André Giusti - foto: Luana Lleras
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Crianças de hoje, a má educação como regra

Todas as vezes que em pequeno ia a casa de parentes ou amigos da família, era obrigado a cumprimentar um por um quando chegasse, em especial os donos da casa. Caso contrário, experimentava a aplicação dos métodos ortodoxos de educação, dos quais, diga-se de passagem, não guardo qualquer trauma. Cresci, virei pai e reproduzo em [...]

Todas as vezes que em pequeno ia a casa de parentes ou amigos da família, era obrigado a cumprimentar um por um quando chegasse, em especial os donos da casa. Caso contrário, experimentava a aplicação dos métodos ortodoxos de educação, dos quais, diga-se de passagem, não guardo qualquer trauma.

Cresci, virei pai e reproduzo em meu modo de educar boa parte da educação que recebi na infância, como por exemplo o ritual dos cumprimentos. Por isso, já fui e ainda sou olhado de soslaio e com estranheza por muita gente.

Muitos vão além das expressões de estranhamento e me criticam com frases feitas do tipo “ah, é criança, deixa ela, não tem importância”, marcas características do discurso que adota como princípio a leniência, a permissividade, a condescendência irrestrita para com os pequenos.

Confesso que por mais encantadora que seja a criança, para mim perde toda a graça – e me causa mesmo antipatia – se ela chega a minha casa e, sem sequer me olhar na cara, some corredor adentro até parar no território reservado dos quartos, onde, não raro, sua curiosidade a leva aos armários e gavetas. “Ah, ela é tímida”, já ouvi várias vezes como justificativa, um remendo cínico para o áspero cobertor da má educação, da falta de modos. A desculpa geralmente escapa da boca de quem, sem querer repetir o modelo repressivo dos pais, nunca acertou a mão no limite aos filhos.

Acho que está claro, mas não custa confirmar: não falo da educação chamada de etiqueta, esse instrumento fútil tão usado para se praticar a falsidade e a hipocrisia. Falo de educação como respeito às pessoas em geral, todas em pé de igualdade, independentemente daqueles conhecidos fatores que provocam a imbecilidade da discriminação.

Entrar na casa dos outros sem cumprimentar – e também em outras situações não pedir licença ou desculpa – não terá, num primeiro momento, consequência maior do que o certificado público de que os pais estão falhando em algum ponto. Mas como a educação é amiga íntima da gentileza, é de se esperar que no futuro será cada vez mais raro quem, por exemplo, ceda o lugar no metrô a um idoso ou a vez na fila a uma mulher grávida.

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Comentários (6)

  1. Cláudia -

    É isso aí, “precisamos deixar filhos melhores para o nosso planeta”.

  2. Denise Giusti -

    As coisas já estão indo nesse pé, aqui Rio como frequentadora assídua dos ônibus e metrô, muitas vezes sou eu com meus 54 anos que levanto e cedo lugar aos idosos enquanto os jovens já cansados pela manhã com seus fones nos ouvidos finjem dormir…. Agradeço à Deus de ter tido uma ótima educação dos meus pais. ótimo texto André, como falou o Lucas deveria constar em outros blogs , em outros meios de comunicação esse alerta!

  3. Lucas Dely Tonelli -

    Caro André…o que escreveu é nítido dentro de mim como valor…berço…Não se tem essas coisas de maneira fácil…até hoje, com 55 anos, lá em casa, chegando sempre com a benção de nossa mãe, era assim com nosso pai que já desencarnou e com os tios também….Não dá para explicar para um cidadão urbanóide..da capital…o que é isso…porque as vezes, eles mesmos acham antiquado…muito arcáico o respeito que se tem nas cidades do interior…e vejo pouco aqui em BH…deve ser o mesmo em Brasília, inventada no papel há tão poucos anos…Você falou tudo..é tão bom ver que uma criança já tem o estilo :afeto pronto…afeto disponível… Você disse tudo nessa crônica, alías, deveria divulgar noutros sites…
    ABraços bom dia…do amigo Lucas

  4. Rodrigo Santos -

    Meu pai e minha mãe me obrigavam a cumprimentar todos os adultos quanndo visitavamos alguém, Hoje, de uma forma menos incisiva, mas com a mesma importância faço omesmo com os meus filhotes.

  5. Raquel -

    Muita gente não vai gostar do que leu… Eu tenho me preocupado muito com o futuro. Como será essa geração que tem tudo e nunca ouve um não? Será que elas vão dar conta das frustrações da vida? Será que teremos jovens cedendo lugar para idosos no ônibus?

  6. giovani iemini -

    hehehe, tem que lembrar aos pais que “esse bostinha de hoje será o bostão de amanhã”!
    só com muito papel higiênico mesmo…

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