André Giusti - foto: Luana Lleras
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Dobradinha

 O jornalista Rodrigo Leitão postou em seu blog (www.gourmetbrasilia.blogspot.com) várias informações sobre a tripa à moda do Porto, comida portuguesa naturalizada brasileira com o nome de dobradinha. No texto, temperado com “suculentas” fotos, você fica sabendo a história, o modo de preparo, os vinhos que caem bem com o prato e os restaurantes aqui em [...]

 O jornalista Rodrigo Leitão postou em seu blog (www.gourmetbrasilia.blogspot.com) várias informações sobre a tripa à moda do Porto, comida portuguesa naturalizada brasileira com o nome de dobradinha. No texto, temperado com “suculentas” fotos, você fica sabendo a história, o modo de preparo, os vinhos que caem bem com o prato e os restaurantes aqui em Brasília que servem a iguaria, para a qual, aliás, muita gente vira a cara e o estômago.

O post, na verdade, é o texto que foi ao ar no quadro Giro Gastronômico da BandNews FM – 90,5, e que o Rodrigo apresenta todas às quartas e sextas às 12h45. Nele, meu amigo e companheiro de redação diz que é uma homenagem a mim. Tudo porque outro dia, numa daquelas conversas que entremeiam a loucura dos noticiários, eu disse que gostava de dobradinha, ou melhor, que um dia gostei de dobradinha. Após anos de exageros gastronômicos, minha filosofia alimentar agora passa um tanto longe da carne vermelha, mais ainda das vísceras do boi.

Mas dela, da dobradinha ou da tripa, continuo guardando deliciosa memória afetiva. Era um dos pratos que minha mãe cozinhava aos domingos, e que em torno dele se juntava a família na casa em que morávamos, no bairro do Grajaú, nos distantes anos 70. Dentro de um panelão, hoje sexagenário, iam a dobradinha, o feijão branco e generosos pedaços de paio e cenoura. Hoje sabemos que entrava também um ingrediente que não aparecia na cor ou no gosto da comida, mas que atravessou o tempo: o amor da cozinheira pelos comensais.

Ao longo dos anos, nos empanturramos não apenas de dobradinha, mas de rabada com agrião, cozido, macarrão, risoto, bacalhoada e galinha, pratos que ganhavam vida dentro daquele caldeirão, devorados em meio à algazarra de família grande. Hoje, a velha panela está longe do fogão, esquecida no fundo do armário da casa de minha irmã. Tornou-se ainda maior do que era, pois agora somos menos e mais distantes, comemos fora ou então, práticos e modernos, pedimos delivery. Nada mais se cozinha no caldeirão, além, é claro, de uma imensa saudade em fogo brando.

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Comentários (5)

  1. Antonio Carlos Pereira -

    gostaria de saber se a Dobradinha é considerada com carne vermelha, e se é gordurosa.

  2. Denise Giusti -

    Lindo, lindo! Nunca gostei de dobradinha, tirava a dita tripa e comia o restante dos ingredientes que era ótimo, mas bom mesmo éramos todos reunidos em volta dos dois! Que saudade! Muito amor!!! Bela crônica!

  3. Raquel Madeira -

    Lindo, lindo, lindo. Ontem me lembrei tanto dela ao ver enfeites de natal nas prateleiras de uma loja.

  4. Sócio -

    Meu amigo. Lembro de uma conversa nossa sobre a dobradinha não sei quando. Mas Alvaro de Campos falou sobra a dobradinha e quem melhor do que ele:
    Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
    Serviram-me o amor como dobrada fria.
    Disse delicadamente ao missionário da cozinha
    Que a preferia quente,
    Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.

    Impacientaram-se comigo.
    Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
    Não comí, não pedi outra coisa, paguei a conta,
    E vim passear para toda a rua.

    Quem sabe o que isto quer dizer?
    Eu não sei, e foi comigo…
    (Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
    Particular ou público, ou do vizinho.
    Sei multo bem que brincarmos era o dono dele.
    E que a tristeza é de hoje).

    Sei isso muitas vezes,
    Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
    Dobrada à moda do Porto fria?
    Não é prato que se possa comer frio,
    Mas trouxeram-mo frio.
    Não me queixei, mas estava frio,
    Nunca se pode comer frio, mas veio frio.

  5. Hugo Giusti -

    Somente ela sabia fazer esses pratos maravilhosos.
    Que saudades da mamãe… querida.

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