André Giusti - foto: Luana Lleras
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Boa parte de Brasília ficou às escuras na noite desta 5ª feira por causa de um temporal. Então, fico devendo uma postagem inédita hoje. Até  comecei a escrever uma crônica, mas sem luz não podia programá-la para entrar no blog, e aí desisti.  Quando a luz voltou, ainda restava muito a ser escrito. Preferi deixar para 2ª feira.

Entretanto, trago um poema meu, lá do início da década de 90. O título é uma homenagem a um de meus poetas favoritos. Esse poema está na seção POEMAS de meu site, embora com o nome de Hoje foi sexta-feira (não me perguntem a razão, pois não sei mais explicar). Como hoje é sexta-feira, resolvi colocá-lo aqui com o título original, pois traz o verbo no presente.

Espero que gostem. Caso conrário, reclamações devem ser encaminhadas à Companhia Energética de Brasília.

Passei o dia inteiro correndo atrás da vida
com o mundo no meu pé
e agora à noite fiquei só,
curtindo a liberdade de não ter pra onde ir.
Arrastei meus vinte e poucos anos pelos bares
e reconheci rostos de velhos desconhecidos.
Quis fugir do barulho lá fora,
me tranquei num caixa eletrônico
e tentei cortar os pulsos
com o cartão magnético.
Abandonei mais tarde a TV ligada
e, louco, cometi poemas desatentos,
com todos os cuidados
em não fumar a caneta
e escrever com o cigarro.
Depois de tudo me sentei na poltrona
feito um anônimo passageiro do oculto
lobo com medo da floresta.
Se ela não ligar até o fim da vida
talvez eu vá à casa de alguma ex-namorada
para ver se ainda pego as sobras do jantar.

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Tem feito relativo sucesso aqui em Brasília um adesivo distribuído por uma rede de restaurantes. Em vermelho-goiaba (existe mesmo essa cor?) e letras brancas estilizadas diz Gentileza gera amor e paz.  Um dia estava no restaurante e perguntei pelo adesivo. Acabara o último dos sei lá quantos lotes que haviam sido encomendados. Desde lá, quando notei pela primeira vez o adesivo, é raro o dia em que não vejo um carro em Brasília com a frase colada na lataria.

Ela é quase uma cópia da que o profeta Gentileza pichava nas pilastras dos viadutos do Rio de Janeiro nas décadas de 80 e 90. Gentileza gera gentileza, escrevia o velho cabeludo, objeto de documentário e, acredito, de certa celebração cult nos dias de hoje. Como a intenção do profeta era essa mesmo, de que sua filosofia fosse espalhada gratuitamente, e o adesivo não é cobrado, não há qualquer apropriação intelectual. Gentileza cedeu, gentilmente e para sempre, todos os seus direitos em prol da boa convivência entre os homens.

O sucesso do adesivo com a frase reflete a necessidade que as pessoas têm de harmonia nas relações, até mesmo – e talvez principalmente – com um desconhecido no meio da rua. Ótima idéia que se comece a buscar isso no trânsito de uma grande cidade, palco em que um monge tibetano pode se transformar em um neurótico de guerra. Em cidades como Brasília em que as pessoas são extremamente egoístas e individualistas quando estão ao volante, a gentileza deveria ser componente obrigatório da gasolina e do álcool.

Usar esse adesivo é ato de extrema responsabilidade. Mais importante do que querer, neste caso, é praticar. Se ninguém dá vez no cruzamento, lembre-se do adesivo, e não revide em cima do outro quando for sua hora de ser gentil. E controle seu linguajar. Já pensou se te pegam berrando um palavrão daqueles bem cabeludos logo depois de notarem o adesivo no seu carro?

Semanas depois que fui ao restaurante, acabei encontrando o adesivo pregado em minha mesa de trabalho. Até hoje não sei se foi algum colega mandando um recado de maneira sutil. Só sei que estava lá – Gentileza gera amor e paz -, e como não acredito em acaso, tratei de tirá-lo com cuidado para não rasgar e pregá-lo no meu carro.

Colá-lo no porta-malas não me transformou num gentleman de uma hora para a outra. Mas me tornou vigilante comigo mesmo. Parece que há nele uma espécie de botão automático. Toda vez que sinto vontade de jogar o carro em cima do fusquinha da senhora que vai à minha frente a 30 por hora na faixa da esquerda, é como se um dispositivo qualquer fosse acionado lá atrás, no adesivo, e aí eu tomo um beliscão na consciência e me controlo. Só por isso já posso dizer que comigo a coisa tem funcionado.

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Cerca de 150 mil pessoas enfrentam, há dois dias, uma verdadeira odisséia para ir de casa ao trabalho e retornar no final da tarde no Distrito Federal. É que os metroviários estão em greve, pedindo um aumento nos salários de nada menos do que 120%, algo que me parece jamais conquistado por nenhuma categoria de empregados em toda a história do sindicalismo, quiçá no mundo inteiro.

