André Giusti - foto: Luana Lleras
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Estranhamento

Acabo de ouvir na BandNews FM o ator Juca de Oliveira declamando o poema Motivo, de Cecília Meireles (Eu canto porque o instante existe e  a minha vida está completa…). Tenho em minha memória de leitor este poema como sendo uma de minhas primeiras referências de poesia, um dos que inauguraram meu entendimento sobre o [...]

Acabo de ouvir na BandNews FM o ator Juca de Oliveira declamando o poema Motivo, de Cecília Meireles (Eu canto porque o instante existe e  a minha vida está completa…). Tenho em minha memória de leitor este poema como sendo uma de minhas primeiras referências de poesia, um dos que inauguraram meu entendimento sobre o gênero – se é que existe a hipótese de se entender a poesia como entendemos as correntes filosóficas, sociológicos e por aí vai.

Teoricamente é impossível que não seja formidável a interpretação de um ator do naipe de Juca de Oliveira para um texto que é momento cristalino de nossa literatura. Confesso, no entanto, algo que não chega a ser desaprovação com a leitura, mas sim uma espécie de estranhamento com o tom que Juca emprestou ao poema. Sabe quando se cria a fisionomia e o físico de uma pessoa que conhecemos apenas pela voz e tudo isso desaba ao sermos apresentados a ela? (Acontece muito comigo que trabalho em rádio).

Pois é. Desde os meus primórdios de leitura, Motivo é lido – ou imaginado – de uma forma quase monocórdica, feito alguém que conversa consigo mesmo sobre algo para o qual só cabe a resignação, pois não há jeito para esse algo que está ou vai se consumar. Juca concedeu ao texto uma dramaticidade que não registrei lá no início, quando me tornei leitor de poesia, e que portanto não se perpetuou.

Provavelmente o poema de Cecília inspira várias outras interpretações não apenas como peça de leitura, mas como mensagem propriamente dita, e longe de mim achar que a minha é a que se aproxima do objetivo da autora. E sem demérito à interpretação do consagrado ator, ouvir Motivo hoje foi como conhecer aquele sujeito que imaginava alto e moreno e me apareceu baixo e louro. Em todo o caso, vai o reconhecimento ao Juca de Oliveira pelo sopro de poesia nessa tarde arrastada e sem interesse, tão abaixo do universo de Cecília Meirelles.

Ah! Faltou o poema, né?

Motivo

Cecília Meireles.

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

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Comentários (4)

  1. André Giusti Autor do post -

    Oi, Daniel. Obrigado pelo carinho. Não chega a ser “sentir como se outra pessoa houvesse escrito”, mas beira uma espécie de certeza de que aquele que escreveu é alguém que há muito já não sou mais, ao passo que, em outros casos, sou eu ainda aquele, que atravessou o tempo e manteve a essência do que era quando escreveu aquele poema. Enfim, é uma espécie de representação do que deixamos de ser e do que continuamos sendo ao longo da vida.
    Abração.

  2. Daniel Cavalheiro -

    André, sempre tive a curiosidade de fazer esta pergunta a um poeta “editado”. Digo “editado”, pois teve a “coragem” de levar a poesia, talvez a forma mais íntima de se expressar, aos olhos de todos e, assim, todos os poemas ficam expostos à críticas. A pergunta, enfim, é: o que você sente quando relê suas poesias, escritas há muito tempo? Um abraço e parabéns pelo ótimo post.

  3. Rodrigo Leitão -

    André, esse poema é fantástico e “motivo” de uma das maiores brigas, que desencadeou uma das maiores injustiças da MPB. A briga, justíssima, foi da família da poetisa (me recuso a chamar mulher de poeta). Fagner gravou no excelente LP Quem Viver Chorará (1978) o poema com música sua e a editora publicou como sendo letra e música do cantor cearense. Óbviamente, acusado de plágio, ele perdeu na Justiça. A injustiça se deu no ano seguinte. Em 1979, Fagner venceu o Festival da Tupi com a bela “Quem Me Levará Sou Eu”, de Dominguinhos. Mas a melhor canção era Bandolins, de Oswaldo Montenegro, que ficou atrás da horrenda “Canalha”, de Walter Franco. Dizem, nos bastidores da MPB, que a vitória de Fagner foi uma respostas do mundo da música ao processo movido pela família de Cecília Meireles. “Dá a vitória pra ele coitado” teria sido o slogan do ridículo lobby.

    O blog tá ótimo.
    Parabéns!

  4. Denise Giusti -

    é lindo este poema!

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