André Giusti - foto: Luana Lleras
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Corrupção é imposto em Brasília

O custo de vida em Brasília é alto, um dos mais altos do país. Arrisco-me a dizer que talvez os preços por aqui só estejam abaixo dos de São Paulo, cidade-motor do Brasil, capital do estado que é nosso maior parque industrial. Não tenho base em nenhuma pesquisa – embora devam existir milhões – mas [...]

O custo de vida em Brasília é alto, um dos mais altos do país. Arrisco-me a dizer que talvez os preços por aqui só estejam abaixo dos de São Paulo, cidade-motor do Brasil, capital do estado que é nosso maior parque industrial.

Não tenho base em nenhuma pesquisa – embora devam existir milhões – mas falo como trabalhador assalariado (Aliás, PJ, sem direito trabalhista algum) que sente a mordida no bolso, o dinheiro sempre menor que o mês.

Por muitos anos aceitei, mesmo com desconfiança, que a estabilidade no serviço público e os altos salários de parte do funcionalismo eram os responsáveis pela vida cara, pelos preços acima do que se cobra em outras cidades. Como carioca, sei que no Rio as contas da maioria também não fecham, que o dinheiro também não dá, mas lá os preços, me parecem, estão sempre um pouco mais abaixo dos de Brasília (sempre que estou no Rio, aproveito para melhorar o guarda-roupa. Faz diferença sim). Por muitos anos também levei em consideração a explicação de que em Brasília os salários, de forma geral, são maiores. Sei que isso é verdade, ao menos em minha profissão, mas sempre desconfiei que houvesse algo mais por trás de tudo, escondido atrás dos números.

Os argumentos técnicos se mantêm de pé, mas, em minha opinião, não estão sozinhos na hora em que explicam – mas não justificam – os preços cobrados em Brasília.

Depois que o Brasil inteiro viu governador recebendo propina (e pagando também a deputados) e do presidente do Legislativo local colocando dinheiro nas meias, entendi que o morador da cidade paga mais um imposto embutido na volumosa carga tributária: o imposto da corrupção. Ele está lá, em nossa vida diária, não oficializado, mas papando com uma fome de adolescente nosso dinheiro suado.

Conhecida a bandalheira do poder local do DF, compreendi, por exemplo, os cálculos do mercado imobiliário em Brasília, esse setor fomentado pela ganância e desconectado da realidade nacional. Nos R$ 500 mil que vai custar uma reles quitinete no Noroeste, um bairro de ricos que começa a ser erguido devastando um pouco mais o cerrado da cidade, está embutido o preço da corrupção. O metro quadrado no local vai ficar em torno de irreais R$ 12 mil. Tanto no Noroeste quanto em outros bairros, pode ser o preço ao qual os empreiteiros chegaram depois que somaram os custos da obra, o lucro justo, a ganância do setor e, por último, o percentual a ser entregue em tais e tais gabinetes. Esta é a parcela que pode ser destinada tanto à mudança do plano diretor da cidade, quanto à licença ambiental para a construção em um local de nascentes, dependendo da situação.

Não raro, a corrupção pode arcar com seu próprio custo. É o caso de quem recebe o imposto arrecadado com a patifaria em Brasília e paga esse mesmo imposto com o dinheiro da bandalheira na hora em que compra um apartamento, isso para falarmos apenas do mercado imobiliário. É a corrupção remunerando a si própria, feito um cachorro doido que corre atrás do próprio rabo.

Não há como dimensionar o valor do imposto da corrupção no Distrito Federal, saber que pagamos tantos por cento como fazemos com os impostos oficiais. A alíquota (para que a coisa fique mesmo institucionalizada economicamente) vai depender da fome de quem estiver no poder.

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Comentários (12)

  1. overmatik -

    A bolha imobiliária vai começar a estourar a partir de 2012. Muitos corretores e “investidores” que estão cheios de ágios de imóveis não vão ter dinheiro para pagar as chaves. Tem corrupção sim, mas a especulação é a principal causa dos preços dos imóveis.