Sem metrô, a multidão que viaja espremida nos trens precisa ir e voltar mais espremida ainda, se apertando para caber nos ônibus das viações “Latas de Sardinha S/A” que operam o transporte público na capital do país. Nesses ônibus, viaja todos os dias uma outra multidão, entalada em verdadeiras carroças com defeitos nos freios e pneus carecas.

Os metroviários não pensaram nisso, nem no pagamento descontado por causa do atraso do trabalhador que eles transportam todos os dias, muito menos nas duas ou três horas a mais que este mesmo trabalhador levou para chegar em casa depois de uma jornada de trabalho exaustiva. Não pensaram, como nunca foram pensadas, as consequências de uma greve em serviços considerados essenciais. Decide-se cruzar os braços para pedir aumento e pronto: que se vire da melhor maneira possível a população para ir e vir de manhã bem cedo ou altas horas da noite.

Quando voltarem da greve, todos estarão perdoados pela mãezona estado, que não demite, que não corta ponto, bem diferente da madrasta iniciativa privada.

Não sei se a greve é mesmo o único instrumento de pressão. Legítimo é, e certamente é o mais cômodo. Que tal manterem o metrô funcionando e formarem uma comissão de 100 ou 200 para acamparem na porta do governador, encherem o saco com buzinas e tambores até que ele se digne a recebê-los? Provavelmente chegando na hora ao trabalho e em casa, a população não apenas apóie os trabalhadores como ainda ache que o aumento deve ser maior.

Ontem os alunos das escolas públicas do DF não tiveram aulas. O Sindicato dos professores resolveu que ninguém deveria dar aula porque a Câmara Legislativa iria votar o aumento de dez por cento para o magistério e (sabe como é, né?) havia a necessidade de mobilização para que os deputados aprovassem o reajuste. Como se deputado precisasse ser acossado para aprovar aumento de servidor público em ano de eleição.

Quem ouve “mobilizar a categoria para pressionar deputados” imagina uma verdadeira romaria de professores à Câmara Legislativa para a sessão que começou às 15h e que impediu as aulas já no turno da manhã. À tal da mobilização, compareceram cerca de 300 professores, fatia magra perto dos mais de 20 mil que dão aulas na rede pública do DF. Tivessem formado uma comissão com um número até maior para conseguirem o que é justo, e mantido o restante em salas dando aulas, certamente os professores receberiam apoio da mãe que precisa que o filho vá à escola porque não tem com quem deixá-lo na hora do trabalho, e a gratidão daquela que manda a criança ao colégio principalmente para comer.

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O apresentador Pedro Bial em entrevista à Rolling Stone brasileira desdenha da credibilidade. Acha que quem a quer são os pastores, os padres e sacramento: não quero que acreditem em mim. Encerra a afirmação dizendo que “os jornalistas em geral sem levam muito a sério”.

Não precisa ser formado em jornalismo para ao menos supor que a credibilidade é o elemento principal do trabalho de um jornalista. Se não somos acreditados no que escrevemos e dizemos, qual sentido de acordar todos os dias, chegar em casa altas horas, atravessar fins-de-semana e feriados longe da família fazendo o que escolhemos fazer, ou seja, notícia?  

Um jornalista que abre mão da credibilidade é como o médico que se lixa para a precisão na hora da cirurgia, como o engenheiro que abdica da exatidão do cálculo. Pouco caso com a credibilidade é porta aberta para a informação imprecisa, amiga íntima da mentira, frequentadoras da mesma roda de calúnia, injúria e difamação.

A declaração do apresentador daquele programa que me eximo de dizer o nome parece própria de quem saturou do que faz há anos, de quem ataca a principal qualidade de algo que não quer mais. Tudo bem, Bial tem esse direito, mas poderia deixar isso claro: não acreditem mais em mim, pois não quero mais ser jornalista. Os telespectadores estariam liberados definitivamente de vê-lo como agente de informação confiável. Os estudantes, por sua vez, de tê-lo como modelo.

De minha parte acho que posso pegar o exemplar de Revolução ao vivo, que Pedro Bial escreveu nos anos 80/90 com a também jornalista René Castelo Branco sobre a queda do Leste Europeu, e jogar fora a parte dele.

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Na última quinta-feira, dia 11, a jornalista Daiane Garcez enviou-me carta mostrando indignação com as palavras da primeira-dama do Distrito Federal.

Após a saída da visita diária ao marido preso há mais de um mês, Flávia Arruda fez o que para ela foi um desabafo. Para o eleitor, contribuinte e cidadão foi a prova de que as autoridades têm no papel de vítima uma espécie de disfarce a ser usado em caso de emergência. Ou seja, pego com a boca na botija, a autoridade abre o armário, pega o disfarce e aparece com ele querendo comover a sociedade, de olho no perdão da memória curta do brasileiro, especialmente se for o perdão eleitoral.

