André Giusti - foto: Luana Lleras
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Noventa anos de Clarice.

Todas as 2ªs feiras, às 16h51 na BandNews FM em Brasília (90,5 FM), eu e o poeta, doutor em literatura e professor da UnB, Alexandre Pilati, batemos um papo rápido sobre literatura, é claro. Esse bate-papo literário é reprisado às 3ªs feiras, às 11h30 e ao longo do fim-de-semana. O programete estreiou há cerca de [...]

Todas as 2ªs feiras, às 16h51 na BandNews FM em Brasília (90,5 FM), eu e o poeta, doutor em literatura e professor da UnB, Alexandre Pilati, batemos um papo rápido sobre literatura, é claro. Esse bate-papo literário é reprisado às 3ªs feiras, às 11h30 e ao longo do fim-de-semana. O programete estreiou há cerca de um mês. A partir de hoje, e todo fim-de-semana, o blog publica o texto que Alexandre Pilati usa como base para nosso encontro na BandNews FM. O de hoje é sobre Clarice Lispector, justamente o tema do nosso primeiro bate-papo.

90 anos de Clarice Lispector

Por Alexandre Pilati.

 

Em 10 dezembro de 1920, nascia em Tchetchelnik, na Ucrânia, uma menina com o nome de nome Haia (vida). Com dois anos de idade, ela já se encontrava no Brasil, terra em que receberia um novo nome, Clarice, e que a reconheceria como uma das mais apaixonantes autoras literárias da língua portuguesa. Se fosse viva, neste ano, a enigmática e sedutora Clarice Lispector completaria 90 anos, marcados por uma trajetória que a levou de autora quase incompreensível, desde a estréia em Perto do coração selvagem (1943), a ídolo de jovens leitores que propagam seu nome e seus textos pela rede mundial de computadores.

Na esteira da comemoração dos 90 anos do nascimento de Clarice, diversos lançamentos em livro e vídeo, além de outros eventos podem proporcionar o reencontro dos leitores com as inúmeras facetas da autora.

Clarice – Fotobiografia (Edusp/Imprensa Oficial)

Clarice foi casada com o diplomata Maury Gurgel Valente e com isso teve oportunidade de viajar muito e viver em diversas partes do mundo. Um pouco dessas andanças da autora pode ser vista na Fotobiografia de Clarice organizada pela professora, e especialista na obra da Clarice, Nadia Batella Gotlib (que escreveu o estudo Clarice – uma vida que se conta).

São mais de 800 fotos que recontam a vida de Clarice por meio de imagens do cotidiano da autora, desde a primeira infância até as vésperas da morte por causa de um câncer em 9 de dezembro de 1977. Nesse conjunto de fotos recolhido em intensa pesquisa feita em diversas partes do mundo, vê-se o desenvolvimento do perfil da mulher que possuía uma beleza nada óbvia, que encantava escritores e fascinava leitores.

Os breves comentários anexados em forma de legenda às fotos ilustram bem as situações em que a autora é fotografada. Mas o bom mesmo é deixar-se levar pelas imagens, numa viagem ao tempo e ao jeito de ser de uma mulher inigualável. Mais do que a escritora, é a mulher Clarice Lispector que se mostra nas páginas dessa Fotobiografia

Clarice, (CosacNaify)

A ligação entre a mulher e a autora e os dilemas que a Clarice viveu com intensidade são o tema central do livro de Benjamim Moser, cujo título é um vocativo: “Clarice,”.

Sua biografia é polêmica, pois consta que ela não foi autorizada pela família da autora, embora já tenha esgotado a primeira edição, configurando-se como um grande sucesso de público. Moser, que é um jovem crítico americano, colaborador da famosa Harper’s Maganize, tem, com esse texto, a ambição de publicar a mais completa biografia de Clarice, apostando na minúcia no recolhimento dos dados. Polêmicas à parte, seu livro tem o mérito de consolidar a visão internacional da autora.