  2. jovino -

    Diga André, e os felinos!!
    Tivemos uma prova de regularidade no autódromo e foi muito legal.
    Quanto à corrupção, ela só existe por que tem um bocado de idiotas que compram os referidos apartamentos e são eles é que fazem tudo isto existir.
    Apareça.
    Jovino

  3. Alexandre Pilati -

    Concordo plenamente! Pagamos todo dia o dinheiro da meia, da cueca e da bolsa do careca. A diferença desses corruptos para os velhos chefes de curral eleitoral (talvez nem tão velhos assim!) é que eles são mais bonitinhos, mas engomadinhos e modernizaram pra valer a corrupção. É ladroagem hi-tech, ISO 9000. E há muita gente em Brasília dizendo: “mas eles tavam fazendo uma administração tão boa”. Como acontece na literatura, não se pode separar forma de conteúdo. Uma boa administração corrupta não é uma boa administração. A conta alguém vai pagar. E vc disse muito bem do bolso de quem sai a bufunfa. Parabéns, irmão! Continue mandando brasa!

  4. André Giusti Autor do post -

    Fora o cara que reclama do político e dá grana pro guarda não multar. Um abração.

  5. André Giusti Autor do post -

    Valeu, Marino, pelo comentário. Nos avise também sempre do seu blog, que é de extrema qualidade. abs.

  6. André Giusti Autor do post -

    Dr. André, obrigado pelo prestígio ao blog.

  7. Alberto Araújo -

    André, todos nós que adotamos Brasília como a nossa cidade para viver estamos decepcionados com os últimos acontecimentos políticos. Diante disso é preciso agir. É prciso coragem para mudar e competência para transformar. Parabéns pelo blog. Estarei acompanhando as publicações.

  8. Raquel Madeira -

    A corrupção e a impunidade em Brasília não deixam apenas a vida mais cara, como também fazem com que as pessoas achem que é normal ganhar um dinheirinho (rão) a mais sem fazer esforço. Só existem corruptos porque existem corruptores. Os empresários locais também precisam se recusar a pagar o “imposto da corrupção” e denunciar essa gente. Será que dá pra votar em alguém em 2010?

  9. Hudson -

    Concordo em gênero, número e grau André. Parabéns pelo texto.
    Fico pasmo com a passividade do povo brasiliense. As pessoas ficam indignadas mas não se manifestam!
    As coisas chegaram ao ponto onde estão porque tem gente vendida pra tudo quanto é lado: do sujeito que recebe hora-extra sem ter feito hora-extra no Senado ao coitado que foi nomeado para exercer cargo de confiança no GDF e por isso não pode protestar contra o governador. É sujeira pra todo lado. É pior que a Belíndia, é Bras-Ilha da fantasia!

  10. André de Moura -

    A corrupção mata. Não é só no custo de vida que ela interfere, a corrupção também custa vidas. Fico feliz quando vejo a mídia falar da corrupção, pois só tornando o problema pulsante, latejante ele será combatido.

  11. MARCIO VARELLA -

    fico com pena do Duda. Mulher e filhos maravilhosos vendo o pai se enroscar com essa quadrilha que esculhambou a arquitetura e o caráter da cidade. Gsoto muito do André Duda, uma criança grande que se encantou com a hipocrisia do Roriz. Agora, Giusti, se fosse só este imposto embutido que encarecesse a vida na cidade, bastaria prender os quadrilheiros. Mas não é. O Congresso Nacional e o Poder Judiciário são as maiores fontes da propina escandalosa do país. São eles, juízes e parlamentares, que encarecem a vida desta cidade e da Nação. Um levantamento sério do quanto esses poderes gastam em coisas desnecessários deixaria o brasileiro boquiaberto, sem dúvida. O que eu vi no Congresso me deu nojo. Mas tenha a certeza de que vamos evoluir, é o destino do ser humano neste planeta. É a minha esperança. Admiro a nova geração de jovens – só falta a eles a vontade de agir politicamente, em todos os sentidos, adquirir consciência crítica. Com isso, ladrões como PO e Roriz vão colocar o rabo entre as pernas.

  12. Alexandre Marino -

    Certíssimo, André. E lembremo-nos também que comprar imóveis é um dos passatempos preferidos dos corruptos, o que aumenta a demanda e, é claro, os preços. A família do governador José Roberto Arruda, por exemplo, se entupiu de imóveis nos últimos anos. Recebida a propina, é preciso lavar o dinheiro, e essa lavagem alimenta a inflação local.

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