Daiane Garcez pediu que eu transformasse sua carta em texto para esse blog. Achei melhor publicá-la na íntegra. Primeiro porque o texto está excelente. Segundo porque não há nada na carta que eu pudesse acrescentar, nem mesmo um centímetro de indignação.

A carta segue reportagem do Correio Braziliense, que deu origem ao desabafo de minha colega de profissão.

*

Ex-primeira-dama fala pela primeira vez após a prisão do marido

Débora Álvares
Noelle Oliveira
09/03/2010 20:25
A ex-primeira-dama do Distrito Federal falou, na tarde desta terça-feira (9/3), pela primeira vez após a prisão de seu marido, há quase um mês. Flávia Arruda se mostrou preocupada com o estado de saúde do governador afastado e preso, José Roberto Arruda (sem partido).
Segundo ela, Arruda tem dificuldades para andar e, hoje, não quis comer – a esposa do governador chegou à PF por volta de 12h40, com o almoço dele. Flávia destacou, ainda, que o exame doppler realizado nesta segunda-feira (8/3), não apontou placas na safena, mas acusou um edema. De acordo com a ex-primeira-dama, além do inchaço nas pernas, Arruda tem apresentado grandes oscilações de pressão. A Polícia Federal ainda não confirmou as informações passadas por Flávia.

A esposa do governador afastado acredita, ainda, que a piora do estado de saúde de Arruda seja consequencia da suspensão, após a prisão dele, das sessões de fisioterapia. Segundo Flávia, o marido era submetido aos exercícios desde a cirurgia no tendão do pé direito que pela qual passou em 9 de novembro do ano passado.

Flávia Arruda destacou que a rotina da família, com a detenção do marido, está muito complicada. Ela ressaltou, ainda, que a filha sente muita falta do pai. “Eu estou péssima, doente. Quem mais está se prejudicando com toda essa situação não é a população de Brasília, mas sim o próprio Arruda e nós, sua família”.

A ex-primeira-dama afirmou que não queria comentar a respeito das imagens de Arruda recebendo o dinheiro das mãos do ex-secretário de governo Durval barbosa na operação Caixa de Pandora. No entanto ressaltou que não se surpreendia com o fato. “Não me surpreende porque eu sei que todo mundo recebe. E sei que a política no Brasil é assim, as pessoas precisam receber dinheiro para a campanha”, disse. Flávia destacou que todo o dinheiro recebido por Arruda foi declarado.
* * * * * * * * * *  
Pois bem, sem dúvida alguma a família deve estar sofrendo. Qual a família não sofre ao ver um ente querido preso, por pior ato que ele tenha cometido. Isso é natural, e vemos todos os dias, nos noticiários, familiares (de homicidas, ladrões, estelionatários …) chorando e reafirmando com todas as forças que são vítimas de injustiça. Ora, isso é perfeitamente aceitável e entendível. Deus que me livre, mas não sei se eu teria forças para agir de outra forma.
 

O que não é aceitável é que uma primeira dama diga: “Quem mais está se prejudicando com toda essa situação não é a população de Brasília, mas sim o próprio Arruda e nós, sua família”.  Entendo que a primeira dama, que passou quase um mês calada, perdeu a chance de permanecer calada por mais tempo.Talvez ela tenha dito isso porque não conhece a realidade da saúde pública no Distrito Federal. Há quanto tempo a população está prejudicada pela falta de responsabilidade do governo em aplicar menos do que deveria, ou até mesmo desviar o dinheiro que deveria ser utilizado neste setor? A senhora Flávia Arruda pode até ser a primeira dama, mas talvez seja a última a saber que todos os dias a população – e neste caso digo os mais pobres – chora por não encontrar médicos suficientes para atendimento, por não encontrar remédios – em muitos casos caríssimos, que custam fortunas diante da renda familiar – chora por não conseguir marcar uma cirurgia, e precisa esperar por meses e até anos uma decisão da Justiça para ter direito ao que está garantido como direito em lei. E mais, é lamentável que esta declaração seja de uma senhora que presida o Instituto Fraterna e se diz totalmente empenhada no trabalho social.
 

A primeira dama também afirma que não se surpreendeu com as imagens, porque isso é natural, porque todo mundo recebe. Entendo, que nesta situação, em particular, justificar um erro com outros erros não é o mais adequado. Talvez, mais uma vez, ela seja a última a saber que o governador José Roberto Arruda foi eleito pela maioria não porque entre os errados ele é o menos errado, mas porque os eleitores depositaram nele a confiança de que estaria à margem da ilegalidade e saberia gerir a cidade com honestidade. Até mesmo porque, há alguns anos, José Roberto Arruda pediu perdão e mais uma chance para provar que é um homem correto.
 

