André Giusti - foto: Luana Lleras
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O piquenique como método de ocupação

No feriado deparei com um grupo de vizinhos fazendo um piquenique no gramado de uma das quadras de Brasília. Quem não conhece a cidade pode saber que uma das características desse condado autárquico administrativo é ter maravilhosos e amplos espaços verdes. E vazios, aonde ninguém vai, aonde ninguém aparece. São vagos os motivos desse desperdício [...]

landjackman.blogspot.com

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No feriado deparei com um grupo de vizinhos fazendo um piquenique no gramado de uma das quadras de Brasília.

Quem não conhece a cidade pode saber que uma das características desse condado autárquico administrativo é ter maravilhosos e amplos espaços verdes. E vazios, aonde ninguém vai, aonde ninguém aparece. São vagos os motivos desse desperdício provocado pela falta de convivência, ninguém arrisca cravar uma explicação.

Já disseram que em Brasília os espaços são para serem contemplados, jamais ocupados. Se faz parte do conceito da tão propalada genialidade urbanística e arquitetônica, não sei, mas há centenas de gramados que, tristes e solitários, parecem implorar por pés de crianças chutando bolas ou toalhas de xadrez com bolos, pães e garrafas de refresco.

O piquenique lançou em mim um grão de areia de esperança de que as pessoas por aqui possam enfim despertar para a necessidade de povoar esses extensos gramados, e que por meio do convívio ocupem também um lugar no coração umas das outras. Conhecer os vizinhos, conviver com a sua comunidade pode ser útil até mesmo materialmente. Quem mora ao lado pode ter um conhecido que ajude um parente seu desempregado, pode conhecer um médico que resolva a dor crônica que tortura sua pobre vozinha.

Enquanto escrevo, lembro-me da rua em que passei parte da infância e adolescência, no castigado bairro carioca do Andaraí, citado diversas vezes por Machado de Assis em romances e crônicas. 20, 30 anos atrás a rua era tomada de meninos jogando bola e soltando pipa. Hoje é quase deserta, e em seu silêncio e vazio passeiam minhas lembranças de meninice.

Portanto, não arrisco dizer que o problema é geográfico, restrito à capital do país. Superpopulosas, as grandes cidades brasileiras parece que criaram, certamente por fatores sociais ou culturais, não apenas bolsões de isolamento físico e urbano, mas principalmente humanos e emocionais.

Estender uma toalha no gramado em frente ao prédio, chamar o vizinho de porta e, juntos, cortarem um bolo ou mesmo abrirem uma garrafa de espumante certamente vai trazer mais alegria a Brasília, às outras cidades, e nos fazer recordar que precisamos de algo bem mais caloroso que o Netflix.

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