De corpo inteiro – filme e livro (Rocco)

Outra faceta interessante de Clarice é a sua atuação como jornalista. Embora formada em Direito, ela nunca exerceu a profissão, vivendo basicamente de sua obra e de colaborações em jornal. Clarice escreveu assiduamente no Diário da noite e no Jornal do Brasil, na mesma época e com o mesmo destaque de Carlos Drummond de Andrade. Um pouco dessa Clarice jornalista está nas entrevistas reunidas no livro De corpo inteiro. Nele a autora conversa com gente de peso como Nelson Rodrigues, Fernando Sabino, Jorge Amado, Rubem Braga.

O resultado é tão interessante e os diálogos tão vivos, que a sobrinha neta de Clarice, Nicole Alegranti, resolveu transformar o livro em filme. A escritora-entrevistadora é incorporada por diversas atrizes, como Louise Cardoso, Beth Goulart, Aracy Balabanian e, numa atuação surpreendente, Letícia Spiller. Um detalhe interessante do filme, que já está disponível em DVD, é que uma canção de Cazuza e Frejat “Que o Deus venha”, que era inédita e que aparece na voz de Adriana Calcanhoto. Frejat, que é aliás, fã confesso da escritora, assina a trilha sonora e ajuda a compor um belo monumento em homenagem a Clarice.

Clarice na Internet

Clarice se tornou um fenômeno jovem e uma das provas disso é a sua presença na rede mundial de computadores. Para se ter uma idéia são 103 comunidades no Orkut que fazem referência direta à autora e à sua obra. Se pesquisado no site de vídeos Youtube, o nome de Clarice retorna 170 resultados.

Mas o melhor lugar para se ver Clarice na Internet é mesmo o seu site oficial, ligado à editora Rocco. O site WWW.claricelispector.com.br. Lá se encontram vídeos da autora, trechos de seus livros, uma bela galeria de fotos, artigos de intelectuais de renome e reportagens recém publicadas sobre ela além de uma detalhada cronologia de vida e obra.

Clarice no CCBB de Brasília – Exposição A hora da estrela

Inspirada na obra de Clarice a exposição que está em cartaz em Brasília até o dia 14 de março. A mostra reúne fotografias, manuscritos de seus livros, correspondências, documentos pessoais, primeiras edições e um vídeo cedido pela TV Cultura (entrevista dada a Júlio Lerner e única imagem em movimento da escritora). A mostra conta com curadoria de Julia Peregrino e Ferreira Gullar e cenografia de Daniela Thomas. São ambientes que buscam intensificar no expectador a vivência das questões que Clarice trabalhou tanto durante a sua longa carreira: o ofício da escrita, os dilemas da feminilidade, a força da vida diante das adversidades, a relação da palavra com o mundo.

Trecho do texto “Sobre a escrita…”:

“Que é que eu posso escrever? Como recomeçar a anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma idéia. Cada palavra materializa o espírito. Quanto mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento.

Devemos modelar nossas palavras até se tornarem o mais fino invólucro dos nossos pensamentos. Sempre achei que o traço de um escultor é identificável por um extrema simplicidade de linhas. Todas as palavras que digo – é por esconderem outras palavras.”

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Comentários (4)

  1. André Giusti Autor do post -

    Também não sou fã dela não, aliás , nem um pouco. Mas reconheço a importância.

  2. giovani iemini -

    hei, legal o programa no rádio. não o conhecia.

    quanto à clarice… caramba, sempre achei que a prestigiavam demais. hehehe.

  3. Aldecy Brasileiro -

    Olá! Ótimo post sobre a grande Clarice.
    Ela desempenhava com excelência suas atividades, seja como escritora, seja jornalista.
    Não há na literatura quem tenha estudado tão minuciosamente a complexidade existencial do ser humano como a Lispector.
    Ela era um mistério que se revelava em cada personagem, por mais que não admitisse. É ó ler nas entrelinhas.
    Sou fascinada pela obra dela. Leio, releio e nunca canso, pelo contrário, aumento minha sede!
    Parabéns pela lembrança Clariceana!

  4. Sócio -

    Clarice escrevia expondo os sentimentos. Tem autores que depois de lermos temos aquela conclusão titubeamos e pá. Outros depois de tempos paramos para chorarmos encostados no poste. Com Clarice acontece ao mesmo tempo da leitura.O sentimeno vao batendo.

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