Não se trata aqui de inocentar ou condenar o governador: isso cabe à Justiça. O que incomoda é saber que a primeira dama despreza o impacto desse “esquema” no dia-a-dia da população. Causa impacto também em outras cidades, em outros países, e até no Judiciário brasileiro – que já deve ter recebido de tudo. É só lembrar da declaração do “ministro-poeta” do STF, Carlos Ayres Brito, durante o julgamento do habeas corpus de Arruda: “Dói em cada um de nós, dói na alma, no coração ver um governador sair de um Palácio para a cadeia, mas há quem chegue às maiores alturas para cometer as maiores baixezas.”
 

Com isso, concluo: a primeira dama, que passou um mês em silêncio, deveria ter permanecido assim até o fim das investigações.

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Tradução é das tarefas mais árduas da literatura. Imagine, então, se o trabalho é passar um livro do árabe para o português. Eu e o poeta Alexandre Pilati tratamos do assunto no bate-papo literário da rádio BandNews 90,5 FM, Brasília a partir do trabalho de Mamede Mustafá Jarouche. A nossa conversa vai ao ar às 2ªs feiras às 16h51 e às 3ªs às 11h31. Todos estão convidados a ouvir. Agora, confira o texto de Alexandre Pilati.

Um pouco da literatura árabe em português.

Por Alexandre Pilati.

Com o recente lançamento do livro O leão e o chacal mergulhador, pela editora Globo, o nome do paulista Mamede Mustafá Jarouche, vai se consolidando a principal referência da tradução de literatura árabe do país. Graças a ele, diversos textos da tradição narrativa do mundo árabe estão disponíveis ao leitor brasileiro e com uma qualidade impressionante. Jarouche nasceu em Osasco, São Paulo, em 1963. Diplomou-se bacharel em Letras, Português e Árabe pela Universidade de São Paulo. Além disso, estudou o árabe, que era o idioma de seu uso doméstico, também na Arábia Saudita, no Iraque e no Egito.

Quando começou a ensinar árabe na USP, em 1992, Jarouche iniciou sua prática de tradução literária que já lhe garantiu vários prêmios como o Jabuti de Melhor Tradução, o de Melhor Tradução do Ano da Associação Paulista dos Críticos de Arte, e o Prêmio Paulo Rónai de Tradução todos pela obra As mil e uma noites.

Todos os seus trabalhos têm em comum o fato de serem traduções de narrativas anônimas recolhidas na tradição oral árabe, que é riquíssima na fluência do enredo. Essa fluência é garantida na tradução pelo grande conhecimento da língua por parte de Jarouche, que faz com que cada texto seja uma saborosa experiência de leitura.

As obras

O leão e o chacal Mergulhador (2010) é um texto recolhido junto à tradição oral da literatura árabe. Ele se configura, assim, numa mescla de tratado político, livro de etiqueta da corte, crítica de costumes e fábulas que buscam traduzir um ensinamento, mais ou menos como as famosas fábulas de Esopo que se tornaram tradicionais no ocidente.

Encadeando e desencadeando ensinamentos, sentenças, máximas, provérbios e pequenos contos, uma narrativa vai sendo costurada, como se cada parte dela fosse a figura de uma tapeçaria oriental.

Os contos das mil e uma noites (V.1 2005; V.2 2006; V.3 2007) foram traduzidos a partir dos três volumes do manuscrito árabe da Biblioteca Nacional de Paris, a fonte mais valiosa para a edição do livro. Além disso, o tradutor comparou esses manuscritos com quatro das principais edições árabes do livro e utilizou ainda quatro manuscritos do chamado “ramo egípcio antigo”. A publicação do Livro das mil e uma noites está projetada em cinco volumes e já tem 3 desses volumes disponíveis nas livrarias, todos pela editora Globo. A edição apresenta centenas de notas sobre aspectos lingüísticos ou que explicam o cotejo entre manuscritos e edições árabes, além de anexos valiosos, com traduções de passagens do livro que possuem mais de uma redação, e que servem de elementos de comparação para o leitor interessado na história da constituição do próprio ‘Livro das mil e uma noites’.

Todo esse esforço torna o trabalho de Jarouche uma referência obrigatória daqui em diante para os admiradores e estudiosos da literatura árabe, no Brasil e no exterior.

Histórias para ler sem pressa (2008) é um apanhado de 30 contos curtos, a maioria de uma página, que datam de um período que vai dos séculos IX ao XVIII. Os títulos das pequenas narrativas, que são ilustradas pelo artista plástico Andrés Sandoval, dão bem a idéia de seu saboroso conteúdo, reflexo de um mundo ao mesmo tempo mercantil-agrário, patriarcal e mágico, em que a tradição domina. Veja alguns deles: “O poeta e o vendedor de melancias”, “O peregrino, o colar e o perfumista”, “Um pão por mil moedas de ouro”, “O mercador desonesto” e “Um orador esquecido”. 

 

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Terminei de ler por esses dias O anjo pornográfico – a vida de Nelson Rodrigues, do Ruy Castro. O livro é de 1992 e me pergunto por que abdiquei todos esses anos da leitura sobre a vida de nosso maior dramaturgo. Se me fosse dado o dever de formar uma lista do tipo livros que deveria ter lido há mais tempo, O anjo pornográfico puxaria a fila.

