André Giusti - foto: Luana Lleras
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Criança como se era

Cerca de um mês atrás, ganhei da própria Ana Cristina Melo seu livro infanto-juvenil Caixa de Desejos. Aberto o envelope, ele ficou na mesa do computador, engrossando a pilha dos livros a serem lidos, e que se forma pelo nosso desleixo. Aguardou humilde e pacientemente sua hora de ser lido, não usou seu pistolão – [...]

Cerca de um mês atrás, ganhei da própria Ana Cristina Melo seu livro infanto-juvenil Caixa de Desejos. Aberto o envelope, ele ficou na mesa do computador, engrossando a pilha dos livros a serem lidos, e que se forma pelo nosso desleixo. Aguardou humilde e pacientemente sua hora de ser lido, não usou seu pistolão – minha amizade virtual com a autora – para obter qualquer preferência na fila.

Até que, já de bagagem nas mãos rumo ao aeroporto – a porta do apartamento aberta, o táxi esperando – “convidei-o” para ir ao Rio no último feriado. Afinal, carregar um tijolaço como Os miseráveis – que estou relendo – não é lá muito cômodo quando se “pica a mula” com três crianças pequenas e mais sei lá quantas malas. Esbelto, o livro de minha amiga embarcou comigo.   

Caixa de Desejos é aquele tipo de livro que encurta uma viagem de avião, e não nos deixa lembrar da revista de bordo da Gol. De forma ágil, Ana Cristina Melo conta a história de Marília, uma pré-adolescente que cultua a memória da avó e é apaixonada pelos livros – lê e escreve compulsivamente, como fazemos nos verdes anos. De quebra, ganha logo no início da história uma meia-irmã que ela não conhecia.

O acerto do texto é não descambar para um vocabulário que compusesse não um personagem, mas sim um estereótipo. Marília – nome histórico em nossa literatura – não fala “caraca véi” em momento algum. O texto é simples e acessível à faixa etária a que o livro se destina, sem que com isso precise “desensinar” os leitores a falar e a escrever.

Mas o grande mérito de Caixa de Desejos está na própria personagem. Marília conquista muito mais pelo que não é, do que propriamente pelo que é. É bem saudável haver na literatura infanto-juvenil uma menina que vive a sua própria idade, sem a obrigação necessária de se tornar adulta e mulher fatal antes da hora. Marília não pinta a cara, não usa batom, não se equilibra em sapatos de saltos altos. Os cabelos de Marília são os cabelos de uma menina de seus onze, doze anos: neles, a sociedade doente não a obrigou a chapinha, alisamento ou escova definitiva. Marília não envelheceu antes da hora, sua sexualidade virá de acordo com a natureza, e não imposta pela mídia. Marília também não bate pernas em shopping, não é viciada no MaCdonald’s. Alegre, espera o bolo de laranja da mãe no final da tarde, coisa de um tempo em que ser criança, era apenas ser criança.

De volta a Brasília, Caixa de Desejos foi para a estante, em lugar honroso, esperar, com a altivez dos bons livros, que minha filha mais velha tenha a idade de lê-lo. Enquanto isso, vou me esforçando, nadando contra a corrente para que minha pequena tenha muito de Marília.

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Comentários (6)

  1. Raquel Madeira -

    Eu li o primeiro capítulo deste livro e achei muito legal. Bem o que você descreve.

  2. Dagmar Bandeira e Silva -

    André, não só concordei com sua percepção e análise do texto da Ana Cristina Melo, como adorei a sua elegância e creatividade ao se referir ao livro, propriamente dito. Também o li e adorei.

  3. Tomaz Adour -

    Eu não escreveria tão bem. Me deu vontade de ler de novo este que é um dos melhores livros para todas as idades.

  4. Ana Cristina Melo -

    André,
    você além de um ótimo contista é um leitor de grande sensibilidade. A Marília que você captou é belíssima.
    Obrigada pela linda resenha.
    Bjs

  5. Sócio -

    Em tempos da “Vampirada” aqui na biblioteca do C.E. Visconde de Cairu vamos garimpando as Marílias de Ana Cristina Melo. Boa literatura existe Basta ser bem divulgada pelo bom jornalista e contista e poeta e pai e…

  6. angela giorgio -

    Muuuuuito legal !!!
    Vontade de ler… pq meu neto + velho tbm terá q esperar… Vai ganhar “O Menino Maluquinho ” pelo dia das crianças, bem atrasado, por sinal…rsrs

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