André Giusti - foto: Luana Lleras
voltar para o início do blog

Males a espantar*

Por SÍLVIO RIBAS silvioribas.df@dabr.com.br Em 1968, pouco depois do assassinato do pastor Martin Luther King e do presidenciável americano Bob Kennedy, o rei do rock, Elvis Aaron Presley (1935-1977) surpreendeu a todos ao gravar uma belíssima canção em homenagem aos dois líderes pacifistas. Procure na internet o vídeo dele cantando If I can dream. É [...]

Por SÍLVIO RIBAS
silvioribas.df@dabr.com.br

Em 1968, pouco depois do assassinato do pastor Martin Luther King e do presidenciável americano Bob Kennedy, o rei do rock, Elvis Aaron Presley (1935-1977) surpreendeu a todos ao gravar uma belíssima canção em homenagem aos dois líderes pacifistas. Procure na internet o vídeo dele cantando If I can dream. É de emocionar ouvir aquele hino gospel de forte conteúdo político, um clamor pelo fim das tensões raciais nos Estados Unidos. Sua súplica pela concórdia humana ainda é inspiradora e atualíssima.

Diante da covardia de bandidos, muitos deles adolescentes, contra alvos inocentes, dos massacres chapas-brancas, da perseguição aos gays na África e de tantas outras atrocidades mundo afora, não entendo por que os artistas de hoje abandonaram o papel de profetas da paz e da liberdade. Imagine, música gravada e lançada pelo beatle John Lennon (1940-1980) em 1971 nunca deixará, por exemplo, de ser manifesto antológico pela tolerância e fim definitivo da insanidade das guerras.

O ditado popular “quem canta os males espanta” serve bem ao individualismo, mas o grande mal a ser espantado requer o engajamento de celebridades e de formadores de opinião. Foi assim que os ataques ianques ao Vietnã terminaram. A fome da Etiópia só envergonhou o coletivo de nações após o embalo de We are the world (1985), hit liderado por Michael Jackson e entoado por uma constelação de outros 44 cantores pop.

Da última vez que falei nesse espaço das crescentes ansiedade e irritação dos brasileiros, com ataques gratuitos de fúria no trânsito e no entorno de estádios de futebol, um leitor me procurou para dizer que boas vibrações ajudariam a desanuviar esse horizonte. Receio, contudo, que, mesmo válidas e até desejáveis, tais iniciativas são insuficientes para tornar nossa vida mais segura e a sociedade mais fraterna. Será preciso agir de forma mais explícita.

Se Lennon ainda estivesse vivo, estaria deitando e rolando nas redes sociais ao lado de Yoko, Bono Vox e companhia, em prol do cessar fogo, do desarmamento e do amparo às vítimas de conflitos armados. Mas a esperança não acabou. Para mim, a melhor notícia da semana veio de Israel, onde muçulmanos sírios feridos pelas bombas e projéteis são acolhidos secretamente em hospitais do exército judeu. Esses e outros gritos de dor e de desespero precisam da sensibilidade de astros da música, cujas vozes poderiam acordar a humanidade.

 

* Publicado no Correio Braziliense em  27/02/2014

 

Tags:

Gostou, compartilhe:

Comentário (1)

  1. Denise Giusti -

    Muito bom o texto. Bem reflexivo. Ah, se John Lennon estivesse ainda entre nós…

Deixe o seu comentário!