É daqueles livros que nos faz perder a hora de dormir, e que durante o dia torcemos para que chegue logo a noite, o momento  de irmos para a cama e, com a cabeça no travesseiro, devorarmos suas páginas.

Confesso que Nelson Rodrigues não era figura que me despertasse o maior dos interesses. Até que, recentemente, procurando algo que preenchesse o tédio de uma viagem de avião, deparei em uma livraria de aeroporto com o tijolaço do Ruy Castro.

A exemplo de outras biografias, dá para pescar um pouco da história do país a partir da vida do biografado e a história do segmento que representou – no caso de Nelson a imprensa e o teatro – e a relação desse segmento com a sociedade da época.

É característica lógica das biografias ensinarem um pouco de história a partir da vida de uma pessoa. Fernando Moraes dá aula de história da imprensa contando a vida de Assis Chateubriand em Chatô – o rei do Brasil. Ruy pincela um pouco dessa história ao escrever sobre a vida de Nelson, e vai bem além quando fala do teatro, o que ocupa uns 40 por cento do livro. E essa fatia da obra é quase toda preenchida com o que realmente importa nas peças de Nelson Rodrigues: a relação delas com a sociedade da época, desnudada no palco pelos seus personagens, escandalizada com suas próprias mazelas morais, renegadas com pose de santa.

Mas o que toca em O anjo pornográfico é a ligação de Nelson Rodrigues com a tragédia. A morte não era presença à toa em suas peças e crônicas. Poucas vezes li sobre um autor que houvesse tido contato tão próximo com ela, pontuando não apenas a vida da família com abusiva frequência (dói ler como morreu o irmão mais novo de Nelson), mas a dele próprio por causa da saúde sempre precária.

No todo, apenas um porém. O livro que fala sobre a vida de alguém que tanto versou sobre o pecado, comete um. A relação de Nelson Rodrigues com o futebol é muito pouco explorada. Simplesmente não há menção à frase “estava escrito há 5 mil anos” , épica na crônica esportiva brasileira.

Mas isso não desmerece a abordagem sobre a vida de Nelson Rodrigues, ainda mais com o texto do Ruy Castro. Se não leu, leia. Não espere viajar de avião.

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Bom para mim é Led Zeppelin. Foi o que ouvi outro dia de um rockeiro passado dos quarenta. Soltou essa depois que alguém, no trabalho, falou que Franz Ferdinand era bom.

Diria ao meu contemporâneo que tão bom quanto o Led é o U2, seguidos de perto pelo Pink Floyd, The Who e Black Sabath. E melhor que os dois primeiros – e que todos – são os Beatles.

O critério aí utilizado, lógico, é o do gosto pessoal. Não faço do meu verdade absoluta.  Mas a opinião de meu contemporâneo revela choque de gerações no patamar do Rock`n Roll, e serve para rápida discussão.

Fomos criados ouvindo todas essas bandas. E mais Raul Seixas, Mutantes, O Terço. Isso na infância. Na adolescência, a geração coca-cola descobriu o mundo ao som do BRock, o chamado Rock Brasil. E mais o que vinha de fora: Smiths, Jesus and Mary chain e por vai. Ou melhor, foi.

Quando os anos 90 chegaram, nossa formação musical já estava consolidada, mas nela ainda cabiam coisas novas. E aí vieram Pearl Jam, Nirvana, e para muitos o Oasis, o Red Hot chili pepers. E nosso universo de bandas novas se cristalizou por aí, chegou no máximo até 1995.

Confesso que até os primeiros anos da década de dois mil, pouco ou quase nada me interessei em conhecer o que surgia de novo. Penso que só os Strokes conquistaram algum território em meus ouvidos.

Com o advento da tecnologia dos MP3 e o costume de baixar música pela rede substituindo o de comprar CD, descobrir bandas novas virou passa tempo corriqueiro. Recentemente verifiquei que os caminhos trilhados por John, Paul, Plant, Ozzy, Bono e tantos outros, não estão perdidos como julguei em determinada época, ou como persistem em suas convicções alguns amigos oitentistas.

O mais interessante, no entanto, é perceber que, assim como em todo os campos da arte ou de qualquer outra atividade humana, nem sempre os melhores são os que carregam os louros da consagração. Descobri bandas que mesmo alguns rockeiros bem mais jovens que eu praticamente desconhecem, e que na minha modesta opinião são bem melhores musicalmente do que outras que estão dezenas de degraus acima na escadaria da fama.

Para ser rápido, citarei como exemplo apenas duas bandas, quase anônimas nesses mares do sul e de tietagem de Franz Ferdinand e Cold Play. A pronúncia do nome de uma delas, talvez a melhor de meus achados, é dúvida até mesmo para quem me apresentou. Falo dos Raconteurs. Pouco descobri dos caras. Tenho vaga idéia de que a maioria deles são americanos e se juntaram em 2005. Parece que já gravaram uns três discos, não chego a ter certeza. Essa, só tenho mesmo de uma coisa: o CD a que tive acesso – Broken boy soldiers – é uma das grandes coisas que se fez na história do Rock. Eles usam baking vocals, algo que julguei exterrminado pelas novas gerações. Não falarei mais, procure ouvir.

