André Giusti - foto: Luana Lleras
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Herança.

Para Ricardo Ferreira.   Zedias chegou à emissora de rádio em que trabalhava pouco antes das cinco da tarde, quase uma hora depois de seu horário de entrada. O chefe não falou nada. Limitou-se a olhar para o relógio e depois para a cara do Zedias, uma, duas vezes. O chefe tinha implicância com Zedias. [...]

Para Ricardo Ferreira.

 

Zedias chegou à emissora de rádio em que trabalhava pouco antes das cinco da tarde, quase uma hora depois de seu horário de entrada. O chefe não falou nada. Limitou-se a olhar para o relógio e depois para a cara do Zedias, uma, duas vezes.

O chefe tinha implicância com Zedias. Se havia motivo para advertência, não pensava em perdoar. Se não havia, ele arrumava.

Insegurança, medo de perder o lugar pro Zé.

Zedias era muito melhor jornalista do que o chefe, mas não almejava seu cargo, e também não conseguiria. Zedias não bajulava superiores, não oferecia banquete a diretores da empresa, gente importante não batizava seus filhos, não subia na vida às custas de compadre influente. Aliás, Zedias era o melhor repórter de sua geração, a última ainda forjada na velha escola da reportagem. Por isso, nutria desprezo pelo press release. Com ele, era olho no olho do entrevistado, “pegava o sujeito pela gola” e espremia o figurão até que ele perdesse a linha e soltasse qualquer coisa que virasse, enfim, notícia importante.  Bem diferente das reportagens dos colegas, todas irmanadas pela mesmice das informações das assessorias.

O telefone de Zedias não parava nem aos domingos. Eram sempre delegados, secretários de estado, gente bem informada ligando para ele. “Corre aqui, Zé, tem um negócio bom pra você”. Zedias ia atrás. No dia seguinte, pimba! Furo de reportagem, e a imprensa toda correndo para recuperar o estrago que o Zedias havia feito na concorrência. “Zé, meu camarada, me quebra um galho, me arruma o telefone do sujeito que te deu aquela informação”, e sempre tinha um ligando, se fazendo de bacana, de educado. Muitas vezes eram os colegas pernósticos, jornalistas de jornais ou emissoras de TV. Quando não careciam de favores, cansavam de menosprezar Zedias porque ele era um repórter de rádio. “Ninguém que trabalhe em rádio sabe escrever”, diziam uns. “Rádio não aprofunda os fatos”, acrescentavam outros, narizes sempre torcidos e empinados, tão humildes quando se viam em apuros.

Eu tive que resolver um problema na Caixa Econômica, explicou Zedias, sem muita paciência de expilcar. O chefe não destorcia a cara. A fila estava enorme, demorou mais do que eu pensei, continuou, mais impaciente ainda.

Pombas, Zé, assim fica difícil, e o chefe abriu os braços, sem hipótese de diálogo, não levando em conta o dia anterior em que Zé varou a madrugada por causa de mais um furo de reportagem. E além dessa, outras centenas ao longo dos mais de vinte anos de jornalismo.

Desse tempo todo de profissão, a metade trabalhara  desempenhando a função dele e as que seriam de mais dois ou três. Da metade dos anos 90 em diante, os donos dos veículos de comunicação decidiram entre eles: fazer o máximo com o mínimo. Miínimo de investimentos, mínimo de braços trabalhando, máximo de lucro nos bolsos.

A pretexto de uma renovação na mentalidade da imprensa, optaram pela contratação em massa de moças e rapazes recém-formados que empenhavam sua força de trabalho em troca da oportunidade de começar em um grande veículo. Eram saudados por aquele discurso pronto, cínico, travestido de incentivo: enxergamos em vocês uma aposta no futuro. E lá iam eles, seduzidos, sem se darem conta de que ajudariam a enriquecer os barões da comunicação pela metade do salário que deveriam ganhar.

Sem experiência não só na profissão, mas também na vida, a gurizada, não obstante o talento de muitos, deixava a desejar em muitos casos, sobrecarregando ainda mais os poucos mais experientes que sobraram, como Zedias, por exemplo.

Zé, tenta recuperar isso aqui que o menino não soube fazer. Zé, liga pra tuas fontes e pergunta isso, isso e aquilo, porque a garota que entrou ontem esqueceu de perguntar.

Mas naquela tarde, Zedias foi trabalhar apenas porque era mesmo profissional caxias, a responsabilidade acima de tudo. Saíra da agência bancária milionário, como jamais pensara em ficar. Mês antes recebera a notícia, lá do interior de Minas: tia Mirtes morreu e deixou um testamento. Quando leram a papelada, viram a bolada que ficou pro Zedias. Ninguém nem sabia que a velha era tão rica. Pois era, e ao bater ela a cassuleta, quem ficou foi o Zé, algo como se houvesse faturado umas duas megas senas acumuladas divididas por três, no máximo. Saíra da agência onde depositara a herança direto para a redação. Só foi trabalhar mesmo porque era muito correto.  

Agora, olhando a cara do chefe, pensava na grana depositada na conta e em tudo que passara até ali: no nariz torcido daquela ameba a sua frente, nos outros jornalistas que no geral se acham melhores do que realmente são, na tal da reengenharia das empresas que tirava até a última gota de sangue das pessoas.

