André Giusti - foto: Luana Lleras
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Livros da Minha Vida 8 – Apontamentos de História Sobrenatural

Ganhei Apontamentos de História Sobrenatural de meu velho pai quando eu tinha 15 anos. É uma idade perigosa para se ler poesia. Você pode ser capturado por ela e nunca mais ser devolvido ao mundo dos certos, sensatos, coerentes e ponderados. Foi o que aconteceu comigo. Além de ter 15 anos, eu provavelmente estava apaixonado, [...]

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Ganhei Apontamentos de História Sobrenatural de meu velho pai quando eu tinha 15 anos.

É uma idade perigosa para se ler poesia. Você pode ser capturado por ela e nunca mais ser devolvido ao mundo dos certos, sensatos, coerentes e ponderados.

Foi o que aconteceu comigo.

Além de ter 15 anos, eu provavelmente estava apaixonado, pois jamais me esqueci deste poema, chamado O vento.

“Havia uma escada que parava de repente no ar
Havia uma porta que dava para não se sabia o quê
Havia um relógio onde a morte tricotava o tempo

Mas havia um arroio correndo entre os dedos buliçosos dos pés
E pássaros pousados na pauta dos fios do telégrafo

E o vento!

O vento que vinha desde o princípio do mundo
Estava brincando com teus cabelos…”

Mário Quintana tinha um quê bem latente de misticismo, mas que no geral passava longe da religiosidade e distava muito, mas muito mesmo, do esoterismo. Também por este aspecto – o místico – ele me conquistou de cara.

Mas o determinante para que se torna-se meu poeta favorito (ele ganha apenas por meio corpo de Drummond e Leminsky, mas ganha) foi seu jeito. Quintana não era poeta apenas porque escrevia. Era poeta porque vivia como poeta, e poesia é algo muito além de escrever. Poesia é a forma como se olha a vida, e pra isso nem é necessário escrever uma linha.

Além desse lado docemente fantasmagórico, Quintana era divertido em seus poemas, irônico, debochava da sociedade de uma modo quase infantil, tamanha a pureza com que fazia isso.

E era romântico, um romantismo totalmente oposto à pieguice e ao romantismo enjoativo feito glacê de bolo.

Quintana faz parte não apenas do meu mundo de leitor, ele habita até hoje meu mundo de homem, de pessoa.

Desde que li o poema acima, o vento do princípio do mundo esteve sempre brincando com os cabelos de todas as mulheres que amei.

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Comentário (1)

  1. Denise Giusti -

    Lindo André, uma relíquia para ser guardada, isto é, um tesouro. Ainda mais com essa linda dedicatória, simples, mas cheia de amor. Ah, Essa assinatura… Me emocionei…

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