Meus passeios pela modernidade rockeira me revelaram outra banda que se tornou de meus encantos. Black rebel motrcycle club. Em uma olhada rápida pela Wikipedia, descubro que também são americanos e já gravaram bens uns seis discos. O que consegui – How!, de 2005 – ouvi umas quatro vezes seguidas.

Talvez meus contemporâneos me perguntem: o que esses caras fazem de novo em termos de Rock’n Roll? De novo, provavelmente nada, mas mantêm o nível, continuam fazendo muito bem o que de muito bom já foi feito até hoje, dão a certeza de que o Rock tem mais uns 50 anos de lenha para queimar.

Em tempo: Franz Ferdinand não está com essa bola toda mesmo não, e Arctic monkeys é, no geral, muito chato.

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Seis escritores de Brasília formatam uma coletânea de textos sobre a cidade em homenagem aos 50 anos de fundação da capital do país. Em 150 páginas, os seis destacam em prosa e poesia não apenas a cidade, mas principalmente seus moradores, seus personagens – dos mais famosos aos anônimos – do passado e do presente.

A coletânea junta poemas, crônicas e contos de Nicolas Behr, José Rezende Jr., Pedro Biondi, Liziane Guazina, Fernanda Barreto e meus também.

Nicolas Behr, todos conhecem, é autor de Iogurte com Farinha e tantos outros livros que o tornaram uma espécie de embaixador da poesia de Brasília, explicando nem tanto a capital do poder, mas muito mais a cidade e seu pulso a partir da Rodoviária do Plano Piloto.

José Rezende Jr. (A mulher gorila e Eu perguntei ao velho se ele queria morrer, 7Letras) percorre caminho parecido, mas com os minicontos. Em poucas linhas resgata o anônimo candango que ergueu os palácios e as quadras de Brasília e inquieta-se com a qualidade de vida da cidade se perdendo um pouco a cada dia.

O paulista Pedro Biondi, autor de Cheiro de Leoa (Editora Limiar), mostra em prosa e poesia o baque de quem chega à capital e depara com algo totalmente diferente de tudo que existe no Brasil. Ele traduz em poemas ou crônicas o espanto pela setorização de tudo na cidade, o castigo da seca e o alívio da chuva.

A temática é, até certo ponto, semelhante nos textos que Fernanda Barreto escolheu pôr na coletânea. No caso de Fernanda, há também o cerrado exótico que encanta e a cidade diferente que desafia o entendimento de quem a vê pela primeira vez. E na cidade onde também moram pessoas normais, segundo Nicolas Behr, homens e mulheres se amam em bares e monumentos. Para azar dos leitores, Fernanda Barreto é a única ainda inédita em livro, mas dá para conferir o que escreve em http://transitivaedireta.blogspot.com/  .

Pessoas. É esse o material que Liziane Guazina leva à coletânea sobre Brasília. Autora do ótimo Entre Facas (Nova prova, 2009), a autora gaúcha, há muitos anos na cidade, escarafuncha o universo de burocratas, homens, mulheres, velhos, jovens, mendigos. Por trás deles, a cidade grita em silêncio.

Por fim, levo para a coletânea dois contos que acabaram não entrando em meu último livro, A liberdade é amarela e conversível. E não entraram justamente porque tratam particularmente de Brasília, do universo particular dessas quadras e prédios por onde já circulo há 12 anos e que tanto já colocam seu gosto e seu tempero no que escrevo. Ficaram esperando uma ocasião para se juntar a trabalhos de outros autores, irmanados pelo tema.

Reunidos estão textos que fugiram da linearidade, a começar pelo tamanho. Brasília é contada por nós em poemas de uma linha ou em contos de 15 páginas. Ainda assim, entraram em harmonia.

O livro não vai levar ao leitor a visão ufanista da cidade, nada de Brasília capital da esperança, o sonho de JK, o leite e o mel. Nossa Brasília é a que é real, e a amamos porque ela é de carne e osso em seu concreto, ferro, barro e vegetação.

Com tratamento gráfico de Bruno Schurmann, a coletânea deve ser lançada entre a segunda quinzena de abril e a primeira quinzena de maio.

Aguardem.

ps: na internet, duas promoções com meu livro A liberdade é amarela e conversível. Uma no blog Livros & Literatura, no endereço http://livrosliteratura.blogspot.com/  . A outra, na comunidade Viciados em livros, que reúne mais de 90 mil pessoas no Orkut . Acessem o link. http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=82025&tid=5444662038922816730 .

Participem!

