André Giusti - foto: Luana Lleras
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Crônica da indiferença e do destino trágico.

Um menino de apenas quatro anos morreu imprensado por um portão eletrônico de garagem em um prédio na Asa Norte de Brasília, bairro nobre da capital do país. Encontrou aberta a porta do apartamento em que morava com os pais adotivos, e escapou para ver o mundo lá fora. Da quadra onde vivia, andou até [...]

Um menino de apenas quatro anos morreu imprensado por um portão eletrônico de garagem em um prédio na Asa Norte de Brasília, bairro nobre da capital do país.

Encontrou aberta a porta do apartamento em que morava com os pais adotivos, e escapou para ver o mundo lá fora.

Da quadra onde vivia, andou até duas outras em frente, um trajeto tranquilo para um adulto, extenso para uma criança de quatro anos.

Levou pouco mais de meia hora para lá e para cá, até que chegou a um prédio parecido com o que morava. Obviamente sem senso de direção, achou que conseguira voltar para casa. Aproveitou que um carro entrava na garagem e tentou fazer o mesmo. Passou no exato instante em que o portão – de tecnologia obsoleta, sem um sensor que travasse o equipamento – se fechava.

Até o momento da tragédia, a criança vagou por mais de meia hora completamente sozinha pelas ruas de Brasília, em plena tarde quente de verão. Para um e para outro, o menino disse que estava perdido. O porteiro de um prédio achou que ele estivesse brincando, não deu trela, deixou que ele seguisse, livrando-se do incômodo que seria perambular pelo sol quente da tarde com o pequeno pelas mãos, correndo o risco de ser chamado à atenção pelo síndico por ter abandonado a guarita que guarda o patrimônio da classe-média de Brasília.

Ninguém achou estranho que uma criança tão pequena, com tipo e roupas da mesma classe-média supracitada, vagasse sem destino e sozinha pela cidade.

Ninguém se interessou em pará-lo e perguntar “vem cá menino, onde você mora? Cadê teus pais?” 

Ninguém pôde perder cinco minutos do domingo ensolarado para pegar a criança e deixá-la no posto policial, que, aliás, fica bem perto.

Ninguém disposto a atrasar, apenas um pouco, a hora do almoço, o horário do cinema, o encontro com os amigos.

Sozinho e perdido num mundo de pessoas de almas cegas, de corações anestesiados, o menino não encontrou o caminho de casa.

A indiferença foi sua companhia até o destino trágico.

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Comentários (7)

  1. adeilton -

    E pensar que no dia seguinte, em Águas Lindas, um outro garoto, de 7 anos, morreria nas águas de um bueiro.

  2. Denise Giusti -

    Quase sempre acontece comigo de olhar e não ver, porque estou no meu mundinho egoísticamente pensando em meus problemas e passo pela rua, entro no ônibus e assim sucessivamente e não percebo os que estão a minha volta. Precisamos mudar e ficar atentos, pois a todo momento temos a oportunidade de ajudar alguém até mesmo com uma palavra, um sorriso ou simplemente um Bom Dia!

  3. MARCOS OLIVEIRA -

    André, quem nunca se deparou com uma situação semelhante e permaneceu indiferente? Eu, com certeza, várias vezes. É para refletir mesmo. Adorei suas crônicas, amigo. A partir de hoje, serei seu leitor assíduo. Que orgulho saber que começamos juntos na profissão e ver o quanto você evoluiu. Parabéns, André! Abração.

  4. Socio -

    Meu pai escreveu uma crônica de nome “Meus olhos cegos”. Falava de coisas pequenas das quais não enxergamos e fazem toda diferença. Uma criança sozinha é sempre uma criança sozinha. Devemos fazer sempre um pequeno ritual quando as encontramos nas ruas. Qual é o seu nome? Onde você mora? Onde está sua mãe? A resposta, pelo que li hoje, pode salvar uma vida.

  5. giovani iemini -

    andré,
    foi no meu prédio que aconteceu a tragédia. acompanhei como pude o desenrolar dos fatos. alguns detalhes:
    – o prédio é o mais simples e espartano da quadra. nunca colocamos sensores por segurança, para exatamente impedir que o portão se mantivesse aberto após a entrada do morador.
    - o menino aparentava 7 ou 8 anos. estava descalço, pés encardidos, cabelo negro ensebado, roupa suja. certamente foi confundido com um menino de rua (o que não justifica a indolência dos adultos).
    - ele era hiperativo e tomava remédios para controlar a ansiedade.

    o que quero dizer é que a situação foi uma coincidência mórbida de fatores inesperados.
    se eu tivesse visto o menino vagando pela quadra, duvido que desconfiasse que ele precisaria de ajuda ou que algo ruim pudesse acontecer.

    foi triste, minha esposa diz sentir algo ruim ao entrar na garagem, eu vejo o pequeno cadáver sempre que olho para a rampa de entrada. o que mais incomoda, contudo, é que ele já deve ter sido esquecido antes d´eu acabar de digitar essa msg…

    []s

  6. giovani iemini -

    andré,
    foi no meu prédio que aconteceu a tragédia. acompanhei como pude o desenrolar dos fatos. alguns detalhes:
    – o prédio é o mais simples e espartano da quadra. nunca colocamos sensores por segurança, para exatamente impedir que o portão se mantivesse aberto após a entrada do morador.
    - o menino aparentava 7 ou 8 anos. estava descalço, pés encardidos, cabelo negro ensebado, roupa suja. certamente foi confundido com um menino de rua (o que não justifica a indolência dos adultos).
    - ele era hiperativo e tomava remédios para controlar a ansiedade.

    o que quero dizer é que a situação foi uma coincidência mórbida de fatores inesperados.
    se eu tivesse visto o menino vagando pela quadra, duvido que desconfiasse que ele precisaria de ajuda ou que algo ruim pudesse acontecer.

    foi triste, minha esposa diz sentir algo ruim ao entrar na garagem, eu vejo o pequeno cadáver sempre que olho para a rampa de entrada. o que mais incomoda, contudo, é que ele já deve ter sido esquecido antes d´eu acabar de digitar essa msg…

    []s

  7. Stella Maris Rezende -

    Belíssima crônica! Fiquei arrepiada. Parabéns, André.

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