André Giusti - foto: Luana Lleras
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Os dois sujeitos

Emociona a história dos operários da Câmara dos Deputados que encontraram, durante o conserto de um vazamento, frases em uma parede escondida, escritas dois, três anos antes da inauguração da capital do país. Os erros de ortografia em algumas revelam a probabilidade maior de que tenham sido escritas pelas mesmas mãos que ergueram o Palácio [...]

Emociona a história dos operários da Câmara dos Deputados que encontraram, durante o conserto de um vazamento, frases em uma parede escondida, escritas dois, três anos antes da inauguração da capital do país. Os erros de ortografia em algumas revelam a probabilidade maior de que tenham sido escritas pelas mesmas mãos que ergueram o Palácio do Congresso Nacional. A linguagem simples carrega em alguns casos uma poesia simplória que depositava esperança naquele sonho de cidade perdido aos poucos ao longo do tempo, até chegar, nos dias de hoje, ao limiar do caos.

Algum gatilho da engenharia talvez seja o responsável por essas frases e a parede que as exibe terem ficado ocultas durante todos esses anos. Esse anonimato, certamente, é seu maior encanto. Para reparar nisso, não faltou sensibilidade ao operário que, incumbido de corrigir o vazamento, deu de cara com esses exemplares de uma espécie de “arqueologia contemporânea”. Getúlio Dias Ferreira, 55 anos – criança na inauguração de Brasília -, conta aos jornais que sentiu a importância das frases por causa das datas assinaladas abaixo de cada uma delas. Viu logo, e igualmente emocionado, que eram rastros deixados por colegas seus, cujos nomes e rostos a história oficial do país não se importou em assinalar.

As frases na parede escondida da Câmara dos Deputados  fizeram-me lembrar de outro caso dessa “arqueologia contemporânea”, só que esse, exemplo que vai no caminho oposto da valorização do nosso patrimônio, da nossa memória. Aconteceu com um sujeito que comprando uma grande e bela casa e decidindo reformá-la (um dos passa-tempos prediletos dos brasilienses), descobriu que uma das paredes era decorada com os azulejos de Athos Bulcão. Já ia mandar que um dos peões sentasse a marreta na obra de um dos homens que deram indentidade a Brasília, quando foi alertado que o “tal de patrimônio histórico” podia encrencar com aquilo. A contra-gosto, optou por uma “preservação forçada”.

O sujeito é alto funcionário de uma das casas do Congresso, o mesmo lugar onde Getúlio vai de ponta a ponta procurando vazamentos, e de vez em quando encontrando relíquias históricas. O primeiro ganha um dos mais altos salários do funcionalismo público, o que permite acesso tranquilo aos livros, aos museus; o segundo, o convencional que recebe um operário para manter sua vida de ônibus, casa modesta e filhos, em tese, sem tanta perspectiva em termos de educação e formação. Na comparação entre os dois, muitas diferenças, e a constatação de que dinheiro e escolaridade não representam tudo. Ou pelo menos não cem por cento de tudo.

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Comentários (3)

  1. Henrique -

    A HIstória tem um tom de democracia. Mas é preciso esperar algum tempo, ou um vazamento.

  2. Raymundo J. Chaves Jr. -

    Prezado André,
    Foi uma história que emocionou a todos nós! O senhor Getúlio Dias é tão grandioso quanto os que escreveram aquelas mensagens! Brasília foi construída por grandes homens e mulheres, humildes na sua maioria, mas com um grande sentimento de cidadania!
    Abraço
    Raymundo Jr.
    Asa Norte
    Brasília-DF

  3. Denise Giusti -

    Bela história! Simples, emociona!

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