André Giusti - foto: Luana Lleras
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Golpe baixo.

O dia inteiro pensando e nenhum assunto lhe veio à cabeça. Ouviu dizer que é golpe baixo essa coisa de tornar assunto a falta de assunto. Não chega a esse extremo. O problema é que elevar a falta de tema à categoria de tema não é novo. Paulo Mendes Campos, Rubem Braga já usaram disso, [...]

O dia inteiro pensando e nenhum assunto lhe veio à cabeça. Ouviu dizer que é golpe baixo essa coisa de tornar assunto a falta de assunto. Não chega a esse extremo. O problema é que elevar a falta de tema à categoria de tema não é novo. Paulo Mendes Campos, Rubem Braga já usaram disso, e certamente sairam-se bem melhor do que ele se sairia.

Lembra que foi um dos dois, se não se engana Paulo Mendes Campos, que narrava a angústia da hora passando, o fim de tarde batendo à porta junto com o boy do jornal que passava sempre para pegar a crônica do dia seguinte (o e-mail não acabou com os boys dos jornais, mas essa função certamente eles não têm mais, a de pegar o texto na casa do cronista). E a cabeça vazia pendia no abismo criativo, os olhos morriam no papel em branco já pegando a curvatura do cilindro da máquina. Então, o cronista descia, acendia um cigarro na portaria do prédio, ganhava as ruas até o calçadão e ia saber se as ondas lhe davam conselhos, se descobria relevâncias na areia da praia.

Outro problema é que parou de fumar há alguns anos, e bem antes disso deixou o mar para trás, fez opção pela solidão do cerrado. Morre de saudades, mas não lhe parece conveniente falar disso agora, a cidade poderia ficar magoada, achando que a culpa era dela, não seria justo da parte dele.

Perpassa os olhos nos jornais, mas se sente desanimado para escândalos. Estes amadurecem tão rápido que acabam contaminando a inspiração com sua velhice precoce. Poderia contar sobre as duas horas de vida que perdeu esperando em determinada repartição para ser atendido em seu direito de contribuinte que não atrasa um dia sequer os impostos. Mas, estranhamente, hoje a mesmice das mazelas desse país não sustenta duas frases.

Está assim, ouvindo o zumbindo do vácuo das idéias, quando a noite ergue a lua cheia acima do trânsito parado. Acaba virando lenitivo para a cabeça que comanda sem perceber o vai e volta do pé esquerdo na embreagem. Mas a lua é dos poetas, e são raros os dias em que a poesia perde tempo com ele.

A noite avança. Fosse na época em que os boys iam em casa, teria realmente problemas hoje. Faz força para se lembrar, quem disse mesmo que é golpe baixo transformar em assunto a falta de assunto?

Certamente não era cronista.

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Comentários (5)

  1. André Giusti Autor do post -

    Obrigado, Risomar, pelo carinho. Um grande abraço para você.

  2. Risomar Fasanaro -

    Acho que a falta de assunto levou o cronista a escrever um texto tão bonito, tão bonito, que talvez se ele tivesse saído de casa, ou lido algum jornal em busca de assunto, nesse mundo tão conturbado, não tivesse encontrado nada tão bonito, tão sensível para escrever, como o que criou nesta crônica.
    Abraços
    Risomar

  3. André Giusti Autor do post -

    Obrigado, Gianna, pelo carinho. Que a poesia, então, esteja com você.

  4. Gianna -

    Também gostei muito. É uma fórmula já gasta, mas aqui foi pinçada com muita maestria. Curta e eficiente, como toda boa crônica. De lambuja, uma linda pitadada de poesia, emprestada da lua e da cidade.

  5. Denise Giusti -

    Ótima crônica, a transformação da falta de assunto em assunto, linguagem poética.

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