André Giusti - foto: Luana Lleras
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Para todo mundo escutar.

Sempre tive problemas porque falo alto. É algo natural, como respirar ou enxergar. Quando me dou conta, está lá minha voz – que não é bela – sobressaindo no ambiente. Muitas vezes tentei explicar, levando na brincadeira, que em família que tem muita gente você precisa falar alto mesmo, porque senão ninguém te escuta, o [...]

Sempre tive problemas porque falo alto. É algo natural, como respirar ou enxergar. Quando me dou conta, está lá minha voz – que não é bela – sobressaindo no ambiente.

Muitas vezes tentei explicar, levando na brincadeira, que em família que tem muita gente você precisa falar alto mesmo, porque senão ninguém te escuta, o teu bife sempre vai ser o menor do jantar, você vai sempre ficar para trás na hora de tomar banho. Em meu caso, de descendência italiana, a voz vem acompanhada também de gestos sempre largos. Muitas vezes de raiva. Mas na maioria, garanto, de entusiasmo pela vida.

O problema de quem fala alto é ser, de uma certa forma, censurado. Quem fala baixinho, daquele jeito engolindo as palavras, dizendo tudo pra dentro e quase só pra si mesmo nunca sofre reprimenda do grupo ou interlocutor, mesmo que estes precisem quase que grudar o ouvido na boca do(a) sujeito(a) para escutar o que tem a criatura a dizer ao mundo, e mesmo que o conteúdo não valha a pena. Já quem fala alto está sempre ouvindo um “pô, fala baixo, não sou surdo, tá gritando por quê?”. Em várias dessas situações, para não entornar de vez o caldo com um desaforo ou mesmo um palavrão, resolvi ficar calado o resto do tempo, acender um cigarro em local destacado – na época em que eu fumava – e ao voltar permanecer na minha. E aí, é claro, as mesmas pessoas, balizadoras dos bons costumes, voltavam a carga, mas agora incomodadas com a outra face da moeda: “pô, tá calado por quê? Parece que não gosta de estar com a gente.”

Conheci pessoas capazes de dizer as maiores atrocidades, tipos que chegavam ao nível da humilhação, do escárnio e da ofensa, mas sempre com as frases ditas entre dentes, baixinho, quase num murmúrio cínico, finíssimas na arte de achincalhar o próximo. Mas saíam das discussões, dos entreveros, trepadas no mais alto patamar da educação e da gentileza. Eu, com minhas várias oitavas acima, chamusquei-me muito com a pecha de grosso e estúpido, mesmo quando dizia coisas que, ao pé da letra, nada carregavam de insultuosas, mas sim o intuito de ajudar pessoas de quem eu verdadeiramente gostava.

Claro, o problema é o modo de falar. Xingue a mãe do semelhante de vadia, mas com classe e falando baixo, por favor.

De uma certa forma, essa discussão (em voz baixa, pode deixar) me lembra meus tempos de colégio, lá pelos anos 70 e 80. Os bons alunos em matemática, física e química eram sempre tidos como excelentes, senão oficialmente, ao menos numa espécie de consenso entre professores e direção. Já os donos das notas altas em português, história, literatura (hum, essa então…) e geografia, não mereciam iguais considerações, pareciam ser vistos como seres limitados, capazes apenas em tarefas menores.

E o pior é que eu era péssimo em matemática, física e química.

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Comentários (5)

  1. Fred -

    mas voce nem é escandaloso.
    Tirando aquela vez que voce nos encontramos no metrô e gritou ANIMAL bem alto e metade do terminal olhou, nunca achei que voce falasse alto, alias nem voce nem o Marcelo Chacrinha.

  2. Denise Giusti -

    Adorei o texto. Bem, sei o que é isso afinal temos o mesmo sangue correndo nas veias, É chato e desagradável quando estamos falando alto com entusiamo sobre algum assunto e alguém grosseiramente e baixo nos chama atenção, fico também chateada e ainda por cima carrego um problema de audição que me faz falar alto e muitas vezes não me dar conta, mas enfim tocamos a vida, quem nos ama e nos quer bem deixa prá lá..

  3. Ana Cristina Melo -

    Um colega meu dizia que eu tinha “sangue italiano”, apesar de não ser descendente deles. Sofro do mesmo problema. No meu caso, além do que vem de casa, a situação foi maximizada, pois aos 16 anos encarava uma sala de aula gigantesca tendo que impostar a voz para chegar lá no fundo. Ainda me magoo ao ouvir certos comentários. Por mais que tente me policiar, os mais de 20 anos de docência contam e muito. Nunca precisei de microfone para palestras, mas no trabalho…
    Beijão

  4. ngela Giorgio -

    Nao sei se vai consolar..mas me identifico total c/ vc. O jeito e’ aceitar e deixar os outros, que falam baixinho e entredentes pra’ la’. Somos “oriundi d’Italia”! Com muito orgulho, alia’s! Faz parte!
    Abs,
    Angela Giorgio

  5. Milene Favilla -

    “Cachorro filho da “p”, saí daqui”.
    Experimente falar com o cachorro esta frase em tom alto e, depois, em tom manhoso e acariciando o cachorro…
    Abç André

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