André Giusti - foto: Luana Lleras
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Ditadura militar, ré confessa

Chega às livrarias no próximo fim-de-semana o livro “Memórias de uma guerra suja”. Poderia passar como mais um livro sobre a ditadura militar que muito colaborou com o atraso do Brasil entre 1964 e 1985. Mas há um detalhe que faz esse livro diferente e fundamental para que o país possa clarear as trevas desses [...]

Chega às livrarias no próximo fim-de-semana o livro “Memórias de uma guerra suja”.

Poderia passar como mais um livro sobre a ditadura militar que muito colaborou com o atraso do Brasil entre 1964 e 1985.

Mas há um detalhe que faz esse livro diferente e fundamental para que o país possa clarear as trevas desses 21 anos.

Escrito pelos jornalistas Marcello Neto e Rogério Medeiros, “Memórias de uma guerra suja” é o relato do ex-delegado do Departamento de Ordem Política e Social – o aterrorizante DOPS – Cláudio Antônio Guerra.

Ou seja, é a ditadura falando sobre ela mesma, e não outra série de depoimentos de quem viveu seus horrores.

Mas entre o relato do ex-delegado e os que já foram feitos por ex-militantes de esquerda, parece haver ao menos uma coincidência: a repressão era mesmo aquilo que se fala: cruel e desumana.

Pelo que pode ser lido nas agências hoje ( http://migre.me/8VZyz), Cláudio Antônio Guerra, com todas as palavras, diz que os corpos de militantes torturados e mortos foram incinerados no forno de uma usina de açúcar no Rio.

Guerra vai além. Conta que outro delegado, Sérgio Paranhos Fleury, uma das faces mais conhecidas (e temidas) do horror, foi assassinado pelo próprio esquema da repressão, pois começou a desviar dinheiro das empresas que bancavam as atrocidades (bom para os que acham que não havia corrupção na ditadura).

O livro também joga luz sobre um dos grandes mistérios daqueles tempos: a morte do jornalista Alexandre Von Baumgartem, em 1982.

O Brasil tem uma dificuldade muito grande em compreender que o futuro se conquista se o passado for conhecido, esclarecido. Punido, a depender do caso.

Uruguai, Argentina, Chile deram exemplos disso em relação a seus períodos de exceção. Titubeante, o Brasil admite apenas iniciativas tímidas como a comissão da verdade (aliás, a quantas ela anda?).

Se a própria ditadura começa a se mostrar ré confessa, o que ainda falta para o país perder o medo ou o interesse de não olhar esse passado e puni-la de verdade?

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Comentário (1)

  1. Paula Furlan -

    Muito se pode falar sobre isso, podemos discorrer sobre muitos aspectos que continuam atrasando o exercício (real) dos direitos humanos neste país, mas, em suma, é pura falta coragem de ver a própria imagem (suja, horripilante) no espelho.

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