André Giusti - foto: Luana Lleras
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Haiti, uma chance para o mundo.

O jornalista Cláudio Humberto, que divide comigo a bancada do jornal Gente Brasília (2ª a 6ª às 9h na BandNews 90,5 FM) observou no programa de hoje que a tragédia no Haiti oferece oportunidade ímpar e definitiva para que o chamado mundo rico ofereça uma realidade nova ao país. Na hora sorri com desdém da [...]

O jornalista Cláudio Humberto, que divide comigo a bancada do jornal Gente Brasília (2ª a 6ª às 9h na BandNews 90,5 FM) observou no programa de hoje que a tragédia no Haiti oferece oportunidade ímpar e definitiva para que o chamado mundo rico ofereça uma realidade nova ao país.

Na hora sorri com desdém da idéia, não pelo seu conteúdo, mas pela impossibilidade de vê-la nascer na prática. Logo eu, que sou bem mais utópico que meu companheiro de microfone, homem sem ilusões, calejado pela cobertura jornalística do poder.

Agora, substituído o desdém pelo humanitarismo, me pergunto se não seria mesmo a hora de se resgatar de debaixo dos escombros não apenas corpos dilacerados e milagrosos sobreviventes, mas um país inteiro. Tendo na história duas ditaduras familiares e sangrentas (Papa Doc e Baby Doc), o Haiti é soterrado pela miséria extrema, 80% da população estão abaixo da linha da pobreza.

O terremoto poderia servir para que a globalização estendesse ao menos uma vez a mão para ajudar aqueles cuja vida ela própria surgiu prometendo melhorar.

Numericamente, é plenamente possível. O Goldman Sachs pagou no ano passado a título de bônus a seus executivos o equivalente a 1/3 do PIB do Haiti. Se reduzisse a fatia para 1/4 e desse uma parte aos miseráveis que vivem com menos de US$ 1 por mês, já resgataria dos escombros um pouco da dignidade no país.
Não estamos pedindo o bônus inteiro, só um pedaço pequeno. Não estamos pedindo um pedaço pequeno apenas ao Goldman Sachs, mas igualmente aos outros que se equivalem. Não estamos pedindo o dinheiro do lucro de produção, do salário de trabalhadores, mas o que entra pela janela desses bancos trazido pelos ventos generosos dos lucros.

Por falar em lucros, a tragédia no Haiti aconteceu no mesmo dia em que Barack Obama anunciou a taxação sobre o que os bancos ganharam no ano passado. Meio sem graça e com sorriso amarelo, Obama está cobrando de volta o dinheiro do contribuinte que ele emprestou para os banqueiros saírem da crise que eles mesmos fundaram. Sugiro que o presidente cobre juros sobre os juros cobrados, ou seja, que combata fogo com fogo ou a cobra com seu próprio veneno, e que mande entregar a diferença ao Haiti, para que o país comece a sair de seu permanente terremoto.

E se não for pedir demais – e não é mesmo – pensem também na África, credora secular de uma dívida moral e humana de grande parte do mundo, incluindo o Brasil.

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Comentários (4)

  1. Eduardo -

    Pensei o mesmo que o Cláudio Humberto quando soube do terremoto no Haiti e das primeiras manifestações de solidariedade ao redor do mundo. Mas aí leio que o ex-presidente Jean-Bertrand Aristide está pronto para voltar ao país e retomar o poder, depois de deposto por amplo movimento popular (e uma ajudinha dos EUA). Paro e penso: reconstruir um país pequeno como o Haiti, a partir do nada, seria muito fácil, em tese, para alguns conglomerados e países ricos. Mas como fazer isto respeitando as liberdades democráticas e atendendo os interesses de todos? E como garantir que os interesses de todos os haitianos (como os de qualquer povo em qualquer país) visam ao benefício de toda a nação?

    Mas não percamos as esperanças.

  2. Carlos -

    Bom, meu caro André, quando em algum momento da existência humana, ao longo do processo histórico, alguém resolveu chamar os homens a saírem do estado natural e se organizar em sociedade civil houve um pacto: isso só se daria se tudo fosse para a predominância da vontade geral e não da particular. Entretanto, isso há muito foi esquecido, e agora vale o interesse particular. Que se exploda o próximo. Então, enquanto as pessoas não agirem para o que elas não querem para si também seja às outras, não haverá mudanças. Contudo, opinando com base na minha fé, digo que apenas Cristo Jesus é a resposta. Se a nossa esperança estiver nos homens, estamos perdidos.

  3. Denise -

    Acredito eu que esse fenômenos aconteçam para acordar a solidariedade, a fraternidade, para que as nações ricas principalmente, se unam e ajudem o Haiti não só de coisas materiais momentâneas mas invistam para tirá-los dessa miséria absurda. André você deveria também ser cronista, seu texto como sempre é maravilhoso.

  4. Madalena -

    Concordo plenamente. E que o mundo rico possa, de fato, abraçar esta causa com a mais verdadeira solidariedade.

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