André Giusti - foto: Luana Lleras
voltar para o início do blog

Estão derrubando muitas árvores em Brasília.

O mecânico deve ser alguém em que confiamos tanto quanto no nosso médico particular. Do contrário, o que fazer quando ele nos apresenta a conta da revisão e, sem esperar que recuperemos o ar e a consciência de nós mesmos, já vai nos mostrando aquela peça que ele jura que trocou porque estava prestes a [...]

O mecânico deve ser alguém em que confiamos tanto quanto no nosso médico particular. Do contrário, o que fazer quando ele nos apresenta a conta da revisão e, sem esperar que recuperemos o ar e a consciência de nós mesmos, já vai nos mostrando aquela peça que ele jura que trocou porque estava prestes a se soltar e a nos levar direto ao primeiro poste da rua? Ele pega a peça, mostra, chega a fazer cara de nojo e sacode bem junto ao nosso ouvido, dizendo “ouviu só?” E nós, desgraçados desentendidos do mundo oculto dentro do capô, balançamos a cabeça como se realmente houvéssemos escutado algum ruído na peça de metal, aliás, como se tivéssemos a certeza de que a tal da rebimboca retorcida ou carbonizada é mesmo do nosso carro.

Nos últimos dois anos, as autoridades ambientais do Distrito Federal estão jogando ao chão diversas árvores plantadas na época da capital do país. Não são frutíferas, mas oferecem generosa sombra. Isso, convenhamos, já está de bom tamanho.

Elas são de uma única espécie, a manguba. Dizem os técnicos responsáveis pelos belos jardins de Brasília, que as árvores dessa espécie estão condenadas porque foram tomadas por um tipo de cupim. O bichinho, faminto, corrói a árvore por dentro e ela pode cair de uma hora para outra. Por isso, então, a moto-serra segue cantando sem dó nem piedade.

É difícil imaginar que alguém incumbido pelo estado de zelar pelas árvores, possa querer sair por aí derrubando-as sem um motivo maior que não seja proteger a segurança do cidadão. Para o corte, eles repetem a mesma alegação há anos, e de forma convicta.

É que em Brasília os gramados e os jardins vêm sofrendo pressão nos últimos anos. A sensação que temos é que, se bobearmos, parque vira estrada e canteiro, estacionamento. Essa pressão parte até mesmo, em alguns casos, da própria sociedade. Tem muita gente que gostaria de ver sua camionete de luxo no lugar de uma mangueira frondosa.

E esta semana, quando cheguei em casa, não havia mais, em frente à minha janela, a manguba com a qual troquei confidências nos últimos dez anos. No lugar dela, o vazio no gramado, e maior ainda dentro de mim. Agora, com sua eterna ausência, o sol inclemente do cerrado açoitará a fachada do prédio.

“É o cupim, a árvore pode cair e se mata uma pessoa, os moradores entram na Justiça, vão ao jornal dizer que a gente deveria ter cortado e não cortou”, me explica o técnico do departamento de parques e jardins, fazendo cara de mecânico que mostra uma peça qualquer do carro.

Tags:

Gostou, compartilhe:

Comentário (1)

  1. HUGO GIUSTI -

    Realmente é lastimavel este tipo de ação. No Rio tem acontecido muito. As pessoas achão sempre que o melhor é tomar esse tipo de atitude para se livrar do problema, em vez de tentar curar a árvore ou escora-la com se faz em vários paízes com a Argentina, eu já soube, que em vez de derrubar uma árvore que pode cair, colocam estacas permanentes afim de não deixar que venham a cair, preservando assim a paisagem, o ar, a sombra, e a beleza que importantíssima para o dia a dia de um lugar.É realmente muita burrice este tipo de atitude com Brasília.

Deixe o seu comentário!