André Giusti - foto: Luana Lleras
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Navio

No geral a vida se parece mesmo com uma viagem de navio. Agora já estava em alto mar, embora as luzes do último porto pudessem ainda ser vistas. Imensidão maior que a das águas, só a da certeza de que embarcar era mesmo necessário. Saudade era coisa como alguma daquelas constelações infinitamente acima: estavam lá, [...]

No geral a vida se parece mesmo com uma viagem de navio. Agora já estava em alto mar, embora as luzes do último porto pudessem ainda ser vistas. Imensidão maior que a das águas, só a da certeza de que embarcar era mesmo necessário. Saudade era coisa como alguma daquelas constelações infinitamente acima: estavam lá, mas eram intangíveis. Imaginar quanto tempo de calmarias ou tempestades, dias impiedosos de sol e noites inquietas de solidão, só resultava no cálculo impreciso da ansiedade. Inclusive o destino, a chegada, era bom que reconhecesse, por via das dúvidas: não era inteiramente seguro que alcançasse. Só os portos que deixamos existem de fato, só eles são verdadeiramente seguros, daí tornarem-se esgotados de emoções e vida. Dele – do destino -  trazia imagens formadas na mente a partir do que escutara de alguém em uma ou outra ocasião. Por isso essa sensação de imigrante faminto, esperançoso e incerto que saiu da Europa e veio para o Brasil no século 19.

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Comentários (5)

  1. Lucilene Ines Giusti -

    Você tem razão quanto ao seu comentario, mas o porto mais seguro que ainda temos neste mundo, e o NOSSO SENHOR JESUS CRISTO.

  2. Lucilene Ines Giusti -

    Você tem razão quanto ao seu comtanrio, mas o porto m ais seguto que ainda temos neste mundo e o NOSSO SENHOR JESUS CRISTO.

  3. Raquel Madeira -

    Você escreveu isso há quase dois meses, mas acho que é exatamente assim que está se sentindo agora. Poucos, ou melhor, pouquíssimos conseguem expressar sensações como você.
    De uma coisa você pode ter certeza: uma hora o navio vai chegar ao destino final, que será bem colorido, até você começar a buscar outros destinos. Porque assim é a vida, feita de momentos, buscas, encontros e conquistas. Como o mar e suas ondas, cheia de altos e baixos.
    Agora, volte a escrever, nem que seja duas linhas… Seus leitores merecem (e você também)!

  4. Denise Giusti -

    Muito lindo! Você sempre nos comove com a maneira de escrever, muita poesia, sempre lindo …

  5. sócio -

    Lindo. Uma prosa poética como poucas.

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