André Giusti - foto: Luana Lleras
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O amor nos tempos de messenger

A tecnologia mudou até nosso modo de brigar. Nunca mais as duas, três horas de orelha quente por causa do bate boca ao telefone, tentando explicar o que a outra pessoa se recusa a entender, e o que nós mesmos tantas vezes nem sabemos mais o que é, por que surgiu, por que estamos nos [...]

MESSENGER

A tecnologia mudou até nosso modo de brigar.

Nunca mais as duas, três horas de orelha quente por causa do bate boca ao telefone, tentando explicar o que a outra pessoa se recusa a entender, e o que nós mesmos tantas vezes nem sabemos mais o que é, por que surgiu, por que estamos nos justificando.

O Messenger é o novo canal oficial por onde passam, com a alcunha de tráfego de dados, tudo aquilo que não queríamos dizer ao outro, mas dissemos por raiva e nos arrependemos dois segundos depois.

Por ali transitam os motivos da outra parte, e também os nossos motivos, muitas vezes só aceitáveis para nós mesmos.

Com as teclas de nossos notes ou smarts, digitamos apressadamente acusações e julgamentos, e condenamos em duas ou três palavras o outro que tanto amamos e ao lado de quem pensamos enfrentar a vida e suas batalhas.

Da mesma forma que ao telefone dizíamos tanto sem pensar, hoje digitamos, levados pelo impulso e cegos em nossa raiva pelo orgulho ferido, a frase que não terá volta.

São as mesmas teclas que podem também ser usadas para dizer “Para com isso! Vamos ficar bem! Eu te amo! Isso é tudo pequeno perto do que sentimos um pelo outro!”

Ao contrário do telefone, no entanto, o messenger nos reserva angústias extras, criadas com a tecnologia. É aquela que bate quando não sabemos se o outro, mesmo estando on line, leu a mensagem na hora. Ou então aquele torturante tempo de espera dos três pontinhos subindo e descendo, enquanto a resposta é digitada. O que aparecerá na tela? A jura de amor eterno ou o rompimento definitivo?

Na época do telefone, dizíamos palavras que não tinham exatamente aquele sentido que quisemos dar, empregávamos mal determinado verbo, que não cabia naquela situação. Mas como escrever é mais difícil do que falar, hoje pecamos na nossa capacidade de expressão escrita. Sem contar com o diabo do corretor que troca os acentos, não gosta do Ç e a nossa revelia usa palavras que nada tem a ver com o assunto.

Na época do telefone, encerrava-se bruscamente a ligação (o popular ‘bater o telefone na cara’). Depois se ligava de novo, a voz derretida em desculpas e arrependimento. Muitas vezes a pessoa não estava, ou mandava dizer que não estava. Ou não atendia ou não retornava a ligação.

Hoje ela finge que não vê a mensagem, vai dormir sem responder, visualiza em tal horário e sabe Deus quando vai nos retornar. E a gente derretido de arrependimento, pensando porque perdemos tempo com tanta besteira.

A tecnologia é outra.

Nós somos os mesmos.

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Comentário (1)

  1. Eduardo Viana -

    Na época do telefone, a gente ainda podia negar – “não, eu não disse ontem que te odeio, eu disse que te rodeio, isto é, ando à sua volta, como a Terra em torno do Sol”. Hoje, está escrito; se não “corrigiu” na hora, colocando a culpa no corretor ortográfico, bau-bau, não dá para desmentir no dia seguinte.

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