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Doutor Otto veio da matriz brasileira da empresa, em São Paulo, para dirigir a filial. Regulava uns 50 anos, se tanto, e era um enxuto homem de meia idade que matinha um corte bem rente para os cabelos grisalhos e o terno e a gravata invariavelmente impecáveis, fizesse sol ou se acabasse em dilúvio o mundo lá fora. Usava camisas com as iniciais bordadas no bolso, como cabe aos homens mais importantes que os demais. Os óculos de armação preta destacavam a seriedade do rosto. O celular era prolongamento de sua orelha, poucas vezes era visto sem estar pendurado ao aparelho. Para cima e para baixo carregava a maleta de couro escuro e fechos dourados, de combinações de segredo que guardavam contratos milionários.

Doutor Otto não dava bom dia, oi e olá jamais foram ouvidos por quem cruzasse com ele sempre apressado nos corredores da firma. No máximo, balançava a cabeça numa saudação tão fria quanto contida. Portanto, não seria diferente quando passava por Sebastião, que de segunda a sexta, impreterivelmente às oito da manhã, capichava no pano molhado no chão de mármore do andar da diretoria. Há mais de um ano já, e em todos os dias da semana, Doutor Otto passava ao largo do balde e dos panos. Quando muito balançava a cabeça em silêncio pro Sebastião.

Por isso que o queixo de todo mundo caiu aquele dia no elevador de serviço. Os outros três que serviam à diretoria nunca que chegavam, e doutor Otto embarcou naquele mesmo, pois já eram 8h10 e havia gente da matriz aguardando em sua antesala. Ficou ali no meio dos baldes, das vassouras, esperando chegar ao 25, espremido entre uns cinco ou seis da limpeza, Sebastião lá no fundo, mirrado e amarelo, envergonhado de tudo nessa vida, principalmente dele próprio.

O pessoal combinava o futebol de domingo quando doutor Otto entrou. O Tomirez fechava o horário com o resto, falava o quanto de cerveja cada um deveria levar. Ainda deu para acertar rápido os últimos detalhes antes que doutor Otto se empertigasse no elevador. Aí todos trataram de calar a boca, como se por si só, a presença inédita do doutor Otto proibisse qualquer assunto. Subiram desse jeito uns dez andares: apenas o silêncio da respiração de todos, o ranger dos cabos e da máquina do elevador.

Até que no 25 a porta abriu e doutor Otto deu um passo à frente, mas voltou-se para os outros, com as mãos impedindo o fechamento.

- Tem vaga pra mim no futebol? – e desferiu a pergunta à semelhança de um tiro à queima-roupa. Apesar da clareza, ninguém respondeu, tal o absurdo que parecia a pergunta, tamanha a improbabilidade de aquilo estar mesmo acontecendo.

Tranquilo, mas incisivo, doutor Otto insistiu.

- Como é que é, gente? Dá ou não dá para eu jogar?

Todos olharam pro Tomirez e o silêncio é que mandava: decide isso aí você agora.

Soltou a respiração presa, e respondeu feito alguém que cospe uma bala entalada na garganta.

- É cinco reais pra cada um pelo aluguel do campo. Marcamos oito e meia lá, pra bola rolar às nove. A cerveja cada um também leva.

Doutor Otto fez que sim com a cabeça. Deu as costas sério e sumiu no corredor. E para que não houvesse dúvida, ainda de manhã a secretária dele procurou Tomirez para entregar uma nota de cinco e dizer que  doutor Otto queria o endereço do campo para ir no domingo.

Até lá não se falou de outro assunto, todo mundo arriscando. Vai é nada, vai se misturar? Uns faziam muxoxo. Ué, e se ele for fominha? Fominha sai do enterro da mãe e vai jogar. E um doutor todo empetecado daquele lá gosta de futebol? Gosta é de golfe, essas frescuras. Mas se ele for, que vai marcar o homem? Alguém arrisca um tranco nele? Tá doido? Na segunda-feira ele faz nossas contas.

No domingo, 8 e meia em ponto, estacionou quase na linha lateral do campo meio grama meio terra um carrão prateado, importado. No mundo dos ônibus, fuscas e kombis daquela gente humilde, nunca algum daquele havia passado sequer por perto.

Dele, saiu doutor Otto, diante de abismados olhos incrédulos. Bom dia, como vão? E pela primeira vez dirigiu um cumprimento àqueles que mantinham brilhando o chão da empresa. Há quem jure que o viu até mesmo sorrir de leve, mas quem não estava na hora jamais acreditou.

Sentou-se em um banco estragado de cimento. Abriu uma vistosa sacola de nylon e de lá tirou uma chuteira branca, da marca mais cara, estalando de nova, sem um risco de uso sequer. Ficava perfeita junto com o meião vermelho bem esticado e que cobria a caneleira. E ainda havia o calção branco com listras vermelhas, a camisa branca de jogador profissional com um número 10 nas costas bem abaixo do nome dele gravado também em vermelho: OTTO.  Tudo um imenso desperdício para aquele campo careca, acostumado apenas a chuteiras gastas e tênis remedados.

