André Giusti - foto: Luana Lleras
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Luxo e ofensa ao ar livre em Brasília

O Pontão do Lago Sul é um dos mais belos locais de Brasília. À beira do Lago Paranoá, reúne bares e restaurantes sofisticados e, claro, bem caros em sua maioria. Pena que a beleza do local é inversamente proporcional à qualidade das músicas que ali se escutam. O Pontão, em minha opinião, é um exemplo [...]

O Pontão do Lago Sul é um dos mais belos locais de Brasília. À beira do Lago Paranoá, reúne bares e restaurantes sofisticados e, claro, bem caros em sua maioria.

Pena que a beleza do local é inversamente proporcional à qualidade das músicas que ali se escutam.

O Pontão, em minha opinião, é um exemplo de que poder aquisitivo nada tem a ver em absoluto com bom gosto, principalmente cultural.

E ontem uma das músicas, sempre tocadas em alto volume dentro dos iates e lanchas luxuosos que desfilam pela orla, me chamou particularmente a atenção.

Não pela pieguice imbecil das letras ou pela pobreza aguda das melodias e dos arranjos.

Não pelo grotesco a que a maioria dos brasileiros se acostumou, anestesiada, a ouvir.

Mas pela agressividade da banalização do ato sexual, descrito de uma forma tão grotesca e vulgar, que me senti agredido, ofendido.

Lanchas

Estou longe de ser santo e os prazeres físicos me chamam por demais a atenção, mas aquilo que ouvi na letra passa feito um rolo compressor por cima da dignidade das mulheres. E de uma certa forma da dos homens também, por dar a entender que todos nós agimos daquele jeito.

Se você fica insensível a uma letra que diz “transa com uma, duas, seis, dezesseis” – e o verbo usado não era transar, estou amenizando -, se você não sente ao menos um pingo de nojo, pare e pense, procure ajuda, meu/minha amigo/amiga, porque você não está com a cabeça sã.

A bordo da bela lancha de sei lá quantos mil pés, rapazes e moças brancas, filhos da boa cepa brasiliense, regalavam-se com a música (?) que a indústria fonográfica tenta nos fazer acreditar que é o canto das favelas. Favelas que por sinal ninguém ali naquela embarcação tem sequer uma migalha de noção do que sejam.

Por causa de uma criança que em companhia da mãe entrou numa exposição de arte em que havia um homem nu, o tal MBL fez um escarcéu dos infernos.

Por que, então, não tenta impedir a veiculação de uma música com esse teor?

Se existem mesmo os tais moral e bons costumes, o que ouvi neste domingo é que é, certamente, uma violação a esses ditames.

Não se trata de liberdade de expressão. É lixo embrulhado em ofensa e agressão à dignidade.

O MBL não fez nem fará nada, assim como não vejo os eleitores que votarão na boçalidade e na estupidez dizerem nada, porque o pensamento e a conduta média de todos se coadunam exatamente com o que prega a letra da música.

Quando é do interesse, vestem a capa da moralidade.

Quando não, se trancam no silêncio da cumplicidade de quem trata mulheres, negros, gays, índios apenas como material de rima para um funk barato.

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Comentários (9)

  1. Dj cimar santis -

    Situação bem complicada e sensível, sou Dj da mormaii, toco lá todos os domingos, procurando levar uma boa música, com um pouco de tranquilidade para os clientes aproveitar o seu domingo com a família, mas infelizmente aquelas embarcações atrapalha muito com o volume do seu som, mas não podemos fazer nada…lamentável

  2. Denise -

    Cada um ouve a porcaria que quiser mas obrigar os outros a ouvir e que é o fim!

  3. André Giusti Autor do post -

    Desculpa, amigo, acho que você não entendeu. Não estou culpando ninguém pela música grotesca que alguns ouvem (a não ser essas próprias pessoas). Acho que você se refere ao trecho em que falo que se a pessoa fica insensível a essas letras, não está com a cabeça sã. Mas não estou culpando exatamente ninguém. Só estou chamando atenção de quem fica insensível a essas mensagens de cunho altamente negativo. Foi isso, não se ofenda, por favor. Um abraço.

  4. André Giusti -

    Odeio essas musicas imorais, e presenciei outro dia algo parecido no pontão, agora eu lendo seu texto me senti ofendido, pois você culpa os que não praticam esses atos (de obrigar outros a ouvirem o lixo que quiser) pelo que está acontecendo? Eu sou contra o que ocorre ali, mas que ferramentas teria eu para impedir, porque teria eu alguma culpa pelos filhos de papai mal educados terem mal gosto? teria eu que ir nadando e desligar o som no tapa? infelizmente não tenho autoridade para interromper, e a mim me resta educar minha filha, não sou parte do MBL mas me perdoe o linguajar mas “o que tem a ver o cú com as calças?” está politizando um problema social nosso, um ponto turistico lindo com estabelecimentos voltados ao público de alta renda( o que não é o meu caso, vou ali de vez em nunca…) a culpa é dos pais que são ricos e por serem ricos terceirizam a educação dos filhos, e dão tudo que os filhos querem até lanchas de luxo. No seu ponto de vista eu teria que chamar outras pessoas e pegar em cartazes com frases de efeito e ficar fazendo mimimi na beira do lago? é essa sua sugestão? Foi a primeira vez que presenciei isso ali na beira do lago, e pelo menos por um bom tempo não voltarei lá…

  5. Marise -

    Concordo com você, André. Somos bombardeados por esse lixo cultural o tempo todo. E as empresas de comunicação no Brasil, que têm tamanho e poder muito além do razoável, usam toda a sua influência para imbecilizar ainda mais a população.

  6. Andréa Pena -

    Tive a oportunidade de vivenciar a mesma situação.Adoro curtir o sol e programas ao ar livre

  7. Regina -

    Creio que os movimentos que historicamente pretenderam emancipar a mulher, não contavam com a admiração delas pela libertinagem, pela sua própria degradação. Há, exceções, com certeza. Mas há uma leva de mulheres abaixo de 40 anos com comportamentos rasteiros que estão deixando homens constrangidos. Bebem muito, frequentam qq tipo de lugar – muitas vezes selecionam onde vão pelo preço e não pelo ambiente, e se entregam aos piores modismos. Sinceramente, tenho pena. São eternas solitárias rodeadas de pessoas que não valorizam ninguém, nem a si próprias. Discordo pelo que foi dito, que houve rejeição a figura do homem nu no museu. Houve rejeição a atitude da mãe que induziu a filha tocar neste homem, mesmo a criança estando constrangida.

  8. Regina Beatriz Pahl Siqueira -

    Concordo com o Sr. Meu caro estamos numa falência total ! Mas fico indignada quando sou obrigada a ouvir esses lixos musicais. Ninguém é obrigado. Mas a falta de noção das pessoas é tamanha que só existe o egoísmo. Triste realidade.

  9. ANA CLAUDIA -

    Como é bom ler um artigo de quem tem um belo cérebro! O que falta a quem consome esse tipo de música.
    E depois ainda querem ser respeitados!

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