André Giusti - foto: Luana Lleras
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Pai moderno, filho antigo.

Quando viu, a pequena de dois anos estava mexendo no aparelho, querendo pendurá-lo pelo fio do headphone. O coração veio-lhe à boca. 120 GB, dez prestações, e ainda estava na terceira. -Filha! Larga o Ipod do papai! Levantou num salto da poltrona, mas logo deu-se conta de que movimentos bruscos assustam as crianças, da mesma [...]

Quando viu, a pequena de dois anos estava mexendo no aparelho, querendo pendurá-lo pelo fio do headphone. O coração veio-lhe à boca. 120 GB, dez prestações, e ainda estava na terceira.

-Filha! Larga o Ipod do papai!

Levantou num salto da poltrona, mas logo deu-se conta de que movimentos bruscos assustam as crianças, da mesma forma que espantam os peixes. Assustadas, podem deixar cair o que seguram. Há casos em que jogam na parede o que têm às mãos. São mesmo terroristas imprevisíveis que acendem o pavio da dinamite ou puxam o detonador da granada ao se sentirem ameaçados. Todo cuidado com essas coisinhas patuscas.

Então, cuidou em se aproximar devagar, amansando a voz. Imagina só, um arquivo já com dez mil músicas! E se aquilo quebra? A grana, o trabalhão de baixar tudo de novo.

Tocou mansamente sua “peixinha”, sussurou para sua linda Bin Laden.

-Filha, dá o Ipod do papai, dá? Toma o porquinho rosa…

Ela se convenceu da troca, afinal o tody era molinho, coloridinho. Aquele negócio que o papai botava no bolso, que tinha uns fios que ele enfiava no ouvido, era duro, cinza, sem graça.

Enquanto ela sumia pelo corredor, ele voltou à poltrona. Ficou olhando as capas dos CDs reproduzidas na tela do aparelhinho. Tinha mais de quarenta, nascera no vinil, migrara para o CD. Agora, baixava músicas para não ser dinossauro, para que a garotada de vinte e poucos pelo menos não risse tanto dele, que não lhe devotasse tanto o sarcasmo reservado aos tios.

Ipod, papai. No eco de sua cabeça, aquelas duas palavras não combinavam. Era de um tempo em que pai tinha chinelo, óculos, caneco de chope, caneta parker, relógio mondaine, rádio philco pro futebol. Pai não tinha Ipod quando ele era criança.

E aí veio um aperto no peito, uma lágrima nascendo lá por trás do olho. Pela janela, no fundo da noite lá do infinito, viu o pai dizendo num sorriso “é a vida, é a vida”.

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Comentários (3)

  1. Ana Benevides -

    Ô André,
    Comovente. Ai que saudade! Do pai, do tempo, da casa que mora em mim.

  2. Jayme Lobato -

    Parabenizo-o, André, pela sensibilidade demonstrada quanto à relação pai e filha. Forte abraço.

  3. Denise Giusti -

    Lindo Irmão, emocionante, as lágrimas rolam em minha face, daria tudo para voltar ao passado e tê-lo de volta nem que fosse um pouquinho…

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