raro, sua curiosidade a leva aos armários e gavetas. “Ah, ela é tímida”, já ouvi várias vezes como justificativa, um remendo cínico para o áspero cobertor da má educação, da falta de modos. A desculpa geralmente escapa da boca de quem, sem querer repetir o modelo repressivo dos pais, nunca acertou a mão no limite aos filhos.

Acho que está claro, mas não custa confirmar: não falo da educação chamada de etiqueta, esse instrumento fútil tão usado para se praticar a falsidade e a hipocrisia. Falo de educação como respeito às pessoas em geral, todas em pé de igualdade, independentemente daqueles conhecidos fatores que provocam a imbecilidade da discriminação.

Entrar na casa dos outros sem cumprimentar – e também em outras situações não pedir licença ou desculpa – não terá, num primeiro momento, consequência maior do que o certificado público de que os pais estão falhando em algum ponto. Mas como a educação é amiga íntima da gentileza, é de se esperar que no futuro será cada vez mais raro quem, por exemplo, ceda o lugar no metrô a um idoso ou a vez na fila a uma mulher grávida.

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