André Giusti - foto: Luana Lleras
voltar para o início do blog

O Jornal Nacional e a Abolição

Interessante a reportagem exibida pelo Jornal Nacional de Ontem (13), dia que marcou os 125 anos da Abolição da Escravatura. Resumiu-se em cerca de dois minutos o cenário em que se deu a libertação dos negros no Brasil. A matéria procurou tirar as luzes de cima da Família Real e explicar rapidamente que outras forças [...]

Interessante a reportagem exibida pelo Jornal Nacional de Ontem (13), dia que marcou os 125 anos da Abolição da Escravatura.

Resumiu-se em cerca de dois minutos o cenário em que se deu a libertação dos negros no Brasil. A matéria procurou tirar as luzes de cima da Família Real e explicar rapidamente que outras forças foram as responsáveis por abrir as senzalas.

Citou algumas províNcias do Império, como o Ceará, onde os negros já estavam livres antes do 13 de maio, mas não se preocupou em lembrar os motivos econômicos que moveram tal antecipação. Muito menos foi citado o incentivo da Inglaterra com sua pressão para criar mercado consumidor.

Mas é sempre válido quando a TV, mesmo que na sua peculiar superficialidade – e aí trata-se de característica do veículo, e não de uma emissora – leva à audiência um pouco da história do Brasil. Entende-se o presente quando o passado é conhecido, e essa frase não é minha.

Só que antes, abrindo o Jornal Nacional, foi exibida a reportagem sobre um menino de 12 anos – negro – que assaltou uma residência e foi pego pela Polícia. Fez-se um paralelo a outro caso de menor envolvido com o crime, só que nos EUA, deixando claro que lá o garoto vai pra cadeia e aqui não. Houve preocupação em mostrar as condições sociais em que vivem as duas crianças, em países diferentes? Não, nenhuma. Pouco jornalismo, muita propaganda da redução da maioridade penal.

O objeto da primeira reportagem – menino negro, de 12 anos, assaltante – é fruto do que não foi mostrado na reportagem sobre a Abolição: a forma como os libertos foram entregues à própria sorte, com suas cartas de alforria nas mãos, na falta de planejamento que caracteriza o Brasil em mais de cinco séculos.

Mas reconheço de pronto que é querer demais que uma matéria de telejornal tenha contextualização e enfoque sociológico, ainda mais quando vai contra à filosofia da emissora.

Tags:

Gostou, compartilhe:

Comentários (0)

Deixe o seu comentário!