Érica-Flávia, a moça na praça de alimentação


Sentei-me de frente a ela, levemente na diagonal, em um conjunto de mesas vizinho ao que que ela estava. Sentei-me ali porque a uma da tarde na praça de alimentação de um shopping center não há muito lugar para se escolher.

A moça está de vestido preto, justo e uma maquiagem preta em torno dos olhos também escuros. Está de crachá. Claro que não consigo enxergar o nome, mas um palpite inteiramente sem sentido vem me dizer que se chama Érica. Se tirasse o crachá, pendurado em uma fita colorida, eu pensaria com segurança que está vestida para a noite. Com o crachá, é uma funcionária em hora de almoço. Não uma alta funcionária. É daquela camada mediana das empresas, que sonha estar lá em cima, nos altos cargos, mas que se aproxima justamente dos que ocupam os degraus de baixo.

Érica toma uma long-neck enquanto almoça. Não é algo comum numa praça de alimentação na hora do almoço em uma sexta-feira, a julgar pelo que percebo em volta, entre as moças que ombreiam com Érica nos anos. É que embora seja sexta-feira, ainda há todo um turno de trabalho pela frente. Érica não olha para mim nem para ninguém, é como se ninguém existisse no shopping, é como se dissesse para mim e para quem repara em sua long-neck: “Eu tô cagando baldes se vocês acham estranho eu beber cerveja na hora do almoço de um dia que ainda é de trabalho”.  Imaginando que ela possa estar pensando isso, aprofundo meu olhar em seu rosto. Érica tem uma expressão que está a um metro da tristeza, mas não é exatamente tristeza, e é isso que me inquieta e me atrai. Minha curiosidade pela moça é indefinida, mas a essa altura forma essas frases que por ora ponho na tela do computador.

Algo também me diz que tem trinta anos, o mesmo algo que há pouco mudou de ideia e me sugere agora que ela pode se chamar Flávia, mas deve ter realmente trinta anos por causa dessa sombra de desilusão e desgosto que está além da maquiagem de seus olhos. Essa sombra é típica dos trinta anos, quando resistem as esperanças e sonhos teimosos da juventude, mas já há retratos bem revelados das dores adultas.

Começo a sentir por Érica ou Flávia, a moça dos olhos desiludidos, com restos de esperança, uma ternura de pai, até porque seus supostos trinta anos a fazem com idade para ser minha filha. É essa a minha curiosidade, meu interesse. Quero cuidar de Érica-Flávia, protegê-la para que não aumentem a decepção e o desgosto além dos olhos maquiados da minha menina.

Ela termina de comer e vai imediatamente teclar ao celular. Repentinamente e com o espírito de suposição que tomou conta de mim, me vem a certeza de que Érica-Flávia tem realmente trinta anos, é solteira e mora com a mãe viúva. É caso do diretor-executivo da empresa em que trabalha, a do crachá, claro. Ele é o segundo homem da corporação, tem um salário estratosférico e todo o poder do mundo corporativo. Também podia ser seu pai, afinal tem cinquenta e cinco anos. Diz que a ama e que um dia irão viver juntos, “deixa apenas as coisas se ajeitarem”, ele pede, mas não ajeita coisíssima nenhuma, porque nunca que termina o casamento de 25 anos, três filhos e mulher influente, nunca que deixa seu mundo confortável para trás e vai viver com Érica-Flávia. “Mas ele me prometeu que vai montar um apartamento pra gente, eu vou morar lá, ele vai depois, quando se separar, ele diz que nosso namoro é pra valer”, e Érica-Flávia assegura a promessa que não é sua, acossada pela sua porção de juventude que vai driblando enquanto consegue o avançar da idade da moça. Namoro, Érica-Flávia? Ele diz que você é namorada dele? Você é amante dele, querida, amante! E esse apartamento é só para adoçar tua boca pelo resto dos anos em que ele continuará sem dar um pé na bunda da mulher.

Érica-Flávia empurra a bandeja de lado e toma o último gole de cerveja. Meu carinho de pai quase me empurra até ela, para dizer “minha querida, acorda. Deixa de ser boba, não quero te ver sofrer”.

Érica-Flávia se levanta, estica o tecido para ajeitar o vestido preto que pelo quase nada que conheço de roupa de mulher, certamente é da Riachuelo, da Renner ou da C&A, comprado em seis ou sete vezes no cartão da própria loja.

Sem tomar conhecimento de mim e de ninguém mais a sua volta, Érica-Flávia dá as costas, carregando a bandeja com o prato sujo, que vai deixar no balcão da lixeira. Toma a reta da gelaria, sumindo no turbilhão do shopping, me deixando sozinho com meu absurdo amor de pai vivido numa história absurda em que um cafajeste não merece de modo algum seu amor puro e sincero.

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