André Giusti - foto: Luana Lleras
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Eu apóio as vadias

O nome é o que menos importa em toda essa história da Marcha das Vadias. Homens, e também mulheres, poderiam dar mais atenção às plataformas do movimento e perderem menos tempo discutindo e, quase que invariavelmente, condenando o nome da marcha e as atitudes que algumas de suas integrantes tomam durante as manifestações. No caso [...]

O nome é o que menos importa em toda essa história da Marcha das Vadias.

Homens, e também mulheres, poderiam dar mais atenção às plataformas do movimento e perderem menos tempo discutindo e, quase que invariavelmente, condenando o nome da marcha e as atitudes que algumas de suas integrantes tomam durante as manifestações.

No caso masculino, o que incomoda é a velha relutância dos homens em aceitarem a realidade: a mulher tem (muita) vontade sexual. E é direito que tenha liberdade para exercê-la com quem achar melhor.

Ninguém nunca nos condenou por deitarmos com tantas quantas tivéssemos vontade ou oportunidade (nem sempre as duas andaram juntas em nossa vida sexual). Pelo contrário. Ao longo da história, somos glorificados, invejados e cobiçados por isso. O que é, no mínimo, uma distorção dos significados, sentimentos e energias saudáveis que devem envolver uma relação sexual.

O que nos apavora é que não há mais como escapar. Precisamos aceitar que as mulheres têm o direito de se deitarem sem estarem apaixonadas como o senso comum achou por bem estabelecer. Na quase totalidade de nossas relações, nós, homens, não estávamos apaixonados. É no mínimo injusto querer cobrar isso da outra parte.

O que uma relação sexual mais necessita é de responsabilidade. Responsabilidade quanto à saúde, quanto à gravidez indesejada, quanto à expectativa do parceiro ou parceira para os dias que virão após o gozo. Responsabilidade para com a não banalização do ato. E essa responsabilidade é de quem tem vida sexual, seja homem, mulher, homo, hetero. Apaixonado ou não. Amando ou não.

Quem tem filhas prestes a descobrir a sexualidade precisa digerir logo esse novo modelo, pois o antigo, o da entrega apenas em casos de amor puro e envolvimento sentimental, já foi a pique há muito tempo, embora o conservadorismo (inclusive de mulheres) esperneie se recusando a aceitar.

O nome da marcha causa impacto porque a palavra vadia incita tremores no imaginário erótico masculino. No caso das mulheres, posso apenas arriscar (já que não sou mulher) que o termo sacode pilares ocos da vida de fachada de algumas senhoras e senhoritas. E que bom que haja causado impacto nessa sociedade narcotizada por celebridades e mensagens superficiais de otimismo nas redes sociais.

Se causa escândalo em alguns o que até pode ser considerado excesso de algumas manifestantes (inevitável em qualquer aglomeração), muito mais deveria provocar a leniência da sociedade com certas realidades combatidas pela Marcha das Vadias, como a violência contra a mulher, por exemplo, que é uma violência contra a família, núcleo base da sociedade.

E se esse – violência doméstica – fosse o único assunto na pauta do movimento, já seria muito mais importante do que o nome da marcha ou meia dúzia de belos peitos de fora pintados com palavras de protesto.

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Comentário (1)

  1. Stela Guedes Caputo -

    Esplêndido texto!

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