Não há mais necessidade, Zé, dá pra viver tranquilo, montar um negócio, foi a primeira coisa que a mulher disse quando soube da herança. Insistiu naquela tarde, quando saíram do banco: Zé, pra quê ‘cê vai? Liga e diz que foi abduzido, que ‘tá falando lá de Saturno.

Gritaram seu nome lá do outro lado da redação, interrompendo seus pensamentos. Alguém levantava o telefone, era para ele. Atendeu e ficou uns dez minutos tomando notas. Quando desligou, parou junto ao chefe. Haviam prendido o banqueiro que dera o golpe em milhares de correntistas, que usurpou a economia de anos de famílias inteiras.

‘Tá na Polícia Federal, Zedias explicou, só nós temos.

O chefe queria detalhes.

Zé se impacientou, queria dar logo a notícia, mas tudo bem, explicou.

‘Tá numa cela pequena, só cama, não tem nem banheiro. Quando dá vontade, tem que pedir ao tira que fica na porta olhando ele 24 horas.

E isso é importante? O chefe perguntou, com raiva e desdém.

Experimenta ter que pedir autorização toda vez que quiser ir. E Zedias deu as costas, foi até o estúdio para dar a notícia bem a tempo, estava começando o noticiário do fim da tarde.

Já estava pronto para entrar no ar, mas pediu um minuto ao âncora que apresentava. Saiu do estúdio, voltou à redação e ligou para a esposa.

Mulher, tem certeza de que a grana da Tia Mirtes ‘tá na conta?

Ué, Zé, você não viu o gerente dizer, mostrar pra gente?

Então, vai lá no quarto e pega o comprovante, o extrato.

Pra que, homem?

Vai lá e volta.

Sem entender direito, ela foi e voltou. Do estúdio, chamavam Zedias com urgência. Ele fazia sinal que esperassem.

‘Tá aqui, Zé, na minha mão – e ela disse o valor do depósito. Estamos ricos e você aí, trabalhando até sei lá que horas.

Ele desligou. Pegou suas anotações, entrou no estúdio. Quando abriram o microfone, começou a ler a notícia, explicando cada detalhe da informação, o tamanho da cela, a largura da cama, quanto tempo o figurão ficaria no xilindró. Enquanto lia, o dinheiro da tia Mirtes ia e voltava da cabeça. E também os narizes torcidos, a mesquinhez do chefe, a usura dos patrões. No final, deu uma parada, faltara a última informação. Estamos ricos e você aí, trabalhando até sei lá que horas, insistia a voz da mulher em ecos no fundo da cabeça. Um segundo de silêncio no ar, Zedias resolvendo. O âncora pôs as palmas das mãos para o alto, gesto de quem pergunta “e aí, acabou?”. Zedias então deu tom solene à voz, e com extrema firmeza na locução falou, ao vivo, para os milhares de ouvintes sintonizados àquela hora: e o banqueiro precisa pedir licença ao guarda quando quer cagá.

Vixe, endoidou! E o âncora pode ser ouvido deixando escapar baixinho seu espanto.

 

Zedias bateu a porta do estúdio, deu as costas e passou pela redação. Risadas e queixos caídos o acompanharam até a porta de saída.

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Comentários (4)

  1. Hugo Giusti -

    Ótimo conto. A mentalidade desses empresários é de quitanda. Muita gente como eu pouco vê Jornais, principalmente de TV. Estão muito sofriveis. “Por Favor informações progressistas”!!!!!!!

  2. MARCOS OLIVEIRA -

    Meus queridos Ricardo e André! Não tenho mais nada a acrescentar! Vocês já disseram tudo! Pra nós que começamos juntos, a sensação é essa mesmo. É quase insuportável trabalhar hoje em dia numa redação com tanta gente nova, despreparada, desinteressada, desinformada e que ” se acha”. Assim é o meu dia a dia. Mas vamos tocando o barco! Bjs André e Ricardo Guerrilheiro!

  3. André Giusti Autor do post -

    Bem que podia rolar uma tia Mirtes na nossa vida, né? kkkkkkkkkkkkkkk

  4. Ricardo Ferreira -

    Fico lisonjeado pelo amigo por esse conto que no fundo representa uma realidade para muitos de nós, jornalistas “cascudos”. Vivemos hoje dentro de uma realidade de um jornalismo pasteurizado, envolto em uma grande mesmice. Hoje o trabalho de apuração, de checar a informação com várias fontes, fazer um jornalismo sério foi substituído pelo ‘control c’, ‘control v’. São redações encharcadas de garotos novos que acham que sabem tudo, quando vc que já tem mais de 23 anos de profissão olha para isso tudo e se dá conta que ainda não sabe nada e que está sempre aprendendo. É preciso calçar as sandálias da humildade. Mas, a culpa não é só deles. É de uma estrutura empresarial que cultua isso, pagando salários miseráveis para esses meninos e achando que com isso vão reduzir custos e ter lucros….e a pergunta que fica no ar….e a qualidade onde vai parar.

    Bjs meu irmão e fica com Deus
    Obrigado

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