André Giusti - foto: Luana Lleras
voltar para o início do blog

Modesta reflexão sobre facadas

Acabo de ler nas agências de notícias que um estudante de 13 anos e outro de 19 foram esfaqueados hoje, aqui em Brasília, durante uma tentativa de assalto. Parece que o alvo do ladrão era o celular. As vítimas, pelo que percebo, são meninos de classe média, alunos de um bom colégio e de uma [...]

Acabo de ler nas agências de notícias que um estudante de 13 anos e outro de 19 foram esfaqueados hoje, aqui em Brasília, durante uma tentativa de assalto.

Parece que o alvo do ladrão era o celular. As vítimas, pelo que percebo, são meninos de classe média, alunos de um bom colégio e de uma boa faculdade, provavelmente moradores de bons lugares.

O assaltante é o mesmo, mas deu as facadas em momentos diferentes e em pontos opostos da cidade: Asa Sul e Asa Norte.

Trata-se de um menor, e, aguardando que seja retomada ainda hoje a mesma saraivada enraivecida de pedidos pela redução da maioridade penal que deu o tom da semana que está se acabando, recebo a mensagem da mãe de um aluno da escola das minhas filhas. Ela diz que é por isso que não deixa o filho, também de 13 anos, sair sozinho. Respeito. Cada um tem seu modo de combater a violência, inclusive impedindo os filhos de viver.

Não sei ainda, mas o histórico do adolescente infrator não deve diferir muito do outro que matou o médico, também a facadas, no Rio: faltou família, faltou escola, não foi um problema de idade para se punir e condenar.

Já deve ter gente parando por aqui a leitura, me mandando ir pra Cuba e me perguntando se eu pensaria assim caso uma de minhas filhas fosse esfaqueada. Mas peço licença para lembrar que além do passado desses infratores (que nenhum de nós da classe média tem a mínima ideia de como possa ter sido, porque simplesmente sempre tivemos família e escola), me parece que há outro motivador importante ligando também os três crimes. Eles queriam a bicicleta cara, o celular caro, e em outras vezes mataram e feriram por um par de tênis caro, por um casaco da moda, todos esses objetos e tantos outros que a mídia, com o bombardeio da propaganda, nos faz acreditar que precisamos desesperadamente ter e engolir para sermos aceitos por uma sociedade que sim, cada vez mais olha o semelhante de acordo com o celular, o tênis, o casaco, o carro, e por aí vai.

E pergunto se isso não é também uma grande facada, e ainda maior, a entrar todos os dias em nossa carne, provocando uma brutal hemorragia que, anestesiados, seguimos em frente sem sentir?

Fonte www.cantuemfoco.com.br

Fonte www.cantuemfoco.com.br

Tags:

Gostou, compartilhe:

Comentário (1)

  1. Will -

    Sim, a facada do consumismo banal que incute nas mentes medíocres a cultura do ter para ser.

Deixe o seu comentário!