- Como é? A bola vai rolar ou não? – e doutor Otto perguntou ansioso, mas todos entenderam como ordem e foram vestir correndo suas camisetas desbotadas, calçar suas chuteiras cansadas de tantos domingos de alegrias.

Em pouco tempo os times estavam escolhidos, quem não fosse jogar aquela primeira, formava outros times de fora esperando para entrar no lugar do que perdesse.  

E a bola foi pro centro do campo. Lado-a-lado, para jogarem juntos, doutor Otto e Sebastião. Os dois em silêncio esperando que apitassem a saída. Sebastião com os olhos enfiados na bola, sem nem triscar para o lado do doutor.

Quando a pelota rolou, o que se viu foi o verdadeiro maestro que era doutor Otto com a bola nos pés. Colocava a redonda onde queria e como queria. Parecia que usava uma fita métrica imaginária antes de lançar. Com jogo de corpo se livrava  do marcador com dribles desconcertantes, e a precisão de seus passes abria fendas na defesa adversária. Fugia dos zagueiros usando a velocidade e alguns comes humilhantes. Para conseguir pará-lo, só dando um tranco. Doutor Otto caía, rolava e se levantava sem reclamar, sem pedir qualquer satisfação ao juiz ou ao marcador. Batia a falta rápido e seguia jogando, agora amarelos de barro a chuteira, a camisa e o calção outrora tão brancos.

A atuação de doutor Otto revelou naquele domingo um Sebastião mortal no comando do ataque, um artilheiro que não perdoava uma, que colocava para dentro as bolas açucaradas que recebia do diretor com quem sequer trocava um olhar no dia-a-dia. Sebastião corria, levantava a mão, doutor Otto lançava, punha-o na cara do gol e só esperava para ver a rede balançar. Ninguém ali sabia que Sebastião jogava tanto, ninguém nunca entendeu o jeito como ele se movimentava dentro da área.

E a dupla foi destruindo com arte e sem piedade os times que esperavam do lado de fora para jogar no lugar dos que saíam destroçados pelos passes perfeitos do doutor Otto, pelos chutes sem piedade do Sebastião.

Virou rápido o time a ser batido, embora ninguém conseguisse. E o maestro e o matador guardaram para a última das partidas, quando o sol de quase meio-dia esgotava as últimas gotas de sacrifício de todos, o desfecho consagrador da dupla. Extenuados, perdiam por dois a zero quando empataram com gols de Sebastião após passes milimétricos do doutor Otto. E no último minuto, com o juiz já olhando o relógio e de apito na boca, uma bola rebatida de cabeça pela defesa caiu nos pés do doutor. O maestro ergueu os olhos e observou o goleiro três ou quatro passos adiantado. Numa fração de segundo, fez o cálculo força x distância e mandou por cima. Mas quem sabe o cansaço o tenha feito errar a conta por uma pequena diferença, e a bola caprichosamente beijou o travessão.

Mas o que seria da maestria de um não fosse a tenacidade do outro, uma relação já tão completa quanto recém-nascida? E enquanto a pelota voltava caprichosamente de seu beijo na madeira, Sebastião surgiu no meio dos zagueiros feito uma flecha, e com uma testada decidida rebateu a criança na direção da baliza, bem no canto oposto ao que o goleiro quedava-se vencido.

Braços erguidos, um berro esvaziando o peito, Sebastião vira-se para dentro do campo e ao seu encontro vem doutor Otto erguê-lo pela cintura, gritando elogios e beijando-lhe a testa artilheira assim que o devolveu ao chão. Encabulado, Sebastião retribuiu com um abraço, antes que o corpo franzino desaparecesse nos afagos de todo o time.

No dia seguinte de manhã, era o elevador de serviço que demorava muito. E como um dos outros três estivesse parado a sua frente, vazio e de portas abertas, resolveu entrar com seu balde, seu rodo, seus panos encardidos. Só não contava que no próximo andar entraria doutor Otto, meia hora antes do que costumava chegar. Completando a situação, estava acompanhado do presidente da empresa.

Apenas balançou a cabeça, nada disse, nenhuma expressão que o fizesse diferente do doutor Otto de todos os dias. O outro, o do domingo de manhã, deve ter ficado lá no campinho comemorando o gol do último minuto, e de lá talvez nunca mais saísse.

Subiram ele e o presidente falando de negócios, de crise, de problemas de gente rica. Sebastião mirrado sumia no constrangimento, só queria que aquele elevador chegasse logo.

E quando chegou, o presidente da empresa saiu um pouco à frente, deixando doutor Otto uns dois passos atrás. Com a mesma agilidade de seus passes em campo, voltou-se para o faxineiro, sério como sempre, mas com o polegar direito levantado.

- Arrebentamos ontem, hein Tião? – e saiu rápido a tempo de pegar o presidente, não chegando a ouvir Sebastião gaguejar um “pois é, doutor, pois é.”

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