André Giusti - foto: Luana Lleras
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O que resta aos gatos-pingados

As mudanças no Código Florestal têm despertado acalorados e apaixonados debates, que nascem nos corredores do parlamento e morrem nas páginas dos jornais e da web, telas de TV, ondas do rádio. Anestesiada, a população brasileira segue alheia ao que pretendem fazer com as matas e rios do país. Parece que o imbróglio ocorre no [...]

As mudanças no Código Florestal têm despertado acalorados e apaixonados debates, que nascem nos corredores do parlamento e morrem nas páginas dos jornais e da web, telas de TV, ondas do rádio.

Anestesiada, a população brasileira segue alheia ao que pretendem fazer com as matas e rios do país. Parece que o imbróglio ocorre no mais distante recanto da Malásia.

Em frente ao Congresso Nacional, meia dúzia de três ou quatro gritam em cima de um carro de som alugado por um partido ligado às causas ambientais. Protestam contra a possibilidade de os deputados aprovarem os pontos de interesse da bancada ruralista, hipótese que não nos reserva qualquer surpresa.

O vídeo taipe da minha memória exibe imagens da década de 80 e virada para a de 90. Praças repletas, multidão e desejo de mudar o país, polícia de choque e tensão suspensa no ar, nitroglicerina na fala de sindicalistas e líderes que acreditávamos de esquerda, que apostávamos como ilibados e acima do bem e do mal. Principalmente do mal.

Agora, a cidade passa apressada ao largo do protesto sem plateia. Para o transeunte, os gritos apenas lhe roubam a paz dos pensamentos.

O que faz um país se despolitizar desse jeito? Peguntei na rede social. As respostas giraram, giraram e acabaram em um mesmo ponto: desilusão, desgosto, desencanto. Desesperança.

O partido que arregimentava multidões 20, 25 anos atrás é o que hoje está no governo, e não mostra na função atual a mesma competência (e conduta também) quando era da oposição. E a banda que servia de vidraça à época tem ainda menos talento para protestar do que tinha para governar. Até porque não sabe protestar, pois sempre lhe coube a paralisia do poder.

Mais preocupada com a apresentadora que raspou a cabeça ao vivo no programa de humor discutível, a mídia reitera a negligência no papel de ser instrumento para levar reflexão à sociedade. Esta, por sua vez, têm andado ocupada negociando as parcelas do crediário que não percebeu que não teria como pagar.

E aos gatos-pingados, em cima do carro de som, só resta gritar para o nada, o vazio e a indiferença.

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