André Giusti - foto: Luana Lleras
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O povo unido. Por mim mesmo, de preferência.

É lenda que o brasileiro não se mobiliza para protestar ou reivindicar. Mentira, folclore. Há sim muita mobilização e capacidade de fazer barulho. Desde que seja em interesse próprio, financeiro de preferência. Os recentes escândalos em Brasília mereceram a perplexidade da população. Só que ninguém passou da boca aberta de espanto para abrir a boca [...]

É lenda que o brasileiro não se mobiliza para protestar ou reivindicar. Mentira, folclore. Há sim muita mobilização e capacidade de fazer barulho. Desde que seja em interesse próprio, financeiro de preferência.

Os recentes escândalos em Brasília mereceram a perplexidade da população. Só que ninguém passou da boca aberta de espanto para abrir a boca e gritar de revolta. Indignados, mas passivos, todos assistimos pela televisão ao grupo de estudantes que invadiu a Câmara Legislativa do Distrito Federal, mal ou bem os únicos que ousaram dizer aos ladrões que “aqui ninguém é palhaço não, vamos acabar com essa pouca vergonha”. Mesmo assim houve quem enxergasse excessos e radicalismo.

Entretanto, se o motivo é o aumento da gratificação, o cumprimento do acordo salarial ou pedir para ganhar o mesmo que outra categoria, aí aparece gente de todo os cantos, a praça lota, a avenida é bloqueada, verdadeiros cantos de guerra são entoados, fazendo as veias ameaçarem pular do pescoço.

Esta semana, centenas de policiais e bombeiros do Brasil inteiro fecharam a Esplanada dos Ministérios. Faziam protesto para pressionar deputados e senadores a aprovar projeto que desse às duas categorias o mesmo salário dos colegas do Distrito Federal. Uma das principais vias da cidade ficou fechada por mais de seis horas, atrasando a vida de milhares de pessoas no meio da tarde de um dia comum. Ouvindo gritos inflamados dos manifestantes, a PM não se meteu a besta de tirá-los dali para liberar o trânsito. Eram policiais, certamente havia gente armada. A todo o momento, o comando da operação no local informava sobre negociações com os líderes do protesto, negociações intermináveis que não devolviam a Brasília, naquele momento, o direito de ir e vir. Aliás, foi a mesma PM que em dezembro não negociou um minuto sequer e chegou descendo o cassetete e mandando bombas de gás em cima dos estudantes que protestavam contra a bandalheira do governo Arruda.

Ou seja, mobilização existe, capacidade de se organizar também, desde que seja por um direito individual, não importando se o protesto massacra o direito maior, que é o coletivo.

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