André Giusti - foto: Luana Lleras
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O paralelo da digestão

No começo colocamos a mesa com todo cuidado. Trazemos flores, e mesmo nos dias mais corridos da semana, não esquecemos música ambiente que amacie a conversa e a mastigação. Aliás, no início mastigamos bastante: mais de 30 vezes em cada garfada, como recomendam os gastros e os nutricionistas. Mais até que mastigar, sentimos os sabores, [...]

No começo colocamos a mesa com todo cuidado. Trazemos flores, e mesmo nos dias mais corridos da semana, não esquecemos música ambiente que amacie a conversa e a mastigação.

Aliás, no início mastigamos bastante: mais de 30 vezes em cada garfada, como recomendam os gastros e os nutricionistas. Mais até que mastigar, sentimos os sabores, e sentir os sabores é a real finalidade. Pensando bem, o que nos leva a sentarmos à mesa é a nossa fome real e verdadeira, nossa fome sincera. Isso no início.

Depois de um certo tempo, alguns sabores já passam despercebidos: não os principais – o da carne, do peixe –, mas os das especiarias, aqueles que faziam a diferença sem nos darmos conta, sem sabermos que estavam na receita. As flores ainda são postas, mas não são mais tão notadas, e já não saberíamos dizer se sentiríamos sua falta se não fossem trazidas. A música, se toca, não amacia a conversa: temos endurecido os assuntos e já não mastigamos tanto quanto o recomendado. Mas continuamos comendo.

Os anos já levaram das paredes alguns calendários. Flores, só as plásticas, e estão sempre lá sem serem notadas, pois as usando, não há a necessidade de um ramo novo a cada dia.

A música foi substituída pelo silêncio das bocas, que quase não mastigam mais, engolem quase de pronto, já que é preciso ir rápido com tudo isso, recolher logo os pratos, pois assim se evita os assuntos endurecidos. Sabores? Aquele que nos restou é apenas um que é de uniforme pasta sem sal, temperos ou especiarias. Engolimos, apenas para que não nos doa o estômago mais tarde.

No final, sabores, flores e músicas parecem apenas lembranças absurdas do tempo em que mastigávamos. Agora, engolimos direto, melhor até seria se houvesse um buraco na garganta em que colocássemos a comida, poupando-nos de passá-la pela boca. E no silêncio que já é de muito tempo, abolimos até mesmo os assuntos endurecidos.

Mas, então, de estômago pesado e digestão difícil, em algum momento da noite precisaremos decidir: queremos abrir mão de comer para sempre, ou vamos brigar pelo prazer de sentir fome outra vez?

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