André Giusti - foto: Luana Lleras
voltar para o início do blog

Os livros esquecidos

O escritor quis aproveitar a grande bienal, de passagem pela cidade, para divulgar seu último livro. Planejou “esquecer” alguns exemplares em certos pontos do evento. No word, fez uma etiqueta mal ajambrada informando que o exemplar pertenceria provisoriamente a quem o encontrasse, e que essa pessoa deveria passá-lo adiante depois de ler. Imprimiu a etiqueta, [...]

O escritor quis aproveitar a grande bienal, de passagem pela cidade, para divulgar seu último livro. Planejou “esquecer” alguns exemplares em certos pontos do evento.

No word, fez uma etiqueta mal ajambrada informando que o exemplar pertenceria provisoriamente a quem o encontrasse, e que essa pessoa deveria passá-lo adiante depois de ler.

Imprimiu a etiqueta, assinou e colou na contra-capa.

Enfiou dez exemplares na mochila e lá foi ele, numa espécie de protesto solitário contra a dificuldade da distribuição dos livros no país. Foi atrás dos leitores, a grande razão do escritor existir.

Sentou num dos bancos da praça central, tirou um livro da mochila, e fingindo ver mensagens no celular, abandonou-o à própria sorte para que alguém o pegasse.

Repetiu o gesto em outros pontos, no pequeno tablado que servia de assento nos intervalos das apresentações, na mesa do café literário, nas cadeiras do auditório. Chegava, sentava, disfarçava, pegava o celular, fingia (os escritores são bons nisso) e largava o livro.

Sentia-se um misterioso mensageiro espalhando por uma cidade códigos a serem desvendados. Passaria, em outras épocas, por um subversivo panfletando madrugada adentro na porta das fábricas. Mas era, na verdade, alguém libertando pássaros, sempre que abria a mochila e abandonava um livro.

Numa das vezes a moça viu e gritou “ei, moço! o senhor esqueceu!” “Não, não esqueci”, e para a cara desentendida dela deixou um sorriso a ser decifrado.

Outra, no auditório, achou que o livro marcava lugar para alguém e perguntou a ele “é seu?” Ele respondeu “não, é seu.” Ela disse “não, não é”. Ele insistiu “é sim, veja na contra-capa”, e saiu rápido, caprichando no mistério do sorriso divertido.

Algumas vezes conseguiu voltar aos lugares de seu “esquecimento” e flagrar seus recentes leitores com o exemplar aberto, folheando, prestando atenção. Uma sorria, outro estava sério, um terceiro balançava a cabeça. Lembra bem da mulher de meia idade, crachá de funcionária pública que saíra há pouco do serviço. Esfomeada não só de leitura, ela batia uma maravilhoso prato de arroz, feijão, bife e batata frita, enquanto que com a outra mão folheava e com os olhos devorava as páginas com que o acaso a presenteara.

Olhando a reação das pessoas, concluiu deliciado: se o leitor tenta e muitas vezes não consegue descobrir o que vai na cabeça do escritor, menos ainda saberá o escritor o que vai na cabeça de quem o lê.

Tags:

Gostou, compartilhe:

Comentários (4)

  1. giovani iemini -

    massa. adoro isso.
    todos os livros do bde e o meu mão branca participam do livro livre, um projeto de distribuição de livros em ambientes públicos. na última página há um espaço para assinatura dos que leram e passaram o livro. quem sabe se não vejo algum daqui a 20 anos (se o mundo não acabar, claro. ou não. hehehe).

  2. Denise Giusti -

    AdoreI a ideia, genial! O texto então …. Parabéns! Falando nisso, é bom te r escrevendo sempre aqui no blog, estava com saudades dos textos!

  3. Glauber Vieira -

    Pois é, esse tipo de iniciativa está em voga, o que é muito bom. Qualquer coisa que favoreça a leitura é válida. Fiz isso uma vez com uma antologia da qual faço parte: entrei no http://www.livr.us/ , imprimi uma etiqueta e deixei o livro lá na praça de alimentação do Casa Park

  4. Henrique -

    Querido escritor. Olhe para o coração. E lá que se passam as coisas.

Deixe o seu comentário!