André Giusti - foto: Luana Lleras
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O templo de homens iguais (Ou o Maraca era nosso!)

Qualquer carioca que se preze possui ao menos uma história pessoal sobre o Maracanã. Nem que seja apenas sobre a chegada de Papai Noel no helicóptero. O historiador e poeta Henrique Miranda, tricolor além de tudo, lembra o dia em que um chutão mandou a bola na geral e um torcedor a matou no peito, [...]

Qualquer carioca que se preze possui ao menos uma história pessoal sobre o Maracanã. Nem que seja apenas sobre a chegada de Papai Noel no helicóptero.

O historiador e poeta Henrique Miranda, tricolor além de tudo, lembra o dia em que um chutão mandou a bola na geral e um torcedor a matou no peito, aparou-a no pé e aplicou o drible do elástico no PM que veio em cima dele tomar-lhe a pelota.

Eu coleciono dezenas de histórias, tais como uma decisão entre Flamengo e Vasco a que assisti em pé no último degrau da arquibancada. Por causa de tanta gente também em pé a minha frente, quando o Flamengo atacava eu esticava o pescoço pra direita para conseguir ver o lance. Quando defendia, eu fazia o movimento inverso.

Mas nenhuma de minhas histórias pessoais com o Maracanã traduz tanto o que era o espírito do velho estádio quanto a do Fla-Flu em que o lateral direito Leandro empatou aos 45 do segundo tempo.

Ele pegou de primeira um chute da intermediária, que bateu na trave, na nuca do goleiro do Fluminense (Paulo Victor) e caiu alguns centímetros para dentro, além da linha do gol. Naquela noite, pensou-se pela primeira vez que o gigante de 200 mil pessoas viria abaixo.

Eu não me lembro do estádio balançando, como disseram, tudo porque eu e um vendedor de mate nos abraçamos chorando, unidos naquela que é uma das mais sinceras alegrias masculinas: o gol do time pelo qual se torce. Ele gritava, perdendo a voz: porra, russinho, o Mengão vai me matar!

Era isso o Maracanã: um negro sem instrução e um branco prestes a entrar na universidade abraçados como os seres iguais que realmente são.

Era muito mais que um estádio de futebol, era um templo de homens iguais.

O Maracanã de hoje, mostrado semana passada, é bonito, é moderno, é funcional.

Mas, pelo que parece, roubaram-lhe a alma e a democracia.

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Comentários (3)

  1. Denise Giusti -

    Não ligo a mínima para futebol., mas você tem razão, perdeu a alegria do povo! Eu que não entro lá, quem sabe daqui algum tempo pode até cair, feito tudo às pressas!

  2. André Giusti Autor do post -

    Só quem viveu o velho Maracanã sabe do que estamos falando, né, Carlos Henrique? Obrigado pela participação. abs.

  3. Carlos Henrique -

    André, esse jogo aconteceu no dia 11/12/85 e foi realmente inesquecível. Assisti à um Flamengo 2×2 Botafogo em 1992 e realmente o calor humano do Maraca era algo fora do comum. O Flamengo começou perdendo a partida e quando conseguiu a virada, um camarada com a camisa da Fla-Estácio me levantou, me abraçou como se fosse meu velho amigo. Um senhor que havia profetizado que precisávamos empatar antes dos quinze minutos do segundo tempo, como realmente aconteceu, me olhava chorando dizendo: “Eu te falei…” O jornalista inglês Tim Vickery já preveu assim como você, que com todas essas mudanças, o Maracanã perderá o calor humano e o espetáculo das torcidas. Grande abraço!

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