André Giusti - foto: Luana Lleras
voltar para o início do blog

E eu que nunca li J.D Salinger.

Pois é, para você ver. Vasculhando fichários empoeirados da mente, descobri que esse vácuo de minha vida de leitor pode ter a ver com a faculdade de Comunicação Social. É que na década de 80, a exemplo do que já fazia há mais de trinta anos nos Estados Unidos, O apanhador no campo de centeio [...]

Pois é, para você ver.

Vasculhando fichários empoeirados da mente, descobri que esse vácuo de minha vida de leitor pode ter a ver com a faculdade de Comunicação Social.

É que na década de 80, a exemplo do que já fazia há mais de trinta anos nos Estados Unidos, O apanhador no campo de centeio norteava as cabeças de uma penca de jovens no Brasil, ainda mais se fossem estudantes de comunicação, e principalmente dos que queriam ser jornalistas. Nos anos 80, alguns estudantes de jornalismo ainda pensavam em chegar às redações para mudar o mundo, derrubar governos. Serviço Público era somente o destino de conformados burocratas sem talento, e na faculdade nimguém achava que o curso serviria de trilha para se entrar no Big Brother, até porque, à época, nada existia de tão grotesco.

Lembro-me de um professor universitário dizer que a obra máxima de Salinger estava para os pretensos comunicólogos assim como O Pequeno Príncipe estava para as misses nos anos 50. E parecia mesmo. O livro morava nas bolsas de couro de um povo que se odiava por não ter vivido nos anos 70. Estava também na cabeceira de tipos convictos de serem intelectuais de uma resistência que só existia na cabeça deles.

Olhando para trás, no tempo, chego à conclusão de que foi isso que me privou de Salinger. E como parte de minha responsabilidade, a irresistível tendência em ser do contra.

Na verdade, é bem normal que ao longo da vida não consigamos ler todos os mais importantes livros da história. O problema é que quando um grande autor morre, fica um sentimento de culpa, um complexo de ser desconectado se nada dele conhecemos.

Bem tarde devorei Cem anos de Solidão, em êxtase.

Bem mais tarde do que deveria, parei de fumar.

Semana passada, em O Globo, o colunista José Castello disse que até hoje Salinger lhe provoca assombro.

Pois sempre é tempo de se assombrar.

E de ser rebelde.

Tags:

Gostou, compartilhe:

Comentários (6)

  1. Nirton Venancio -

    Ainda há tempo. Não será condenado a cem anos de solidão…

  2. André Giusti Autor do post -

    Bem, você tirou um pouco da minha “obrigação” em ler Salinger.

  3. Ana Benevides -

    André,
    Tô “de junto” com você. Comecei a ler o Apanhador quando meu filho era adolescente, politicamente correto, e leu. Comecei e achei chato, parei. Não sinto a mínima culpa.Deus o tenha em bom lugar, o Salinger, claro!

  4. Fred -

    Meu caro André,
    Salinger, Kerouac, Huxsley e Orwell sempre foram mais a minha cara que a sua.
    Beijo grande meu irmão.

  5. André Giusti Autor do post -

    Mas não é para isso que servem os livros? Revelar coisas escondidas dentro de nós mesmos. Obrigado pela frequência ao blog.

  6. giovani iemini -

    li salinger com 15/16 anos, depois aos 25/26, depois aos 32/33… e vou ler novamente agora, 38/39, só p q o cara morreu e viveu como eu queria.
    adoro holden caufield. “merda”. hehehe.

    - dizem que os paranóicos encontram na obra msgs escondidas que os fazem suportar o tédio do dia-a-dia. será?

Deixe o seu comentário!